ficção

História do cabelo

Há um momento na vida em que ele começa a pensar no cabelo como outros pensam na morte. Sabe-se que “existe a morte” como se sabe que o destino de todo corpo é decair ou que a água, numa determinada temperatura, transforma-se em vapor. É uma certeza invisível, administrada diariamente e em doses tão infinitesimais que perde consistência, confunde-se com o contínuo da vida

Alan Pauls
"Cada salão que não conhece e no qual se aventura é um perigo e uma esperança, uma promessa e uma armadilha... Desde menino lhe ensinam que não se entra num estabelecimento vazio"

Não passa um dia sem que pense no cabelo. Se deve cortar muito, pouco, cortar logo, deixar crescer, não cortar mais, raspar, rapar a cabeça para sempre. Não existe uma solução definitiva. Está condenado a lidar, volta e meia, com o assunto. Assim, escravo do cabelo, quem sabe, até bater as botas. Mas aí também. Pois não tinha lido que…? O cabelo de quem já… não continua crescendo? Ou seriam as unhas?

Uma vez, no verão, fugindo do calor – são quatro da tarde, quase não tem gente na rua –, entra num salão deserto. Lavam sua cabeça. Está reclinado, com a nuca apoiada na canaleta de plástico. Mesmo com desconforto e dor no pescoço, e um pouco inquieto com a impassibilidade com que sua garganta parece se oferecer ao gume do primeiro degolador que surgir pela frente, a massagem dos dedos, a doce nuvem de perfume vegetal que se desprende de sua cabeça e a pressão dos jatos de água morna o inebriam, transportando-o pouco a pouco a uma espécie de devaneio. Não demora a dormir. Ao abrir os olhos novamente, a primeira coisa que vê, fora de foco de tão perto, como se estivesse pintado sobre uma superfície de areias movediças, é o rosto da garota que lava sua cabeça, inclinado sobre ele, invertido, a testa dela suspensa na altura de sua boca. O que está fazendo? Sentindo seu cheiro? Vai lhe dar um beijo? Fica quieto, vigiando-a com seus olhos cegos, até que a garota, depois de alguns segundos de concentração em que se priva até de respirar, intercepta com uma unha comprida e afiada o afluente desgarrado de xampu que estava quase entrando em seu olho. Ainda acordando, não consegue se lembrar, embora tente, como era mesmo aquele rosto dez minutos atrás, quando tinha acabado de entrar no salão e a viu pela primeira vez e ela sem dúvida veio ao seu encontro para perguntar: “Vai lavar?” Agora ela está tão perto que seria incapaz de descrevê-la. Poderia se apaixonar por ela. Na verdade não sabe se já não está apaixonado, agora, ao abrir os olhos e descobrir o rosto dela quase colado ao seu, gigantesco, assim como acontece no cinema quando ele cochila por alguns segundos e ao acordar se rende ao feitiço, sempre infalível, da primeira coisa que vê na tela.

Tanto faz se o que aparece é uma paisagem, as ruínas de uma parede carcomida por uma trepadeira, uma avenida formigando de gente, um bando de animais, o bendito portão da fábrica dos irmãos Lumière – a primeira imagem é sempre um rosto. O rosto é o fenômeno por excelência, o único objeto de adoração para o qual não há defesa nem remédio. É algo que aprende desde muito jovem, traduzindo Shakespeare, quando um teatro municipal lhe encomenda uma versão para o castelhano atual de Sonho de uma Noite de Verão. Traduz o texto em velocidade recorde, em estado de transe, como traduz, naquela época, tudo o que cai em suas mãos: manuais de instruções de eletrodomésticos, diálogos de filmes, Kant, ensaios de Teologia da Libertação, psicanálise lacaniana, encomendas que assim que aceita começa a passar pela máquina, como ele chama então o ato de traduzir, e em pouco tempo expele numa espécie de vertigem digestiva enlouquecida. Mas depois, assim que entrega o trabalho e fica esperando pelos comentários do diretor que contrataram para encenar a peça, um ex-acrobata diminuto que fuma de piteira e solta a fumaça de lado, pela arcada que lhe deixou na boca um molar fugitivo, todo o tempo precioso que ganhou com seu método de tradução-bala é perdido, perdido sem dó nem piedade, quando ele se vê voltando para casa com as 85 páginas da versão e a sugestão, ou melhor, a ordem, considerando que os ensaios começam em uma semana, de insuflar-lhe um tom mais juvenil – logo ele, que não tem nem 23 anos e já parece ter 40 –, cortar páginas inteiras de versos soberbos, incrustar no texto a mesma desoladora fruta cristalizada de sempre, e piadinhas, referências à atualidade local, canções ridículas, único jeito, como lhe confessa um envergonhado diretor, de vender um Shakespeare para aquelas hordas de estudantes do ensino médio que logo, obrigados, por sua vez, a comprá-lo para suas escolas, os principais clientes, senão os únicos, de iniciativas como aquela, farão retumbar suas salvas de gargalhadas e seus arrotos no circuito das salas moribundas que persistem em programá-las.

O teatro! Dessa experiência, todavia, ele, meio tímido, pouco dado a se socializar, extrai principalmente a maneira com que o obriga a se abrir para o mundo, a necessidade – em seu caso, absolutamente inédita – de submeter seu trabalho à opinião, às ideias, ao gosto dos outros, e eventualmente de corrigi-lo se sua tradução, por mais perfeita que soe no papel, assim que sai da máquina, na boca dos atores, como mais de uma vez fica evidente nos ensaios, deixa a desejar ou se mostra pura e simplesmente impronunciável. Acostumado a trabalhar sozinho, a ser seu próprio patrão e a não ter sócios, tem dificuldade em confiar no tipo de sociabilidade que o teatro alardeia, ao mesmo tempo incondicional e cheia de caprichos, que, assim como nasce de maneira estrepitosa na apresentação oficial do elenco, floresce com a chamada leitura do texto, os ensaios, as provas de figurino, as rivalidades, a paquera indiscriminada, consolida-se com imensos espaços de tempo desperdiçados em esperas, atrasos, crises de choro nos camarins, reuniões nos cafés dos arredores do teatro, e chega ao auge absoluto com a estreia, assim também não demora a se dissipar com as primeiras apresentações, como se toda aquela articulada estrutura social só tivesse sido levantada para fazer frente às exigências extremas da estreia, e acaba por se esfumar poucas semanas depois, quando a obra sai de cartaz e os mesmos que um mês atrás teriam dado a vida por qualquer outro membro do elenco agora se afastam, cada um para o seu lado, numa debandada triste, sem som, em busca de um novo contrato de trabalho. Mesmo assim, ele – guardadas as proporções, lógico, porque também não é o caso de ficar dando murro em ponta de faca – adere a essa instável fraternidade com entusiasmo, como quem abraça um tratamento médico cuja eficácia é estritamente proporcional aos sacrifícios que demanda. Adere mesmo quando se expõe às inclemências para as quais está menos preparado: por exemplo, superar uma timidez doentia e conversar com uma atriz que está vendo pela primeira vez na vida, que lhe agrada (embora meses possam se passar antes que ele reconheça isso) e que, de repente, sem nenhum aviso, enquanto rói com pudor o debrum brilhante de uma das asinhas do traje que lhe coube em sorteio, pergunta se já lhe aconteceu de uma fada de um bosque dos arredores de Atenas se oferecer para chupar seu pau no banheiro de um camarim de teatro; ou, como acontece numa tarde que ele jamais vai esquecer, que semanas depois continua a deixá-lo vermelho de vergonha, não importa onde o assalte a lembrança, isto: ter de atravessar na presença de todo o elenco o vasto palco da sala de ensaio, vestido com sua calça de veludinho cotelê, sua camisa listada, seu colete de lã e sua suscetibilidade, sinais de um retraimento, um apego à convenção e um “medo do corpo” – como ouve depois, enquanto foge escadas abaixo, alguém comentando em voz baixa – nos quais jamais lhe ocorreria pensar, de tanto que fazem parte de sua natureza, se não fosse confrontado pelo sarcasmo com que os atores o olham – eles, que não estão vivos se não têm alguém olhando para eles – e por sua própria imagem, desamparada e hesitante, refletida no espelho que ocupa de ponta a ponta toda a parede mais extensa da sala.

 

Extrai da experiência a efervescência social, a excitação, a paixão de depender dos outros, de emprestar meias, sapatilhas de dança, maquiagem, absorventes, e mesmo a compulsão dos atores de se beijar e se abraçar por qualquer motivo, muito mais própria de ex-colegas de uma viagem de formatura ou de sobreviventes de uma catástrofe aérea do que de gente acostumada a ver a cara um do outro, dia sim, dia não, no palco de um teatro, num curso de clown ou num daqueles restaurantes do centro da cidade que ficam abertos até altas horas. Extrai, enfim, tudo aquilo que o contradiz e o tira de si, de sua introspecção, mesmo correndo o risco de incomodá-lo ou, como acaba acontecendo, de fazê-lo jurar em segredo que nem todo o ouro do mundo o convencerá outra vez a escrever uma linha que seja para o teatro.

Mas particularmente, do texto de Sonho de uma Noite de Verão propriamente dito, ele guarda um achado do qual por alguma razão não lhe bastam os anos que tem nem que terá para recompor-se: a ideia de uma poção de amor que, derramada sobre as pálpebras de alguém que dorme, forçará o adormecido, uma vez acordado, a se apaixonar pela primeira coisa que vir ao abrir os olhos, não importa o que for, animal selvagem, criança, harpia sem dentes, beleza celestial. O recurso aparece na primeira cena do segundo ato, onde o rei Oberon pretende colocá-lo em ação com Titânia, sua mulher, para fazer com que ela se desapaixone do jovem pajem no qual ele também acaba ficando de olho, mas na verdade está na origem de todos e de cada um dos mal-entendidos sentimentais que se multiplicam na comédia. Tocados pelo elixir enquanto dormem, Titânia, que só deseja seu pajem, apaixona-se por um cômico ambulante perfeitamente vulgar, Lisandro esquece sua adorada Hérmia para cair rendido aos pés de Helena, e assim por diante. Uma gota, apenas uma gota daquele suco, destilado não de qualquer forma, mas de uma única, o pensamento, e o desejo fica fora de si.

Por quê? É algo que desde então não pode deixar de se perguntar. Entende perfeitamente o caráter convencional do truque, não é insensível à sua pérfida comicidade, mas mesmo assim, por que um rosto qualquer, contemplado quando acorda depois de um sonho, deveria ter essa capacidade de sortilégio? Só porque é o primeiro que se vê, e porque quem acorda o vê quando está mais vulnerável, antes que a precaução, a distância, a suspeita, todo o diversificado sistema de defesas que torna tolerável a vida em vigília tenha tempo de voltar a se organizar e entrincheirá-lo? Ou talvez porque é justamente esse rosto que vê ao acordar, ao mesmo tempo anódino e providencial, indiferente e milagroso, que o repatria do sono e o resgata da escuridão, salva-o, devolve-o à vida? Por que não?, pergunta-se. Dormir, abrir os olhos, sucumbir… Não saber do outro mais que isso que se sabe no ato, instantaneamente: que é um objeto de amor. Isso é tudo que sabe: que não passa de um objeto de amor.

 

Sem ir mais longe, pois para ele é suficiente pôr em foco os olhos dela, excessivamente pintados, suas sardas, as duas perolazinhas de alumínio que brilham nos lados de seu nariz e que logoirão infeccionar, para perceber que não se apaixonou pela garota que naquela tarde lava seu cabelo no salão, ele mesmo não sabe nada dela e ela não sabe nada dele, nada mais, em todo o caso, do que aquilo que está à vista. Não o conheceu aos 12 anos, por exemplo, quando ele tem o cabelo liso, loiro, comprido até os ombros e só presta alguma atenção ao cabelo, só percebe que o tem e como tem quando algum incidente perturba a naturalidade na qual já se acostumou a esquecê-lo: quando seu avô, num dos arroubos de afeto viril que mais parecem exaltá-lo, agarra no ar uma mecha e ameaça cortá-la pela raiz com a tesoura que forma com o indicador e o dedo médio da outra mão, enquanto uma trilha sonora improvisada com a língua, tzic, tzic, tzic, adianta a execução do que os dedos prometem, ou quando numa fila, no correio, por exemplo, na banca de revistas, na farmácia, alguém atrás dele quer perguntar alguma coisa em voz alta e diz “senhorita?” e depois de alguns segundos, ao sentir o dedo do desconhecido que acaba de falar cutucando seu ombro, ele percebe que o confundiram com uma mulher, ou quando, recém-chegados ao Rio de Janeiro, primeira vez que viaja de avião, primeira que sai do país e que está num lugar onde se fala uma língua desconhecida, sai para caminhar na praia com seu pai e seu irmão e um enxame de mulheres negras segue-os por um bom tempo enquanto anoitece, todas amontoadas em volta dele, dando gritos e tocando sua cabeça com um assombro reverencial, como se seu cabelo irradiasse um brilho sagrado capaz de rejuvenescê-las ou de queimar suas mãos.

Não: por mais ofensivo que lhe pareça, a garota não o conhece, e a desproporção que ele percebe existir entre esse desconhecimento onde se misturam a inexperiência, o desinteresse, a rotina de um trabalho segundo ela muito aquém de suas possibilidades e tudo o que ela ou qualquer pessoa que estivesse no lugar dela – tendo ou não as narinas perfuradas, tornando-se para ele um objeto de amor ou não – deveria conhecer dele, de seu caso, segundo ele, para que o fato de pôr sua cabeça nas mãos dela não seja o que ele vê agora claramente que será, o preâmbulo de um ato suicida, essa desproporção representa exatamente o tipo de pesadelo capaz de ensombrecer sua vida ao longo dos vinte minutos seguintes, que é o que dura em média um corte de cabelo comum e corriqueiro. Mas quem teria o direito de lhe reprovar alguma coisa? O que ela poderia saber dele – supondo que algum dia venha a “saber” alguma coisa, e a se lembrar de alguma coisa do que “sabe”, das centenas de cabeças que passam por suas mãos toda semana – se é a primeira vez que entra naquele salão?

Porque há uma questão anterior: como ele, que é um “caso”, com seu probleminha, continua indo a salões pela primeira vez? Por que insiste em ir daquele jeito ao matadouro? E no entanto, é assim: ele continua. Não pode não continuar. É a lei do cabelo. Cada salão que não conhece e no qual se aventura é um perigo e uma esperança, uma promessa e uma armadilha. Pode cometer um erro e afundar no desastre, mas, e se acontece o contrário? E se encontra, por fim, o gênio que procura? E se por medo não entra e o perde? É um passo sempre temerário, que em geral ele não dá se não tiver alguma garantia ou não antes de esgotar uma longa série de debates estéreis. Desta vez, ao contrário de outras, não conhece o salão de nome, ninguém o indicou, não leu nada sobre ele, nem sequer chamou sua atenção seu aspecto, do qual mal poderia dizer uma palavra, tão obnubilado está pela incandescência da tarde de verão quando o descobre. Simplesmente viu, da outra calçada, os espelhos, as poltronas, a luz das lâmpadas fluorescentes, um ar geral de limpeza que automaticamente associa ao frescor, atravessou a rua, entrou. E o salão está deserto. É o cúmulo. Do que mais ele precisa para saber que está acabado, que antes mesmo que o façam sentar diante do espelho, cubram seu corpo com a estúpida mortalha de plástico, confrontem-no com o dilema mais inútil e mais insolúvel, deve enfiar os braços ou não?, e lhe perguntem como quer o corte – e pronto, não tem mais nenhuma chance? Desde menino lhe ensinam que não se entra num estabelecimento vazio. Nunca num restaurante, muito menos num salão. Mais tarde, quando tudo tiver passado e ele sair novamente para o calor da rua com pelo menos um mês, um mês e meio de indescritível infâmia talhada na cabeça, quem vai acreditar nele quando se desculpar dizendo que entrou por causa do calor, que só uma verdadeira emergência explica um ato tão irracional em alguém como ele, irracional em mais de um aspecto, mas sem dúvida não no aspecto cabelo, que lhe tira o sono, desde quando, exatamente? Quanto tempo faz, concretamente, que o cabelo está a rondá-lo, a solicitá-lo, a atormentá-lo?

Não poderia responder. Há um momento na vida em que ele começa a pensar no cabelo como outros pensam na morte. Não assim de repente, ah, o cabelo! Não, ele não descobre algo cuja existência ignorava. Sempre soube que o cabelo está ali, entocado em algum lugar, mas pôde viver perfeitamente sem levá-lo em conta, sem torná-lo presente. Não descobre uma experiência, mas uma dimensão; não algo que sua vida não tivesse incluído até então: algo que já estava nele, trabalhando-o em silêncio, com uma paciência de ruminante, à espera do momento oportuno para acordar e emitir os primeiros sinais de uma vida visível. A morte é um exemplo clássico. Sabe-se que “existe a morte” como se sabe que o destino de todo corpo é decair ou que a água, numa determinada temperatura, transforma-se em vapor. É algo que se sabe: uma certeza invisível, administrada diariamente e em doses tão infinitesimais que perde consistência, confunde-se com o contínuo da vida e acaba passando despercebida. Assim por anos a fio. Até que de repente aparece e reivindica o que é seu. Um conhecido sofre um ataque enquanto dirige e a cadeira que duas semanas depois estava reservada para seu jantar de aniversário fica vazia para sempre. Alguém próximo se queixa de uma dor insignificante ao engolir e dias depois o médico que anota numa ficha o relato que lhe faz do episódio para de escrever, levanta a cabeça e olha para ele franzindo o cenho. De repente algo se precipita e se consolida: o que era invisível e sigiloso se torna material, de pedra, ineludível, um obstáculo escuro que não chega a bloquear totalmente o caminho, mas contra o qual não há jeito de não tropeçar e que, intruso vigilante, começa a aparecer em todas e em cada uma das fotografias que tiramos quando brincamos de imaginar nosso futuro.

 

O que pode saber de tudo isso a garota que lava sua cabeça naquela tarde de verão, que corta o jato da ducha de mão com que o enxaguou, escorre o grosso da água do cabelo alisando-o com as palmas das mãos, penteia-o para trás e o segura – porque ele, que não aguenta mais a dor no pescoço, quer se levantar antes do tempo –, ajeita a toalha sobre seus ombros e o convida a passar para o salão enquanto faz a pergunta fatídica: “Você corta com alguém em especial?” Nada. Nem uma palavra. É um escândalo, mas é assim: não sabe nada. Se fosse por ele, não haveria cabeleireiro da cidade nem do mundo autorizado a cortar o cabelo de alguém sem antes ter em mãos, devidamente consultada e processada, toda a informação pessoal necessária não só para cortar o cabelo, mas para ousar pôr um dedo que seja na cabeça de alguém. Por acaso não é a primeira coisa que os médicos fazem, antes de auscultar, tocar, percutir, antes mesmo de fazer as perguntas de praxe: “O que o traz aqui?”, “O que posso fazer por você?”, “Em que posso ajudá-lo?” Faz tempo que sonha com um mundo melhor, um mundo onde os salões – como os médicos com os históricos clínicos – compartilhem, façam circular, enriqueçam dia a dia as histórias de vida de cabelo de seus clientes, de modo que cada vez que alguém cometer a imprudência de entrar num salão pela primeira vez, cada vez que alguém, como ele agora, por exemplo, se levantar, sentir as últimas gotas de água gelada deslizarem por seu pescoço e confessar o que mais cedo ou mais tarde vai levá-lo para o túmulo, que não, que não corta com ninguém em especial, de fato é a primeira vez que corta naquele salão, o cabeleireiro que lhe couber ao acaso, que o verá em segundos, também ele, pela primeira vez na vida, tenha ao menos em seu poder, nos dedos, como dizem os pianistas sobre o repertório das peças que estão em condições de tocar sempre, em qualquer circunstância, sem nenhuma preparação prévia, tudo o que precisa saber dele para saber o que fazer com ele uma vez que o tenha feito sentar em sua poltrona, desconfortável diante do espelho, tenso, suando, aceitando o café ou o copo de água mineral que lhe oferecem – e que deixará esfriar ou esquecerá na prateleira, entre o pincel e o pote de cera – com toda a desenvoltura de homem do mundo que lhe falta quando seu nariz coça, agora, já, antes de o corte começar, e ele tem de desembaraçar a mão da mortalha que lhe puseram para se coçar, de olho nos clientes que detecta com o rabo do olho nas poltronas vizinhas, mas não em busca de uma cota de solidariedade mais que razoável – no fim das contas são tão vítimas ou candidatos a vítima quanto ele – e sim para lamentar já, de antemão, o ridículo que não tardará a passar diante deles, o espetáculo triste que dará, o minucioso desastre que meia hora mais tarde exibirá na cabeça. E se esse mundo com o qual sonha lhe aparece como um mundo ideal, sábio, extraordinariamente civilizado, é porque, tal como a imagina, aquela coleção de fichas minúsculas, redigidas numa caligrafia quase microscópica – de acordo com o alto desenvolvimento que a motricidade aguçada costuma alcançar entre os cabeleireiros –, onde ficariam registrados os pormenores da história de seu cabelo, a história de sua relação com seu cabelo, os cortes de cabelo, os cabeleireiros, esse arquivo o eximirá, quando chegar a hora de cortar o cabelo novamente, não da tentação nem da necessidade de se confessar ao cabeleireiro, não de dividir seu probleminha com ele – porque tal possibilidade lhe parece pura e simplesmente inconcebível –, mas simplesmente de tê-lo presente na cabeça, de sentir sua pressão, seu assédio sinistro. Isso já seria o bastante. Um alívio imenso, como o que pode sentir um órgão depois que se extirpa o tumor que o oprimia. Livre de seu probleminha, pensa, já não chegaria acabado, indefeso, sem a menor esperança de se esquivar, ou mesmo de sucumbir a ela com dignidade, de uma situação atroz, também inevitável, que há trinta anos ele teme e que o humilha, na qual o cabeleireiro sempre deixa a coisa tão importante que estava fazendo em alguma outra parte do salão, chega até sua poltrona um pouco apressado, escolhe um pente e uma tesoura e, sondando-o através do espelho – naquela desconcertante triangulação óptica que ele, ao longo de sua vida, só consegue comparar com a que ocorre nas audiências dos processos judiciais, onde a testemunha que vai depor nunca responde diretamente às perguntas dos advogados mas através de um terceiro, o secretário, encarregado de tomar seu depoimento, único nexo que lhe permite ter alguma relação com o mundo –, faz a pergunta que ele daria o que não tem para não escutar nunca mais, a pergunta que acaba com ele: “O que você vai fazer?”, ou sua variante cínica: “O que vamos fazer?”, com esse plural venenoso que sente entrando em suas costas feito um punhal.

Mais de uma vez se perguntou se existe alguém no mundo – categoria, alguém no mundo, na qual inclui, naturalmente, as mulheres, mesmo quando a relação particular que elas mantêm com a engenharia da beleza sugeriria, antes, excluí-las – que possa responder a essa pergunta. Responder a ela, não balbuciar, perder-se em generalidades, distrair-se com fobias vagas, dizer frases por dizer, para deixar que se desfaçam em reticências. Responder a ela, ou seja, satisfazer duas exigências ao mesmo tempo: a daquele que pretende cortar o cabelo, que tem ou deveria ter em mente uma ideia de como quer usá-lo, e a do que se dispõe a cortá-lo, que precisa, se não de instruções, ao menos de alguma pista para levar a cabo seu trabalho. Ele, por enquanto, ainda não conseguiu. Não importa o quanto pense nisso, com que seriedade se prepare para enfrentá-la, chegando ao ponto de ensaiar em casa, diante de um espelho, com alguém do lado que faça as vezes de cabeleireiro, o texto com o qual irá respondê-la, as precisões que dará, o grau de detalhe com que dirá, por fim, o que quer – basta que esteja sentado na poltrona do salão e que a pergunta desabe sobre ele para ver-se reduzido à condição de imbecil instantâneo. Abre a boca – “ah…” –, vacila – “pois é… eu queria… não suporto como… uma vez, faz muito tempo, me fizeram…” –, invoca uns princípios básicos e toma coragem – “muito curto não, senão fico parecido com um milico” –, arremete com energia – “odeio que fique armado assim, como um capacete” – e em seguida amolece – “não tem jeito, né?, é o meu cabelo, né?” –, lê na cara de pasmo com que o cabeleireiro olha para ele as indigências das metáforas que passou horas escolhendo em casa – “irregular, sabe?, um corte como aqueles de reformatório” –, até que se cansa, se rende, e acaba delegando tudo o que não conseguiu dizer com palavras a suas pobres mãos, mil vezes mais desajeitadas que sua língua, que sobem tremendo até sua cabeça e revoluteiam fazendo caretas ao redor do cabelo: “Aqui… assim, está vendo?… abaixar isto aqui… um pouco mais… mais curto não: menos cabelo…”

 

Um pesadelo. Um pesadelo frio, limpo, desinfetado, como os salões em que se passam. Um pesadelo do qual reconhece, enquanto o sofre, cada peripécia, cada indicação cênica, cada gag trágica – que começou… quando?Onde teve início aquela maldição do cabelo, a condenação de dizer com todas as letras o que quer do cabelo, o que é que ele mesmo quer de seu próprio cabelo? Em que droga de momento se tornou responsável por seu cabelo? Ah, o menino que ele foi! É da opinião, em linhas gerais, de que o melhor que o menino que foi pode fazer é ficar quieto onde está, naquelas fotos diminutas, de bordas dentadas, onde aparece de short, descalço, correndo no meio de um bosque eterno com um sorriso cara de pau, espetado com alfinetes num frondoso fundo de pânico. Mas também é verdade que… Sim, é ele, está sentado na barbearia do Automóvel Clube Argentino, um subsolo sem luz natural onde se alinham, como soldados de um exército fora de moda, já fora de moda nos anos 60, quando se alguma coisa está mesmo na moda é o exército, dez ou doze poltronas corpulentas, forradas de couro verde, com estribos de ferro lavrado que seus pezinhos só tocam ao subir ou descer e com extrema precaução, de tanto que para ele se confundem com plataformas de uma máquina de eletrocutar meninos de cabelo comprido. Um gordo velho e asmático de avental azul-celeste corta seu cabelo de cima a baixo com uma máquina que zumbe como um cortador de grama em miniatura. Mais do que cortar, rói; poda, mordisca seu pescoço, com aqueles dentes ínfimos, breves, velozes, de cachorro que mata suas pulgas. Têm a respiração sincronizada. O barbeiro arqueja quando a máquina não zumbe; a máquina zumbe quando o barbeiro para de arquejar. Lá atrás, sentada numa banqueta comprida, longe de tudo, sua mãe, que faz hora olhando uma revista. Isso, olhar uma revista, não lê-la nem folheá-la, é uma das poucas coisas que reconhece ter aprendido com ela, além, naturalmente, do medo, do gosto por muquifos, da avidez pelo álcool solitário.

“Não muito curto.” É tudo o que sua mãe diz quando o empurra para a poltrona e o entrega ao barbeiro. Por que se incomodaria? Nem acaba de dizer isso, nem sequer começou a dizer isso e o barbeiro já está tirando a máquina do estojo, já o ajuda a subir na poltrona e se entrega à tosa. Quinze minutos depois, quando tudo terminou, ele procura algo que explique o ar de nudez, aquela cara rígida de interno de orfanato alemão que o olha atônito do espelho e vai e vem entre os três pontos de referência que tem ao seu alcance para explicar tudo aquilo, a máquina de cortar, que, mesmo desligada, ainda parece vibrar nas mãos do barbeiro, sua mãe, que se levanta com um suspiro, cansada de esperar, sem tirar os olhos da revista, e os pequenos tufos de cabelo que se espalham no chão ao redor da poltrona. Não consegue. “Não muito curto.” Escutou isso da boca de sua mãe ou foi uma ilusão, uma miragem auditiva? Mesmo sendo um menino ele percebe, estudando ao longo do tempo os clientes adultos que desfilam pelo porão sem luz natural do Automóvel Clube Argentino, jovens ou velhos, alguns com mais cabelo que ele, outros com menos, que mais cedo ou mais tarde, não importa o que digam, peçam o que pedirem ao entrar ou ao sentar-se, deem trela ao barbeiro ou não abram a boca, acabarão sendo vítimas do estilo boina-verde, como o chama, rindo, sua mãe, enquanto esfrega seu cocuruto com a palma da mão. Todos cortados pela mesma tesoura.

Ali, ao menos, não há nada a dizer. Não se espera que ninguém diga nada, e a frase que sua mãe solta cada vez que entra no subsolo do Automóvel Clube Argentino, mais que um pedido, algo suscetível de ser concedido ou rejeitado, é um truque retórico, uma dessas fórmulas ao mesmo tempo vazias e determinantes que não significam muito, mas servem, em compensação, para ratificar a realidade de uma situação particular: filho, mãe, barbeiro, barbearia, corte de cabelo. Como demonstra o estado de escovinha indefectível no qual sua cabeça sempre sai dali, depois de entrar sob o lema “Não muito curto”, nada garante que usá-las levará ao resultado pretendido, mas tudo indica – ao menos para ele, que aos cinco, seis, sete anos tem a impressão, que aliás nunca o abandonará, de que absolutamente tudo o que se vê e acontece neste mundo é precário e pende do fio frágil e descabelado de uma ou duas frases que, para serem eficazes, só podem ser pronunciadas de uma única maneira – que sem elas, se sua mãe não as proferisse todas as vezes, sempre com o mesmo tom de mãe profissional, antes de mergulhar em sua revista, o barbeiro, o cortador de grama em miniatura, a poltrona, a temível tesoura com dentes que lhe dá uns puxões, ele mesmo, tudo tremeria até evaporar.

Alan Pauls

Alan Pauls, roteirista e escritor argentino, publicou O Passado pela Cosac Naify.

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