ficção

História triste com um final alegre

A rapariga percebeu que, se queria mesmo conquistar uma posição no mercado da venda ambulante de antiques, tinha de apostar na diversidade e originalidade e ir ao encontro dos gostos e aspirações do público

Teresa Veiga
Ela fazia um esforço enorme para não chorar ao lado dele. E a mãe, como que hipnotizada, parecia só esperar um sinal para obedecer
Ela fazia um esforço enorme para não chorar ao lado dele. E a mãe, como que hipnotizada, parecia só esperar um sinal para obedecer ILUSTRAÇÃO: MONTAGEM SOBRE LA GIOCONDA, SÉCULO XVI_LEONARDO DA VINCI

No segundo domingo de cada mês o jardim tornava-se uma espécie de casa de espectáculos onde se exibiam todas as pessoas que, mediante uma pequena espórtula, quisessem transaccionar ao ar livre qualquer objecto, por mais feio, imprestável e inverosímil que fosse. Se os vendedores eram poucos, os compradores eram menos ainda. Na prática acontecia passar bastante tempo antes que alguém se acercasse do tapete ou mesa desconjuntada que servia de expositor e parasse em atitude de estar a considerar uma compra e de entre esses só uma minoria passava à fase seguinte, que era mexer num objecto e virá-lo de todos os lados, até que o encantamento se quebrava e ele ou ela seguia viagem. É preciso dizer que isto se passa num bairro de velhos e numa época de crise e já agora num mês de inverno em que o ar cheira a esgoto e as árvores nuas têm uns buracos nos troncos, a abarrotar de uma matéria branca em forma de novelos de larvas que, privando-as da sua habitual beleza, lhes dão uma aparência tosca, imunda e até letal.

Num dos prédios que davam sobre o jardim morava uma jovem do mais pobre que há, mesmo na classe trabalhadora. Do seu ordenado numa fábrica de chocolates, depois de pagar a renda do quarto, os transportes e uma sessão de cinema aos sábados, só lhe sobrava para ir comendo uns bolos e pastéis, até porque o seu estômago delicado recusava quase toda a comida sólida. Quando soube daquela oportunidade também teve a tentação de arredondar os seus parcos rendimentos mas, por muito que olhasse à volta no seu cubículo, não descobriu nada com potencialidade para ser vendido, a não ser um pente de osso que, apesar de coisa lustrosa e apetecível, faria uma triste figura sozinho no meio de um tapete. Assim, como não podia tornar-se vendedora, fez-se compradora, ou antes, começou a fazer como os outros que iam passear à feira sem intenção de comprar nada.

A diferença em relação às outras pessoas é que, como era uma pessoa educada, não se atrevia a mexer em nada nem sequer a ficar muito tempo a olhar para um objecto. Mesmo assim, só de ouvir e observar aprendeu muita coisa, a ponto de pensar amargamente que qualquer dia sabia tanto de antiguidades e pseudoantiguidades como qualquer marchand d’art.

Assim, a feira, que devia ser um motivo de distracção, por um lado tornava-a mais exigente e evoluída, por outro mais revoltada e triste.

 

Seis ou sete meses depois deu-se um acontecimento que revolucionou a sua vida. Numa álea retirada do jardim, uma ruela secundária onde mal chegava o eco distante daquela babilónia de sons e cores (ou que assim parecia porque nos outros dias, expurgado de tudo, o jardim recaía numa paz de cemitério), portanto longe da concorrência, o que denotava um carácter muito orgulhoso e firme e talvez um protesto contra a sociedade mercantil e a lei da selva, um jovem vendedor expunha a sua mercadoria usando como expositor a própria mala de cartão onde a transportava. A rapariga parou e olhou com uma expressão concentrada, ao mesmo tempo que sentia a nuca latejar sob o efeito de uma terrível dor de cabeça. Depois baixou-se até sentir estalar as articulações dos joelhos e nessa posição incómoda e que a fazia sofrer ainda mais pelo seu lado inestético, saltando às vezes na lateral como um galináceo, passeou o olhar enevoado e vazio por um amontoado de bricabraque de pendor ora mais utilitário ora mais ornamental. Ao acaso fixou-se numa estampa, com a antiguidade certificada pelas manchas de humidade que lhe faziam um passe-partout amarelado, representando uma figura humana de longos cabelos e sorriso esfíngico (tratava-se de uma reprodução da Mona Lisa). Posso ver? Ele fez que sim, gravemente, com um simples aceno, e ela, mecanicamente, começou a examinar uma a uma todas as gravuras do lote, já a ensaiar, ainda sem ter consciência disso, os tiques de apreço e desdém que os verdadeiros experts elevam ao nível da grande arte e nela eram a prova de que a vontade faz milagres, quando posta ao serviço de superior desígnio. A seguir cravou um olhar persistente numas canetas velhas num frasco de rebuçados. Já lhe doíam os joelhos, levantou-se e, com modos desprendidos, indagou o preço das gravuras. A transacção fez-se e a rapariga pregou na parede do quarto o desenho da mulher desconhecida e a partir daí nunca mais se sentiu sozinha, como se ela, a mulher do retrato e o vendedor fossem intermutáveis e onde estivesse um estivesse o outro, vivendo assim uma relação a três como se fosse a dois, muito bem-sucedida.

Na feira seguinte, ou seja, um mês depois, a rapariga tinha economizado o suficiente para comprar outra gravura. O tempo que demorou a escolhê-la foi perdido para contemplar o seu amado mas sentia que ele a observava e assim aqueles minutos souberam-lhe intensamente e foi com plena consciência de obedecer a uma atracção mútua que esperou que ele envolvesse a gravura num pedaço de jornal, mostrando toda a falta de habituação das suas mãos nervosas e esguias, e depois lhe depositou uma moeda nas mãos, acompanhando o gesto de um delicado pedido de desculpas que não chegou a sair-lhe dos lábios.

A rapariga tinha em mente um projecto que dá bem a medida da sua pobreza e timidez: comprar todo o lote de gravuras e depois convidá-lo a vir apreciá-las já distribuídas pelas paredes do seu quarto, encaixilhadas nas molduras que fabricava nos seus tempos livres, com embalagens de cartão, pedaços de papel de alumínio e outros materiais reciclados que lhe davam nas lojas por ser uma pessoa a quem dava gosto dar com o seu ar modesto e humilde. Mais uns meses, pensava ela, e estariam talvez em condições de casar, à medida que o negócio dele se expandia e conquistava clientes fiéis como ela, de feira em feira.

 

Um domingo aconteceu uma coisa que ela nunca tinha imaginado nos seus projectos tão simples e cheios de viabilidade. Ele não apareceu e quando ao fim de muitas horas se atreveu a perguntar ao vendedor que tinha ocupado o seu lugar se sabia dele, ouviu como resposta que estava a morrer, se é que já não tinha morrido. Depois de muitas indagações e informações contraditórias, lá conseguiu achar quem lhe desse a morada da mãe, com quem vivia apesar de já ter 37 anos de idade. A casa fora pintada recentemente e tinha um ar muito limpo com as suas flores de plástico nas jarras e o chão de mosaico. A mãe chorava na sala de entrada acompanhada das suas amigas que lhe faziam companhia naquele transe e recordavam em voz alta todas as facetas nobres e generosas do moribundo. De vez em quando uma ia espreitar à porta do quarto, arrastando-se com precaução nas pontas das chinelas porque ninguém estava autorizado, nem mesmo a mãe, a perturbar os últimos instantes de vida que ele queria passar a ver na televisão uma das suas séries preferidas. Quando a rapariga entrou estava ele a rir muito baixinho. Viu-a e ficou ainda mais pálido, o que lhe deu alguma esperança, pois se mostrava alegria e amargura era porque ainda estava preso à vida. A rapariga já sabia qual era a doença que o estava a matar e a inutilidade de fazer perguntas descabidas. Aliás durante todos aqueles meses tivera a verdade à frente dos olhos e só a sua extrema impreparação juvenil e o grande amor que forjara nos seus sonhos de virgem a tinham tornado obtusa ante os sinais evidentes que a morte ia semeando no rosto dele.

O espectáculo daquele passamento humilde entristeceu-a tanto que primeiro só teve um pensamento: morrer também. Sentou-se à beira da cama dele e pediu-lhe licença para o envolver nos seus braços, partilhar do seu calor, da sua comida e bebida e dos seus beijos, e ele perante tanta boa vontade não se atreveu a dizer que não. Ela fazia um esforço enorme para não chorar ao acariciar o cabelo dele, ralo e esbranquiçado, e as orelhas ratadas por causa do eczema, enquanto pensava que era capaz de as pôr como novas, lembrando-se do seu frasquinho de óleo de amêndoas doces. De repente começou a impor-se à mãe e a dar-lhe ordens, com muito respeito mas também com firmeza, e a mãe, como que hipnotizada, parecia só esperar um sinal para obedecer. Trouxe-lhes uma sopa muito rica, cheia de vitaminas, que os dois comeram na cama, encostados às almofadas, e minutos depois ela mediu-lhe a pulsação e verificou que estava quase normal. Passou o resto da noite encostada a ele sem se importar com o seu cheiro um pouco azedo e no dia seguinte não disse nada mas começou simplesmente a cuidar dele 24 horas por dia com a paciência de alguém que se dedica a raspar com um pauzinho toda a superfície da crosta terrestre. A verdade é que não fazia isto por simples bondade e dedicação desinteressada. Tinha percebido que, se não o salvasse, morria também, e assim não chegaria nunca a casar e ela queria casar com ele e ajudá-lo, com o seu faro indiscutível de mulher de negócios, a singrar no comércio de antiques. Todo este plano foi amadurecido e reflectido durante os meses que passaram até ele voltar a ser um homem normal, frágil, mas com uma cara séria e agradável e relativamente bem constituído.

 

No Centro de Saúde nem queriam acreditar. Apalparam-no de todos os lados e depois o mandaram com uma carta para o hospital da zona, onde o seu caso devia ser estudado. A direcção do hospital produziu um relatório de 500 páginas e propôs-lhe ir aos Estados Unidos, à célebre clínica Mayo, para ser apresentado à comunidade médica internacional. O rapaz, a quem continuamos a chamar assim apesar da sua idade, porque a doença, nos seus bifurcados caminhos, tinha desacelerado o processo de envelhecimento mental e descobria-se agora que detendo o processo de envelhecimento mental era possível travar o do físico, deixou a decisão ao critério da namorada, abdicando de qualquer espécie de vontade como se se entregasse nas mãos de Deus.

Não podia ter feito melhor opção, pois ela continuava a ter o dom de acertar na atitude correcta desde que tomara o destino nas mãos e o ia forçando a golpes de vontade, impulsionada pela presença a seu lado do homem amado que resgatara do outro mundo.

Nos Estados Unidos, fizeram uma digressão triunfal que os levou dos Apalaches às praias da Califórnia, numa limusine precedida de uma guarda de honra de polícias em soberbas motas, que ostentavam nos capacetes as bandeiras dos dois países.

Como aproveitaram para casar em Las Vegas pode dizer-se que toda a viagem, excepto quando tinham de marcar presença em anfiteatros a abarrotar de gente, foi uma lua de mel inesquecível.

Não se pense no entanto que voltaram ricos. Como tudo aquilo de que necessitavam lhes vinha parar às mãos não chegaram a ver um dólar, mas tinham sensibilidade suficiente para se sentirem regiamente pagos.

Além disso, o contacto com o país da abundância e da livre iniciativa deixara-lhes marcas profundas ou, para não exagerarmos, uns arranhões que iam demorar muito tempo a desaparecer. A rapariga percebeu que, se queria mesmo conquistar uma posição no mercado da venda ambulante de antiques, tinha de apostar na diversidade e originalidade e ir ao encontro dos gostos e aspirações do público, procurando as pessoas onde elas se encontram, o que pressupunha uma estratégia de multiplicar os pontos de venda e assediá-las à porta das suas próprias casas. Contudo este plano só valia a pena porque tinha ao lado alguém de quem gostava tanto que, sendo iletrada, até parecia que conhecia Racine, quando, nas suas loucuras amorosas, lhe dizia: “Mata-me, para que eu te possa perdoar.”

Teresa Veiga

Teresa Veiga, escritora portuguesa, publicou Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomin, da Companhia das Letras. A pedido da autora foi mantida a grafia original.

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