esquina

“I will survive”

O rebolado feliz da terceira idade belenense

Vladimir Cunha
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

São seis mil pessoas sob um barracão coberto por telhas Brasilit e cercado de colunas de som de quase cinco metros de altura. Estão todas à espera do que uma voz familiar anuncia como “uma viagem para outra dimensão”. O lugar é o Sesc de Ananindeua, um balneário que no domingo funciona como uma espécie de casa de shows. Na periferia de Belém do Pará, há muitos balneários – complexos de lazer popular construídos a partir dos anos 80, geralmente com piscina, campo de futebol e salão de baile.

É dia de baile da saudade no Ananindeua. Não um baile tradicional. Aqui não tem orquestra, crooners, dançarinos de terno de linho nem senhoras de vestido de noite. Não se dança samba, bolero, tango nem nenhuma outra dança de salão. Em Belém, baile da saudade é qualquer festa que toque tudo o que foi produzido desde os anos 50 até o final dos 80. Do rock ao brega, da disco music de Gloria Gaynor às canções do Legião Urbana. Tudo em vinil.

A tecnologia digital é substituída pelo “Brasilândia” – também cognominado “O Calhambeque da Saudade” -, um enorme sistema de som composto de telões, painéis multicoloridos e caixas acústicas de onde só sai música antiga. Em cima de algo que se assemelha a um palco, um calhambeque conversível serve como cabine para o DJ Zenildo Fonseca, de 49 anos, o dono do Brasilândia. Os discos de vinil ficam armazenados no banco de trás e no bagageiro do automóvel.

 

Zenildo Fonseca não está muito à vontade no presente. A casa em que mora, no bairro da Marambaia, na periferia também, foi transformada num bunker da saudade. Atrás dos muros altos, de quase cinco metros, protegidos por uma cerca elétrica, Fonseca se dedica a restabelecer os bons tempos. Com parte do dinheiro que ganhou com o Brasilândia, está construindo, ao lado da casa, uma fábrica de discos de vinil e um cinema de 20 lugares. A fábrica servirá para prensar as coletâneas de sua predileção. (Sua coleção particular tem 30 mil discos.) Já o Cine Brasilândia oferecerá sessões gratuitas de chanchadas da Atlântida e comédias de Mazzaropi, Os Três Patetas e O Gordo e o Magro. Já tem vinte rolos de filme e um projetor V8 de 1957. Zenildo não gosta de ver filmes em DVD. Cinema, para ele, só se vier com o barulhinho feito pelo motor da máquina de projeção.



 

Fonseca inicia a festa com o tema de abertura do seriado Hawaii 5-0. O público reconhece a melodia e se põe a balançar. Como faz calor, usa-se pouca roupa. As senhoras, em sua maioria, vão de short e camiseta de lycra. Os homens, quase todos, estão de chinelo, bermuda e camisa regata.

Nas primeiras horas, Fonseca aposta no certo: música romântica dos anos 60 e 70. Há grande excitação quando ele põe na vitrola “Eu te amo, meu amor”, de Frankito Lopes, o famoso (ao menos no Pará) Índio Apaixonado, cantor que se apresentava com um cocar frondoso e tatuava corações na bochecha. Para tristeza da platéia dançante, Índio Apaixonado anda sumido desde a segunda metade dos anos 90.

A arte de Fonseca consiste em mudar a marcha no meio do caminho. De repente, em meio a melodias adocicadas, surge “Girls Just Wanna Have Fun”, hit pop dos anos 80, na voz da americana Cyndi Lauper. É a febre. As senhoras, cuja idade varia entre 40 e 60 anos, gritam, pulam, largam os parceiros, dançam sozinhas, sacodem os braços para cima e acompanham o refrão a plenos pulmões: “Girls, they wanna have fun/ girls just wanna have fun”.

Zenildo deixa o brega de lado. No Sesc Ananindeua, ouve-se “I Will Survive”, o hino gay de Gloria Gaynor, “Das Model”, do grupo eletrônico alemão Kraftwerk, e a música-tema do filme Um Tira da Pesada. Muda de rota mais uma vez e retrocede aos anos 60, tocando “Let’s Twist Again”, de Chubby Checker; e “Datemi un Martelo”, de Rita Pavone. Nova guinada: “Loiras Geladas”, da banda RPM. O público se ouriça e dá a deixa para que entre o clássico do Legião Urbana: “Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer? Ô ô ô ô ô ô ô ô ô.”. É a senha. Mais um pouco e o DJ recolhe a vitrola. São dez da noite, fim do baile. Comportadamente, senhoras e senhores retornam a suas casas. Em breve, poderão fazer a dobradinha: primeiro, Donna Summer; depois, Curly, Larry & Moe – que, como a turma de Fonseca está cansada de saber, é como se chamam Os Três Patetas.

Vladimir Cunha

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