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    CRÉDITO: JOÃO PINHEIRO_2022

ficção

Intruso no Ciep

Os policiais militares percorriam as salas de aula com fuzis empunhados

Ronald Lincoln | Edição 194, Novembro 2022

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Os tiros se anteciparam aos galos para anunciar o dia no Morro da Mangabeira. Policiais e traficantes em guerra. Rajadas intermináveis de fuzis ecoavam prenúncios de morte pelas vielas. Instalada às margens do morro, havia uma escola, um Ciep. O grandioso e retangular prédio de concreto era uma espécie de fronteira que demarcava os limites da favela e do asfalto. Os moradores se orgulhavam de ostentar, bem no subúrbio do Rio de Janeiro, entre barracos e casas de alvenaria, aquele edifício – arquitetura de Niemeyer, riscada de pichações.

Muitas crianças que já estavam na escola quando a confusão começou tiveram que permanecer ali durante toda a manhã de peleja. Rosana, a diretora, percorria os corredores dando orientações para a segurança dos alunos. Protocolos eram executados com a eficiência de quem fizera aquilo outras vezes. As crianças, habituadas àquela realidade tão comum no Mangabeira, se sentiam mais seguras ali do que na favela. O Ciep parecia um forte, guardado por um muro alto nas laterais e na frente, com os fundos cercados por um alto barranco, cujo topo abrigava algumas casas.

Com o passar das primeiras horas, os sons de tiro cessaram. Mas os nervos continuavam aflorados na sala da direção. Rosana atendia telefonemas de mães assustadas e tentava acalmá-las, desligava e começava a discutir com as coordenadoras estratégias para a saída das crianças, até que outra mãe ligasse novamente. Soube, em uma das chamadas, que a operação policial era comandada pelo coronel Marehz. A tropa dele raramente levava gente presa; passava, e os corpos ficavam para trás. Com aqueles homens na rua, os alunos só sairiam da escola quando a diretora tivesse absoluta certeza do fim da ação policial.

Em certo momento, Marina, a faxineira, chegou ofegante à saleta, interrompendo a reunião. Teve que sentar para recuperar o prumo.

– Desembucha, mulher! Parece que viu um fantasma – disparou Rosana.

– Antes fosse, chefe. É um menino.

Marina explicou que, enquanto fumava sozinha nos fundos do Ciep, avistou um vulto descendo em fuga a inclinação do barranco. Ele tropeçou e caiu rolando no barro até aterrissar nas dependências da escola, desnorteado. Ela reconheceu o magricela de short, sem camisa e radiotransmissor na cintura. Era Jessé, um aluno do oitavo ano, que foi parando de frequentar as aulas até trocar, definitivamente, a escola pela esquina. O garoto nem se deu conta da presença da funcionária. Ele se levantou e correu, mancando e machucado, e disparou até o vestiário do ginásio de esportes. Em seguida, Marina pôde ver policiais no alto do barranco farejando Jessé, mas sem coragem de descer.

Rosana escutou o relato com uma expressão indecifrável. Cerrava ainda mais os olhinhos puxados, por cima dos óculos de aros azul-turquesa arredondados. À moda dos jovens, a mulher de 50 e poucos anos vestia calça jeans e casaco moletom, que lhe sobrava nos braços. Sentia-se mais confortável assim e acreditava que, dessa maneira, criava mais identificação com os alunos. Isso, no entanto, não diminuía a reverência com que a tratavam.

As coordenadoras a encaravam aflitas. E Rosana não titubeou, mandou chamar Léa, a professora do oitavo ano. Catou um uniforme de aluno no almoxarifado, e foram juntas atrás de Jessé. Iriam vesti-lo e juntá-lo aos adolescentes. Léa, contudo, caiu no engano de ponderar a decisão da diretora, que disse com firmeza:

– Ele não é aluno? Não está matriculado? Dentro desta escola, ninguém vai encostar nesse menino.

Os laços com Jessé vinham de longe. A própria Rosana fora professora dele nos anos iniciais, ensinou-o a escrever o nome, as primeiras palavras, os números, para depois sofrer com o rumo que ele tomou. Certa vez, a diretora se meteu na boca de fumo sozinha para dizer que, se ele não voltasse para as aulas, ela mesma mandaria a professora Léa reprová-lo − como se fosse o desempenho escolar o que estava em jogo. Na verdade, ela só queria tirá-lo dali. Na frente dos novos parceiros, Jessé prometeu, mansamente, que retornaria aos estudos. Mas todos sabiam que isso não aconteceria.

 

A notícia da fuga de Jessé para a escola e a decisão de Rosana se espalharam rapidamente entre os professores e demais funcionários, que, naquele instante, povoavam os corredores, como se a escola tivesse se transformado em um gabinete de guerra. Falavam todos ao mesmo tempo; uns de forma exaltada, outros tentando apaziguar os ânimos. Os mais radicais pregavam a denúncia e a exoneração imediata da diretora.

– A mulher endoidou, tá colocando as crianças em risco! – alardeou Marinho, o novo professor de educação física.

– Por isso mesmo temos que nos acalmar, pelos alunos – argumentou Vânia, a coordenadora pedagógica.

Então veio mais uma ordem da diretora, e todos os professores recolheram suas crianças das salas. Fila indiana para descer até um lugar mais seguro. Na frente, os do primeiro ano, e assim por diante até os adolescentes do nono. Todos marcharam silenciosamente para o ginásio de esportes. A grande quadra estava tomada de montes de areia, entulho de paus e pedras − rastros de uma reforma que durava tanto tempo que muitos nem se lembravam quando começara, mas todos sabiam que não terminaria tão cedo.

Algumas crianças se aventuraram a correr pelo piso de cimento esburacado, entre montes de entulho, passando debaixo das traves corroídas por ferrugem, que ameaçavam cair na cabeça de alguém. Dois meninos recolheram pedaços de pau e começaram a simular armas de fogo. Pow, pow, pow, atiravam, sem dó, um contra o outro. Então, um deles se lançou no chão, entre as pedras. Baleado, mas de mentirinha. Antes que Carla, a professora do primeiro ano, pudesse repreendê-los, Rosana agarrou pelos braços o garoto que estava de pé empunhando o pedaço de pau e o sacudiu com força, até que, assustado, ele soltasse sua arma imaginária. Mesmo assim, a diretora continuou a apertar e apertar, em uma espécie de transe, que só foi interrompido quando lágrimas do menino desarmaram seus punhos, e então o pequeno voltou silenciosamente para a fila.

A movimentação no ginásio ainda não havia terminado quando soou a campainha da entrada do Ciep. Atrás do portão, estavam Marehz e uns dez policiais. O homem tinha um quê de personagem de filme de guerra dos Estados Unidos. O corpo envergado e uma postura altiva, que davam a impressão de ele ter uma estatura maior do que a real. As rugas que se dobravam sobre os olhos condiziam com seu temperamento sisudo, e o tufo grisalho no topo da cabeça, mesmo com o cabelo raspado nas laterais, denunciava a sua maturidade. Num instante, Rosana estava diante dele, examinando-o com firmeza.

– A senhora é a diretora?

– Pois não.

– Vamos entrar para buscar um ganso que pulou na escola.

– Aqui só tem estudante.

– Tem, não, senhora. O bandidinho pulou pra cá, e vamos entrar.

– Não podem entrar assim, só tem criança aqui. Vocês têm mandado?

– Mandado é o caralho. Se morrer alguém aqui por causa de bandidinho, a senhora vai segurar o b.o.?

Impaciente, Marehz empurrou a diretora, que não tombou por pouco. Em seguida, entrou pelo portão e deu ordens para seus homens revirarem o Ciep. Rosana não estava disposta a assistir quieta àquela invasão, então mandou os funcionários acompanharem a revista, enquanto ela permanecia com professores e alunos no ginásio.

No meio da turma do oitavo ano, estava o atividade. Custava a se manter de pé, por causa das dores e dos arranhões que adquiriu no tombo no barranco. Assim como a diretora, só ficaria seguro quando Marehz desaparecesse. Sentia os olhares dos colegas que não via há tempos, agora receosos do perigo de sua presença, mas também preocupados com o destino do antigo companheiro.

Os soldados percorriam as salas de aula, arrombavam as portas, sondavam corredores, com fuzis empunhados, como se vasculhassem um Q.G. de bandidos, onde, ao atravessar uma porta, pudessem se deparar com armas apontadas para suas cabeças. Averiguaram todos os espaços e não encontraram nada além de carteiras vazias e quadros negros com lições interrompidas.

Inconformados, Marehz e seus soldados deixaram o prédio da escola em direção ao ginásio. De longe, Rosana viu o professor Marinho se destacar das crianças e caminhar até o coronel. Eles conversaram por alguns instantes, e então os policiais se aproximaram da turma do oitavo ano. Jessé tremia na formação.

– Vamos precisar esculachar geral para saber quem é o atividade? Se precisar, a gente esculacha.

Olhares se cruzaram. Ninguém iria caguetar, como fizera o professor Marinho. Na favela, essa lição se aprende antes de completar a tabuada. Jessé, preocupado com os outros alunos e com os professores, deu um passo à frente, cambaleante. Então, um dos soldados se precipitou contra ele, imobilizando-o num mata-leão. Aquilo causou um alvoroço entre os alunos e docentes. Era a cena de um pesadelo. A diretora e as professoras tentaram avançar contra o policial, porém foram contidas pelos outros soldados.

– Deixa que a gente toma conta – debochou Marehz.

 

A sentença estava dada. As criancinhas olhavam aterrorizadas, e as maiores viam uma delas ser levada bruscamente para prestar contas, como se fosse adulto. Os meninos, sobretudo, carregavam a sensação de “podia ser eu”.

A frase do coronel ecoava na cabeça de Rosana: “Deixa que a gente toma conta.” As pessoas olhavam para ela, como se esperassem alguma reação, qualquer uma, e tudo que viam era o abatimento de seus olhos. Por dentro, pairava nela um sentimento de desamparo, como uma mãe que tem a cria tirada dos braços. Seus alunos eram o propósito de sua vida, e a perda de Jessé implodia todos os alicerces que a sustentavam.

Naquele instante, algo se acendeu e se alastrou nela, até explodir num acesso de fúria. Rosana catou uma pedra no canteiro de obras e caminhou até a viatura de Marehz. Andava como se flutuasse, a expressão inerte como se a força que a carregava não fosse física. Então, ela arremessou a pedra no para-brisa da viatura, estilhaçando o vidro.

O jeito foi levar a diretora presa, ao lado de Jessé. Perplexos, alunos, funcionários e professores viram a viatura se afastar. Rosana, lá dentro, com um semblante sereno.

A diretora tinha perfeita compreensão de seu ato. Lá no fundo, ela acreditava que ser educadora exigia uma pequena dose de loucura. Se era necessário ir presa para evitar que Jessé acabasse, como tantos outros, numa vala, para que ele tivesse a oportunidade de, quem sabe, voltar a estudar, Rosana faria isso. Ninguém encostava as mãos nos alunos dela.


Este conto faz parte do livro Disritmia, a ser lançado neste mês pela editora Malê.