esquina

Joia rara

Otto Lara Resende, 13 anos, brilha como cantor

Armando Antenore
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Adengue hemorrágica chegou sorrateiramente e, em poucos dias, levou o garoto de olhos amendoados à UTI. Ele mal completara 5 anos quando a doença o castigou com diarreias incessantes, vômitos caudalosos e um febrão obstinado. Duas transfusões de sangue não bastaram para reanimá-lo. À beira da cama em que o filho agonizava, o dramaturgo Bruno Lara Resende lhe acariciou as mãos e se desmanchou numa declaração de amor. A criança o escutou por uns segundos, mas logo se aborreceu. “Mahler, papai, Mahler!”, suplicou baixinho. O pai entendeu de imediato o pedido. O menino desejava ouvir a Sinfonia Nº 1, de Gustav Mahler. “Era como se me dissesse: ‘Deixe de choramingo, cara! Eu quero energia!’” Sem hesitar, o pai entoou um trecho da composição enquanto imitava os gestos exaltados de um maestro.

O moribundo felizmente sobreviveu e hoje não só continua fissurado por peças eruditas como se delicia com um vasto repertório popular. Neto mais jovem do escritor mineiro Otto Lara Resende, de quem herdou nome e sobrenome, o garoto festejou 13 anos em maio e, há seis meses, vem colecionando admiradores no Instagram justamente por causa do apreço pela música. Toda semana, a rede social abriga um novo vídeo do rapazinho. São produções caseiras, sem cortes ou efeitos especiais, em que o pré-adolescente canta sambas, baiões, serestas, choros e sucessos da MPB, sempre a cappella.

Ele costuma gravar as cenas no jardim do sobrado onde mora com os pais e dois gatos vira-latas. Trajando roupas informais, se acomoda sobre um banco de madeira e, diante de uma câmera que nunca se move, solta a voz. Quase não gesticula durante as apresentações. Às vezes, batuca nas pernas para marcar o ritmo ou espicha os braços para enfatizar um verso. Enuncia as letras das canções com extrema clareza e frequentemente alonga os erres das palavras: rrresta, brilharrr, melhorrr, forrrnalha. Quando termina o solo, assume um tom professoral e dá algumas explicações: “A música que acabei de cantarrr, Juízo Final, é de Nelson Cavaquinho. Eu amo a interrrpretação da guerrrreira Clara Nunes. Salve, Nelson Cavaquinho! Salve, Clara Nunes! E viva o samba brasileiro!” Carioca, torcedor do Botafogo e portelense, o cantor tem síndrome de Down.

 

Otto Iantas de Lara Resende demorou muito para caminhar e falar. Em compensação, antes dos 2 anos, já se revelava capaz de identificar composições eruditas. “Ele adorava uns DVDs infantis com músicas clássicas que ganhou logo depois de nascer. Assistia à coleção sem parar, absolutamente hipnotizado. Um dia, ouviu Für Elise, do Beethoven, num aplicativo do iPad. Para minha surpresa, largou o tablet, engatinhou até a pilha de DVDs e examinou um por um. De repente, sem nenhuma ajuda, localizou o que trazia Für Elise e o separou”, recorda a atriz Raquel Iantas, mãe do menino.



Um pouco mais tarde, o garoto descobriu os regentes. Gostava de vídeos em que Leonard Bernstein, Herbert von Karajan, Claudio Abbado ou Gustavo Dudamel comandavam as principais orquestras do mundo. A criança observava os maestros com tanta atenção que aprendeu a distinguir um do outro. “Suponha que a gente botasse para tocar a Nona Sinfonia de Beethoven, sob a regência do Bernstein”, prossegue a atriz. “Otto arranjava um jeito de nos avisar que preferia ouvir a mesma sinfonia conduzida pelo Karajan.”

Quando se alfabetizou, com 7 anos, o menino compreendeu a engrenagem das canções populares. Perceber que a música poderia se associar às letras para criar um universo tão reluzente quanto o erudito lhe soou como uma iluminação. De início, se encantou por Adriana Partimpim e pelo grupo Palavra Cantada. Em seguida, vieram os Beatles, Frank Sinatra, Elvis Presley, Noel Rosa, Cartola, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Chico Buarque… Ora os pais mostravam os artistas, ora o próprio garoto os caçava na internet. O pesquisador mirim desenvolveu, então, a habilidade de memorizar não apenas as canções como os nomes de seus intérpretes, autores e instrumentistas.

Em 2015, ele andava enfeitiçado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Na ocasião, os baianos comemoravam cinco décadas de carreira com uma turnê que passaria pelo Rio de Janeiro, onde o menino vive. A família resolveu levá-lo, mas só atentou que a casa de espetáculos vetava a entrada de crianças depois de comprar os ingressos.

Às vésperas do show, Bruno Lara Resende – que já exerceu a advocacia – redigiu uma carta questionando a proibição. Argumentou não existir nada na lei brasileira que justificasse impedir qualquer menor de ver uma exibição como aquela em companhia dos pais. O assunto chegou à imprensa, e um juiz autorizou o comparecimento do menino. Foi assim que o pequeno fã acabou visitando os camarins dos ídolos. Desde então, Caetano o convida para os concertos que faz na cidade.

 

No finzinho de março, o garoto se sentia desanimado, uma vez que a pandemia do novo coronavírus o privava de frequentar a escola, as aulas particulares de canto e percussão, as rodas de samba ou chorinho e a temporada carioca de shows. Para estimular o filho, Raquel Iantas sugeriu que ele cantarolasse algo. Com um boné de adulto e sem camisa, o pré-adolescente – que só tem uma irmã, bem mais velha – atacou de Carinhoso enquanto tomava sol.

A atriz registrou a brincadeira doméstica, publicou a cena em seu próprio Instagram e recebeu 411 comentários elogiosos. Uma semana depois, o garoto protagonizou outro vídeo, agora interpretando Desde que o Samba é Samba, de Caetano. O compositor se emocionou com a homenagem e a compartilhou. A partir daí, as gravações do menino pelo celular da mãe se tornaram rotineiras e a fama dele cresceu. Hoje, o perfil da atriz ultrapassa os 7,9 mil seguidores. Em março, somava 2,8 mil.

“Não poderíamos ganhar presente melhor do que um filho obcecado por música”, dizem os pais do jovem cantor. “Já imaginou se o Otto gostasse de coisas muito desinteressantes para nós, como dinossauros ou carros? Olha só a baita sorte que a gente teve…”

Armando Antenore

Editor da piauí

Leia também

Últimas Mais Lidas

Podcast Praia dos Ossos chega ao último episódio

Ouça já o capítulo final da série produzida pela Rádio Novelo

Quando gente vira cobaia

Fernando Reinach explica quais são e como funcionam os controles que existem para cientistas não ultrapassarem limites éticos em suas pesquisas

Vacinas na mira dos boatos

De carona na recusa do governo federal à vacina chinesa, conteúdos falsos e enganosos sobre imunização se intensificam nas redes sociais

Faltou combinar com a Bahia

Defensor do apoio a Ciro Gomes em 2018, senador Jaques Wagner minimiza encontro do pedetista com Lula e diz que presidenciável cearense se aproxima da direita

As incríveis aventuras do ministro-astronauta

Pontes nomeou para cargo de confiança sócia com quem mantém rede de empresas para venda de bonecos, livros, palestras motivacionais e viagens ao espaço

A esquerda que se arma contra Trump

Cultura armamentista típica dos conservadores americanos ganha cada vez mais adeptos entre minorias e grupos de tradição democrática

Foro de Teresina #124: O bolsonarismo frita seus generais

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Mais textos
4

Dado Dolabella exige que seus namoros sejam cobertos pelo SUS

RIO DE JANEIRO – O ator, cantor e enfant terrible Dado Dolabella declarou ontem que tem mais de dez anos de bons serviços prestados à saúde pública brasileira "sem jamais ter recebido um tostão por isso”. Dolabella se referia à afirmação do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, segundo a qual o sexo é um dos meios mais eficientes para combater a hipertensão, um mal que aflige uma fatia crescente da população brasileira.

5

Os melhores momentos do futebol-arte

O que Van Gogh, Manet e Edvard Munch têm a dizer sobre o nobre esporte

7

Mikhail Zygar e a Rússia de Vladimir Putin

Mikhail Zygar conversou com João Moreira Salles, editor da piauí, e Raul Juste Lores, da Folha de S.Paulo. Zygar passou os últimos dezesseis anos – desde que Vladimir Putin assumiu o poder na Rússia – entrevistando pessoas ligadas direta e indiretamente ao presidente e ao Kremlin.

9

Margalit Fox e os perfis póstumos de heróis e heroínas anônimos

Assista a um trecho da participação de Margalit Fox no primeiro dia de evento

10

O bispo e os bicheiros

Os contraventores do Carnaval carioca ajudaram a eleger o prefeito Marcelo Crivella. Estão arrependidos