esquina

Jorge, o capoteiro

Um engano da Lava Jato

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

A fama bateu à porta de Jorge Washington Blanco na forma de um oficial de justiça. “Ele disse que eu deveria depor por causa do Cerveró. Eu já tinha visto esse Cerveró na tevê”, contou. Sua esposa e seus dois filhos não fizeram grande caso da convocação. Já o intimado atravessou a semana em estado de agonia. “Nunca fiz nada de errado. Minha rotina é trabalho, casa, trabalho, casa”, explicou. “Mas achei que pudesse ter perdido um documento ou virado laranja de alguém.”

A tensão persistiu até a manhã de sexta-feira, 4 de março, quando Blanco compareceu à sede da Justiça Federal em Belo Horizonte. Estava acompanhado de um advogado. “Era o Joel, conhecido meu que acabou de tirar a carteira da OAB”, lembrou. “Mandou eu só dizer ‘sim’ e ‘não’, para não me complicar.” Foi encaminhado a uma sala de videoconferência, onde havia uma tela transmitindo, ao vivo, as imagens do juiz Sergio Moro e de um promotor do Ministério Público Federal. Ocorreria então o diálogo que faria Blanco sair da vida (pacata) para entrar na história.

“Bom dia, senhor Jorge, tudo bem?”, perguntou o promotor.

“Bom dia, tudo bem”, respondeu Blanco.



“O senhor pode esclarecer a sua atividade profissional durante o ano de 2009?”

“Eu sou capoteiro.”

Fez-se um silêncio, quebrado por uma nova pergunta do promotor:

“Ca-po-tei-ro?”

 

Nascido e criado em Belo Horizonte, Blanco é um homem magro, de 55 anos, que pertence à terceira geração de uma família dedicada à capotaria. “Meu avô era capoteiro, meu tio é capoteiro, meu irmão também trabalha com capotaria”, contou. A iniciação no ofício – que consiste em reformar o estofado ou o revestimento de um veículo – deu-se aos 14 anos de idade: “Eu levava marmita para o meu avô, e depois ficava na oficina, aprendendo.” Terminou o secundário, fez um curso técnico na Escola Estadual Walt Disney e, vinte anos atrás, realizou o sonho da capotaria própria. Por ficar no bairro de São Paulo, decidiu nomeá-la Capotaria São Paulo. Depois, quando mudou a oficina para o bairro de São Cristóvão, renomeou-a Capotaria São Cristóvão.

A loja, minúscula, fica numa rua de pouco movimento, perto do restaurante Luiz Atleticano, da Borracharia Modelo, da Barbearia Vera Cruz e do Bar Pai e Filho. Numa tarde em meados de março, havia oito bancos de carro do lado de fora da oficina e um bocado de sucata amontoada na parte de dentro. O espaço também abriga uma máquina de costura, um fogão enferrujado e uma geladeira com um ímã, onde se lê que “a fé remove montanhas”.

Blanco cobra 350 reais para reformar um jogo de estofado: “Hoje já trabalhei num Uno, num Fusca e num Siena. Todo dia mexo com um trem diferente aqui.” Ele tem uma casa própria, construída no terreno da sogra, e um Fiat 147, comprado a 800 reais. “Mudei o banco, refiz o teto, mas o motor não precisou trocar. É 1300. Pisou e vai embora”, contou, orgulhoso. Recebe o suficiente para pagar o aluguel da loja e o salário de um auxiliar: “Tem dia que a gente ganha, tem dia que a gente não ganha. Mas nunca me preocupei com isso, dá pra sobreviver.”

Ele diz ter votado em Lula “até sair aquele negócio do mensalão”. Dali migrou para Marina Silva e, por fim, para Aécio Neves. Não sabia quem era Sergio Moro até que o juiz o intimasse a depor. “Mas ele também não sabia quem era o outro Jorge Washington”, contra-atacou. “Tanto que acabou me chamando.” Desde então, passou a acompanhar a operação da Polícia Federal. Na oficina, um pequeno rádio vive sintonizado na estação Itatiaia. “É mais notícia. Eles vivem falando desse negócio de Lava Jato”, disse.

 

O depoimento de Blanco à Justiça Federal – do momento em que ele disse “bom dia” ao momento em que o promotor fez sua última pergunta – durou parcos quarenta segundos. A constatação de que o capoteiro fora confundido com um homônimo do Banco Schahin – instituição suspeita de conluio com o Partido dos Trabalhadores – fez com que Sergio Moro desse a sessão por encerrada. Blanco, que estava usando um uniforme com o nome da capotaria, seguiu dali para o trabalho – não sem antes telefonar à esposa, para avisá-la do mal-entendido. “Quando eu apareci na televisão, aí a família acreditou”, disse.

Por insólita que era, a história à Forrest Gump se espalhou. Além de aparecer na tevê, Blanco deu entrevistas para jornais de Minas, de São Paulo e do Rio Grande do Sul. A vizinhança, em tom de pilhéria, passou a dizer que ele ia acabar preso. O capoteiro preferiu deixar a história de lado e voltou a respeitar seu protocolo diário. Acorda às 6 horas, chega à capotaria às 8, encerra o expediente doze horas mais tarde. Mia vi tá normá, explicou, no típico mineirês de quem chama ônibus de ons e alho de ai.

E assim tem sido, banco atrás de banco, forro atrás de forro – salvo pelo dia em que atendeu ao telefone para ouvir a voz de Sergio Moro. “Ele foi educado, pediu desculpas, perguntou como estavam as coisas”, contou. “Fiquei surpreso. Tanta coisa acontecendo e vai se preocupar comigo? Tem muito serviço pra ele, coitado.” Agradeceu pelo contato e afirmou não guardar mágoas do magistrado. “Acontece. Nada do que a gente faz é 100% certo”, explicou. “E no fundo eu gostei. Acho que esse meu caso vai ficar na história.” O que guarda, latente, é a pergunta que não cala, engasgada na garganta e na origem de todo o causo: “Você, que tá informado, sabe se acharam esse outro Jorge Washington?”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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