poesia

Juros de demora

Manuel de Freitas
J. CARLOS_1928_ACERVO MEMÓRIA GRÁFICA BRASILEIRA

TRAVESSA DOS GATOS

à memória de Eugénio de Andrade

Para quê mais versos?
O poema está feito, cabe
inteiro nestas sílabas de pedra
onde gostei tanto de magoar os pés.

Correm ao sol de Fevereiro
— pretos, quase brancos
e malhados — os príncipes
desta terra, os únicos.



Não te atrevas a segui-los, dona morte.

RUA DE MONTARROIO

Não sei de que fugíamos.
Dizer que era da vida pareceria
demasiado lírico, demasiado verdadeiro
— e a vida raramente aproveita a um poema.

Seja como for, a cidade
predispunha-se, aceitava calmamente
pequenos gestos de ternura,
delírios de morte apenas.
Zé dos Ossos, Trianon — os nomes
que decorei, enquanto fugíamos
da calúnia dos vinte anos.

As tardes no jardim, um pouco lúgubres,
prenunciavam a costumeira subida:
jantávamos os dois por setecentos escudos,
mesmo ao lado da taberna que não tinha mesas.

Saía barato, o amor. Por não sabermos,
ainda, que teríamos de o pagar a vida inteira
com juros aziagos e versos de demora.

QUEBRA COSTAS

Doces águas e claras do Mondego
me calaram a voz, naquela noite.
Oferecera-lhe tudo o que não tinha:
um disco de Scarlatti, o meu corpo,
coisas que dos versos tinham pó.

Nunca mais acreditei no sexo
sem amor, no amor sem sexo,
nas ginásticas sentimentais mais praticadas.

Era nossa, para sempre, a república da morte.

AGONISTES OF THE ETERNAL WAIT (1990)

Não é fácil falar
das coisas que nos matam.
Uma espécie de símio
subia a escada de Jacob,
reiterando aquém
ou além da morte
a precária escuridão das estrelas.

Mas éramos novos,
capazes de tudo. E agora,
repara, em nenhum gesto
acreditamos já. A sereia caiu
do seu nicho barroco
e passamos a beber sem açúcar o café.

Cadáveres
falando de cadáveres.

COIMBRA B
para o Luís Sousa

Não sei se noutra vida
se noutra morte, Friedrich
Wilhelm Murnau filmou-o.
Tinha um corpo franzino
como nunca vi — pose de vampiro,
desdém por toda e qualquer sereia.
Apenas perguntava por Blixa
Bargeld, na mais extrema noite da estação.

Alguém o viu? Foi, durante
anos, o meu melhor amigo.
É agora uma sombra — nada
mais do que uma sombra — a vomitar
de espanto locomotivas paradas.

ULMUS MINAR

A folha, outra folha.
Onde a tua mão repousava,
o som de uma guitarra morre,
esfacela-se na tarde
sem remédio.

O jardineiro deixou mesmo de aparecer,
e não sei muito bem como medir-lhe
a ausência, o pequeno maço de Kentucky
que escondia no bolso da farda,
junto ao gasto coração.

Quem morre (e morre sempre
alguém em versos meus)
faz de mim o espelho da sua derrota.

Mas nada posso dizer:
as folhas acumulam-se, nenhum jornal
registrará o óbito do jardineiro,
que sereia o terá levado,
esse tipo de minúcias.

THE PUNISHING KISS

Ainda tenho nas mãos a lanterna
de Diógenes, a mesma que me
levou da Sé Velha até ninguém.

Beijaram-se muito, naquela escura taberna.
Eram novos, eram talvez de outra
cidade. Mas acreditavam excessivamente
na colisão do afeto — e por pouco
os não apedrejaram, alegando por exemplo
que é proibido o amor a quem manifeste
sintomas inequívocos de estar apaixonado.
Este país, de fato, é um cemitério sem saída.

Sentado ao seu lado, preferi a cobardia
e o silêncio. Há versos — já pensaram nisso? —
que podem demorar quase tanto como a morte.

JARDIM DA SEREIA

Nem Bach, o pai, foi capaz
de eternizar esta cadência.
Em Byrd, por vezes, reencontro-a.

Junta as folhas uma a uma,
com um pequeno ancinho,
e sorri, distante, aos que se
namoram — furtivos artesãos da morte.

Um cigarro pende-lhe
da boca, todas as manhãs.
Talvez ouça, como nenhum
de nós, o canto da sereia
e estejam livres, afinal,
as mãos presas que nos salvam.

CAFÉ SANTA CRUZ

Se queres ver os tritões
— ou, se preferires, as sereias —
nos três vitrais da entrada,
deves chegar a meio da tarde
e obrigar-te a não ter pressa.
Em Coimbra morre-se devagar. É bom.

Conheci poucos lugares onde
reinasse assim o esplendor do incomum.
Cada mesa tão diferente da outra:
um pintor rústico que faz dos dedos
pincéis, dois namorados que já saíram,
com a pressa física do amor,
o velho reformado que lê pela décima vez
o jornal da véspera — ou ainda o que
registra envergonhado estes versos.
Desiguais abismos, maneiras de se
estar só, encontram aqui um abrigo
temporário, senão a própria rasura do tempo.

Pouco importa. Abandona-te, finalmente,
ao sortilégio mudo de sereias
ou tritões. É tudo o que precisas.
Uma música feliz perde-se na tarde
e as lágrimas, afinal, são uma espécie de sorriso.

CAFÉ TROPICAL

para o João Miguei Fernandes Jorge

Chegara, dessa vez, mais cedo à praça
da República. O café estava
inusitadamente cheio e houve palavras
de derrota a acompanharem
a primeira cerveja da tarde. Nem
sequer abriu o livro que trazia na mala:
uma edição mexicana, comprada
junto ao mar, de El Hombre y ia Divino.

Atrasou-se cinco minutos,
o seu amigo. Mas tudo lhe perdoou:
o atraso, os poemas, o implacável
desafio que em breve o conduziria
às piores memórias que não tinha.
Frente a frente, liam cartas
um do outro — e até nisso estavam juntos.

O susto, verdadeiro, deu-se quando
lhe pediu, sem réplica, poemas
sobre a cidade onde fugiram ambos
da embriaguez da juventude:
tabernas e corpos, diferentes maneiras
de nos ser devolvida a única
pergunta necessária — e a mais inútil.

Brincamos, somente, com os castelos
da morte. Talvez me bastasse
ter-lhe respondido que nunca escrevi
sobre nada; limito-me a anunciar
que vou morrer, com razoável certeza.
Mas foi isso, justamente,
o que não me ocorreu na altura.
Pedi outra cerveja, consegui pagar a conta.

E Coimbra, desta vez, anoitecia
mais devagar. Como se não fosse ainda
uma despedida, à entrada do Jardim
da Sereia que para nenhum de nós cantou.

Manuel de Freitas

Manuel de Freitas, poeta, crítico literário português e editor da revista Telhados de Vidro, é autor de A Nova Poesia Portuguesa e A Noite dos Espelhos.