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questões literárias

Lacunas

O poder dos livros que não lemos e que nos definem

Felipe Charbel | Edição 175, Abril 2021

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Uma vez sonhei com Harold Bloom. No sonho ele vive num teatro abandonado – que é também uma biblioteca e uma igreja – e me recebe para uma conversa. É embaraçoso estar ali, gaguejo: como não li nenhum dos livros do crítico literário norte-americano, sinto que não tenho nada a dizer. Bloom me fita com um risinho malévolo. “Sua roupa é inadequada a este santuário”, diz ele, mas fico na dúvida se não quis falar cemitério. É verdade que estou descalço e tenho os pés mergulhados em cimento fresco. Ainda assim, me comovo com a leitura que ele faz, para as poltronas vazias, de um poema que memorizei para o colégio. “Só a dor enobrece e é grande e é pura”, diz um verso, e é como se Bloom usasse um restinho de fôlego para alongar a palavra “pura”.

Anotei o sonho e voltei a dormir – isso foi em outubro de 2019, Bloom tinha morrido menos de duas semanas antes. Sonhos são como frutas e mariscos de carne delicada, que ao serem retirados do seu meio natural logo escurecem, oxidam. Por isso gosto de arquivá-los ainda frescos, num esforço de conservar o frágil tecido onírico. Raramente dá certo: às vezes acontece de reler o que escrevi e não me vir nenhuma cena, sensação, nada. Mas agora há pouco (hoje é dia 4 de março de 2021 e acabo de abrir o laudo de um exame de Covid-19 – deu negativo) aconteceu algo insólito: o sonho com Bloom emergiu num flash, se soltou da lama do esquecimento para vir boiar na superfície das minhas ondas cerebrais.

 

Dois traços me definem como leitor: a voracidade e o sentido de déficit. Leio rápido e leio muito (a ansiedade é soberana nos meus dias), mas não dou conta de sanar minhas faltas: a biblioteca de lacunas é mais sedutora que uma parede coberta por livros lidos.

Desconfio que as lacunas são o que existe de mais valioso na composição química de um leitor. Elas nos individualizam tanto ou mais que aquilo que absorvemos – as cenas, frases, tons e ritmos dos livros que amamos e que nos formaram. Lacunas são como janelas, vias de acesso ao que nem sempre compreendemos com clareza sobre as nossas escolhas literárias – por exemplo, os livros que retiramos da estante para pôr numa pilha sobre a cômoda e passam meses ou uma vida pegando poeira. Lacunas também são como rastros, vestígios: elas revelam implicâncias, deserções, interesses, caprichos, utopias. Leitores são formados de espaço vazio na mesma proporção que a Terra é em grande parte feita de ar, e a superfície em que ela se apoia é puro vácuo, o nada.

Carregamos a biblioteca de lacunas para todo lado – ela é portátil. Tanto as listas de títulos que nos vemos compelidos a ir riscando (as lacunas formativas) como as leituras que guardamos para o “momento certo” por acreditar que nos trarão alegria (as lacunas amorosas) nos servem de lembrete: dar forma a si mesmo é um trabalho de Sísifo.

 

Em 1780, aos 31 anos, Goethe se referiu a uma “tarefa diária” que exigia sua “plena presença, na vigília e em sonhos”: a formação, aquilo que os alemães chamavam, não sei se ainda chamam, de Bildung. O propósito desses rigores era “levantar o mais alto possível a pirâmide” da própria existência (o trecho está numa carta que o crítico Marcus Mazzari cita e traduz em seu livro Labirintos da Aprendizagem). Acho essa analogia esplêndida, e assustadora. Erguer uma pirâmide no meio do deserto, sem ajuda de ninguém, carregando blocos de pedra que servem de matéria-prima ao edifício de nós mesmos (os livros que lemos e sobretudo os que nos faltam ler): a Bildung é tarefa impossível.

Daí a ânsia – quase sempre retrospectiva e lamuriosa – de começar, de ter começado cedo. Em Trance, pequeno glossário sobre o “vício gratuito, benéfico, generoso” que é a leitura, o escritor argentino Alan Pauls sugere que “não existe leitor verdadeiro que não tenha sido um leitor precoce”. Se é assim estou lascado, pensei quando li essa frase. Me vejo como o oposto do precoce: sou um retardatário, alguém que entrou com atraso na corrida e sabe que jamais vai recuperar o tempo que perdeu. Um leitor sem qualidades: me faltam a memória vigorosa, a concentração férrea, a sólida base cultural, a dieta onívora. Como leitor, estou mais para hedonista do que para disciplinado. Quanto aos rigores da formação, melhor deixar para amanhã.

Por falar em precocidade e em tempo recuperado, Marcel Proust – Em Busca do Tempo Perdido é uma das minhas lacunas mais opressivas – se refere às suas leituras de meninice de modo tocante: “Talvez não haja, em nossa infância, dias que tenhamos vivido mais plenamente do que aqueles que acreditamos ter perdido sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido.” Não me recordo de dias assim quando era jovem, apesar de ter convivido desde sempre com lindas coleções de Júlio Verne (escritor de afeição do meu pai) e Monteiro Lobato (minha mãe devorou na infância). Lacunas irrecuperáveis. Eram edições lindas, de capa dura, e ainda assim a criança que fui só recorria a elas para erguer fortificações apache na sala de estar. Talvez por isso a consciência dos vazios me pareça aflitiva: sinto que desperdicei os meus melhores anos de leitor. No colégio era a mesma coisa. Passava colando nas provas do livro e decorava sem entender poemas de Manuel Bandeira. Poemas que, trinta anos depois, voltariam para me assombrar na voz de um crítico norte-americano soturno que nunca li: “O mundo é sem piedade e até riria da tua inconsolável amargura.”

Mas existe um outro lado nessa história. Tenho a impressão de que o desconsolo com as leituras que não fiz – e possivelmente não farei – é um modo de exteriorizar a revolta contra a morte. Se houvesse “tempo e mundo suficientes” para percorrer os livros que desejamos, ou não desejamos, mas supomos que nos fariam leitores mais afiados, não precisaríamos reencenar, diariamente, a escolha de Sofia sobre o que ler agora e o que deixar para a semana que vem, para nunca. Adquirir consciência das lacunas – e se martirizar por elas – é etapa essencial na autoconstrução de um leitor. “Por maiores que possam ser as leituras ‘de formação’ de um indivíduo”, o escritor italiano Italo Calvino reconhece em Por que Ler os Clássicos, “resta sempre um número enorme de obras que ele não leu.” Até Harold Bloom, em O Cânone Ocidental, aparentemente a contragosto, admite que “quem lê tem de escolher, pois não há, literalmente, tempo suficiente para ler tudo, mesmo que não se faça nada além disso”.

 

As lacunas formativas são como rachaduras. Primeiro elas corrompem a parede do quarto, depois ameaçam engolir a casa inteira, até que se revelam buracos negros capazes de engolir o universo. Não passa um dia sem que demandas de novos saberes nos sejam apresentadas, e que cânones alternativos se somem aos velhos (e é bom que seja assim). As lacunas não trabalham com a lógica do “ou”, e sim da adição, do “e”. Em 1957, o escritor polonês Witold Gombrowicz – que mantinha um diário em público meio século antes do Facebook – reconheceu que o sentido de defasagem é inerente à complexa experiência cultural moderna: é como se a vida adulta fosse a constante atualização do pesadelo em que nos vemos sem roupa numa sala de aula ou no meio da rua. “Interiormente, não somos capazes de estar no nível da nossa cultura: é um dado que até agora não foi suficientemente considerado e que, no entanto, é decisivo para a tonalidade da nossa ‘vida cultural’. No fundo, somos uns eternos pirralhos.”

Me interesso por diários como o de Gombrowicz, esses diários de grandes ficcionistas, é um vício que tenho. E algo que me move nessas leituras é observar como se viravam com suas lacunas. Em 18 de fevereiro de 1922, aos 40 anos, Virginia Woolf anotou o seguinte: “Quero ler as cartas de Byron, mas tenho de continuar com La Princesse de Clèves. Esta obra-prima há muito me ficou na consciência. Eu falar de ficção sem ter lido este clássico! Mas ler clássicos é em geral penoso.” É um conflito que leitores vacilantes enfrentam com frequência: o compromisso com as lacunas formativas (as que evocam um sentido de dever) versus a atração irresistível pelo que desejamos agora, não amanhã. Lacunas amorosas falam do ímpeto, da vontade, do instante – as cartas de Byron, no caso de Woolf.

 

É possível conviver de maneira menos ansiosa com as leituras que não fizemos, com as lacunas que temos consciência de que não vamos preencher no espaço de uma vida? Em 2007, o ensaio Como Falar dos Livros que Não Lemos?, do crítico e psicanalista francês Pierre Bayard, se tornou um best-seller. A obra investiga o papel da “não leitura” nas interações da vida social e traz uma espécie de elogio das lacunas.

Na época dei boas risadas com o livro – reli há pouco tempo e senti que envelheceu bem. Bayard sugere que todos mentem, mais do que estão dispostos a admitir, sobre as próprias leituras (ou não leituras). Frequentemente nos pronunciamos, até com eloquência – em rodas de conversa ou mesmo em sala de aula –, sobre livros que no máximo folheamos. Bayard defende que não devemos nos sentir culpados por isso, pelo contrário. “É perfeitamente possível manter uma conversa apaixonante a propósito de um livro que não se leu, inclusive, e talvez sobretudo, com alguém que também não o leu.”

É que a lógica da formação literária se fundamenta no acúmulo, no cumprimento de requisitos – e isso encoraja a correria. Na página 2 nos esquecemos do que vimos na página 1. O que dizer, então, de obras que percorremos quinze ou vinte anos atrás? Difícil imaginar que “a leitura” ficou conservada em naftalina nas gavetas da mente, e permanece ali, intacta, para quando precisarmos. Para Bayard, a noção de “livro lido” deve ser repensada: com frequência são apenas títulos que riscamos em listas de obrigatoriedades, listas que, afortunadamente, estamos sempre reescrevendo em função da dinâmica cultural. Quantas vezes me espantei com sublinhados e anotações a lápis em um livro, provas contundentes de que estive ali, mesmo que não me recorde? Leituras que não se firmaram, que apaguei da memória: mal chego a me dar conta de que elas também são lacunas.

O lado jocoso é um ponto a favor do livro: não desdenho do que me faz rir. Mas a abordagem sofística sempre conduz a paradoxos. A sacada de Bayard é propor que a não leitura é “uma verdadeira atividade, que consiste em se organizar em relação à imensidão de livros, a fim de não se deixar submergir por eles”. Mas fica a impressão de que só os vazios de formação interessam, assim como as táticas para reverter as lacunas a nosso favor (falar com eloquência dos livros que não lemos). Além disso, Bayard apenas tangencia aquilo que, num dos seus ensaios mais notáveis, o crítico francês Roland Barthes chamou de “prazer do texto”. Nada substitui os júbilos e desconfortos – inclusive físicos – da leitura. Às vezes um livro se enfurna por anos num cantinho da mente para um dia vir à tona e nos encurralar numa tocaia – mais ou menos como aconteceu comigo no sonho que tive com Bloom.

 

Nos diários de Susan Sontag, a ânsia de preencher lacunas adquire a forma de listas de livros, filmes, listas de tudo – títulos que a diarista vai riscando à medida que cumpre os encargos que ela própria, mais ninguém, impôs a si mesma. “Ler Memórias Póstumas de Brás Cubas”, ela assinala de modo imperativo em 20 de dezembro de 1960, aos 27 anos (décadas mais tarde a autora americana escreveria um ensaio que transformou a recepção de Machado de Assis nos Estados Unidos). Numa leitura rápida, o diário de Sontag talvez servisse de exemplo do que Alan Pauls, em Trance, chama de “precoce prodígio”: alguém que “não sabe que não sabe” e, “impulsionado por uma inclinação natural, madrugadora, se limita a lançar-se sobre o seu objeto como um predador”. Antes de completar 18 anos, Sontag tinha devorado os diários de Gide, A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e se engajara não na leitura, mas na releitura do De Rerum Natura, de Lucrécio. Ainda assim, o seu diário está marcado desde a adolescência pela percepção angustiante dos hiatos – o que remete ao segundo tipo de precocidade a que Pauls se refere, a “relação frustrada, desequilibrada, fora de escala, entre um sujeito e um objeto de desejo em relação ao qual não se sente à altura”.

Em 12 de junho de 1975, aos 42 anos, Sontag se mostra exultante ao ler pela primeira vez Frankenstein, de Mary Shelley – situação em que a lacuna formativa e a lacuna amorosa se tocam, são a mesma coisa. Para Italo Calvino, o encontro tardio com um clássico é uma das alegrias supremas que um leitor pode ambicionar: “Ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário.” Isso quer dizer que as lacunas amorosas podem ser cultivadas deliberadamente, como estratégias dilatórias de leitores hedonistas.

Já para os leitores disciplinados, a pergunta “O que ler?” pode soar ofensiva: a única brecha para a escolha diz respeito à variável tempo. Devemos ler o que nos cai nas mãos, só precisamos definir a ordem. Em outubro de 1967, aos 38 anos, o escritor peruano Julio Ramón Ribeyro escreveu sobre a glutonaria literária, o anseio de provar um pouco de cada gênero. “Leio praticamente tudo, talvez porque ainda não consigo me livrar de uma concepção caduca de cultura: a do homem universal, aquele que deve saber tudo. Como nesta época é impossível saber tudo, só o que consigo é não saber nada bem e saber tudo mal.”

 

Por que é que não li os livros que escolhi não ler? Com a autoridade de leitor retardatário e além de tudo dispersivo, digo que os hedonistas literários se deleitam com os prazeres da protelação. Livros que me atraem quando leio sobre eles num diário, num ensaio, quando são mencionados numa conversa de bar – por que é que preferi adiar o contato com eles?

Nesse último ano, talvez como passatempo pandêmico ou modo de escapismo em relação às mazelas cotidianas, listei uma série de explicações – um tanto vagas – para o fato de me esquivar, seguidamente e de modo compulsivo, de obras que em algum momento conquistaram a minha afeição, antes mesmo de travar contato com elas. Montei uma tênue tipologia dessas lacunas amorosas:

A lacuna interessada – Por tudo que me relataram, pelo que li a respeito, tenho curiosidade, desejo, sinto que pode ser o livro da minha vida. Mas adio porque a lógica utilitarista não me move, não na leitura: sou imediatista, penso nos deleites que posso ter aqui e agora. No comecinho da graduação, li um ensaio do historiador e antropólogo norte-americano James Clifford sobre Joseph Conrad. Mas não li Conrad, com exceção de Coração das Trevas. Ainda assim, fui acumulando leituras sobre ele: um livro de Edward Said, uma biografia de mil páginas, sempre me preparando para o contato, que antevejo fulminante, com a “coisa real”. Só que o excesso de entusiasmo acaba se convertendo em bloqueio, em anteparo. E sigo postergando.

A lacuna como presente que nos ofertamos – Lembro do verão, não faz muito tempo, em que finalmente me ocupei de Guerra e Paz: foi o que me aconteceu de mais surpreendente em matéria de vida naqueles meses que passei trancado em casa, com o ar-condicionado na máxima potência. Li quase tudo de Tolstói bem cedo (relativamente cedo, cedo para os padrões de leitor retardatário de 20 e tantos anos). Mas Guerra e Paz eu guardava para depois, um mimo que oferecia a mim mesmo. Fui acumulando edições, primeiro a da Itatiaia, de letras miúdas, depois a da Cosac, lindíssima. Vivia me dando de presente essa lacuna. Até que um dia peguei o livro num impulso e ele me fez tão feliz como imaginei que aconteceria. São prazeres que damos por certo, e que talvez por isso nos inclinamos a deixar suspensos, sempre à espera da condição propícia que no entanto não vai vir, não do jeito que fantasiamos: um fim de semana emendado com dois feriados, um mês de férias, o ano sabático, a recuperação de uma enfermidade que não é séria, mas nos obriga a passar muitas horas na cama.

A promessa do tédio – Como alguém que estuda as formas da escrita íntima, um leitor de diários, memórias, cartas, biografias e autoficções, pode não ter lido Em Busca do Tempo Perdido? Beira a ofensa (mas quem é o ofendido aqui?). Muito na minha existência de leitor converge para Proust, mas aqueles sete volumes em prosa lenta, as frases longas, as tias e os tios, as refeições intermináveis, tudo isso me faz sentir por antecipação o que é atravessar as planícies do aborrecimento. Alguns livros que cultuo, e reli algumas vezes, prometem o tédio de modo mais firme que Proust: O Enigma da Chegada, de V. S. Naipaul, Austerlitz de W. G. Sebald. É possível que a promessa do tédio, aqui, venha acompanhada de algo mais.

A lacuna supersticiosa – Todas as vezes que iniciei Em Busca do Tempo Perdido alguma coisa me interrompeu, intromissões da “realidade objetiva”, algo que vinha de fora. Perdi o livro no metrô (mas que ideia ler Proust no metrô…), tive um desentendimento conjugal, afazeres repentinos me fizeram interromper a leitura. Quando isso acontece, o livro se torna um talismã às avessas, e até sua presença na estante soa como agouro, marca do imponderável sempre à espreita. Um dia terei que me dar Proust de presente, do mesmo jeito que fiz com Guerra e Paz.

A evasão do difícil – Encontrei os diários de Virginia Woolf num sebo virtual, e como a loja fica perto do meu trabalho pedi que guardassem o exemplar para mim. “Uma vez tentei ler um livro dela, Ao Farol, mas não passei da página 2”, o livreiro confessou. “Mas é tão bonito”, disse a ele, sem me lembrar que tudo o que sei a respeito foi o que li em Mimesis, a obra-prima do crítico literário alemão Erich Auerbach. Acabei dando por lido o clássico de Woolf.

As aversões imprescindíveis – Acontece de nos sentirmos atraídos pela poética de uma escritora ou de um escritor, ou pelo que fantasiamos sobre essa poética. Mas ao mesmo tempo podemos abominar o séquito, os seguidores, que mais parecem adeptos de um culto que leitores de percepção aguçada. É o que sinto em relação a David Foster Wallace: li os seus ensaios e achei brilhantes, gostei de um conto ou outro, mas ao me recordar de conversas com os seus apóstolos, das certezas que eles tinham sobre como Graça Infinita mudaria a minha percepção do mundo, preferi adiar (quase escrevi odiar).

A chegada tardia – Na última viagem que fiz, em plena pandemia, me deparei com uma coleção de Júlio Verne em capa dura na casa do meio do mato, similar à que eu usava de tijolo nas minhas fortificações da infância. Tirei uma foto e mandei para um amigo. Ele foi enfático: leia Miguel Strogoff, fui feliz aos 15 anos na companhia desse livro. Mas aos 43, entendi que o prazo de validade daquela leitura já tinha vencido. Aconteceu algo semelhante quando, num impulso, comprei Trópico de Câncer, de Henry Miller, num balaio de saldos: li cinco ou seis páginas e me achei passado, rançoso, velho para aquele livro. Ernest Hemingway também entra aqui. E no entanto como posso abrir mão de ler Hemingway se ele é o escritor preferido de alguns dos meus escritores preferidos?

 

Até para escrever este ensaio sinto que precisaria ter lido mais. Acontece que quanto mais eu leio mais me dou conta de tudo o que me falta ler: escrever sobre as lacunas é um jeito de me desapegar delas, de não transformá-las em fetiche. O repertório de vazios é elástico, infinito – se todos lêssemos as mesmas coisas, e do mesmo jeito, só haveria um único leitor, um Arquileitor, materialização de uma cultura fechada em si mesma, estática, morta. Ler é uma escolha. Deixar para depois, também.