poesia

Lampejos históricos e pataphysicos

Lampejos históricos e pataphysicos

Zuca Sardan
ILUSTRAÇÃO: ZUCA SARDAN_2006

CROMAGNONS
LAMPEJOS PATAPHYSICOS

EVOLUÇÃO
A evolução das espécies
já é o começo
da luta de classes.

VERMES
Os vermes do cadáver
do rei não falam
com os vermes
da carcaça do padeiro.

IMPREVIDÊNCIA
Bem houvéssemos
preservado os Cromagnons!…
Teríamos de novo
reserva de mão-de-obra
robusta!… e bem baratinha.

DEPOIS
E depois?…
Quem enterrará
o Coveiro?

POMBAS
Eis que um dia…
as pombas do Raymundo
cismaram de voltar!…
Uma caolha, a outra
perneta, a terceira
sem asas, a quarta
sem cabeça…

 

ABAGUM
LAMPEJOS HISTÓRICOS

PAUSÂNIAS
“Pausânias e Varrão
chamam de Aede
uma das três musas.”
“E as outras sete?”
“Outras sete?…
São tantas assim?”

AARÃO
“Aarão trepou numa aavora…”
“Mocinha?…”
“Aavora é uma palmeira.”
“Mas por que com dois aas?”
“Meio que rima com Aarão.”

ORÁCULO
Cumpriu-se oráculo
de Apollo… o Rei da Hungria
comendo meio abacate
acompanhado dum bispo ciríaco
conquistou cidade da Fócia.

ATAHUALPA
Antes de matar Atahualpa
Pizarro o fez batizar.
De tristeza morreu…
seu pássaro dileto
o fiel abagum.

 

 

FARNIENTE
IMBRÓGLIO

Plutone, Fumegas e o Retrato de Monalisa, no luxuoso salão do Cassino Hades.

(PLUTONE, ressentido): – Embora seja um segredo absoluto, todos secretamente sabem que o Cassino Hades é insuperável por seu Luxo, Farniente e belas maçãs. A Mansão Celeste, tediosa rival, não tem nossos matreiros encantos termais.
(FUMEGAS, com brio): – A Mansão Celeste é muito sisudona… própria pra beatas e encarangados santarrões!… Não pode competir com o Cassino Hades!… e suas termas sulfurosas, suas maçãs gostosas… e seu… Luxo!!… e seu… Farniente!!…
(PLUTONE, pigarro): – Luxo e Farniente pra mim, Fumegas. E pra Nossa Família. Mas não necessariamente pros inquilinos. Eles não pertencem ao Quadro. Pra eles, certamente… as Termas Profiláticas. Afinal… eles precisam ser tratados.
(FUMEGAS): – Vosso lema pros inquilinos seria então?… Rídere sempre piú!…
(PLUTONE, amável, modesto): – O lema está na porta, Fumegas, mas não convém mencioná-lo na entrevista, pra não criar mal-entendidos que provoquem eventual afastamento de nossos clientes potenciais. Afinal… a competição é sem quartel.
(FUMEGAS, manhoso): – Ora, dizei lá, meu Príncipe, pra apimentar nossa entrevista.
(PLUTONE, melancólico): – Melhor não, Fumegas, não quero te assustar.
(FUMEGAS, airoso): – Ora, eu não sou de me impressionar assim à toa…
(PLUTONE, triste): – Por enquanto, ainda não. Mas depois… nunca se sabe.
(FUMEGAS, pálido): – Oh, Príncipe!… que susto me pregais!…
(PLUTONE, bocejando): – Deixa pra te agoniar na hora certa. Eia sus, Fumegas… a vida é curta, mas cheia de voltas. Aproveita, enquanto possas. Rídere…
(FUMEGAS, comovido): – Sábio, prudente conselho, Majestade… mas inesperado, vindo do elegante, mas amargo, Príncipe-Filósofo do Cassino Hades…
(PLUTONE, dúbio sorriso): – O gato gosta de brincar com o rato, antes da bocada final (mostra o tremelicante linguão). – Glu-Glu-Glu-Gluuuuuu… Ô-rô-rô…
(MONALISA): – Quo-Quo-Quoooo!!… Vai te preparando, Fumegas…
(FUMEGAS): – A Monalisa me sorriu!!… com uma furtiva olhada…
(MONALISA, suspirinho): – Acho que gostei… de teu charme escolástico. Ai!…
(FUMEGAS): – Tão mimosa!… mas fingidinha… esse muxoxo… não me engana.
(MONALISA, irada): – Paspalho!!!… Bruaca!… BROOOOOOOOOXAAA !!!…
(PLUTONE): – Melhor não a assanhares, Fumegas… ela não é a Beatriz…
(FUMEGAS): – A Beatriz do Dante? Creio que não, com tão possante bustão. O Florentino é sóbrio, discreto… não saberia como lidar com tal exuberância…
(PLUTONE): – Queixudo ele é… mas nem tão genial assim… Prefiro o Nero.
(FUMEGAS, chocado): – O Nero?… Um cantor medíocre, um infame versejador.
(PLUTONE): – Um poeta genial, que foi muito além de Édipo, no trágico sublime.
(FUMEGAS): – Ora, o Édipo matou o pai! Um trágico sofocleano…
(PLUTONE, bocejão): – E o Nero comeu a mãe. Pergunta só pra Agripina…
(MONALISA, comovida, em lágrimas): – E tacou fogo em Roma… Fogo!!… Fogo!!…
(PLUTONE): – Nero tocou a lira iluminado pelas chamas… Um artista, Fumegas!… Afinal, o Édipo matou o Laio e casou com a Jocasta meio sem saber quem eram, e quando lhe contaram, de remorso se cegou. Ao passo que o Nero comeu a mãe sabendo, e gostou. Botou fogo em Roma e nunca se arrependeu. Ô-Rô-Rôôôôôôô!



Zuca Sardan

Zuca Sardan é escritor, poeta e desenhista. Publicou a comédia farsesca Babylon: Mystérios de Ishtar, pela Companhia das Letras