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A antinovidade

    Leandro Vieira com fantasias que criou para a Mangueira em 2017 e 2020: “Dizer que o Carnaval não passa de festa popular é um modo de diminuir o pensamento cultural de pobres e negros” CRÉDITO: FE PINHEIRO_2023

vultos do carnaval

A antinovidade

Como Leandro Vieira se tornou o carnavalesco mais proeminente do seu tempo desafiando as artes visuais

Thallys Braga | Edição 209, Fevereiro 2024

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No primeiro dia de março de 2023, uma semana depois do Carnaval, era como se a festa ainda não tivesse acabado no barracão da Imperatriz Leopoldinense. Costureiras, artesãos, serralheiros e carpinteiros circulavam pelos corredores da escola de samba assobiando, trocando tapinhas nas costas e distribuindo sorrisos. Eles tinham motivo para tanta satisfação. Depois de 22 anos sem glória, a Imperatriz Leopoldinense havia arrebatado o título de campeã dos desfiles no Sambódromo. Numa sala no terceiro andar do barracão, aonde se chega por um barulhento elevador hidráulico, descansava o principal responsável pela alegria daquelas pessoas: o carnavalesco Leandro Vieira.

Suas olheiras características estavam ainda mais fundas, como se ele tivesse atravessado várias noites em claro. “No mês que vem vamos começar a desmontagem dos carros”, disse Vieira, enquanto caminhava na direção da porta do seu escritório. Dali, tem a visão panorâmica do galpão em que carros alegóricos e fantasias são montados e desmontados. “Tudo isso só faz sentido enquanto passa na avenida, durante a magia da noite de Carnaval. Não dá para guardar nada. Mas eu acho que o desmonte deveria ser público. Por mim, botava tudo para fora e deixava verem o quebra-quebra.”

O que Vieira sugeria é que fossem desfeitos diante do público os cinco grandes carros alegóricos que ele criou para o desfile sobre Lampião apresentado pela Imperatriz Leopoldinense em 21 de fevereiro do ano passado. No enredo escrito pelo carnavalesco, o Rei do Cangaço, depois de morto, tenta entrar no Inferno e depois no Céu, mas é expulso de ambos. Daí o título da apresentação, O aperreio do cabra que o Excomungado tratou com má-querença e o Santíssimo não deu guarida, inspirada em folhetos dos cordelistas José Pachêco da Rocha, Guaipuan Vieira, Rodolfo Coelho Cavalcante e Moreira de Acopiara. O espírito de Lampião, recusado pelo Diabo e por Deus, só encontra repouso de fato no imaginário popular brasileiro.

A vitória com a Imperatriz Leopoldinense foi a terceira que o carnavalesco obteve no campeonato do Grupo Especial, que atualmente reúne as principais escolas do Rio de Janeiro: Beija-Flor, Grande Rio, Mangueira, Mocidade, Paraíso do Tuiuti, Portela, Porto da Pedra, Salgueiro, Unidos da Tijuca, Vila Isabel e Viradouro, além da Imperatriz Leopoldinense. Muitos carnavalescos passam décadas buscando o troféu principal. Em apenas sete anos, Vieira obteve três vitórias na primeira divisão. As duas primeiras foram para a Mangueira: em 2016, logo na sua estreia, aos 32 anos, e em 2019.

Por isso, Vieira é tido como um ponto fora da curva. A curadora e crítica de artes plásticas Daniela Name o situa no centro de uma nova “geração de narradores” do Carnaval, um grupo que surgiu durante a crise financeira e política dos últimos anos e decidiu privilegiar nos desfiles a força do discurso em vez dos efeitos visuais.

Até meados dos anos 2010, o Carnaval do Rio viveu uma fase de fartura financeira, com patrocinadores derramando dinheiro nas escolas, como ocorreu com a Beija-Flor em 2015. Naquele ano, a agremiação de Nilópolis venceu na Sapucaí com uma homenagem luxuosa à Guiné Equatorial, financiada pelo ditador Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, que governa o país desde 1979 e investiu 10 milhões de reais no desfile. Quem ditava as tendências no período era o carnavalesco Paulo Barros, na Unidos da Tijuca. Em 2010, ele apresentou uma comissão de frente em que seis mulheres trocavam cinco vezes de roupa em poucos segundos – um truque que custou 200 mil reais na época. “Isso criou um padrão para as outras escolas”, diz Name. “As pessoas assistiam esperando um apogeu tecnológico, um efeito cênico.”

Veio então a fase de vacas magras, ampliada durante a gestão do prefeito Marcelo Crivella, que cortou os recursos oficiais dados às escolas. “Não havia mais salários trilhardários para os carnavalescos, nem desfiles banhados de dinheiro. As escolas foram obrigadas a procurar alternativas que não custassem tanto. E a nova geração encontrou um caminho: se apoiar nas histórias bem contadas”, explica a curadora. Enquanto isso, a crise política se ampliava no país, com o impeachment de Dilma Rousseff e a ascensão de Jair Bolsonaro. “Essa nova geração fez os desfiles voltarem a ser calcados naquilo que o Carnaval tem a dizer ao país.”

Nesse cenário, o jornalista Aydano André Motta, autor de Blocos de rua do Carnaval do Rio de Janeiro, chegou a chamar Vieira de o mais importante artista do Carnaval em atividade. “Basta comparar com a trajetória de Renato Lage (quatro conquistas em 42 Carnavais) e Alexandre Louzada (seis vitórias em 36 desfiles)”, escreveu Motta em um artigo no jornal O Globo. Louzada é atualmente o carnavalesco da Unidos da Tijuca; Lage está num ano sabático.

Vieira, ele mesmo, aparenta pouca pretensão. Avalia que não provocou tantas transformações assim no Carnaval nem deixará um grande legado às futuras gerações. “Isso nunca passou pela minha cabeça”, diz ele. “Para início de conversa, eu nem queria ser carnavalesco.”

 

Foi a necessidade, e não o desejo, que levou Leandro dos Anjos Vieira Ferreira às escolas de samba. Ele queria ser artista plástico e se dedicar à pintura. “Sempre gostei do subúrbio e das suas pessoas, expressões e ambientes. Era isso que eu queria pintar.” Aos 17 anos, entrou para o curso de pintura da Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Era a primeira vez que um membro da sua família cursava o ensino superior.

Vieira é o mais velho de três filhos e passou a infância no Jardim América, bairro da Zona Norte do Rio. A mãe, costureira, e o pai, vendedor, tinham uma pequena loja de tecidos, que funcionava de segunda a segunda.

Os filhos de Elizabeth passaram muitas tardes ao pé de sua máquina de costura. Ela trabalhava ao som do disco Álibi, de Maria Bethânia, uma paixão que foi passada ao pequeno Leandro. “Mas nunca tive muito interesse pelas roupas que minha mãe fazia, nem pelo processo de criação”, diz o carnavalesco. Ele preferia desenhar, se isolando em algum canto quieto com canetas e papéis. O irmão do meio, Felipe, conta que, quando ganhou miniaturas dos dinossauros do primeiro Jurassic Park, Vieira desenhou os personagens humanos do filme e os recortou para aprimorar a brincadeira.

O Carnaval que o menino conhecia era o dos grupos de mascarados que passavam na sua rua batendo balões de plástico no chão de paralelepípedo – os chamados clóvis ou bate-bolas, com suas roupas coloridas e máscaras de arame com furos nos olhos e no nariz. “Eu queria estar entre eles, mas a minha mãe nunca deixou”, conta Vieira. “Ela dizia que a fantasia era muito quente e que andar em bando podia ser perigoso.”

Nas noites de desfile na Marquês de Sapucaí, os pais colocavam a tevê no quintal de casa para assistir à passagem das escolas de samba enquanto faziam um churrasco. As crianças brincavam até cansar, depois repousavam em colchonetes estendidos no chão. “Eu dormia, acordava, dormia de novo, acordava para tomar café, e aquela festa colorida continuava passando na televisão.”

Na adolescência, Vieira fez todos os cursos de uma escola particular de artes visuais, desde desenho até aquarela. Também começou a frequentar a Sapucaí, levado por um casal de vizinhos. As suas referências vêm dessa época, dos desfiles a que assistiu entre espantado e fascinado, principalmente os dos carnavalescos Renato Lage e Rosa Magalhães.

Lage elevou e refinou o uso da tecnologia na Sapucaí, defendendo a Mocidade. Em 1993, elaborou uma alegoria em que o gigantesco boneco de um menino com joystick na mão jogava videogame na tela dos próprios óculos. “Quando eu acho que fiz algo parecido com o modo de fazer do Renato Lage, é sinal de que está começando a ficar bom”, diz Vieira. Nos anos 1990, a concorrência de Lage era Magalhães, que defendia a Imperatriz Leopoldinense com desfiles barrocos, em que o narrativo predominava sobre o visual. A disputa foi frutífera para ambos os veteranos. Nos doze campeonatos de 1990 a 2001, só quatro vezes a vitória não foi de um dos dois. “Para ser bom carnavalesco, é preciso ter 1% de inspiração e 99% de transpiração”, me disse Magalhães. “O ponto a que eu quero chegar é o seguinte: o Leandro representa a síntese do bom carnavalesco.”

Ainda estudante, Vieira se deu conta de que seria difícil ganhar dinheiro com a atividade artística. “Um dia, desci as escadas da Escola de Belas Artes correndo e passei por um mural no sexto andar com anúncio de vagas de estágio remunerado na Liga Independente das Escolas de Samba do Rio”, conta. Tomou um ônibus até os barracões e bateu no portão da Mangueira, mas disseram que ali não tinha vaga de trabalho. Ele então se dirigiu ao galpão do lado, o da Grande Rio, e pela primeira vez em muito tempo respirou aliviado. “Me chamaram para trabalhar como empreiteiro e aderecista.” Isso significava passar dias e noites cortando placas de acetato e decorando os carros alegóricos. Vieira percebeu logo que a função era, nas palavras dele, “horrível, repetitiva e pouco estimulante”.

Na Grande Rio, deparou pela primeira vez com um carnavalesco, mas o contato não foi nada bom. A escola era comandada por Joãosinho Trinta, o no­me mais importante do Carnaval naquele tempo. “Eu conheço a obra do João de trás para a frente. Sei de todas as suas qualidades artísticas. Mas havia um trato grosseiro comigo e com os que me cercavam”, diz Vieira. Ele observava o chefe de longe, com “medo da grosseria”. Lembra uma ocasião em que Joãosinho Trinta ficou tão insatisfeito com o trabalho dos artesãos que quebrou os espelhos afixados em um carro alegórico.

Vieira decidiu deixar o trabalho e, sem outra oportunidade em vista, restou se dedicar aos estudos. Os últimos anos que passou na UFRJ coincidiram com um movimento que ocorria no Centro da cidade e que ele considera fundamental à sua formação artística: a retomada da vida noturna nos Arcos da Lapa. “Frequentei muitas rodas de samba, me envolvi no Pagode da Tia Doca, aprendi a tocar instrumentos.” Quando se deu conta, estava em Madureira, integrando a bateria da Portela como ritmista.

Começou tocando cuíca, depois foi para o tamborim. Em 2006, aos 23 anos, já com um diploma na mão, mas sem dinheiro no bolso, decidiu procurar emprego no Carnaval outra vez. Reuniu seus desenhos e pediu a Nilo Sérgio, mestre de bateria da Portela, que os entregasse para os carnavalescos da escola. A dupla Amarildo de Mello e Cahê Rodrigues viu os esboços e recrutou o rapaz para a equipe criativa do desfile. Sua primeira função foi colorir os figurinos que outras pessoas desenhavam. O trabalho agradou aos carnavalescos e, dali em diante, Rodrigues passou a levá-lo para onde fosse. Em 2009, como assistente, Vieira já cuidava de todos os aspectos dos desfiles, dos esboços dos carros alegóricos até a escolha de tecidos para as fantasias.

Ele hesita em falar do fim da parceria com Rodrigues, mas a história é contada com desembaraço pelo antigo chefe. Eles estavam na Imperatriz Leopoldinense, em 2013, produzindo um desfile sobre o jogador Zico. Vieira era o figurinista e supervisionava o trabalho no barracão, mas também fazia parte da equipe de criação da Grande Rio. “Leandro tinha autorização para trabalhar com outros carnavalescos, desde que fosse discreto, para não desagradar a chefia da nossa escola”, lembra Rodrigues. A notícia do duplo emprego, porém, se espalhou pela Cidade do Samba – o local onde as escolas preparam seu desfile –, o que desagradou Rodrigues e a direção da Imperatriz Leopoldinense. Em 2014, depois do desfile, Vieira foi demitido.

Prestes a fazer 31 anos e apavorado com o desemprego, ele resolveu aceitar a primeira oportunidade que surgisse. Poucas semanas depois da demissão, foi convidado a ser carnavalesco pela primeira vez pela Caprichosos de Pilares, na época em nono lugar no ranking do Grupo de Acesso, a segunda divisão do campeonato carioca. “Nenhum artista queria fazer o Carnaval da Caprichosos. O salário era baixíssimo”, diz Vieira. “Se eu não tivesse desempregado, provavelmente também não aceitaria o convite.”

Com pouca experiência e pouco orçamento, ele fez o que pôde. A dois meses do desfile, quase nada estava pronto. Recrutou a mãe, os irmãos, a cunhada e amigos de infância para preparar as alegorias e fantasias que havia desenhado sozinho. A Caprichosos de Pilares terminou o Carnaval de 2015 em sétimo lugar na disputa do Grupo de Acesso – e Vieira se viu outra vez no limbo do desemprego. Então, quando o desespero ia começar a bater, uma porta se abriu na Estação Primeira de Mangueira.

 

A barba e os poucos cabelos de Leandro Vieira já foram da cor de ferrugem. Aos 40 anos, os fios brancos são cada vez mais numerosos e os cabelos estão ficando mais ralos. Ele quase sempre está de boné e, quando caminha, os ombros caídos lhe dão um aspecto juvenil. Parece ter consciência do tom altivo que usa para falar de si, tanto que eventualmente se esforça em parecer modesto, como ao dizer: “O convite para fazer a Mangueira também só chegou para mim porque a escola não tinha dinheiro.”

Em 2015, a verde e rosa estava mesmo na pior. Terminara o desfile daquele ano na décima posição no Grupo Especial, cujo campeonato não ganhava havia treze anos. O presidente da escola, Chiquinho da Mangueira, dizia à imprensa que a situação nada tinha a ver com o cofre da escola, enquanto procurava alguém capaz de fazer milagre com o orçamento minguado.

Chiquinho, que era também deputado estadual (em 2015, pelo PMN), chamou Vieira para uma reunião em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio e lhe apresentou esta ideia: colaborar com um veterano para fazer um desfile que unisse renovação e tradição. Como nenhum veterano embarcou na proposta, a chave da escola foi entregue a Vieira.

Em 1932, quando ocorreu o primeiro desfile de escolas de samba no Rio de Janeiro, a Mangueira foi vencedora. Ganhou os dois desfiles seguintes, e dali em diante sua trajetória ajudou a moldar a tradição do Carnaval carioca. Mas, até Vieira, o posto de carnavalesco da escola nunca havia sido ocupado por um estreante no Grupo Especial, o que dá a medida do peso que recaiu sobre as costas do jovem. Ele optou por fazer sozinho a pesquisa e a conceituação do enredo – o texto que os carnavalescos apresentam aos diretores das escolas informando o tema a ser abordado no desfile –, bem como o recorte e o tom da apresentação. A proposta de fazer uma homenagem à cantora Maria Bethânia foi bem-aceita.

Cada desfile tem de seis a oito setores, que são como os capítulos da história que está sendo contada. Para cada setor, há um carro alegórico e várias alas (os grupos de pessoas que desfilam fantasiadas no solo). O carro alegórico vem depois das alas, como uma síntese da proposta do setor. Vieira escolheu contar a história de Maria Bethânia a partir da religiosidade, desde o momento em que ela se iniciou no candomblé. Também idealizou um carro-símbolo da devoção cristã da cantora e da sua crença na intercessão dos santos, uma herança da mãe, Claudionor Viana Teles Veloso, conhecida como Dona Canô. Outras três alegorias narravam a trajetória artística, do começo no Teatro de Arena, com o show Opinião, nos anos 1960, representado por um carcará – nome de uma ave de rapina e da música que primeiro projetou a cantora –, até a consagração. A alegoria final era um grande circo de lonas verde e rosa, em referência ao sonho da menina de Santo Amaro de ser artista circense.

“Eu produzi esse Carnaval sendo chamado de garoto. Ninguém falava o meu nome no barracão”, conta Vieira. Levou um tempo até os diretores da Mangueira aceitarem que o novo carnavalesco não faria um desfile apenas em tons de verde e rosa, as cores da escola. “Eu sentia que essas cores não combinavam com absolutamente nada, não me satisfazia enquanto pintor.” Vermelho e azul eram cores vetadas pelo presidente Chiquinho, que as associava ao Salgueiro e à Portela. Mesmo assim, Vieira deu um jeito de introduzir um azul no piso do quarto carro alegórico, chamado Abelha rainha (sobre o ápice comercial de Bethânia), que só foi pintado poucas noites antes da competição, às escondidas.

Na noite anterior ao desfile, as alegorias de todas as escolas são cobertas por sacos pretos e deixam a Cidade do Samba, na Gamboa, em direção ao Sambódromo, na Rua Marquês de Sapucaí, no bairro Santo Cristo. Durante a manhã e a tarde, os carros estacionam na Avenida Presidente Vargas e ficam expostos ao público pela primeira vez, enquanto são varridos e lustrados pelas equipes das escolas. “Eu me lembro das pessoas passarem por nós perguntando de que escola eram aqueles carros. Elas não viam a Mangueira no meu trabalho”, diz Vieira. Mas o desfile começou e terminou sob os aplausos entusiasmados do público. A Mangueira estava de volta ao páreo após duas décadas. Na Quarta-­Feira de Cinzas, foi eleita a campeã do Carnaval de 2016.

 

A vida no subúrbio é a fonte que irriga o trabalho de Vieira, por isso ele se recusa a deixar o apartamento em que mora de aluguel na Vila da Penha, na Zona Norte, embora atualmente tenha condições financeiras de viver em qualquer outro bairro do Rio de Janeiro. Em dia de desfile, toma o metrô na estação Vicente de Carvalho, desce na Central do Brasil e caminha até o Sambódromo. “Eu faço as coisas pensando numa visão de Brasil, numa criação artística de valor suburbano.” Sua obsessão é “aquela coisa mal-ajambrada e mambembe” dos Carnavais dos anos 1970. “Eu não busco novidades ou inovações, olho para a tradição. Meu desejo é combater o luxo e a opulência.” De certa forma, é como se ele buscasse contrariar o ideal de beleza e de luxo que predominou no Carnaval carioca por tantas décadas. Em particular desde Joãosinho Trinta, que introduziu uma parafernália luxuosa até então nunca vista nos desfiles e cunhou uma máxima famosa: “Quem gosta de miséria é intelectual, o pobre gosta de luxo.”

Para o seu segundo desfile na Mangueira, em 2017, Vieira escreveu um enredo sobre a religiosidade popular, cuja pesquisa teve a participação de funcionários do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Desenhou um abre-alas (o primeiro carro do desfile) inspirado no exagero barroco dos altares católicos brasileiros. “Coloquei santos propositalmente arranhados, como se estivessem desgastados. Queria dar o visual de uma coisa que um dia foi bonita, mas com o tempo ficou feia. Chegar a esse resultado foi difícil, porque as pessoas que trabalham em barracão de Carnaval estão acostumadas com o belo.”

A maioria dos membros da equipe de Vieira está com ele há anos. As fantasias da ala das baianas sempre foram costuradas por Sirley Martins, a Tia Sirley, uma costureira baixinha e afável de 71 anos, nascida na Vila Vintém e criada em Bangu, ambos na Zona Oeste do Rio. Ela está morando no barracão da Imperatriz Leopoldinense desde 11 de setembro passado e improvisou uma cama com isopor e espuma nos fundos do ateliê. Nos fins de semana, a filha a visita para entregar frutas, café, pães e mudas de roupa limpa. “Minha filha diz que eu levo vida de presidiário”, conta a costureira, rindo. O marido vive em São Paulo e não se conforma com o tempo que ela passa no trabalho.

Tia Sirley aprendeu a costurar sozinha, muito jovem. Morava na favela da Rocinha, criava os quatro filhos sem ajuda e não aguentava mais acordar antes do amanhecer para pegar o transporte público lotado. “Eu falei: ‘Meu Deus, por favor, abre uma porta para eu trabalhar em casa e ter paz.’” As coisas deram certo, e ela passou dez anos trabalhando como costureira em casa. Certo dia, um conhecido disse que estavam precisando de costureira na quadra da Acadêmicos da Rocinha, e Tia Sirley embrenhou-se no universo das escolas de samba. Depois, trabalhou para a São Clemente e para a Grande Rio. Chegou, então, na Caprichosos de Pilares, na época comandada por Vieira, que se afeiçoou ao seu modo de trabalhar e a levou para a Mangueira.

A ala das baianas, tradicional reverência às matriarcas das escolas de samba, é uma das mais importantes de um desfile de Carnaval, e costurar as fantasias dessas mulheres é trabalho para quem entende do assunto. Tia Sirley é tratada com toda a consideração de uma veterana no barracão. Mas isso não quer dizer que esteja livre dos olhos rigorosos de Vieira, exigentíssimo em matéria de acabamento. Para o desfile de 2017 da Mangueira, ele desenhou para as baianas uma saia de filó forrada com saquinhos de pano imitando as embalagens de doce de São Cosme e Damião. A ideia era visualmente muito bonita, mas, para funcionar, Tia Sirley teve que amarrar manualmente dezenove saquinhos no revestimento de cada uma das oitenta saias. “O Leandro desenha loucuras e entrega para a gente executar”, diz a costureira. Muitos não aguentaram lidar com as exigências do carnavalesco e foram embora. “Se ele fala que quer X, não adianta costurar Y. Ele não vai aceitar. Quem está acostumado a costurar de qualquer maneira para outros carnavalescos sente a pressão. O trabalho que fazemos aqui é de arte.”

A essa altura, Tia Sirley já sabe como agradar o chefe e deixa as fantasias com os franzidos mais franzidos, os volumes ainda mais volumosos, nem que para isso precise passar mais de quinze horas na máquina de costura. Ela se deita perto da meia-noite, mas às vezes só consegue pegar no sono às quatro, cinco da manhã, quando os costureiros notívagos apagam as luzes do ateliê. Na Cidade do Samba, não existe horário de trabalho nem carteira assinada. Artesãos e costureiras varam as madrugadas e atravessam os finais de semana correndo contra o tempo, à medida que o dia do desfile se aproxima. “As leis que garantem condições dignas de trabalho não vigoram nos barracões”, diz Vieira. “Infelizmente, o Carnaval se habituou à precariedade.”

Os figurinos desenhados por ele costumam ter cinco, seis tipos diferentes de tecidos, uma particularidade do seu trabalho. “Eu uso os tecidos como velatura”, explica. É uma técnica da pintura que consiste em aplicar uma camada de tinta sobre outra na tela, criando um efeito visual diferente da combinação das mesmas cores diretamente na paleta. “O meu processo é pensado a partir da minha formação como pintor. Eu faço figurino para escola de samba pensando em arte para ser vestida.” Ele também recorre a materiais baratos, como o acetato, que dão menos peso à cabeça de quem veste e ajudam a caminhar com leveza pela Sapucaí. A evolução, o andamento do desfile, é um quesito que os jurados levam em conta para escolher a campeã.

O desfile da Mangueira em 2017 – com o tema Só com a ajuda do santo – rendeu à escola apenas o quarto lugar no campeonato. Uma das alegorias, o tripé Santo e orixá, trazia de um lado a imagem de Jesus Cristo e de outro a de Oxalá. A Arquidiocese do Rio ficou incomodada, e o presidente da escola impediu o carnavalesco de levar o tripé para o desfile. Mas o ano esteve longe de ser ruim para Vieira. Em julho, ele abriu no Paço Imperial, no Rio, a sua primeira exposição. Não de pinturas, mas de croquis, maquetes e fantasias de Carnaval. “A ideia de que o Carnaval é apenas uma festa popular já deveria ter sido superada”, diz ele. “Essa é uma tentativa muito inteligente de diminuir o pensamento cultural das camadas mais pobres e pretas da cidade. Carnaval é uma manifestação política que flerta com a vontade do bem viver.”

Com a exposição no Paço Imperial, seu nome apareceu pela primeira vez nos cadernos culturais dos jornais. “É muito difícil vender uma pauta sobre o Leandro para os editores de cultura. Eles nunca têm espaço para o Carnaval”, diz o assessor de imprensa Alan Diniz, que já trabalhou com Chico Buarque e Marisa Monte, é amigo do carnavalesco e presta serviços informais a ele. Nos jornais cariocas, a cobertura do Carnaval é feita pelos repórteres da editoria de cidade, não de cultura.

Em 2018, Vieira redigiu para a Mangueira o enredo Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco. Era uma resposta à decisão de Marcelo Crivella, que é evangélico, de cortar pela metade os recursos que a prefeitura do Rio transfere às escolas de samba. Pela primeira vez, a escola apresentou um desfile em tons pastel, como se estivesse doente, anêmica. O último elemento cenográfico da apresentação trazia os dizeres: “Prefeito, pecado é não brincar o Carnaval!!” O rosto de Crivella foi posto no corpo de um boneco, como um Judas a ser malhado na Semana Santa.

A Mangueira perdeu o desfile, e a direção da escola decidiu reduzir o orçamento disponível para o ano seguinte. Se quisesse continuar brincando o Carnaval na verde e rosa, era bom que Vieira começasse a repensar a sua fórmula.

 

O telefone de Leandro Vieira toca a cada cinco minutos. Geralmente, é algum funcionário do barracão pedindo para o carnavalesco dar um pulo no ateliê ou no setor de ferragens. Na tarde de 15 de dezembro, durante uma ligação com uma porta-bandeira, ele respondeu assim: “Fala, meu amor. Está com saudade?” Deu para ouvir uma voz de mulher perguntando se ele iria ao aniversário dela. “É hoje? Na sua casa? Me manda o endereço e a hora que eu apareço aí.” Do outro lado da linha, a moça gritou: “Mããããããe, o Leandro Vieira vai vir!” Perguntei se ele estava falando com a ex-mulher, a porta-bandeira Squel Jorgea, e Vieira apenas soltou uma risada. Ele se divorciou em 2018, depois de dez anos de casado.

Antes de atender ao telefonema, o carnavalesco falava da situação da Mangueira nos preparativos para o Carnaval de 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro. Algumas semanas antes do desfile, o presidente Chiquinho, na época deputado estadual pelo PSC, foi preso pela Polícia Federal, acusado de favorecer o ex-governador Sérgio Cabral em troca de propina. Vieira ficaria desamparado não fosse o esforço dos trabalhadores que atuavam no barracão da Mangueira para levar à Sapucaí o enredo sobre os heróis populares esquecidos, um tema que ele pesquisou na obra de historiadores e sociólogos como Sérgio Buarque de Holanda, João José Reis e Jessé Souza. “É o melhor que já escrevi. Foi uma resposta ao conservadorismo que se acirrava na nossa cara”, diz Vieira. O samba-enredo História para ninar gente grande, composto por Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Márcio Bola, Manu da Cuíca, Luiz Carlos Máximo, Ronie de Oliveira e Danilo Firmino, diz: Salve os caboclos de julho/Quem foi de aço nos anos de chumbo/Brasil, chegou a vez/De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês.

A apresentação, de cunho fortemente político para o Carnaval e o momento do país, começou com uma comissão de frente protagonizada por quadros vivos de personagens históricos: princesa Isabel, Domingos Jorge Velho, Deodoro da Fonseca, dom Pedro I, José de Anchieta e Pedro Álvares Cabral. Em dado momento, os personagens saíam de uma parede cenográfica e se revelavam figuras pequenas, de pernas encurtadas, que ficavam ainda menores ao se posicionarem perto dos dançarinos negros e indígenas. A encenação terminava com uma menina, vestida de estudante, abrindo um livro que virava um cartaz com a palavra “presente” – uma referência a Marielle Franco, vereadora do Rio assassinada um ano antes. A jornalista Hildegard Angel, irmã do estudante Stuart Angel Jones, morto pelo regime militar, desfilou num carro alegórico em frente da foto de um cartaz com a frase “Ditadura assassina”.

O último setor do desfile levava bandeiras com os rostos de Marielle Franco, da escritora Carolina Maria de Jesus, do compositor Cartola e do cantor Jamelão. Por fim, moradores do Morro da Mangueira e artistas vinham atrás carregando uma bandeira do Brasil reinventada na cor rosa (no lugar do verde), um losango branco (no lugar do amarelo) e um círculo em verde-claro com a faixa no meio em que se lia: “Índios, negros e pobres” (em vez de “Ordem e progresso”).

“Talvez tenha sido o Carnaval mais radical na questão do artista que quero ser”, diz Vieira. “Ele marca um radicalismo estético e discursivo que é muito meu, da minha maneira de pensar o Carnaval: mais pra luta e menos pra festa.” Foi justamente essa disposição combativa que levou o jurado Artur Nunes Gomes, do quesito enredo, a tirar um décimo de ponto da Mangueira, considerando ter havido “exagero no tom de denúncia” e uso de “imagens antagônicas ao espírito do Carnaval”.

O décimo de ponto, porém, não impediu que a Mangueira ganhasse o campeonato. Com sua segunda vitória em três anos na escola e um discurso tão audacioso, o carnavalesco chamou, finalmente, a atenção dos curadores de arte.

 

Ao escrever sobre a visita de Hélio Oiticica ao Morro da Mangueira em 1964, o poeta Waly Salomão anotou que a quadra da escola representou “a descoberta do corpo tornado dança e de outros modos de comportamento” para o artista plástico. “O Hélio vivenciou a barra-pesada num processo de ruptura e recusa do mundo burguês que o formou e rodeava”, observou Salomão. Fascinado pelas alegorias e fantasias de Carnaval, Oiticica se viu estimulado a criar algo que condensasse a visualidade dos desfiles. E começou a produzir os seus famosos parangolés, feitos com tecidos ou plásticos, e às vezes estampados com frases políticas, que ao serem vestidos pelo espectador faziam dele parte constitutiva da própria obra.

Oiticica, que desfilou pela Mangueira como passista, queria levar os integrantes da escola para vestir os parangolés na abertura da exposição Opinião 65, montada no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio, em 1965. Mas a direção do museu proibiu a exibição carnavalesca dentro do prédio. Mestres-salas, porta-bandeiras, percussionistas e passistas tiveram que fazer o seu samba na área externa – um episódio que virou exemplo do preconceito das instituições artísticas com a criação carnavalesca. Poucas vezes ocorreu a confluência entre essas instituições e o Carnaval das escolas, como, em 1990, com a mostra de Rosa Magalhães e do Salgueiro, no Parque Lage, no Rio, e em 2019 com a exposição no Centro Cultural São Paulo em homenagem aos trinta anos do famoso desfile Ratos e urubus, larguem minha fantasia, feito por Joãosinho Trinta para a Beija-Flor.

Em 2020, a obra de Oiticica voltou ao MAM na exposição Hélio Oiticica: a dança na minha experiência, organizada em parceria com o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e curadoria de Adriano Pedrosa e Tomás Toledo. Percebendo haver pouco da Mangueira na mostra, os diretores artísticos do MAM na época, Keyna Eleison e Pablo Lafuente, convidaram Vieira para mostrar sua Bandeira brasileira verde e rosa ao lado das criações de Oiticica. “Se o Hélio Oiticica disse que a Mangueira o ajudou a existir, cadê ela na exposição?”, questionou Eleison. Vieira também foi convidado a realizar oficinas no museu com os trabalhadores da Mangueira.

A crítica Daniela Name chama a atenção para a importância do convite feito a Vieira pelo museu. “É como se estivesse pagando uma dívida histórica com a Mangueira”, afirma. Mas se incomodou com o modo como a Bandeira brasileira (o nome dado à criação de Vieira) foi exibida no Salão Monumental do MAM: pendurada na parede, embora na noite do desfile tenha entrado na Sapucaí estendida na horizontal e carregada pelo povo. “A imagem que me veio no Carnaval era a de uma mortalha, a de um corpo sendo carregado”, diz Name. “Pendurada, a bandeira ganhou um aspecto cortinado, uma teatralização que não fez parte de sua exibição original. De certo modo, foi esvaziada.”

Bandeira brasileira se tornou a obra de Carnaval mais exibida em museus até hoje. O Instituto Moreira Salles[1] a requisitou para uma mostra sobre a escritora Carolina Maria de Jesus, em 2021, e o Masp a incluiu na exposição Histórias brasileiras, em 2022. A bandeira também rendeu a Vieira uma indicação ao Prêmio Pipa, o mais relevante dado a jovens artistas do país. Ele não foi selecionado, mas até hoje é o único carnavalesco indicado para a premiação.

A própria Daniela Name convidou Vieira para uma exposição no Paço Imperial sobre o processo de elaboração das suas fantasias. Corpo popular foi inaugurada em 2 de dezembro do ano passado com croquis, entrevistas gravadas com as costureiras e monóculos que exibiam fotos dos desfiles. A curadora optou por não mostrar fantasias em cabides e manequins, mas em fotografias e croquis, uma vez que, para Vieira, elas só ganham vida ao serem vestidas pelo folião. “Antes disso, são apenas rascunhos”, ele diz.

A segunda parte da mostra, também com croquis, imagens das fantasias usadas na Sapucaí e textos sobre o seu processo de confecção foi aberta ao público em 9 de dezembro, num vagão de trem estacionado na Central do Brasil. Foi Vieira quem escolheu o local, buscando homenagear os funcionários do barracão que moram no subúrbio e tomam o trem diariamente para ir ao trabalho. Pouco mais de trinta pessoas estiveram na abertura. Depois, Vieira foi almoçar no Largo de São Francisco da Prainha, no bairro da Saúde, com os amigos e a namorada. “Mais tarde eu vou aparecer na Mangueira pela primeira vez depois de ter deixado a escola”, anunciou.

Às onze da noite, cinco crianças correram para abraçá-lo na entrada da quadra verde e rosa. O carnavalesco estava lá para uma noite de samba promovida em conjunto pelas comunidades da Mangueira e da Imperatriz Leopoldinense, a escola que ele defende atualmente. Foi tratado como uma estrela. “Eu construí o artista que sou na Mangueira”, diz Vieira. “Mas, depois de um tempo lá, acabei ganhando o rótulo de carnavalesco político, que me incomoda. Primeiro porque essa compreensão não inclui o meu Carnaval da Bethânia, por exemplo. Não enxergam política num enredo sobre uma cantora brasileira. O rótulo também me incomoda porque me limita. Espera-se que o Leandro faça isso. E a pior coisa que pode acontecer com um artista é esperarem que ele faça apenas isso.”

 

Depois do desfile da Mangueira de 2019, sobre os heróis esquecidos da história do Brasil, outras escolas tentaram repetir a proposta de Vieira. A semelhança narrativa é explícita em alguns casos, como no enredo que a Beija-Flor apresentou em 2023 sobre os personagens excluídos da história oficial brasileira. Os carnavalescos Alexandre Louzada e André Rodrigues também fizeram uma versão da bandeira nacional que foi exibida no MAM.

Para alguns foliões, as mudanças foram ficando sérias demais. “Os temas estão densos, muito intelectualizados”, diz o carnavalesco Renato Lage. “Deixaram de lado a alegria e a leveza.” Vieira não se sente responsável pela mudança de discurso na avenida. “Eu não inventei a roda”, afirma. “A roda só estava parada porque o discurso havia sido esvaziado em troca de patrocínio.”

Em seu penúltimo desfile na Mangueira, em 2020, ele propôs um enredo sobre Jesus – A verdade vos fará livre era o título. Um dos carros alegóricos trazia um jovem negro, de cabelo tingido de loiro, pregado na cruz e cravejado de tiros. Os jurados encontraram falhas no acabamento das fantasias e repararam que, durante a passagem pela Sapucaí, algumas alegorias estavam despencando e com problemas de iluminação. Ao mesmo tempo que criou o desfile da verde e rosa, Vieira produziu o da Imperatriz Leopoldinense, com o tema Só dá Lalá, releitura do samba-enredo de 1981 sobre o compositor Lamartine Babo. Com a Mangueira, ficou em sexto lugar, mas com a Imperatriz obteve a vitória, levando a agremiação de Ramos a subir do Grupo de Acesso para o Grupo Especial.

Em 2021, os desfiles foram suspensos por causa da pandemia. No ano seguinte, a Mangueira levou à Sapucaí as histórias de Cartola, Jamelão e do mestre-sala Delegado. Amargou o sétimo lugar. A relação com a diretoria da escola estava desgastada, e Vieira se mudou para a Imperatriz Leopoldinense. Estava exausto de trabalhar com um orçamento que encolhia mais a cada ano. “A lógica da presidência na Mangueira era: se no ano passado eu fiz bonito com pouco dinheiro, no próximo eu daria conta de fazer um desfile ainda mais barato”, conta. “Eu tinha que reaproveitar as fantasias, as estruturas dos carros, e depois da pandemia tudo piorou. Eu tinha medo de não ter dinheiro suficiente para vestir as pessoas com qualidade.” Ele diz que, recentemente, algumas escolas o convidaram, mas não revela quais. “Grande Rio?”, perguntei, mas ele se recusou a dizer. Insisti: “A Portela?” O carnavalesco riu. “Não adianta, eu não vou falar.”

 

Na segunda semana de janeiro, as salas de trabalho da Imperatriz Leopoldinense estavam lotadas, com cheiro de resina e ventiladores caquéticos lutando em vão contra o calor. No escritório de Vieira, o ar-condicionado soprava a 17ºC. Uma das suas costureiras mais antigas se maquiava no banheiro da sala para receber um repórter da Rede Globo. “Ela não quer falar sobre o que é a entrevista. Acho que é para a segunda temporada de Vale o escrito”, brincou Dandara Vital, assistente do carnavalesco, se referindo à série do Globoplay sobre o jogo do bicho.

As apostas do jogo do bicho são feitas a caneta em talões de papel com números e ilustrações de 25 animais. Foi desse sistema de apostas proibido no país desde 1941 que Vieira tirou a inspiração para um carro alegórico do seu Carnaval deste ano. “Meu avô vivia jogando no bicho, mas nunca ganhou. Lembrei dele quando comecei a conceituar esse desenho.”

“O Leandro está acelerado, às vezes chega a ser over. Nem deve conseguir dormir”, diz Vital. Ela o auxilia na administração das planilhas orçamentárias, às vezes sai para comprar materiais no Saara, região de lojas populares no Centro do Rio. Vieira não divide com ninguém os desenhos das fantasias e alegorias, nem a supervisão dos ateliês. “Os concorrentes dele são os meninos da Grande Rio”, conta a assistente. Os “meninos” são os carnavalescos Leonardo Bora, de 37 anos, e Gabriel Haddad, de 35 anos, que apresentarão no Carnaval deste ano um desfile inspirado no livro Meu destino é ser onça, do escritor carioca Alberto Mussa, sobre um mito tupinambá.

O enredo elaborado por Vieira para 2024 também tem inspiração literária. Baseia-se em um conto do paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918), considerado o criador da literatura de cordel. Quando fazia a pesquisa para o desfile sobre Lampião, que ganhou o campeonato no ano passado, o carnavalesco encontrou o cordel O testamento da cigana Esmeralda, com uma série de aconselhamentos para os leitores obterem sorte na vida. A cigana de Gomes de Barros aponta no testamento que o 11 de fevereiro – a mesma data do desfile da Imperatriz Leopoldinense – é um dia de sorte, o que Vieira entendeu como um bom presságio.

As alegorias que o carnavalesco desenhou brincam com a astrologia, o universo dos sonhos, os jogos de aposta e a leitura de mãos. Para algumas das fantasias, usou como base as vestimentas da cultura cigana e referências a mitos populares sobre a boa e a má sorte. “Não se faz um Carnaval como esse com menos de 8 milhões de reais”, diz ele. A mãe do carnavalesco, Elizabeth Vieira, numa visita recente ao barracão, deu um pulo no quarto andar, onde fica o ateliê, para bisbilhotar o trabalho das costureiras. “Sou suspeita, mas acho que o Leandro vai ganhar outra vez”, ela me disse.

O título do enredo, Com a sorte virada pra Lua, segundo o testamento da cigana Esmeralda, é uma nova referência à carnavalesca Rosa Magalhães, que sempre deu nomes longos aos seus desfiles. “E aquela alegoria bem ali é uma homenagem ao modo de fazer Carnaval do Renato Lage.” Vieira aponta para o abre-alas do desfile. É um carro com tons dourados, azuis e roxos, adornado por imensas mãos com olhos nas palmas. Três quilômetros de luz neon foram instalados para iluminá-lo durante a passagem na Sapucaí.

Os esforços de Vieira também estão concentrados em impedir que os bisbilhoteiros da Cidade do Samba fotografem o que está sendo produzido no barracão. Ele teme que as imagens repercutam na internet e influenciem a opinião dos jurados antes da apresentação na Sapucaí. “As pessoas criam preconceitos a partir do que sai na internet”, diz. “Por exemplo, o samba da Mocidade, que todo mundo está comentando”, diz ele sobre Pede caju que dou, pé de caju que dá. “Em qualquer ano, seria considerado um samba ruim, digno de notas baixíssimas, mas teve um ótimo trabalho de marketing digital da escola e é apontado como um dos favoritos desse Carnaval. Talvez os jurados tenham medo de tirar pontos em função do que se tornou consenso antes do desfile.”

No dia 15 de janeiro, os carnavalescos das escolas do Grupo Especial se reuniram com o júri da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa) para opinar sobre o sistema de avaliação das escolas. Vieira é um opositor do regulamento que vigora nos desfiles. Acha que o formato atual, que prescreve que o desfile seja aberto pela comissão de frente, seguida de abre-alas, alegorias e alas, deveria ser modificado. “Sou obrigado a fazer um trabalho que, por mais diferente que seja de outros carnavalescos, será resumido a uma sequência de carros alegóricos, alas, rainha de bateria, bateria, mestres-salas e porta-bandeiras.” Ele sugere, por exemplo, que sejam extintas as determinações, deixando que cada escola decida com quantos carros quer contar uma história. “Me opor ao formato vigente não é uma novidade porque os desfiles nem sempre foram como são. O julgamento nem sempre prendeu os artistas numa caixa.”

Um dia antes da reunião com o júri da Liesa, Vieira estava em Pernambuco, pulando o pré-Carnaval de Olinda. As suas agendas de janeiro e fevereiro foram ocupadas com os blocos que pretende acompanhar. No fim de semana anterior ao desfile da Imperatriz Leopoldinense, ele planejava sair fantasiado de Rita Lee pelas ruas da Ilha do Governador, no bloco Fuzuê, que criou com os amigos da adolescência. Também pretendia participar de outros dois blocos no Centro do Rio. “Eu trabalhei o ano inteiro para poder estar na rua agora”, diz. “Daqui para a frente, só paro de beber em março.”

 

Em fevereiro de 2022, Daniela Name foi convidada para a bancada de entrevistadores de Vieira no Roda Viva, da TV Cultura. Lá pela metade do programa, a curadora lembrou que, na primeira conversa que os dois tiveram, o carnavalesco se definiu como “a antinovidade”. Ela perguntou se essa convicção, que o faz buscar estímulo criativo no próprio Carnaval, em vez de olhar para fora do festejo, é o seu maior ato político. “Eu acho que sim”, respondeu Vieira.

Ele lembrou uma entrevista que o escritor Jorge Amado deu em 1986 à antiga TV Educativa do Rio. “Já se disse que Villa-Lobos compunha a mesma música, e Fellini vive fazendo o mesmo filme. E que você também escreve sempre, Jorge, o mesmo livro. Essa repetição de temas seria um privilégio dos gênios?”, um jornalista perguntou ao escritor. Jorge Amado ergueu as sobrancelhas, coçou o rosto e respondeu: “Eu escrevo o mesmo romance há mais de cinquenta anos. Romance da gente baiana. […] Os personagens são os mesmos, os ambientes e os temas fundamentais são os mesmos. Agora, não sei se é um privilégio ou uma limitação.”

Feita a recordação, o carnavalesco encarou a curadora e disse: “Eu não me incomodo com o fato de escrever, desenhar, pintar, por cinquenta anos, as coisas do povo brasileiro. E, se eu tiver que ser a antinovidade por passar cinquenta anos falando das coisas do Brasil, eu serei até o meu último Carnaval.”


[1]  O fundador da revista piauí, João Moreira Salles, é presidente do conselho do Instituto Moreira Salles.