cartas

Leitores no divã

POLÊMICA EPISTOLAR

Pior que uma péssima crítica é uma má resposta a esta. Na edição de novembro (piauí_86), nas cartas, há uma crítica à revista e uma solicitação de cancelamento da assinatura feita por Maria Beatriz Teixeira. Quando li não concordei em nada com a crítica, principalmente em relação ao artigo do César Benjamin, “O longo prazo chegou” (piauí_83, agosto). O artigo é uma reflexão séria sobre o rumo da política econômica do governo petista.

É nítido que o descontentamento da leitora se deve a uma posição alinhada ao governo e ao PT. Ao entender isso, a redação da revista fez uma série de deboches: “Mas logo agora, Maria Beatriz, que acertamos encartar o Diário Oficial da União na revista”; “[…] caso você reconsidere a decisão, em 2014 passaremos a publicar pelo menos um poema de Michel Temer a cada número da revista.”

Nada contra a ironia, só que no caso em questão soou de mau gosto, ou como uma defesa desmedida diante de uma crítica. Penso em uma resposta no mesmo tom feita pela assinante: “Perdoem a minha ignorância. Entendi que a revista não tem rabo preso com a família Civita, e sim com uma muito mais importante, a dos Moreira Salles, e não vejo mais motivos para cancelar minha assinatura. Só ia cancelar a assinatura por achar muito brega ser assinante de uma revista associada ao empresário de uma editora. É muito mais chique a de um banqueiro. Como penitência, vou assistir a todos os filmes do João, idealizador da querida revista.”

É engraçado? Não! É horrível porque trata com o preconceito de uma forma ou de outra. Acho que a assinante deveria ter direito a uma tréplica. Se ela fez, gostaria de conhecer. Por fim, parabéns por terem publicado a crítica da assinante.

MARIO ALBERTO FILHO_SÃO PAULO/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Tendo sido informados de que publicar poemas de Michel Temer é um gesto irônico, recuamos aqui da decisão. piauí 2014 será Temer-free. Reclamem com Mario Alberto.

 

Era o início de uma aprazível tarde primaveril, em 15 de outubro de 2006, quando abri a minha primeira piauí (até o estilo eu já aprendi, caramba). Tal foi a paixão que desde então nunca mais deixei este agradável vício – ler a melhor revista do Brasil –, até este fatídico número 86 (novembro).

Tenho todos os números e confesso que não havia percebido ainda os terríveis perigos a que os artigos manhosos e as mensagens subliminares me expuseram todos estes anos. Eu era um inocente. As propagandas da CIA e do Instituto FHC se entranharam de tal maneira em mim que julgo ser tarde para um tratamento e a cura. Não fosse a leitora Maria Beatriz, que me abriu os olhos (e espero que de outros leitores argutos), eu nem teria tido conhecimento deste meu lastimável estado. Mas, como disse, penso que sou irrecuperável, e provavelmente lerei ainda o número 87, o 88 etc., até ver aonde este vício maldito me levará.

Mas advirto: gostei demais dos cartuns do Laerte nesta maldita edição 86. Geniais. Lembro-me de tê-los advertido, lá nos primórdios desta publicação, que os cartunistas brasileiros eram sensacionais. Que não carecia ter aqui cartuns de um tal Gotlib, presença constante naqueles idos – tremo até em escrever este nome, temendo que retorne. Que não volte, continuo advertindo. Se voltar, eu faço como a leitora Maria Beatriz, e passo sem pestanejar para o grupo dos que nunca mais irão comprar (ou assinar) esta viciante revista.

LUCAS COTRIM_CAMPINAS/SP

NOTA DE GOTLIB: Je reviendrai.

 

Na minha medíocre opinião de leitor, a revista piauí é até agora referência em qualidade jornalística, pelo menos aqui no Brasil. Nunca consegui notar nenhuma tendência em suas páginas. Há espaço para autores divergentes como Mario Vargas Llosa e Slavoj Žižek. Ok, a Veja é do Grupo Abril. Considero a revista Veja um lixo, bem como praticamente todas as outras. De uns tempos pra cá, como diria Chico César, notei que a “rival” da Veja, Carta Capital, da qual já fui fã em meus tempos de alienação dicotômica direita–esquerda, não sai perdendo. A Carta virou uma Veja de esquerda. Mas aí aparece a propaganda da dita cuja na revista piauí. Será mea culpa da piauí com medo de pagar de direitona irresponsável? Será apenas uma propaganda de uma revista qualquer? Devo deixar de ler a piauí? Claro que não.

A qualidade do verdadeiro jornalismo supera qualquer suposta falha (aos olhos de um investigador ideológico). Mesmo que a piauí fosse realmente do Grupo Abril, isso não tiraria o mérito da mesma, embora o fato de ela ser independente também contribua para um formato mais qualitativo.

Parabéns para a equipe da piauí. Vocês conseguem juntar tudo num lugar só. Pinguins, reportagens de qualidade inquestionável (“O casamento do ano”), análises conjunturais lúcidas (“A volta da polarização?”), textos tediosos como aquele “Semimorto em Frankfurt”, quadrinhos, poesia. Putz. Uma revista séria que não se leva a sério. Vocês são a esperança do jornalismo. Quiçá, espero que não, o último reduto. Quando crescer quero ser igual a vocês. Muito sucesso para a revista.

PEDRO NETO_RECIFE/PE

 

Quero aumentar minhas experiências sensoriais com a piauí (ela me agrada) – ando meio realista fantástico. Logo, ler já não é o suficiente, vou começar a comer a revista. Obrigado.

RUANDRO KNAPIK_QUATRO BARRAS/PR

NOTA DA REDAÇÃO: Você encontrará sugestões preciosas de como harmonizá-la com um coulis de maracujá no nosso blog Questões de Forno e Fogão.

LAERTE, KESSLER, FERNANDA, FRANZEN

Não poderia deixar de registrar minhas sensações ao ver a série de cartuns de Laerte para a piauí_86. No começo surgiu uma indignação de professor que veste a camisa e defende com afinco a educação brasileira, se agarrando a farrapos de esperança. Depois do terceiro ou quarto cartum, veio a identificação, em seguida a aceitação e por último a triste conclusão de que tudo o que foi escrito e desenhado ali é um retrato fiel da nossa realidade. Laerte conseguiu estampar nas páginas da revista todos os âmbitos da educação no nosso país. E isso é muito triste. O mais interessante é que, justamente hoje, na escola em que trabalho, fui tolhida por não estar seguindo o “referencial”, ou seja, estava tirando a venda do cantinho dos olhos dos alunos, e isso não pode!

JULIANA SILVA_CAMPO GRANDE/MS

Por favor, não suspendam esse banquete que nos oferecem os diários do conde Kessler (“O sentimento de uma nova era”, piauí_86, novembro).

JOÃO MOREIRA COELHO_BRASÍLIA/DF

Fernanda Torres excelente na piauí_86 (“Álvaro”): humor negro, sarcasmo e ironia em doses cavalares, do jeito que o diabo gosta.

JOSÉ ANÍBAL SILVA SANTOS_TEÓFILO OTONI/MG

Brilhante texto de Jonathan Franzen (“Pronto, falei”, piauí_86, novembro). O artigo é muito bem escrito e nos faz repensar o mundo moderno. Franzen consegue abordar um tema complicado [a dependência da tecnologia da informação], citar pensadores do calibre de Pierre Bourdieu, e ao mesmo tempo prender o leitor. Busquei outros textos dele, como os reunidos no livro Como Ficar Sozinho, e posso dizer: vale a pena a leitura.
Como curiosidade, gostaria de saber se a piauí traduzirá futuramente outro artigo dele.

DÁRIO MILECH NETO_PELOTAS/RS

NOTA DE REDAÇÃO: Para cunharmos uma frase, o futuro só a Franzen pertece. Se ele escrever e cobrar baratinho, publicaremos.

 

PIAUÍ_86

Vejo na matéria sobre o fenômeno Rede–Marina (“O casamento do ano”, piauí_86, novembro) que a jornalista está muito mais interessada em mostrar as emoções de uma trajetória política dos personagens do que em análises forçadas sobre possíveis resultados. A análise sobre novas táticas do PT (“A volta da polarização?”, piauí_86, novembro) não alça objetivos nem lógicas conclusivas – no artigo há coisas até contraditórias –, mas consegue seu intento ao expor peças de um xadrez para que a mente de quem lê mude as pedras e faça seu jogo próprio.

JOSÉ CARLOS A. BRITO_ITAQUAQUECETUBA/SP

O CONJUNTO DA OBRA

Sou de Aquidauana. Leio sempre essa revista quando encontro por aqui ou em Campo Grande. Gosto da piauí porque eu a levo para a fazenda, leio com calma, vocês informam de fio a pavio casos comoosda Denise Abreu (“O desastre”, piauí_85, outubro), do Edward Snowden (“Mande sua chave”, piauí_84, setembro) etc. Me apresentaram as poesias deliciosas de Gregorio Duvivier (“Ligue os pontos”, piauí_85) e reviveram o gênio Henfil (“Que país foi este?”, piauí_85). O Diário da Dilma me faz rir de desopilar o fígado.
Essa revista me confirma que o Brasil não é só um pedaço, uma faixa voltada para o Atlântico que vira a bunda para o resto do nosso continente. Se tirarmos a venda de cavalo que só nos faz olhar para a frente, vamos nos surpreender com coisas e pessoas que vale a pena conhecermos.

KATIA G. DE CASTRO_AQUIDAUANA/MS

NOTA DA REDAÇÃO: E os exemplares lidos ainda servem de adubo.

 

EXCESSO OU ESCASSEZ?

Gosto dessa revista e assino há uns três anos. Fico feliz quando chega com umas oitenta páginas, mas quando vem com mais de 100 dá vontade de cancelar a assinatura. A gente tem mais o que fazer!

PABLO GUTTO_SÃO PAULO/SP

TIO JUQUINHA

Meus parabéns pela publicação do artigo “Coitado do tio Juquinha” (piauí_86, novembro). Fui aluno do autor, Luiz Gastão Paes de Barros Leães, em 1969, quando ele era titular da cadeira de direito comercial na USP. Depois de formado, tive a oportunidade de solicitar a ele um parecer jurídico. Nesses contatos tive o privilégio de conhecer melhor o excelente mestre que também era uma pessoa culta, boa e afável. Seu artigo nos trouxe informações preciosas a respeito do grande pintor Almeida Júnior. O professor Leães conseguiu reproduzir a atmosfera da época em que ocorreu a tragédia com maestria, utilizando-se inclusive de linguagem e expressões jurídicas daquele período.
Apenas um senão, que de maneira alguma macula o artigo. Aquela passagem histórica, tão bem descrita pelo autor, poderia levar um leitor desatento a pensar que o crime cometido pelo tio Juca, ao matar Almeida Júnior, amante de sua mulher, foi julgado de maneira injusta. Um leitor mais informado perceberia que os tempos eram outros e que hoje o crime de defesa da honra já não existe mais, isto é, não se pode mais alegar que o criminoso, ao matar sua mulher ou o amante dela, estaria defendendo sua dignidade. Também saberia que hoje o argumento da “violenta emoção”, antes utilizado para absolver réus confessos, também não é mais levado em conta pelos juízes e tribunais. Faltaram essas observações? Ou estamos querendo ser perfeccionistas?

JOSÉ CARLOS BARBUIO_SÃO PAULO/SP

BIOGRAFIAS AUTORIZADAS

Assinada por um autointitulado censor (Olegário Ribamar), esta deliciosa resenha lítero-patafísica (“The Lavigne Herald”, piauí_86, novembro) deveria se tornar, já a partir deste número, uma espécie de coluna fixa. O texto lembra os mais petulantes e engraçados do finado Pasquim da era Ivan Lessa. Absolutamente geniais as formulações de ideias, oscilando entre o sarcasmo socrático e a ironia de um National Lampoon (atualmente televisivo).
Entretanto, o assunto continua sendo uma pulga atrás da orelha de quem sabe que nada disso está focado no interesse escondido entre as dobras do debate aberto. Valeria uma análise profunda dos meandros da lei. Os interessados estão confundindo direito de imagem com direito de personalidade – assunto deveras importante na atualidade dos meios de comunicação socializados pelas redes. Com certeza, há algo subterrâneo aguardando resultados, seja em termos legislativos, seja em função de acumular pareceres e jurisprudências que podem atender interesses bem menos pessoais do que a vida pessoal de artistas famosos.
Um dos efeitos colaterais desses eventos diz respeito ao fato de grandes artistas como Chico, Gil, Caetano (e até Roberto Carlos, que, invariavelmente, dada a sua postura monárquica cristã, prefere afastar-se dos problemas que o coloquem na mesma medida que outros) estarem, mesmo que de forma indireta, aceitando que os códices legais incluam uma censura light capaz de acabar com essa farra da mídia que insiste em perturbar o povo com acusações dignas de Robespierres que aguardam Marats, sejam eles políticos, policiais, ricos ou pobres. Um Marat está sendo mais esperado do que um Robespierre, que pode estar até entre os black blocs.

LUIZ OCTAVIO PAES DE OLIVEIRA_RIO DE JANEIRO/RJ

CABRAL E O DESASTRE

Uma coisa puxa a outra. Votos de louvor à jornalista Daniela Pinheiro pela reportagem “Na boca do povo” (piauí_85, outubro). Seu texto tentacular, além de descobrir e trazer à tona o Cabral, soa como verdadeiro ensaio sobre a política à brasileira que, ao mesmo tempo em que promove os feitos, vai desfazendo (ou borrando) o caráter dos protagonistas!

CICERO DOS SANTOS_SÃO PAULO/SP

A excelente reportagem sobre Denise Abreu (“O desastre”, piauí_85, outubro) é uma repetição da reportagem sobre a médica Virgínia Soares de Souza (“A doutora”, piauí_81, junho). Depois que o caso esfria, temos uma visão mais nítida.

DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP

O CONDE IRRESISTÍVEL

Fiquei triste ao terminar a leitura da segunda parte do diário do conde Harry Kessler e descobrir que não haveria uma terceira (nem quarta, quinta ou sexta) parte. Foi um grande deleite ler as memórias de um indivíduo tão interessante.

JORGE ROCHA NETTO_CAXIAS DO SUL/RS

Sobre o conde Harry Kessler (“O sentimento de uma nova era”, piauí_86, novembro), aproveito para noticiar uma história bastante curiosa contada pelos capixabas. Certa feita (por volta de 1925), esteve por estas bandas um distinto cavalheiro à procura do assistente de produção que causara o acidente sofrido pela divina Sarah Bernhardt num palco de teatro no Rio, em 1905. Diante da falta de intimidade do visitante com a derradeira flor do Lácio, tiveram de chamar um representante da comunidade pomerana – abundante por estas bandas – para que a comunicação se estabelecesse.

Só então foi possível saber o nome do tal visitante: conde Kessler, amigo da atriz e que lhe prometera, no leito de morte, vingar-se do incompetente que lhe causara grave acidente. Por isso, ao ler a sequência do diário do conde, fiquei absolutamente deslumbrado com a ubiquidade de tão impressionante personalidade.

CALEB SALOMÃO_VITÓRIA/ES

PIAUÍ PARA ADOLESCENTES

Caros “adultos” da redação da piauí: me chamou a atenção, na edição de novembro (piauí_86), a carta de um adolescente. Pois bem, sinto-me obrigado a fazer o mesmo, não por cópia, mas sim por discordar do sujeito que representa a “classe jovem”. Sou adolescente, tenho 17 anos, leio (e devoro) a piauí desde os 15. Agradeço a vocês por não escreverem matérias direcionadas para nós, “jovens”. O universo adulto é chato, porém mais chatos ainda se tornaram as revistas e jornais que, preocupados com nossa opinião, passaram a descrever detalhadamente o cabelo de superstars como Justin Bieber. Continuem velhos e descolados.

PATRICK NASSER_SÃO PAULO/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Ufa. Como ninguém aqui compreende bem o que Katniss vê em Peeta, estávamos cortando um dobrado para escrever um bom ensaio sobre Jogos Vorazes. Liberados do dever, boa parte da redação já retomou o bingo. O resto foi para a aula de hidroginástica.

MATEMÁTICOS

Parabéns a João Moreira Salles pelo artigo “Senhor dos anéis” (piauí_87, dezembro). Surpreendente, e rara, a capacidade de tratar de assuntos “esotéricos” de forma correta e coloquial.

Mas o artigo também me entristeceu. Lendo-o, soube que um antigo e caro amigo que havia se perdido nas brumas do tempo e nas dobras do espaço havia morrido. Fui colega de doutorado do José Chepe Escobar, em Berkeley, nos primeiros anos da década de 80. Lembro-me vividamen-te do dia em que ele soube que estava com câncer, esse mesmo que foi curado então, mas voltou muitos anos depois para levá-lo de vez, como me conta a revista. Eram três da tarde (às três em ponto da tarde, como diria Lorca), e, como de hábito, nos encontrávamos na cantina improvisada do 9º andar do Evans Hall, o prédio da matemática.

Ele nos revelou então, a mim e outros colegas, que havia recebido naquela manhã o diagnóstico definitivo: era câncer mesmo. O que mais me surpreendeu, e me surpreende ainda hoje, foi que ele não achou que isso fosse motivo suficiente para faltar às aulas daquele dia! O Chepeera um doce de pessoa, além de excelente dançarino de salsa. Que a terra lhe seja leve.

Voltemos à reportagem. Numa passagem perto do fim, reporta-se uma referência elogiosa de Manfredo do Carmo a um artigo sobre a aplicabilidade da matemática às ciências empíricas cujo autor não é nomeado. Trata-se do físico, prêmio Nobel, Eugene Wigner. Esse artigo, apesar de muito interessante, tem uma agenda oculta que me incomoda bastante e que está sendo ressuscitada em certos meios acadêmicos fundamentalistas cristãos, aquela gente do “design inteligente”. Sua tese de fundo é que a aplicabilidade da matemática é um “milagre” (a mesma palavra usada pelo professor Manfredo!), que só se “explica” supondo-se que a natureza é habitada por uma inteligência que também tem residência em nossos espíritos.

Ora, não há nem mistério, nem “milagre” nisso. Respondo com o grande Hermann Weyl, talvez o maior matemático do século XX. As ciências empíricas não têm nada a ver com a natureza “em si”, mas com uma reconstrução simbólico-formal da nossa parca e rasa percepção da natureza que apenas aqui e ali toca a experiência. Assim sendo, ao construirmos modelos matemáticos da “realidade”, e que “milagrosamente” lhe caem como uma luva, estamos apenas traduzindo um contexto formal em outro, estratégia que os matemáticos conhecem sobejamente. É como usar álgebra em teoria dos números. E se uma serve à outra tão bem, é porque, no fundo, no fundo, é tudo coisa nossa. Nós só vestimos nossas poucas ideias com muitos trajes distintos.

JAIRO JOSÉ DA SILVA_RIO CLARO/SP

MATEMÁTICOS

Conheci o Fernando [Codá Marques] criança em Porto Alegre, quando orientei o pai dele em seus trabalhos de mestrado e doutorado. Severino Marques foi o melhor aluno que já tive. A tese dele foi sobre cascas, superfícies curvas no espaço, aquelas que o Carl Gauss estudou.

Severino disse um dia: “Professor, meu filho é muito inteligente.” E eu: “Olha, Severino, todos os pais pensamos que nossos filhos são inteligentes, mas o mundo está cheio de burros.” Como ele insistisse, buscamos colégios especiais (Fernando estudava no Anne Frank, estadual). Mas em Porto Alegre eles não existiam. Então Severino se dedicou a cultivar o filho, todos os dias, com problemas de lógica e de matemática. O resto da história está no artigo. Mas deve ser lembrado que talentos excepcionais florescem quando descobertos e treinados cedo.

A ciência e a matemática são pátrias sem fronteiras, e está bem que assim seja. O povo brasileiro deve se orgulhar de ter Neymar em Barcelona e Fernando em Princeton. O que esse povo mais precisa é de bons professores nos colégios. Do contrário, Fernandos em potência acabam como traficantes ou desembargadores.

GUILLERMO J. CREUS_FOZ DO IGUAÇU/PR

MATEMÁTICOS

Li a matéria sobre Fernando Codá, e me lembro de pelo menos outra matéria similar, sobre outro matemático brasileiro, Artur Avila (“Artur tem um problema”, piauí_40, janeiro de 2010). Ambos brilhantes, do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, Impa, e com menos de 40 anos. Outro perfil me vem à memória, dessa vez de um físico: Luiz Davidovich (“Irmãos corsos no Fundão”, piauí_61, outubro de 2011), que foi inclusive meu professor. Davidovich era brilhante, mas já não era nenhum menino.

Meu único receio é que se fique com a imagem de que, para ser matemático, só sendo um Artur ou Fernando do Impa, e menino. Isso para mim, matemático com mais de 40 e que não é do Impa, soa um pouco deprimente. O Impa é muito pequeno para todos nós, e 40 é bem cedo para pensar que já não há mais o que fazer. Que tal o próximo perfil de matemático ser de alguém com uma trajetória mais mundana? Já se tem uma imagem muito estereotipada do nosso grupo. Talvez um matemático menos fadado ao sucesso tenha algo a acrescentar ao mosaico.

JOSÉ TEIXEIRA CAL NETO_RIO DE JANEIRO/RJ

CHATO, SEM GRAÇA

O texto de João Moreira Salles fez passar diante de meus olhos aqueles longos anos de aprendizado, e a doce severidade de dona Eneida a nos mostrar a beleza da regra de três. “Senhor dos anéis” (piauí_87, dezembro) foi como os meus anos de aprendizado de matemática: longo, chato e não raro assustador. Sete páginas?! Tá certo que o cara é o chefe, mas não tem ninguém aí para dar um toque no homem, pedir para ele dar uma enxugada no que escreve?

A Esquina continua perdendo a graça. O Eucanaã Ferraz, antológico (“Memórias póstumas”). Ele escreveu o poema de uma sentada só, não foi? É minha impressão. “Olho da rua” me deu, pela primeira vez, a panorâmica que precisava sobre o tema. “Detetive particular” me deu a dica para o meu presente de Natal, O Homem que Amava os Cachorros, já que a ideia de um cubano que recusou o exílio escrevendo sobre Trotsky é, no mínimo, curiosa. No mais, boas entradas.

MANOEL HENRIQUES_BRASÍLIA/DF

NOTA DA REDAÇÃO: E o pior é que eram oito páginas, não sete.

NOTA DE DONA ENEIDA: Manuelzinho, te mandei um dever de casa por e-mail.

 

PERDIDO NO PALÁCIO

O longo texto de Nuno Ramos na edição de novembro (“No palácio de Moebius”, piauí_86) foi o segundo que não consegui levar a cabo em quase dois anos que acompanho esta publicação. O primeiro foi o de Georges Perec sobre o arremesso de tomates em sopranos (“Demonstração experimental da organização tomatotópica em sopranos”, piauí_75, dezembro de 2012), absolutamente sem graça e insano, no pior sentido da palavra.

De volta ao “palácio”, não há como entender a decisão de ilustrar o artigo com uma única imagem retirada da internet, quando tantos artistas e obras são mencionados no texto, que, aliás, tem várias passagens herméticas. Não teria sido mais útil ao leitor poder reparar nas características dos trabalhos de Hélio Oiticica, Lygia Clark e Mira Schendel ao ler o texto de Ramos? Por que não usar um dos talentosíssimos cartunistas que frequentam as páginas da revista para agregar os conceitos, obras e autores citados por Ramos e oferecer um suporte ao leitor?

Poderia ter havido um pouco mais de lucidez no layout do ensaio, de modo que o palácio de Moebius não ficasse assentado sobre areia.

PLÍNIO PAULOS_SANTOS/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Dois artigos em 24 números: confessa, Plínio, a média não é ruim, vá.

NÃO É PARA BRINCADEIRA

Sou assinante da piauí há um bom tempo e quase nunca a revista chega à minha casa junto com a venda nas bancas. Sempre chega depois, o que é irritante. Tudo bem, há a disponibilidade do conteúdo na internet, mas eu gostaria de ter a opção de ler no papel assim que a revista é publicada.

E nem adianta vir com hipóteses engraçadinhas tipo “a revista é tão boa que o vizinho lê antes”. Não é isso. E não, não pretendo comprar um exemplar na banca enquanto espero o meu, nem para dar de presente, nem para ficar com duas já que uma já é tão boa etc. Espero que o serviço de entrega melhore em 2014.

JACQUELINE FARID_RIO DE JANEIRO/RJ

 

 



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