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A lenda portuguesa de Harry Potter

J. K. Rowling conta que nunca pisou na Livraria Lello, local de peregrinação dos seus fãs no Porto

Adriana Negreiros
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Do Porto

Os dois anos que a escritora inglesa J. K. Rowling viveu na cidade do Porto, no Norte de Portugal, parecem não ter sido os melhores de sua vida. Ela deixou Manchester, na Inglaterra, em novembro de 1991 e instalou-se, com duas professoras britânicas, em um apartamento sobre a Farmácia da Prelada, numa região de habitações simples. Tinha 26 anos, dava aulas de inglês em uma modesta escola de línguas e frequentava boates decadentes.

Embora de temperamento reservado, Rowling era tida como “gira” – em Portugal, sinônimo de “bonita” – e, cinco meses após sua chegada, começou a namorar o estudante de jornalismo português Jorge Arantes, que conheceu no Meia Cave, bar com música ao vivo à beira do Rio Douro. Rowling engravidou de Arantes, perdeu o bebê, casou-se com ele num cartório na Rua de Ceuta e teve uma menina, Jessica Isabel.

O relacionamento era tumultuado, e, numa madrugada fria de novembro de 1993, Arantes expulsou Rowling da casa em que viviam, após estapeá-la. Na manhã seguinte, ela voltou para buscar a filha, então com quatro meses, e voltou para a Inglaterra. Quatro anos depois, lançou Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro volume da saga e da franquia que a tornaria dona de uma fortuna estimada em 795 milhões de libras esterlinas (cerca de 5,2 bilhões de reais).

O fato de Rowling ter vivido no Porto e escrito ali parte da história de Harry Potter – segundo seu biógrafo, Sean Smith – tornou a cidade um destino de turismo para os fãs da saga. Curiosamente, o endereço eleito por eles para peregrinação não foi nem a Farmácia da Prelada, nem o bar Meia Cave. Escolheram o número 144 da estreita Rua das Carmelitas, endereço da Livraria Lello, cujas escadarias de madeira com degraus vermelhos, segundo um boato, teriam inspirado a escritora na composição de Hogwarts, a escola de bruxaria onde estudou Potter.

 

A lenda começou a se espalhar há cerca de dez anos, e um número cada vez maior de turistas passou a invadir o local para tirar selfies na escadaria e postá-las na internet. Inaugurada em 1906, a Lello carregava as marcas do tempo. Um dos detalhes mais fotografados de seu interior, o vitral de 8 por 3,5 metros com o ex-líbris e a divisa da livraria, ameaçava desabar. Em épocas de chuva, as goteiras molhavam os frequentadores. Enquanto ganhava fama mundial, a Lello se afundava em problemas financeiros.

Em 2015, a livraria mudou de administração. Antes que o entra e sai de turistas – muitos deles crianças e adolescentes que pensavam estar em Hogwarts – arruinasse de vez o prédio de fachada neogótica, os novos proprietários decidiram lucrar com o caos. Passaram a cobrar pelo acesso ao interior da loja. O preço da entrada (3 euros, ou cerca de 18 reais) podia ser deduzido na compra de um livro. Mais tarde, o bilhete foi reajustado para 5 euros (cerca de 30 reais). Com isso, 55% dos frequentadores passaram a adquirir um livro.

O volume de visitantes era tão grande que o bilhete de acesso passou a ser vendido em um espaço anexo, decorado com inúmeras referências a Harry Potter e onde o cliente também podia tirar fotos num cenário inspirado na plataforma 9¾, local em que, na ficção, Potter pega o trem que o leva a Hogwarts. No verão, a fila para adentrar a livraria chegava a dobrar o quarteirão.

Com a cobrança dos ingressos, a livraria lucrou o suficiente para renovar as instalações. Entre 2016 e 2017, foram gastos 2 milhões de euros (cerca de 12 milhões de reais) em reformas. As primeiras intervenções deixaram o espaço pronto para o lançamento, em 2016, do novo livro da saga, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada. No ano passado, o dinheiro a mais também permitiu aos administradores comprar, por 70 mil euros (cerca de 414 mil reais), um exemplar da primeira edição em inglês de Harry Potter e a Pedra Filosofal.

“Como qualquer livraria, fizemos eventos relacionados a Harry Potter”, afirma Andreia Ferreira, diretora de Marketing e Comunicação da Lello. “Mas nunca confirmamos a história sobre a inspiração.” Ferreira acredita que o boato de que a livraria influiu na criação de Rowling nasceu de relatos de antigos livreiros que garantiam ter atendido a escritora – muito embora ela fosse então uma desconhecida. A narrativa ganhou tais ares de verdade que guias de turismo e publicações de todo o mundo passaram a chamar a Lello de “livraria do Harry Potter” – como fez o jornal The Daily Telegraph, de Londres, no último 5 de maio.

Duas semanas depois, contudo, Rowling escreveu no Twitter que nunca esteve na Lello e nem sequer sabia da existência da livraria. “Não tem nada a ver com Hogwarts”, postou. “Que desilusão”, comentou @CarlosLucasLx. “Sinto que fui enganado”, afirmou @rodapramim. Em compensação, a escritora contou ter frequentado o Majestic Café, na Rua de Santa Catarina – perto do cartório onde se casou. “Este foi, provavelmente, o café mais bonito onde já escrevi.”

Apesar de ter sido citado na biografia escrita por Sean Smith como um dos pontos preferidos de Rowling no Porto, o Majestic nunca fez alarde do fato. Inaugurado em 1921, o estabelecimento orgulha-se mesmo é de ter reunido em suas mesas intelectuais e artistas da Belle Époque portuguesa. Quando a criadora de Harry Potter elogiou o café no Twitter, a administração do Majestic publicou, no Facebook, um lacônico agradecimento a Rowling “pela mensagem e reconhecimento”.

No final de maio, a administração da Lello divulgou uma carta aberta dirigida à escritora, convidou-a para conhecer a livraria e disse que William Shakespeare “nunca saiu da Inglaterra, mas situou Romeu e Julieta em Verona”.

 

Na mesma época em que Rowling vivia no Porto, a Lello serviu de refúgio ao escritor português Valter Hugo Mãe. Entre 1991 e 1996, Mãe cursou direito no Porto e escreveu alguns de seus poemas nas poltronas do primeiro andar da livraria, onde havia um café. “Era o ponto perfeito para ficar sozinho e meditar”, diz o autor de O Filho de Mil Homens. “Ali escrevi grande parte do meu livro de estreia, um poemário a que chamei silencioso corpo de fuga.” Mãe tem saudades do tempo em que a Lello era um lugar calmo, “um templo, uma capela de livros onde escritores magníficos valiam por santos”. Mas sente orgulho ao ver seu antigo esconderijo ser frequentado por tantos. “Eu sabia que era um segredo que não poderia durar eternamente.”

Quando as lojas de rua do Porto voltaram a funcionar no final de maio, com o fim de parte das restrições impostas pela pandemia, o Majestic Café reabriu as portas, das 10 às 18 horas, exceto aos domingos. A Lello também reabriu, com entrada livre. Em julho, porém, a livraria voltou a cobrar 5 euros dos fregueses.

Nas redes sociais, os visitantes continuam a postar selfies na escadaria. Em 15 de julho, @chi.taii publicou no Instagram, em russo: “Dizem que foi aqui que J. K. Rowling se inspirou para a história de Harry Potter. Estilo art déco, pé-direito alto… o lugar me impressionou completamente.” Apesar da realidade, na Lello a magia continua.

Adriana Negreiros

Jornalista freelancer, foi editora das revistas Playboy e Claudia. É autora de Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço

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