poesia

Livre genealogia do não

Laura Liuzzi
ILUSTRAÇÃO: SVETA DOROSHEVA

LIVRE GENEALOGIA DO NÃO

Para que a terra dobrasse
e inventasse a montanha
foi preciso um bom pedaço
de não para o primeiro bicho
sobre patas a primeira asa
para que o chão continuasse
e também para que fosse interrompido
para a escada e que existisse
mais de uma palavra mais de uma
verdade um chifre um tigre um salto
vê que a lua é a prova da noite
vê que a lua não prova nada
à manutenção dos mistérios
à aprendizagem dos erros o erro
mesmo sem validade alguma
para a invenção dos subterrâneos
foi preciso o cálculo do não para o recuo
das tropas a inconstância das nuvens
para criar um chapéu aceitar
os pais a dor a morte para esquecer
e para lembrar como é importante esquecer
– ter uma borracha sempre à mão –
para a consciência do sonho
a mutação os desvios o drible
a sobrevivência no deserto
existência da ilha para a exceção
o filho único e até para o irmão
para tanto acorde tanta voz
tanto silêncio misturado ao espanto
para o corte incerto todas as línguas
para a imaginação tocar o inexistente
e se a ignorância se a hesitação se a indecisão
não fossem aliados do pensamento
se fôssemos só linha reta certeza precisão
– para onde mesmo iríamos?
os pés as mãos os olhos a boca
os joelhos tortos cotovelos calcanhares
a intuição a maravilha o improvável
o impossível a tudo que dizemos sim
devemos reconhecer a importância do não.

 

INSTANTE ANTES DO SONO

Lembro de Barcelona: muitas pernas
uma linha reta e o percurso do tédio.
Lembro de um apartamento.
Um apartamento, uma mandíbula.
O número 6, a estupidez do número 6.
É banal. O que não é banal.
Lembro do balé: coques esticadíssimos a gel
mães orgulhosas, pontas impecáveis, a pianista.
A pianista da aula de balé. O apartamento da pianista
da aula de balé, imagina. A jarra de água suando
sobre o piano. As diagonais. O erro o erro o erro.
Lembro de Copacabana. Zonza tonta zureta.
Lembro da grande rocha que emergia do mar:
daquela respiração, da vida microscópica.
Daquela importância. O verde é uma cor que não cala.
Eu lembro do apartamento vizinho negro de combustão.
Do desespero. Do apagamento. As escadas.
Despedidas. O gelo o branco o negro
as paredes contíguas ao apartamento onde nasci.
As boias. As bochechas. A flutuação. Azulejos. O ralo.
“Nunca chegue perto do ralo.” O medo.|
Touca na cabeça. Dedo prendendo o nariz.
O caldo. A prancha rosa-choque. Uma praia gorda.
O sal nas costas. A camiseta sobre o sal crispado
nas costas. Os dedos recolhidos de aflição. Eu lembro
das cores fosforescentes. Das tentativas de escamotear
a tristeza. Do roxo elétrico do picolé de uva. Eu lembro
do gosto da lula. Da textura. Da falta de gosto no gosto da lula.
Eu lembro do Mamá. Como era louco o Mamá.
Pleno de certezas. Balaio pendurado no braço.
Os peixes que o Mamá não pescou.
Eu lembro do halo que se formou no céu
no primeiro dia de um ano passado. Eram dois.
Um dentro do outro. Dois arco-íris.
Os halos desapareceram. O ralo.
Dois olhos. Duas cortinas.
Eu lembro que nunca mais.



 

VAI ENTENDER

Um céu sem lua
ainda tem a lua
na luz oculta um
livro sem o passeio
dos olhos ainda tem
muito o que contar
um avô que o neto
nunca conheceu
um avô morto ainda
é um avô e o neto
ainda é um neto um
país que não visitamos
nem nunca visitaremos
as bulgárias ainda assim
existem uma corda
frouxa eu não sei
explicar mas uma
corda frouxa não é
uma corda esticada.
Nem potencialmente.

Laura Liuzzi

Poeta, é autora de Calcanhar e Coisas, pela 7Letras

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