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Lixão fashion

Um registro fotográfico no Deserto de Atacama

Christian Cravo | Edição 198, Março 2023

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Imagine 375 campos de futebol completamente tomados por roupas e acessórios que o mercado da moda rejeitou. Há quase duas décadas, um cenário parecido assombra o Deserto de Atacama, o mais alto e seco do mundo, localizado no Norte do Chile, entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes. Saias, gorros, camisetas, lingeries, calças, biquínis, cintos, luvas, bolsas e calçados se acumulam em cerca de 300 hectares de pedregulho e areia, nas imediações de Iquique. Com 229 mil habitantes, a cidade portuária e turística abriga uma zona franca, a Zofri, e importa 59 mil toneladas de vestuário por ano. Geralmente são peças usadas, vindas do Canadá, dos Estados Unidos, da Ásia e da Europa. O material que não é vendido, ou que chega com defeito, vai parar no Atacama. Parte dos produtos exibe o logotipo de marcas famosas, como H&M, Forever 21, Chanel, Hugo Boss, Nike, Wrangler e Zara.

Os importadores chilenos vendem as roupas e os acessórios de segunda mão na Zofri, por preços convidativos. Eles próprios contratam os caminhões que transportam as sobras para o lixão improvisado e clandestino. As peças jogadas fora, além de evidenciarem o desperdício comum à indústria da moda, causam sérios danos ambientais. A maioria contém poliéster, fibra artificial derivada do petróleo que leva centenas de anos para se desintegrar – o algodão orgânico demora alguns meses. Enquanto se desgastam, os tecidos sintéticos liberam microplásticos que poluem o ar e os lençóis freáticos do deserto, afetando a fauna.

Outro problema das “montanhas fashion” são os incêndios. De tempos em tempos, coloca-se fogo nas pilhas de roupas e acessórios para que desapareçam mais rapidamente. A fumaça das incinerações espalha gases tóxicos pelas habitações precárias que rodeiam o lixão. Em consequência, seus moradores – quase sempre migrantes ilegais – desenvolvem doenças cardiorrespiratórias. É frequente vê-los revirar os detritos à procura de trajes para vestir ou revender por valores baixíssimos. Uma camiseta fisgada no lixão pode custar quase 1 dólar.

Em janeiro de 2022, o fotógrafo baiano Christian Cravo visitou o Atacama e retratou o cemitério de peças usadas. Ele documenta o impacto negativo de atividades econômicas sobre a natureza desde novembro de 2015. “Na época, estive em Minas Gerais e registrei a tragédia de Mariana. Fiquei tão impressionado com o desastre que resolvi fotografar outros estragos decorrentes da inépcia ou do descaso humanos. Meu propósito é gerar reflexões sobre o avanço desenfreado das madeireiras, fábricas, mineradoras e do agronegócio – um processo que desequilibra ecossistemas fundamentais para o planeta.”

Veja, abaixo, parte do ensaio fotográfico de Cravo.