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    Na transmissão do cargo de Fernando Henrique para Lula em 2003, a confusão com a faixa e os óculos, e o simbolismo: “Enfim, o tradicional” CREDITO: LULA MARQUES_FOLHAPRESS_2003

questões vultosas

Lula e “o melhor do PSDB”

Se há algo parecido com a terceira via, é isso aí

Fernando de Barros e Silva | Edição 184, Janeiro 2022

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Há quase vinte anos, no dia em que Lula foi eleito presidente pela primeira vez, Fernando Henrique Cardoso registrou assim o momento em que saiu de casa para votar, em São Paulo: “Foi muito simpático. Minha rua estava cheia de faixas agradáveis, elogiando o que fiz pela democracia e pelo Brasil. Os vizinhos também, no sábado já tinha sido assim, quando fomos visitar as obras do apartamento para onde vamos nos mudar. Naquele bairro está tudo sempre bem.”

A passagem aparece na parte final do último volume dos Diários da Presidência (Companhia das Letras), quatro catataus de quase mil páginas cada um, com anotações sobre os dois mandatos do tucano, de 1995 a 2002. Logo depois de apertar o 45 na urna eletrônica (consta que ele tenha votado em José Serra), FHC rememora que falou com os jornalistas: “Dei declarações à imprensa, elogiando as eleições, enfim, o tradicional. Saiu na imprensa toda eu falando sobre o resultado democrático etc. Peguei o avião, voltei para Brasília.”

Tem-se a impressão ao ler essas linhas de que Fernando Henrique está vraiment à l’aise. A autoestima de pavão e a satisfação de classe acabam sendo um pouco cômicas – e fazem lembrar por que Geraldo Alckmin gosta de dizer em tom jocoso que é diferente “dessa turma de Higienópolis”. Mas o que importa aqui é ressaltar a naturalidade com que o então presidente se refere aos ritos da democracia – seja “elogiando as eleições, enfim, o tradicional”, seja “falando sobre o resultado democrático etc.”. Há um tom displicente nesses registros, mas ele não denota desdém, pelo contrário, parece ser um sintoma de que as palavras são quase supérfluas, ou inteiramente redundantes, porque as coisas já falavam por si. Respirava-se, se podemos dizer assim, a banalidade da democracia.

Nas oitenta páginas finais dos Diários, que correspondem ao período que vai da eleição à posse de Lula, aparecem repetidas vezes expressões como “clima de civilidade”, “comportamento civilizado”, “transição civilizada”. O leitor logo vê que houve empenho efetivo por parte do tucano e sua equipe para familiarizar os petistas com a administração das coisas e facilitar o acesso do novo inquilino ao Palácio do Planalto. FHC e Lula reúnem-se algumas vezes para trocar informações e confidências. Na última delas, a três dias da posse, o petista chama o tucano e alguns de seus familiares para jantar na Granja do Torto, onde morou provisoriamente. “Esse é o grau de amizade”, diz FHC, não sem antes anotar que o petista “fingiu ter preparado um assado” feito, na verdade, por outra pessoa.

Fernando Henrique tinha clareza a respeito do significado histórico do momento: cassado pelo regime militar, o sociólogo de prestígio internacional que chegou ao poder pelo voto, estabilizou a moeda e modernizou o Estado brasileiro estava passando a faixa presidencial para as mãos do mais importante líder operário da história do país, também ele um oponente combativo da ditadura. Fazia sentido falar em consolidação institucional e ampliação do horizonte democrático no Brasil.

Menos de duas semanas antes de Lula assumir a Presidência, ele e FHC participaram da cerimônia de premiação das personalidades do ano pela revista IstoÉ. Derrotado nas urnas, Serra estava presente, e FHC registra que ele parecia pouco à vontade. Ao tomar a palavra, Lula começou por agradecer o adversário pela “lisura do pleito”. A plateia aplaudiu enfaticamente. “Foi bonito, o Serra se levantou, e até me arrependi do pensamento de que teria sido melhor ele não ter ido”, comenta o presidente. Na mesma noite, dirigindo-se primeiro ao petista e depois ao público, FHC disse: “Nessas últimas semanas, Lula, as nossas divergências diminuíram muito, porque, na verdade, o governo que você está montando é um governo de inspiração tucana.” Todo mundo riu.

À luz de hoje, o trecho mais curioso desses relatos se encontra na página 953 dos Diários. Num dos encontros que tiveram a sós, Lula especula sobre o futuro de FHC. Menciona a morte de Mário Covas (em março de 2001) e diz ao tucano que ele tem dois caminhos: “Ou você vai ficar como o Clinton, fazendo conferências, vai ficar famoso internacionalmente e até ganhar dinheiro, ou vai entrar na briga política do PSDB.” O petista afirma que Serra “não passa no conjunto do Brasil” e não seria um bom nome para assumir o comando do partido. FHC então registra que Lula ainda disse “outra coisa interessante”: “O Aécio é fogo de palha; o melhor que vocês têm é o Geraldo.” Duas páginas adiante, durante o jantar no Torto, Lula reitera o que havia dito. Repete o raciocínio para concluir que “o melhor é o Geraldo Alckmin” e diz a FHC que “o PSDB pode desaparecer como partido de influência nacional” se ele “não entrar na briga”.

 

Ninguém imaginou que depois de vinte anos o país pudesse estar mergulhado num buraco tão fundo. As palavras de Lula, ao mesmo tempo, soam proféticas. FHC não entrou na briga. Preferiu se dividir entre os ares do mundo e aquele bairro onde “está tudo sempre bem”. O instituto que leva seu nome, onde até hoje se realizam discussões relevantes de altíssimo nível, representa a intersecção entre esses dois espaços familiares e aconchegantes – a casa e o planeta – que protegem FHC do Brasil.

Depois da derrota do “fogo de palha” para Dilma em 2014, o PSDB parece cada vez mais perto de “desaparecer como partido de influência nacional”. Na realidade, já faz algum tempo que o PSDB é só um retrato na parede. Dividida entre a candidatura de João Doria e as sabotagens de Aécio Neves, a legenda está reduzida a uma marca de negócios – hoje a favor de Bolsonaro, no caso do mineiro, e contra Bolsonaro, no caso do paulista, mas poderia ser o contrário, tanto faz.

Coube, ironicamente, ao mais caipira dos tucanos da primeira encarnação reacender a antiga aspiração do campo progressista, de que PSDB e PT pudessem andar juntos. Geraldo Alckmin sempre lembrou aos jornalistas que sua assinatura consta em sétimo lugar na ata de fundação do PSDB. Era uma forma de assegurar seu espaço num partido que nasceu com pretensões cosmopolitas, e no qual Alckmin sempre foi visto, sobretudo pela turma da USP, como uma espécie de redneck, provinciano e carola.

O conservadorismo (que ele rejeita) e os hábitos franciscanos (que ele faz questão de ressaltar) talvez sejam as qualidades que tornam Alckmin o parceiro ideal de Lula neste momento. Se existe algo parecido com a terceira via no Brasil, esse algo é a chapa Lula-Alckmin. Mais ponderada e jeitosa do que isso, só a Renata Vasconcellos.

O favoritismo de Lula a dez meses da eleição faz com que parte da esquerda se iluda a respeito do que está por vir. Desdenhar da necessidade de uma aliança ao centro seria neste momento o pior dos erros. Ao sair do ninho, Alckmin se tornou, de fato, “o melhor do PSDB”. Sua importância vai além do cálculo eleitoral. Mesmo que seja derrotada nas urnas, a extrema direita não desaparecerá do mapa. O zumbi do bolsonarismo irá nos acompanhar por muitos e muitos anos.

Não estamos mais em 2002 e nem em 2010. O desastre econômico do governo Dilma e as revelações da Operação Lava Jato também fazem parte da biografia política de Lula. Serão explorados na campanha, mas também depois dela caso o petista volte à Presidência. A situação do Brasil é terminal. Não estamos falando de consolidar as instituições ou de ampliar os horizontes da democracia, mas de salvá-las da destruição.