tempos da peste

Mais medo dos mortos que dos vivos

Como o governo de Narendra Modi perdeu o controle da pandemia

Tejas Harad
Tejas Harad em Hyderabad, que vive novo lockdown: a urina de vaca – para nacionalistas hindus, uma antiga panaceia – agora é citada por políticos como remédio milagroso contra a Covid
Tejas Harad em Hyderabad, que vive novo lockdown: a urina de vaca – para nacionalistas hindus, uma antiga panaceia – agora é citada por políticos como remédio milagroso contra a Covid CREDITO:DIVYA KANDUKURI_2021

Tradução de Rogério Galindo

De Hyderabad

No mesmo dia em que a piauí me escreveu pedindo um diário da pandemia, em 4 de maio, recebi mensagens de dois amigos. Um deles me contou que sua tia havia morrido de Covid-19. O outro, que um colega nosso de faculdade tinha perdido o pai, pelo mesmo motivo. Desde o início de março, quando os números de infectados começaram a aumentar na Índia, primeiro no meu estado natal de Maharashtra e depois em todo o país, produzindo uma “segunda onda” do coronavírus, os dias só trazem notícias desoladoras.

Em 1º de maio, a Índia tornou-se o primeiro país do mundo a registrar mais de 400 mil casos em 24 horas. O número diário de infectados tem se mantido acima ou próximo de 300 mil desde 21 de abril. Até o dia 25 de maio, era o segundo país com o maior número de contaminados (26 948 874 casos), depois dos Estados Unidos, e o terceiro em número de mortes (307 231 pessoas), em seguida aos Estados Unidos e ao Brasil. Os hospitais indianos se recusam a aceitar mais pacientes, devido à falta de leitos. Muitos que conseguem um lugar, entretanto, acabam morrendo por causa da escassez de oxigênio. Os crematórios já estão sem espaço para abrigar os cadáveres e sem madeira para incinerá-los.

A seguir, conto a tragédia da Índia em um diário, que começa em março de 2020 e chega até os acontecimentos ocorridos no mês passado.

 

MARÇO DE 2020_No dia 5 foi meu aniversário e festejei a data com alguns colegas na Turf Tavern, em Oxford, na Inglaterra, onde estou desde outubro de 2019. Esse pub foi frequentado pelo elenco e a equipe dos filmes de Harry Potter, que teve cenas rodadas na cidade. O local estava lotado, como sempre, e ninguém usava máscara. Na verdade, só os chineses são vistos com máscara em Oxford. Em vez de serem admirados por isso, recebem olhares suspeitos. Afinal, por que usar máscara, se você não está infectado?, pensam alguns.

Eu me mudei para Oxford para participar do programa do Instituto Reuters para Estudo do Jornalismo. Passei os três primeiros meses absolutamente perplexo com a cidade, suas faculdades magníficas, os belos jardins e os pubs históricos. Em janeiro, informações sobre a Covid-19 começaram a chegar da China a conta-gotas, mas nenhum de nós aqui na cidade, talvez nem os chineses que estão no mesmo albergue que eu, nos demos conta do tamanho da ameaça.

Quando a Covid-19 desembarcou na Europa – na Itália, para ser preciso –, alguns de nós subestimamos a doença, achando que era tão letal como uma gripe. Em fevereiro, participantes do programa estavam fazendo planos para ir ao Festival Internacional de Jornalismo em Perugia, na Itália. Já haviam reservado passagens e acomodação. Tiveram que cancelar tudo.

Três dias depois do meu aniversário, Oxford registrou o primeiro caso do novo coronavírus. Uma semana mais tarde, as coisas ficaram bem sérias no Reino Unido. Nossas aulas presenciais foram suspensas. O simpósio que marcaria oficialmente o fim do programa foi cancelado. Os participantes, um a um, começaram a voltar para seus países, sem se despedir direito uns dos outros.

Em 16 de março, eu e minha namorada, Divya Kandukuri, que está na Índia, tivemos uma conversa tensa por telefone. Ela pediu que eu remarcasse meu voo imediatamente. Por causa da disseminação da Covid-19 no Reino Unido, o governo indiano anunciara que todos os voos que partem daqui seriam suspensos em dois dias.

Faltava um mês para meu visto expirar, e eu queria esperar um pouco mais. Porém minha namorada não quis correr riscos nem compartilhava do meu entusiasmo por Oxford. Tivemos uma discussão acalorada, e quando cedi, duas horas depois, o preço da passagem havia dobrado. Percebi que ia ficar muito caro esperar mais e marquei o voo para o dia seguinte.

No dia 18, quarta-feira, cheguei à capital do estado de Maharashtra, Mumbai, a maior cidade do país, com cerca de 20 milhões de habitantes em toda a região metropolitana. No aeroporto, eu e um amigo tivemos que ficar numa fila para medirem nossa temperatura. Embora longa, a fila andava rápido. Pessoas que voltam do exterior, especialmente de países como o Reino Unido, estão no topo de uma lista de “suspeitos” do governo. Mas nós dois passamos no teste. Como precisei ficar em quarentena obrigatória nas duas semanas seguintes, eu me fechei no apartamento onde vivo em Mumbai.

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em uma transmissão ao vivo no dia 24, anunciou um lockdown severo para todo o país. Modi está no segundo mandato e chegou ao poder em 2014, vencendo os concorrentes de lavada. Quase todo mundo concorda que a vitória sem precedentes do Partido Bharatiya Janata (BJP, ou Partido do Povo Indiano) se deveu a seu carisma pessoal.

Modi tem uma quedinha pela teatralidade. Tudo que faz é bem calculado e ensaiado. Ele não deu uma única entrevista coletiva desde que chegou ao mais alto posto do país. Só fala com canais abertamente favoráveis ao governo. Todas as perguntas e respostas nessas entrevistas, incluindo as pausas, parecem planejadas. Mas esse tipo de planejamento meticuloso é reservado apenas à construção da imagem pessoal de Modi. O lockdown que ele anunciou no dia 24, às oito da noite, um dos mais draconianos do mundo, foi irremediavelmente malfeito.

Como a medida passaria a valer à meia-noite, na prática, o primeiro-ministro deu apenas quatro horas para que as pessoas se preparassem para o lockdown. Isso obviamente levou a uma corrida insana para comprar alimentos, papel higiênico, álcool em gel e tudo mais que as pessoas pudessem carregar. Modi falhou completamente em passar a mensagem de que os mercados, na verdade, seguiriam abertos. Mais tarde, o governo teve de publicar diversos esclarecimentos para reduzir o pânico da população.

O lockdown desastrado causou um imenso sofrimento aos trabalhadores, em particular os do setor informal, que ficaram sem qualquer tipo de ganha-pão. O governo de Modi também suspendeu, de uma só canetada, o funcionamento de todo transporte rodoviário, todos os trens e todas as viagens aéreas. Poucos dias depois, os trabalhadores desesperados, sem comida e vivendo nas cidades em acomodações alugadas que não tinham como pagar, começaram a fazer a pé, em meio ao calor absurdo do verão, o caminho de volta para seus vilarejos de origem, situados às vezes a centenas ou milhares de quilômetros de onde estavam.

Os jornais e as redes sociais se encheram de fotos de pessoas andando pelas estradas com os filhos nos braços e as malas sobre as cabeças. Todo o país ficou chocado. No entanto, Modi, o imperador em Delhi, não se comoveu. Em vez de colocar em funcionamento os trens e o transporte rodoviário para atender essas pessoas, continuou o período do lockdown, sem abrir exceções. Chegou à casa de centenas o número de migrantes que morreram nesses meses devido à fome, à exaustão, à brutalidade da polícia e aos acidentes em trilhos e nas estradas (pois o transporte para serviços essenciais era permitido).

Durante o período da minha quarentena assim que voltei à Índia, recebi telefonemas de funcionários da saúde pública perguntando sobre meu estado e se eu tinha desenvolvido algum sintoma da Covid-19. Recebi também a ligação de uma psicóloga a serviço do governo perguntando sobre minha saúde mental. Embora a pessoa do outro lado da linha estivesse meramente fazendo seu trabalho, a ligação foi para mim uma surpresa agradável.

 

JUNHO DE 2020_Minha mãe me ligou no dia 20 de seu vilarejo, Budhavali (também no estado de Maharashtra). Contou-me que um vizinho, Akshay Thakare, tinha morrido de Covid-19. Foi a primeira vez que ela me relatou um caso de morte pelo vírus. Fiquei devastado com a notícia. Com 35 anos, Thakare era apenas seis anos mais velho do que eu. Ele me ajudou muito quando eu estava me inscrevendo para vagas em faculdades, anos antes. Eu queria estudar em Mumbai, mas jamais havia colocado os pés na cidade. Na verdade, eu nunca tinha viajado de trem. Meu vizinho, que todos conheciam pelo apelido de Gabu, me ajudou a fazer a inscrição em diversas faculdades e depois conferiu a relação de aprovados.

A família tentou abafar o fato de que ele havia contraído a Covid-19 e colocou a culpa da morte em comorbidades que tinha. No entanto, o fato de seu corpo não ter sido trazido para o vilarejo deixou claro às pessoas o que se passara. Fiquei mal por dada Gabu não ter tido um funeral adequado. Infelizmente, ele não seria o último. Dada significa “irmão mais velho” em marata, a língua oficial do estado de Maharashtra.

Continuo a ser informado sobre mortes na minha família e nos vilarejos próximos daquele onde vive minha mãe, como a de um motorista de meia-idade que ganhou centenas de milhares de rúpias num curto espaço de tempo transportando pessoas da cidade onde elas trabalhavam até seus vilarejos. Foi numa dessas viagens que ele provavelmente se infectou. O homem foi hospitalizado, mas não resistiu. Seu corpo foi levado para o vilarejo onde vivia e cremado na calada da noite. As pessoas estão com mais medo dos mortos, que não respiram, do que dos vivos, que podem de fato espalhar o vírus. Nas semanas seguintes, a história da morte desse homem foi contada de boca em boca na nossa comunidade como um alerta contra a ganância.

 

DEZEMBRO DE 2020_Minha namorada e eu chegamos a Hyderabad no começo da manhã do dia 19, sábado. Decidimos mudar de cidade porque, depois do corte que tive no salário, não tínhamos mais como nos sustentar em Mumbai, que é a cidade mais cara para se viver na Índia. Além disso, a Economic & Political Weekly, publicação de ciências sociais na qual trabalho, fechou os escritórios temporariamente e todos os funcionários passaram a trabalhar em casa.

Quando entramos em Hyderabad, que tem cerca de 10 milhões de habitantes, percebemos que não havia muita gente usando máscara. As coisas em geral deram a impressão de estar mais tranquilas do que em Mumbai. O pico da primeira onda na Índia ocorreu em setembro e parece ter havido uma diminuição depois disso. O lockdown nacional foi tão pesado e longo – durou de 25 de março a 7 de junho – que, assim que as infecções diminuíram, as pessoas resolveram recuperar o tempo perdido. Foram celebrar em festivais, participaram de festas, organizaram cerimônias de casamento e correram para bares, shoppings e cinemas. Mas não foram somente essas pessoas que baixaram a guarda. O governo do país e as administrações dos estados fizeram o mesmo.

 

MARÇO DE 2021_No dia 4, minha namorada começou a mandar mensagens para todos os amigos mais próximos em Hyderabad, dizendo que minha festa de aniversário, no dia seguinte, tinha sido cancelada. Ela estava com febre e não quis correr riscos. Ficou triste por arruinar meu aniversário, mas garanti a ela que estava tudo bem. Pouco depois, descobrimos que ela havia sido infectada pela Covid-19. Em poucas semanas, recuperou-se plenamente.

No início da pandemia, Modi lançou o Fundo de Assistência e Ajuda do Primeiro-Ministro ao Cidadão em Situações de Emergência – ou fundo PMCares, na sigla em inglês. Modi adora siglas, especialmente as que soam inteligentes. As pessoas foram incentivadas a doar para o novo fundo, embora já existisse um Fundo Nacional de Ajuda do Primeiro-Ministro (PMNRF, na sigla em inglês). Modi provavelmente não gostava dessa sigla, ou não gostava deste fundo, por ser mais transparente, uma vez que foi criado por um ato do Parlamento. A imprensa afirma que o PMCares recebeu mais de 1,4 bilhão de dólares em doações em menos de dois meses após seu lançamento. O governo se recusa a divulgar qual foi a quantia recebida até agora e a explicar como o dinheiro vem sendo gasto.

Em janeiro, falando no Fórum Econômico Mundial, Modi gabou-se que a Índia havia conseguido vencer a pandemia e que o país estava vacinando com rapidez sua população graças a dois produtores de imunizantes. Também disse que estava pronto para exportar vacinas para o mundo.

No último dia 8, o ministro da Saúde, Harsh Vardhan, declarou o “fim da pandemia de Covid-19 na Índia”.

 

ABRIL DE 2021_Desde o final do mês passado, a Índia vive uma segunda e devastadora onda de contaminações.

Entre fevereiro e março, a Força-Tarefa Nacional Contra a Covid-19, criada pelo governo no início da pandemia, não fez nenhuma reunião. Depois de se encontrar em 11 de janeiro, o grupo só voltou a se reunir em 15 de abril, quando a nova onda já estava a pleno vapor. Enquanto a pandemia se espalhava, incontrolável, Modi e outros líderes do BJP estavam ocupados fazendo campanha para as eleições parlamentares da Bengala Ocidental, frequentemente sem máscaras e desobedecendo aos protocolos de distanciamento social.

Algumas vezes, as eleições nos estados são feitas em mais de uma etapa, por causa da estrutura necessária para realizá-las nas várias regiões (como enviar as urnas eletrônicas, recrutar os mesários e organizar a polícia para evitar incidentes indesejáveis). Desta vez, porém, ocorreu algo sem precedentes: no estado de Bengala Ocidental as eleições ocorreram em oito etapas. Os partidos – com exceção do BJP, de Modi – apresentaram objeções à decisão da Comissão Eleitoral (espécie de tribunal eleitoral), tanto mais devido ao agravamento da pandemia, e pediram que as quatro últimas etapas acontecessem num só dia. A comissão, porém, não fez nenhuma modificação no calendário eleitoral.

Em 3 de abril, o secretário da Saúde do estado de Assam (no nordeste do país), do partido de Modi, foi questionado por um jornalista por não usar máscara enquanto fazia campanha eleitoral. Sarma respondeu que não havia Covid-19 em seu estado. Com a repercussão negativa de seus comentários nas mídias sociais, ele tuitou: “Aqueles que estão ridicularizando minha frase sobre a máscara devem vir a Assam e ver como contemos a Covid-19, em comparação com estados como Delhi, Kerala e Maharashtra, além de termos conseguido uma impressionante recuperação de nossa economia. Vamos também celebrar o Bihu [um grande festival da região] com o mesmo entusiasmo neste ano.” De acordo com a revista indiana Frontline, o número de casos em Assam aumentou de 537, em 1º de abril, para 23 104, em 29 de abril; o estado registrou 176 mortes por Covid-19 no período.

Na campanha de Bengala Ocidental, Modi fez mais de vinte comícios. Em 17 de abril, quando o país registrou 261 mil novos casos, Modi reuniu uma multidão numa cidade do estado. “Nas quatro direções […] em todo lugar onde meus olhos alcançam, só o que consigo ver são pessoas e mais pessoas”, disse. Somente no dia 22 de abril a Comissão Eleitoral proibiu comícios com mais de quinhentas pessoas. Muito embora o BJP tenha despejado uma quantidade imensa de recursos na campanha de Bengala Ocidental, o partido perdeu as eleições.

A atitude indolente do governo Modi também pode ser percebida no sinal verde para a realização do Kumbh Mela (literalmente, “festa do pote”), um festival religioso que atrai milhões de peregrinos a Haridwar, uma cidade no estado de Uttarakhand, no Himalaia. Realizado a cada doze anos por monges hindus, o festival tem imenso impacto ritual e político. É também uma máquina de fazer dinheiro, e os principais monges se certificaram de que o governo não impusesse restrições ao evento. A crer numa reportagem publicada por uma das principais revistas da Índia, The Caravan, o ministro-chefe de Uttarakhand foi retirado do cargo pouco antes do início do festival por querer colocar limites ao evento. O estado é governado pelo partido de Modi.

Mais de 1 milhão de peregrinos visitaram Haridwar diariamente durante o festival. Perto de 3 milhões de pessoas se banharam no Rio Ganges em 12 de abril e novamente no dia 14, por ocasião daquilo que é chamado de “banho real” (um termo mais preciso seria “banho em massa no sujo Ganges”). A maior parte dos peregrinos não usava máscara, nem houve a menor chance de seguir os protocolos de distanciamento. As infecções estavam fadadas a aumentar e, quando os visitantes voltaram para suas regiões de origem, levaram o vírus junto.

Em 23 de abril, sexta-feira, minha mãe ligou de manhã, num horário que nunca me liga. Era para contar que um tio meu, Prabhakar Men, cuja roça fica atrás de nossa casa, tinha morrido de Covid-19. A notícia me deixou ao mesmo tempo abalado e perplexo. Dias antes, quando fui visitar meus pais, ele e seu filho foram me ver, e tivemos uma conversa agradável. Com 45 anos, era um homem saudável, casado, pai de três filhos e a única pessoa que dispunha de alguma renda em sua família. Minha mãe me disse que, depois que parti, ele foi mais de uma vez à casa dela e já estava com febre. Meu pai faz uma espécie de suco de folhas de mamona que as pessoas acreditam ser bom para acabar com a fraqueza e a febre. Por sorte, meu tio manteve o máximo de distância possível de meus pais, que ainda não haviam sido vacinados. Eles não se infectaram.

 

11 DE MAIO, terça-feira_Uma reportagem publicada hoje no jornal The Indian Express afirma que “desde abril, os casos diários quintuplicaram, passando de cerca de 80 mil para mais de 400 mil por dia. No mesmo período, porém, o número de mortes registradas por dia aumentou quase dez vezes, passando de cerca de 400 por dia para mais de 4 mil por dia”.

A maior parte dos especialistas acredita que há uma imensa subnotificação nas infecções e nas mortes por Covid-19 na Índia. O jornal The Hindu informou, em 18 de abril, que muitos hospitais no estado natal de Modi, Gujarati, estavam mencionando outras causas para as mortes, e não a Covid-19. “Por exemplo, em 16 de abril, segundo o boletim de saúde do estado, o total de mortes foi 78. Mas em sete cidades […] 689 corpos foram cremados ou sepultados seguindo os protocolos para mortos pela Covid-19”, dizia a reportagem.

No início deste mês, vídeos de corpos em decomposição flutuando no Rio Ganges criaram estardalhaço nas redes sociais. Dizia-se que esses corpos, resgatados no rio nos estados de Uttar Pradesh e Bihar, eram de pessoas que morreram de Covid-19. Em função do grande número de mortes, os crematórios estão saturados e os custos das cremações subiram, o que pode ter forçado as famílias dos doentes a descartar os corpos no rio. Só hoje, 71 deles foram retirados de uma curva do Ganges no vilarejo de Chausa, em Bihar, no Norte do país.

A falta de leitos nos hospitais e a escassez de oxigênio ampliaram o número de mortes na segunda onda da pandemia. Shalmoli Halder, voluntária num grupo que auxilia pacientes de Covid-19 em Delhi, disse que faz entre 50 e 200 ligações para hospitais até conseguir um leito para um paciente. Segundo ela, mais difícil ainda que encontrar um leito com oxigênio ou um leito de UTI, é achar um leito com respirador. Por vezes, Halder precisa mandar pacientes para regiões vizinhas, como Punjab e Haryana, a cerca de 300 km de Delhi.

De acordo com dados coletados por um grupo de pesquisadores independentes, cerca de quatrocentas pessoas já morreram devido à falta de oxigênio na Índia até agora. Aditi Priya, uma das pesquisadoras que trabalham nesse grupo, disse que há grande subnotificação das mortes causadas por esse problema, uma vez que os dados divulgados incluem apenas as ocorridas em hospitais e contadas pela imprensa. Haveria muita gente que não chega ao hospital ou que morre em hospitais menores, sem cobertura da imprensa. Esses dados são importantes para responsabilizar o governo, segundo Priya, já que são as mortes que poderiam ser evitadas, caso tivesse havido melhor planejamento dos cuidados a serem feitos durante a pandemia.

 

13 DE MAIO, QUINTA-FEIRA_Meu pai, que tem 56 anos, e minha mãe, de 53 anos, tomaram ontem a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Fazia muito tempo que eu não me sentia tão feliz e tão aliviado. Todo dia, durante semanas, eu atazanei minha mãe para ir à unidade de saúde local se vacinar. Mas ela estava preocupada com os efeitos colaterais da vacina. Está circulando na Índia uma lenda urbana sobre gente que morreu depois de ter sido imunizada, o que aumenta a hesitação das pessoas. O fato de as vacinas não estarem facilmente disponíveis e de que é preciso esperar horas no centro de vacinação desestimula ainda mais a população. Meu irmão levou meus pais até a unidade de saúde de moto às seis da manhã para registrar seus nomes. Eles tiveram que esperar bastante tempo até receberem a vacina.

Atualmente o governo indiano aplica duas vacinas – a Covishield, da AstraZeneca, e a Covaxin, da Bharat Biotech. A AstraZeneca, uma companhia farmacêutica anglo-sueca, fez uma parceria com a empresa indiana de biotecnologia Serum Institute of India (SII), a maior produtora de vacinas do mundo, para produzir os imunizantes a serem aplicados na Índia e exportados, por meio do programa Covax, da Organização Mundial da Saúde (OMS). O governo indiano também aprovou a russa Sputnik V para uso emergencial na Índia.

A Índia lançou seu programa de vacinação apenas em janeiro. Naquele momento, Modi disse em um discurso transmitido pela tevê: “Estamos dando início ao maior programa de vacinação do planeta e isso mostra ao mundo a nossa capacidade.” Nas últimas semanas, o “maior programa de vacinação do planeta” vem enfrentando problemas. Em 1º de maio, a Índia começou a vacinar pessoas entre 18 e 45 anos em geral. As que têm mais de 45 anos e trabalham na linha de frente do combate à pandemia já vinham sendo imunizadas. Mas, embora tenha sido ampliado o número dos que podem tomar a vacina, a quantidade de doses aplicadas diariamente diminuiu. Entre os dias 1º e 12 de abril, a Índia aplicou em média 3 milhões de doses diárias. O número caiu para 2 milhões entre o primeiro dia de maio e hoje. O país tem cerca de 1,4 bilhão de habitantes.

Especialistas em saúde e ativistas insistem que o programa de vacinação precisa ser gratuito e universal para ser eficaz e justo, porém o governo lentamente caminha para soluções de mercado. As autoridades transferiram a responsabilidade de vacinar as pessoas abaixo de 45 anos para governos estaduais e hospitais particulares. Mas o governo de Modi está permitindo que os dois fabricantes estabeleçam um preço diferente para os imunizantes. A SII, que atualmente oferece 90% das doses aplicadas no país, estava cobrando do governo nacional 150 rúpias (cerca de 11 reais) por dose, mas vai cobrar 300 rúpias (22 reais) dos governos estaduais e 600 rúpias (44 reais) dos hospitais privados.

Como o diretor executivo da SII, Adar Poonawalla, admitiu que sua empresa lucra o suficiente cobrando 150 rúpias a dose, especialistas estão intrigados em saber por que o governo Modi autorizou que a grande farmacêutica cobrasse tão caro de governos estaduais e hospitais privados. Os especialistas também se perguntam por que o governo nacional não centraliza a compra de vacinas para todos os cidadãos, uma vez que, no Orçamento do país, há 350 bilhões de rúpias (cerca de 26 bilhões de reais) reservados para o programa de vacinação. A ministra das Finanças, Nirmala Sitharaman, chegou a dizer em fevereiro, em seu discurso sobre o Orçamento, que estava comprometida em destinar mais verbas para o programa, caso necessário.

 

16 DE MAIO, DOMINGO_Saio para dar uma volta com nossa cachorra, Tara. O tempo está nublado e parece que pode chover à tarde, como tem acontecido nas últimas semanas. Na volta, pego o exemplar do diário The Hindu na porta de casa. Preparo meu café da manhã – musli, leite e mel – e sento para ler o jornal.

A pandemia não teve efeitos muito adversos na minha vida pessoal. Apesar do corte em meu salário, mantive o meu emprego e passei a trabalhar em casa. Fiz poucas visitas aos meus pais, mas fico feliz por eles estarem bem.

Muita gente na Índia não teve a mesma sorte que eu. A revista The Economist estima que a Covid-19 matou cerca de 1 milhão de pessoas na Índia até agora. Isso significa que morrem no mínimo 6 mil pessoas diariamente no país, ao passo que o número oficial gira em torno de 4 mil. O centro de pesquisas norte-americano Pew Research Center descobriu que o número de pobres na Índia (com renda de 2 dólares diários, ou menos) aumentou em 75 milhões de pessoas em 2020. É um imenso retrocesso para a Índia, considerando que, de 2011 a 2019, o número de pobres no país havia caído de 340 milhões para 78 milhões de pessoas.

Várias famílias perderam seus arrimos para a Covid-19. Muitos adultos ficaram sem seus empregos ou fontes de renda. Pobres, mulheres, indianos de castas inferiores, pessoas com deficiências, transgêneros e trabalhadores do sexo foram duramente afetados, bem mais que os de setores privilegiados da sociedade. Além disso, o estresse causado pela pandemia tem um tremendo impacto na saúde mental das pessoas.

Agora são 15h45. Desde que comecei a organizar este diário para a piauí, hoje pela manhã, soube de mais três mortes: a cunhada de uma conhecida, o ex-chefe de um amigo próximo e o pai de um amigo do Twitter. Vai demorar bastante para que os indianos se curem dessa tragédia colossal. Muitas mortes teriam sido evitadas caso o governo demonstrasse disposição para agir de maneira mais decidida e com melhor planejamento. Entretanto, suas prioridades foram outras. Em abril, o primeiro-ministro Modi estava fazendo campanha incansavelmente para conquistar vitórias eleitorais, e agora, em maio, tenta aprovar um novo e extravagante complexo para o Parlamento, chamado projeto Central Vista, que vai custar 200 bilhões de rúpias (cerca de 15 bilhões de reais) ao erário público. Enquanto isso, a pandemia devasta as cidades e os vilarejos do país.

 

17 DE MAIO, SEGUNDA-FEIRA_Um amigo brasileiro me mandou uma mensagem dizendo que as pessoas em seu país estão compartilhando notícias sobre indianos que tomam urina de vaca e se lambuzam em fezes do mesmo animal para se proteger da Covid-19. Os comentários à notícia observam que isso se deve ao fato de os indianos serem “pobres, pouco educados e estarem desesperados”.

É verdade que alguns indianos estão passando fezes de vaca no corpo e tomando urina do bicho – um grupo hindu de extrema direita chegou a realizar uma festa para que as pessoas a bebessem, em março do ano passado. Mas isso tem mais a ver com religião e com a ascensão de políticos nacionalistas hindus do que com a pobreza, a falta de educação ou o desespero dos indianos.

A vaca é considerada um animal divino na tradição brâmane da Índia. Os brâmanes estão no topo do sistema hierárquico de castas do país, e a maior parte dos antigos textos sânscritos que mencionam a divindade e a sacralidade da vaca foi escrita por eles. A crença na urina da vaca como remédio antecede a Covid-19. Um site de extrema direita oferece um rol de doenças que podem ser curadas pela urina da vaca, entre elas tosse, constipação, diabetes e disfunções cerebrais (seja lá o que isso signifique). A urina da vaca é uma panaceia na imaginação nacionalista hindu.

Modi e seu partido apoiam o nacionalismo hindu e isso inclui a promoção da adoração da vaca e da urina da vaca. Pragya Thakur, deputada do BJP no Parlamento, disse recentemente: “Se tomarmos desi gau mutra [urina de uma vaca nativa da Índia] todos os dias, isso vai curar a infecção pulmonar causada pela Covid. Tenho muitas dores, mas tomo urina de vaca todos os dias. Por isso, agora não preciso tomar nenhum remédio contra o coronavírus e não tenho coronavírus.” A deputada Suman Haripriya, líder do BJP em Assam, disse no ano passado que a urina da vaca pode curar a Covid-19. Outro líder do partido, no estado Uttar Pradesh, fez afirmação semelhante, enquanto tomava o “líquido milagroso” diante das câmeras de tevê.

Se não houver leitos hospitalares e cilindros de oxigênio suficientes para os pacientes de Covid-19 na Índia, talvez a urina de vaca sirva para curá-los.

Tejas Harad

Jornalista indiano, trabalha na Economic & Political Weekly, a principal publicação de ciências sociais da Índia. No ano passado, criou o site The Satyashodhak

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