esquina

Mármore, nem pensar

Limites e agruras de quem precisa decorar o seu jatinho

Clara Becker
ANDRÉS SANDOVAL_2011

Não é mágica, apenas experiência: ponham Breno Corrêa dentro de um jatinho executivo, deem-lhe uns poucos segundos para absorver a paisagem e, voilà!, o homem acertará na mosca a nacionalidade do proprietário da aeronave. Se a asa for dourada, nem sequer perderá tempo com o revestimento da cabine: o dono é árabe, sentenciará. A lógica é irretocável: como nossos carnavalescos estão cansados de saber, o Oriente Médio só se sente à vontade em meio às cintilações do ouro.

No extremo oposto está a Europa. Discretos – apanágio de quem faz questão de deixar claro que a prosperidade não é de ontem –, os europeus costumam vestir seus jatos como um terno Armani: em tons cinza, neutros, linhas retas. Americanos estão mais para árabes, nem tanto pelos dourados quanto pelo amor ao excesso. Se o jatinho ianque fosse um automóvel, seria daqueles com porta-copo e vidro elétrico até no bagageiro. Já os brasileiros, pasmem, estão mais para os europeus, um dado sociologicamente intrigante, para não dizer contraintuitivo.

Ocupando há cinco anos o cargo de diretor de marketing e vendas para a América Latina da Embraer, Breno Corrêa ensina que a nova tendência em decoração de jatos particulares é a madeira lisa com acabamento fosco e a proliferação indiscriminada do bege. Nada mais 2009 do que a madeira high gloss, envernizada, com marca dos anéis de crescimento. (Em aviação, o que se entende por madeira é tão somente uma lâmina finíssima colada à estrutura de material composto, ultraleve.) As linhas retas da pintura exterior cederam lugar para os traços curvilíneos, com mais movimento. Um único pedido transcende culturas, modas e mesmo a altura dos proprietários: assentos que reclinem 180 graus.

Nada espanta a equipe responsável pela decoração de interiores da aviação executiva da Embraer. Uma poltrona já foi retirada para acomodar um poleiro de ouro – o xeque era apegadíssimo a seu falcão e não queria tê-lo longe da vista. Um conterrâneo seu especificou que o bagageiro devia ser suficientemente espaçoso para acomodar um camelo. Mais de um assento foi substituído por um trono. Sem mexer um só músculo da face, os executivos da Embraer registraram pedidos escalafobéticos como a instalação de carpetes roxos e a pintura, na cauda de um avião, em cores creme e vinho, da figura de um embrião no útero materno. Multiculturalista convicto, Corrêa afirma que tais escolhas só parecem bizarras a nossos olhos ocidentais. Para ele, o roxo do carpete ou o bebê da cauda não lhe causam mossa.



Decorar um avião é uma tarefa espinhosa porque são poucos os materiais com certificação aeronáutica. As leis da engenharia aerodinâmica, com seus parafusos, graxas e restrições de peso, sempre prevalecerão sobre as dos Sig Bergamin e Casa Claudia do mundo. Tecidos recebem tratamento químico antichamas. Móveis são feitos de resinas levíssimas, de modo que uma só pessoa é capaz de levantar um armário. Quilos extras representam mais combustível, mais metros de pista, mais potência de turbina, menos velocidade. Para desapontamento de muitos, aviões com piso de mármore não decolam. “Depois de inúmeros pedidos desenvolvemos uma película finíssima de granito para as áreas molhadas dos jatos – banheiro e cozinha. Quem vê de longe acha que é maciço”, diz Corrêa. Ufa.

 

Corrêa é responsável por negociar, tête-à-tête, com gente que deseja um jatinho para chamar de seu. No mercado de luxo, a exclusividade – também conhecida pelo brego-barbarismo de customização – é a regra do jogo. Um designer da área confidencia que não é raro ouvir a pergunta: “Amor, você acha que assim fica mais bonito do que o do Fulano?” De modo geral, as esposas (e seus decoradores) dão as cartas nos enfeites internos; aos maridos cabe a decisão sobre a pintura externa.

Das cinco maiores empresas mundiais que produzem jatos executivos, a Embraer foi, no ano passado, a que entregou o maior número de unidades. Foram 145, uma média de doze por mês. Em apenas seis anos no mercado, a aviação executiva já representa 21% da receita da empresa – atualmente, a carteira de pedidos no setor soma 5 bilhões de dólares. A empresa oferece sete modelos de aeronave – o mais barato por 4 milhões de dólares; o mais caro, por 50 milhões. A Embraer está instalada no coração de um dos paraísos da indústria: com 1 225 aeronaves em operação, o Brasil tem a segunda maior frota de aviação executiva do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

A customização – esta maldita palavra, de novo – dependerá dos modelos. Os jatos mais caros oferecem mais opções; os mais baratos ficam restritos ao trivial. Na base da pirâmide está o Phenom 100, o equivalente aeronáutico do carro popular. Há 250 deles em operação. Em cada um voam até seis passageiros, numa cabine desenhada em parceria com a BMW. O proprietário poderá escolher entre sete configurações internas predefinidas e 48 tipos de material para assentos e carpete. Podem ser acrescentados televisão, Blu-ray, internet sem fio, projetor de PowerPoint, videogame, sistema de som, tabletes com inúmeras opções de entretenimento, tomada especial para secador de cabelo e até uma máquina de Nespresso especialmente desenhada para as alturas.

Já os 116 metros quadrados do Lineage 1000 são divididos em cinco ambientes, todos com nomes em inglês. Cabem ali dezenove passageiros. Uma welcome area antecede a galley – a área de serviço de um avião –, o que é conveniente, pois ninguém quer que seus convidados entrem pela kitchen. No living, não fosse o seat belt a correr pelo sofá de veludo marrom, o visitante estaria plenamente desculpado se não reparasse que se trata do interior de um avião. Os três lavatórios são equipados com chuveirinho, tampa de vaso em acrílico e uma janela para ver a vista enquanto medita. O bagageiro, ao qual se tem acesso direto pela cabine, acomoda mais de mil quilos.

Em junho, num dos hangares da Embraer, em São José dos Campos, no interior paulista, via-se um Lineage 1000. A cor pérola, com arabescos na cauda, é um índice da Appellation d’Origine Contrôlée, a AOC, que denota a origem no Oriente Médio. Alguém que nele entrasse poderia estranhar que os cerca de 50 milhões de dólares gastos ali não incluíssem chuveiro ou cama queen size. A explicação é prosaica. Como o cliente comprou três aviões iguais, colocou esses itens nos outros dois. A preocupação, no caso, era de não decorá-los do mesmo jeito. Seria correr o risco de os conhecidos acharem que tem um só.

Clara Becker

Clara Becker é jornalista e vive no Irã. É coautora dos livros The Football Crónicas e Los Malos

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