correspondência

Mas a senhora é negra

As cartas (nunca enviadas) de uma escritora franco-martinicana à brasileira Carolina Maria de Jesus

Françoise Ega
Cena de cuidado: “Ela nunca me chamou pelo nome até aquele momento, só soava a campainha, duas vezes para a negra, uma para a governanta. Eu não podia acreditar! Ela perguntou o meu nome!”
Cena de cuidado: “Ela nunca me chamou pelo nome até aquele momento, só soava a campainha, duas vezes para a negra, uma para a governanta. Eu não podia acreditar! Ela perguntou o meu nome!” CRÉDITO: LINOCA SOUZA_2021

MAIO DE 1962

Eu descobri você, Carolina, no ônibus.[1] Levo 25 minutos para ir até meu emprego. Penso que não tem a menor serventia ficar se perdendo em devaneios no trajeto para o trabalho. Toda semana me dou ao luxo de comprar a revista Paris Match; atualmente, ela fala muito dos negros. Foi assim que conheci a sublime sra. Houphouët com seu vestido de gala. Eu não iria lhe dedicar as minhas palavras, ela não as teria compreendido. Mas você, Carolina, que procura tábuas para o seu barraco, você, com suas crianças aos berros, está mais perto de mim. Volto para casa esgotada. Acendo a luz, as crianças estudam, do jeito como se faz hoje em dia. Elas não têm muitos deveres de casa, seria cansativo demais, mas me contam o enredo, detalhe por detalhe, da última história em quadrinhos que foi lida na escola. Carolina, você nunca vai me ler; eu jamais terei tempo de ler você, vivo correndo, como todas as donas de casa atoladas em serviço, leio livros condensados, tudo muda rápido demais ao meu redor. Para escrever alguma coisa, preciso esconder meu lápis, senão as crianças somem com ele e com meus cadernos. Há noites em que os encontro bem no finalzinho. Já o meu marido me acha ridícula por perder tempo escrevendo bobagens; por isso, esconde cuidadosamente a caneta dele. Como você conseguia segurar um lápis com a criançada à sua volta?  Para os meus filhos, sumir com um lápis é normal, sempre tem o da mãe ao alcance. Somente uma coisa os faz parar: quando digo que temos em casa apenas o dinheiro do pão, eles evitam, por um breve período, perder seus materiais. É sempre a mesma coisa, não importa o que estejam fazendo. Só me resta esperar para ver quem aparecerá primeiro com os sapatos furados depois de jogar futebol. Meu marido diz: “O importante é o pão de cada dia, o resto a gente dá um jeito.” Acho, Carolina, que você conhece essas palavras. Na favela, você nunca foi capaz de pensar em nada além do pão de cada dia. Penso que é isso que me aproxima de você, Carolina Maria de Jesus. Eu também me chamo Marie, como você, e Marcelle, como Pagnol.[2] Moro muito perto do povoado dele, nunca o li, mas o escutei no rádio com paixão. Também me chamo Françoise e, por fim, Vittalline, como ninguém mais. Não canso de me perguntar onde meus pais encontraram um nome desses. […]

 

8 DE ABRIL DE 1962

Minha pobre Carolina, só consegui costurar quatro pijamas em seis dias! Tive que interromper meu trabalho a todo momento por qualquer bobagem, para dar meias ao meu marido, fazer o dever de casa com meus filhos, bater papo com a vizinha ou o carteiro: não foi muito inteligente abrir um ateliê de costura em casa! Acabo de entregar os pijamas e, desesperada, me encontro diante da agente de emprego. Ela me cumprimentou dizendo: “A senhora chegou em boa hora, há uma vaga numa casa perto do zoológico e tem um ponto de ônibus bem em frente.” Anotei rapidamente o endereço, era muita sorte evitar 2 km de caminhada para chegar, já sem fôlego, ao trabalho. Tudo foi muito rápido: fui contratada imediatamente, sem hesitação. Ela é uma senhora idosa, de cabelos tingidos. Seu vestíbulo é um museu; a sala de jantar, uma lanchonete; a cozinha, um laboratório. Ela me perguntou se eu sabia cozinhar. Isso é pergunta que se faça a uma mãe de família? É algo que se aprende mais rápido do que os bons modos numa mesa com três ou quatro copos ou com duas ou três facas. Mas ainda seria bom fazer um estágio com um técnico de eletrodomésticos para conseguir usar todas as coisas da cozinha que funcionam ligadas à tomada.

Além do mais, nesta época em que todas as mulheres de fino trato têm a mania de serem magras como um palito, qualquer pessoa pode se autodenominar cozinheira. Se você viesse à Europa, Carolina, veria tudo isso: nada leva manteiga, nada se cozinha com carne de porco! Sem massas folhadas, sem molhos de dar água na boca! Cenoura, alho-poró, leite desnatado, carnes assadas, tudo a gosto, em cozinhas na verdade feitas para prepararmos cremes suculentos, massas gordas, coisas que ficam no fogo baixo por horas! Com tudo isso, como eu não seria uma cozinheira?

Em seguida, a senhorinha de cabelos ruivos me emprestou uma espécie de avental azul de tecido grosso, e eu parecia um mecânico, o que a agradou. Ela pôs para funcionar os instrumentos do seu laboratório. Para ralar seis cenouras, ela montou um aparelho de oito peças que poderiam tranquilamente ralar os meus dedos se eu não prestasse atenção. Ela me fez recomeçar toda a operação para que eu entendesse direitinho, uma vez que, ela declarou, eu iria usá-lo com frequência.

O tempo gasto nesse trabalho meticuloso sem dúvida seria suficiente para ralar um bom quilo de cenouras com uma simples faca de vovó. Depois foi a vez de mostrar a iogurteira e a torradeira. Em seguida, ela me disse que eu deveria trabalhar cinco horas, das 9 às 14 horas. É um horário que não me agrada, gosto de voltar para casa ao meio-dia. Mas a vantagem é o ponto de ônibus perto. Eu aceitei.

 

10 DE ABRIL

Minha nova patroa me disse: “Somos apenas duas, a senhora não terá muito trabalho”, e logo depois sua filha voltou da temporada de esqui na montanha com os dois filhos: um menino de 7 anos, insignificante e malcriado, e uma adorável bonequinha de 2. A bonequinha tem um jeito enfermiço e de malcuidada; tendo em vista sua aparência, se fosse uma criança do meu bairro, já haveria atrás dela uma legião de assistentes sociais para saber se ela não sofria maus-
tratos. Para andar, ela se apoia nas paredes; há algo de amável nesse bebê puxando o meu uniforme de maquinista.

 

12 DE ABRIL

No primeiro dia de trabalho na casa da patroa, trouxe comigo uma marmita. Ela disse: “Não precisa de marmita, aqui não é uma cantina! Sempre haverá algo para comer!” Assim, no dia seguinte, não levei nada de casa para o almoço. A patroa disse aquilo, mas seu marido olhou para mim de pé, com meus 70 kg bem distribuídos, e disse: “Essa mulher deve comer feito um animal!”

Ao ouvir a frase, perdi o apetite e, de noite, voltando para casa, senti meu estômago roncar, pois tinha hesitado em comer direito.

 

13 DE ABRIL

Carolina! Sinto que minha escrita vai te fartar de rir! O patrão, um velhinho de olhar inexpressivo, voltou trazendo ostras. Ele me disse:

“Senhora? Há vinho branco na geladeira? Eu trouxe ostras!” Sua esposa respondeu no meu lugar, de modo imperativo: “Não!”

O senhor retrucou:

“E aquele vinhozinho branco que daqui a pouco azeda, a gente nunca vai beber?”

A patroa o deixou ir embora, me fez encher uma garrafa com um vinho vagabundo e, por fim, resmungou:

“Está bom assim!”

O marido retornou, me fitou com seus olhos vazios e disse: “Gosta de ostras?”

Sem me olhar, a patroa respondeu:

“Se ela não gosta, não muda nada! Ainda tem uma sardinha em conserva de ontem!”

O senhor respondeu:

“Ou ela gosta, ou ela não gosta!”

Com insistência, a patroa disse:

“Talvez ela não goste! A outra negra também nunca comeu enquanto esteve conosco!”

A outra! Mas eu amo frutos do mar! Para ajudá-los, disse: “Eu gosto mais de mexilhões!”, e me contive para não cair na gargalhada.

Na hora, o patrão aproveitou para replicar:

“A senhora vai comer como todo mundo! Iremos comprar mexilhões, não é?”

A patroa, radiante, retorquiu:

“Olha só, ela não gosta!”

Bem, eu adoraria ter provado umas duas ostras, elas estavam entreabertas, suculentas, mas como eu não deveria gostar delas, era preciso me resignar!

 

13 DE ABRIL

Ainda de uniforme azul, fiz o serviço em um ritmo frenético: foi a primeira vez que aconteceu comigo, e me diverti. A tal ponto que esqueci a hora de partir, ocupada que estava em organizar os instrumentos do meu laboratório. A patroa gostou da cena e dignou-se a sorrir.

 

14 DE ABRIL

Hoje a filha da patroa comeu com a família. Ela é uma líder por natureza, tem uma voz autoritária e o ar daqueles que não passam necessidade! Pelo telefone, solicitou uma babá, como quem solicita produtos na mercearia. Depois disso, me lançou um olhar desconfiado e disse à governanta, responsável pelos empregados da casa, que eu entendia bem o francês, acrescentando: “E o trabalho? É tão bom quanto?”

A governanta respondeu:

“Sim! Ela é rápida, poderá ajudar a lavadeira!”

Ela se virou para mim e me perguntou onde eu tinha aprendido a falar francês. Respondi:

“Em Trinidad!”

Certamente sem saber onde fica no mapa, ela deu as costas! Fiz mais de 10 km entre a cozinha e a sala de jantar! Ainda não tinha servido os outros à mesa, não é nada engraçado, Carolina, especialmente se esses outros dispõem de uma campainha elétrica para chamá-la.

Começo a guardar os instrumentos do laboratório e, de repente, um forte trimmmmmmm me faz largar tudo! É a patroa que quer um prato, trimmmm! É o menino infernal que deseja reaquecer sua alcachofra sem que ela ferva! Trrrimm e trrrrrrrimm, nesse vaivém me embaralho toda! Passo o saleiro quando o patrão deseja a mostarda e fico sempre a ponto de cair na risada. O patrão descasca uma banana raquítica dizendo que ela tinha vindo direto das Antilhas! Bananas como aquela devem vir de Tenerife, mas não dos trópicos! Tudo era muito divertido, mas naquele dia as minhas pernas não aguentavam mais.

A governanta veio me dizer para terminar a louça de uma vez e ir logo passar seis lençóis antes de partir. Não ia levar muito tempo, mas era preciso borrifá-los com água, pois a filha da patroa só gosta de lençóis completamente lisos! No final, estava eu lá, suando e bufando, para que todas as dobras dos tecidos ficassem passadas melhor do que se tivessem saído de uma lavanderia. Fui embora às 15 horas, sem que a patroa me dissesse nada!

 

15 DE ABRIL

Como não suporto fazer corpo mole, meu horário de trabalho na casa da patroa fica cada dia mais longo. Hoje a governanta me disse para levar as latas de lixo até o subsolo usando a estreita e tortuosa escada de serviço. Não dou a mínima, Carolina, mas tenho uma caderneta em que anoto minhas horas extras: haverá gritos e dentes rangendo no dia do pagamento. Em seis dias, acumulei cinco horas, gerando um interesse admirável por parte da governanta, que, sob qualquer pretexto, me impede de sair na hora certa.

 

16 DE ABRIL

Fui ao subsolo deixar as lixeiras, uma luz fraca iluminava meus passos e o cheiro de mofo prevalecia. Eram duas da tarde e estava difícil me convencer de que adultos como eu não sentem medo. Debrucei-me sobre a lixeira e tive a desagradável impressão de uma presença atrás de mim. Logo abaixo da escada, havia uma sombra. O interruptor desligou e ouvi um pequeno estalo. Pulei para o lado. Com uma voz fraca, que estranhamente ecoava, gritei:

“O que é isso?”

A sombra apertou o interruptor e uma luz bem-vinda dissipou meu medo. Uma voz trêmula me respondeu:

“Sou a zeladora.”

Na penumbra, vi avançar lentamente um esqueleto vestido de mulher, que logo falou:

“Eu moro ali!”

Ela me mostrou um compartimento no porão, provido de uma porta.

Fora de Paris, eu nunca tinha visto aquilo! “Não é possível”, eu disse. Ela respondeu:

“Mas é verdade! Há dezoito anos que vivo aqui! Imagina, sem sol durante dezoito anos, com luz artificial, inverno e verão! Meu marido morreu já faz um tempo, o canário que estava na gaiola também! Imagina, pouco a pouco ambos foram asfixiados pelos gases que entram pelo respiradouro! Nenhuma planta pode resistir, e as flores murcham rapidamente quando, por sorte, as compro!”

Ela se inclinou para a frente e me encarou com interesse: “Mas a senhora é negra… como a outra que se foi. Tínhamos feito um quarto ali para ela”, e me mostrou um compartimento no porão. “Ela não ficou, pena! Tinha medo de acabar como o canário, com aquela fumaceira saindo dos carros, bem na frente do respiradouro, entende? Venha ver o quartinho!”

Ela abriu a porta. Nunca tinha visto nada mais triste do que aquele lugar miserável e sem sol: uma cama mal-arrumada, cheia de calombos, duas cadeiras bambas, móveis tortos. Ela apontou para um buraco perto do teto, protegido por um vidro espesso.

“Faz muito tempo que não o abro. Quando me atrevo, cai um monte de poeira em cima de mim. Meu marido abria depois da meia-noite, quando passavam menos carros; a propósito, foi justamente assim que ele ficou doente!”

“E os patrões? O que eles estão fazendo pela senhora?” “Nada, eu estou aposentada agora! A aposentadoria dos velhos! Antes, eu era a governanta, mas fiquei velha e fui alojada aqui. Eu limpo as escadas: a família toda mora no prédio, primos, agregados! Eles compraram tudo! Cada vez tenho menos trabalho, sou muito velha, me disseram para morrer em outro lugar! Depois da Páscoa, irei morar num lugar para velhos como eu! Quando estou doente, fico dias sem que ninguém venha me ver! A outra negra me trazia tílias de noite! A senhora vai morar aqui?”

“Graças a Deus, não! Mas quem são seus patrões?”

“Um cara importante do porto! A senhora sabe, eles são bilionários!” Sem amargura, a velha acrescentou: “É preciso ter ricos e pobres, não é? A senhora sabe bem que não deve ficar aqui! Quando eu for embora, eles colocarão uma empregada lá, lembre-se do canário.”

Eu havia despejado o lixo e me sentado na lixeira. Teria preferido dormir ao relento que neste calabouço infame. Disse à senhorinha que eu tinha uma casa embaixo dos pinheiros, longe da cidade! E acrescentei que meus filhos corriam pelas veredas em busca de ameixas silvestres, e contei como as amendoeiras floresceram em abundância no interior da Provence neste ano. Em seguida falei sobre a minha terra. Como ela me escutava, orelhas levantadas, como uma criança a quem contamos uma linda história, esqueci os patrões e a sua cozinha. Também lhe disse que, de onde eu vinha, as casas são inundadas pelo sol! Falei do sol para que ela se esquecesse de tanta sombra, nem que fosse por um momento. Isso levou um tempinho. Quando voltei, vi a cara da patroa! Ela não parecia nem um pouco feliz! Expliquei que havia tido dificuldades em fechar a porta do subsolo. De qualquer forma, os vinte minutos que passei lá embaixo são responsabilidade minha, não vou computá-los no meu caderninho.

É uma loucura ver esse tipo de coisa nos porões de uma casa rica. Não tinha mais vontade de rir, estava absolutamente incomodada em trabalhar para pessoas assim.

Disse isso a Cécile, que tinha saído da fábrica de biscoitos; terminada a temporada de trabalho para ela, é hora da pausa.

A pausa, do seu ponto de vista, é a doce expectativa do matrimônio, pois em breve ela vai se casar, e seu noivo chega na próxima semana.

 

18 DE ABRIL

Tenho só a noite livre para recapitular a minha vida de cozinheira, e por vezes esqueço que estou louca à espera do carteiro que trará a resposta do jornalista a quem escrevi para falar sobre o meu livro. Implacáveis, as crianças disseram que ele certamente estava morto, que os verdadeiros jornalistas fazem reportagens em lugares improváveis! Consultei as últimas da Paris Match, não havia nem uma mísera nota informando sobre a morte dele. O silêncio pode ser interpretado de várias maneiras. Pode ser um sinal de tédio, uma manifestação de desprezo, um momento de desatenção, há também silêncios carregados de esperanças ou preocupações. Nesse silêncio que é a minha sina, não há nem rancor nem amargura; estou simplesmente curiosa. Se ele escrevesse para mim “Prezada senhora, o que a senhora escreveu é um fiasco”, eu diria: “Pois é, pode ser verdade, mas o que desagrada uns não necessariamente causa repulsa em outros.” Nos últimos tempos, as crianças estão devorando minhas histórias de sol e frutas, é encorajador, consigo esquecer que já faz duas semanas que convivo com aquela família.

Hoje o patrão trouxe ouriços, fitou-me com seu olhar sem expressão e disse:

“Vou abri-los! Imagino que a senhora não goste de ouriços, não é?”

Respondi de imediato:

“Pelo contrário, eu adoro!”, mas na minha cabeça eu gritava “Blerg!”.

Nunca gostei de ouriços pretos, com casca e espinhos. Quando os comprei, em Fort-de-France,[3] pesavam 250 gramas e eram marrons, ouriços pretos nas Antilhas têm fama de venenosos. Os que havia comido até então tinham um gosto entre o abacate e a banana e cheiravam a mar.

Disse que sim a esse desagradável e guloso senhorzinho para ver a cara dele.

Foi a esposa quem reagiu:

“Como assim? Ouriços-do-mar para a cozinheira é uma maluquice! Além do mais, sobrou o ratatouille de ontem, quem vai comer esse resto?”

Eu estava rindo por dentro de novo! O patrão disse: “Já que ela gosta, que se vire para abrir os seus.”

Bruscamente, ele jogou seis ouriços em um prato. Abri esses bichinhos malditos, coloquei-os num saco com o macarrão e o ratatouille em cima da lixeira, junto com um pedaço de pão, e, no momento que todos saboreavam o café, fui ao porão visitar aquela velha sombra. Disse-lhe que me deram a refeição e que, quando chegasse em casa, iria cozinhar para mim. Ela parecia assustada. Pegou o pão e o resto, disse para jogar fora os ouriços, não aguentava aquilo.

O ruído de uma voz me trouxe de volta para a realidade.

A velha senhorinha disse:

“Saia depressa! Se a patroa souber que estamos de conversinha, a senhora será posta no olho da rua!”

Carolina, na verdade, tenho vontade de sair desse trabalho. A patroa me pediu para ficar com as chaves ao sair: assim ela não precisaria abrir a porta para mim. Ela me examinava atentamente, e meu olhar não conseguia se dobrar, eu queria mesmo lhe dizer:

“Você não tem vergonha na cara de deixar sua antiga empregada terminar seus dias como um fantasma lá embaixo?”

Ela virou a cabeça sem me perguntar nada.

 

19 DE ABRIL

A patroa me deu 2 kg de ervilhas para descascar; sua filha, que rondava de négligé de um lado para outro, disse:

“Não é suficiente, nós somos oito!”

Comprimindo os lábios, a patroa respondeu para todo mundo ouvir:

“Não, somos cinco, as crianças não comem e as ‘outras’ não contam!”

As outras eram: a babá, a mulher que passava roupa e eu. Essa falta de tato quase me fez ter um troço. A jovem babá tinha ouvido: da varanda onde ela estava, corou até as raízes de seus cabelos loiros e me direcionou um olhar desesperado. Deixei cair o negócio de picar cenoura, sei que a patroa não gosta que joguemos os instrumentos do laboratório no chão, mas não me mandou embora.

 

20 DE ABRIL

Dizendo estar com uma febre alta, a babá saiu: a família da patroa se surpreendeu, precisavam almoçar na cidade, e era o dia de folga da governanta, então recebi um avental branco e me disseram para tomar conta das crianças. O garoto fez um escândalo tão grande que o levaram junto, deixando comigo o frágil bebê de olhos doces. Quando todos se foram, a fofurinha veio andando na minha direção, me livrei das panelas que segurava e a peguei nos braços. Ela aninhou a cabeça no meu ombro como se sempre tivesse feito aquilo. Dei um beijo naquela coisinha que tem avós tão desagradáveis. A presença de pessoas inocentes em ambientes como aquele faz bem. Depois tive que adicionar uma ampola de não sei o quê ao purê de cenoura enlatado, que ela devia engolir. Ela não queria comer, provavelmente estava farta dessas comidas de nutricionistas e babás. Peguei um aparelho no laboratório e pus para grelhar duas lindas bananas que tinha comprado na mercearia do bairro. Peguei uma colher e dei de comer àquela fofura, que abriu a boquinha diante de um cardápio tão inusitado.

Sem remédio nem choro, ela brincou e adormeceu enquanto eu cantava uma velha cantiga crioula.

Às duas da tarde, toda a cambada estava de volta, a vovó logo perguntando:

“Cadê a Evelyne?”

“Ela está descansando”, respondi calmamente.

A mãe do bebê disse:

“Mas o que ela tem? Ela não está doente, né? Não está com febre?”

Ela acordou a menina para aferir a temperatura: a garotinha que dormia tão feliz começou a berrar. Quem procura, acha!

O avô teve a ideia de pedir a minha receita para deixá-la tranquila daquele jeito. Se tivesse lhe contado o lance das bananas grelhadas, ele teria chamado o médico para ver se o estômago da menina não estava perfurado. Cheia de vitaminas, a garotinha cantava nos braços da sua avó, que continuava a me olhar com curiosidade. Pela primeira vez desde que eu estava lá, ela perguntou sobre mim mesma:

“A senhora está acostumada com crianças, pelo visto: é a primeira vez que vejo Evelyne alegre depois de uma refeição! A senhora tem filhos.”

Eu não podia acreditar! Ela nunca me chamou pelo nome até aquele momento, só soava a campainha: duas vezes para a negra, uma para a governanta. Eu não podia acreditar! Ela perguntou o meu nome! Eu disse Jacqueline! Também poderia ter dito Renélise ou Pierrette, tenho certeza de que ela nunca vai pedir meus documentos de identidade. A menos que eu esteja determinada a ficar legalizada, ou que lhe entregue meus documentos, mas até lá… A euforia teria durado mais tempo caso o garotinho infernal não tivesse me dado uma botinada na perna.

Esqueci que a família estava interessada em meu nome e ameacei dar um tapa no menino. Ele nunca tinha ouvido algo assim na vida, olhou para mim, surpreso, tão surpreso quanto sua avó, que voltou a comprimir os lábios. O avô observou:

“É verdade, teremos que dar uma lição no menino se ele começar a agredir as empregadas.”

Carolina, ninguém disse que era errado, vi que ele estava pronto para fazer de novo. Estou convencida de que não será comigo, ele não ousaria, mesmo assim…

 

21 DE ABRIL

Entretanto, não dei tapa nenhum, e eles ainda não digeriram o fato de que eu tive a audácia de ameaçar! Enquanto fazia a minha corrida diária, da sala de jantar à cozinha, a filha da patroa, deliberadamente ignorando minha presença, lançou no ar:

“Que ideia você teve de contratar essa Baker? Você viu, ela nem usa mais o avental de serviço! A anterior nunca teria ousado ameaçar dar um tapa no Gilbert! Que mundo é esse?”

Ela não me dirigia a palavra e eu não me metia em nada, mesmo naquilo que poderia dizer respeito a mim, estava muito ocupada salgando, aquecendo o macarrão, esfriando o assado.

Minha alma voltou à tona e dizia:

“Continue falando ao vento, cara senhora! Se o moleque continuar a chutar as minhas canelas, você verá como vai ficar o bumbum dele: dois bons tapas e ele vai entender. Além do mais, querida, é hora de se retirar!”

Carolina, como é bom poder ouvir essa voz interior e pensar que, quando queremos, podemos fazer o que ela nos diz! Isso era tão agradável que eu nem escutava os trimmm exagerados ou autoritários daquela família.

Pensei então na “outra” que não ousaria fazer o que fiz. De que buraco ela tinha vindo? Que navio desgraçado a jogara na França e que infortúnio a levara para a casa daquela gente intratável? Quando sair de lá, haverá ainda uma “outra” como a “outra” que me precedeu, sem que eu nunca consiga saber quando isso vai parar.

Aquela coisinha mais fofa saiu da cadeira e correu na minha direção, ela não comeu nada da papinha, olhou para mim, percebi que estava pensando no café da manhã do dia anterior; nem sequer me atrevi a pegá-la, ficaria realmente magoada se a ranzinza da avó, ao perceber isso, a fizesse descer na hora, com alguma palavra humilhante.

Encontrei o noivo de Cécile, ele não gostaria de adiar o casamento nem por uma semana. Já está aqui e quer sacramentar o matrimônio logo; saí para apressar as formalidades na prefeitura, sábado é o tão esperado dia de celebrar o acordo nupcial com a bem-comportada Cécile.

Ela quer me ajudar, disse que tenho talento, descobriu o endereço de um agente literário e escreveu uma longa carta com todo o capricho. Achei que era bom ter uma secretária, só tive de assinar e estava tudo certo. Cécile me disse:

“É inacreditável que a senhora não fique em casa para escrever mais um monte de coisas!”

Escrever é bonito, mas, como diz meu marido, não se come o papel à vinagrete. Vamos ver o que dirá o tal agente literário: tomara que ele não fique mudo como o jornalista da Paris Match! Seria o fim das ilusões do meu mundinho.


Trecho do livro Cartas a uma Negra: Narrativa Antilhana, de Françoise Ega, a ser lançado em março pela editora Todavia. Tradução de Vinícius Carneiro e Mathilde Moaty.

[1]  Françoise Marcelle Ega nasceu em Morne-Rouge, na Martinica, em 11 de novembro de 1920, e mudou-se para a França durante a Segunda Guerra. Em 1946, casou-se com o soldado Frantz Ega, com quem teve cinco filhos. Em Marselha, onde viveu o casal, ela precisou trabalhar como faxineira e costureira, embora tivesse o ensino médio completo e um diploma de escola técnica. Em 1966, publicou seu primeiro livro, Le Temps des Madras, sobre sua infância na Martinica. Foi por meio de uma reportagem na revista Paris Match, em 1962, que tomou conhecimento de Carolina Maria de Jesus, a autora de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada. A escritora brasileira é a “destinatária” dos textos autobiográficos do livro Cartas a uma Negra, publicado dois anos após a morte de Ega, em 7 de março de 1976.

[2]  O dramaturgo e cineasta francês Marcel Pagnol (1895-1974).

[3]  Capital da Martinica.

Françoise Ega

Escritora franco-martinicana

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