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Megahair dos Deuses

Taxista viveu primórdios de um negócio milionário entre Brasil e Índia

Janes Rocha
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Rui Dias Lino, de 53 anos, já fez muita coisa na vida. Mas, para ele, nada se compara à experiência que teve em 1999. Em agosto daquele ano, Lino embarcou para Chennai (antigamente chamada de Madras), na Índia, onde passou sessenta dias. Não era turismo. Ele foi com uma missão muito específica, que recebeu de uma cabeleireira de Brasília. Ela pagou a passagem dele e lhe entregou um maço com cerca de 7 mil dólares. Dinheiro suficiente para comprar, na época, 70 quilos de cabelos.

O objetivo era adquirir matéria-prima para o megahair, no qual fios longos são colados aos autênticos, transformando qualquer cabelo joãozinho numa cabeleira de Rapunzel. A técnica, hoje incorporada aos recursos estéticos de celebridades, modelos, atrizes e vaidosas em geral, estava apenas entrando na moda.

Nascido em São Paulo e há quase vinte anos morador de um bairro pacato de Niterói, Lino se formou em manutenção de máquinas pesadas. Trabalhou durante anos como metalúrgico, até que na década de 90 ficou desempregado. Começou então a ajudar a ex-mulher, que era cabeleireira. Foi quando conheceu o negócio de importação e corretagem de cabelos.

A Índia caiu na cabeça de Lino, que não falava uma palavra de inglês e nunca tinha parado para pensar naquele país distante. Nos sessenta dias que ficou em Chennai, ele passou por muitas privações, e não só pela barreira do idioma. Seu problema era o que comer. Carnívoro que não abre mão de um bom bife, Lino penou, pois boa parte das castas de indianos não come carne. Além disso, tudo o que colocavam no seu prato era apimentado e, quando pedia um café, serviam-lhe um “troço estranho e sem gosto”, o chai, uma infusão de chá verde com masala, a mistura de especiarias que inclui cardamomo, cravo, canela, feno grego, gengibre, pimenta branca e cúrcuma. Coisas que Lino não sabe nem quer saber o que são: ele passou dois meses comendo tanto quanto um asceta.

Lino nunca teve a intenção de oferecer aos deuses o sacrifício do seu paladar. Mas acabou na meca dos negociantes de cabelos por causa de uma tradição religiosa indiana, pela qual as mulheres deixam as madeixas crescer até os joelhos ou os pés. Depois cortam tudo e entregam às divindades. “As mulheres cultuam o cabelo sem botar química nenhuma. Os cabelos delas em geral são lavados com sabão neutro. Xampu é raro, só as meninas mais novas usam”, contou ele.

O templo ao deus Venkateswara, na cidade de Tirumala, no estado de Andhra Pradesh, no sudeste da Índia (bem longe mesmo), é um dos lugares sagrados para mulheres e cabeleireiros. O lugar recebe de 30 a 40 milhões de peregrinos por ano, números grandiosos até para os estratosféricos padrões indianos. A Venkateswara são levadas oferendas de todo tipo, incluindo comida, dinheiro e, claro, cabelos. O próprio templo oferece o serviço de raspagem dos cachos.

Pujari Aruna, então com 40 anos, falou de sua motivação para entregar os cabelos negros a Venkateswara numa entrevista no ano passado ao jornal inglês Daily Mail. “Oferecer o cabelo aos deuses é um gesto simbólico de submissão do ego”, explicou. “E também um jeito de agradecer pelas bênçãos recebidas.” No caso dela, a bênção tinha sido a recuperação do marido depois de um acidente.

Só indianos podem comprar cabelos diretamente dos templos. Há uma rede de intermediários autorizados que revendem a um preço mínimo equivalente, hoje, a 20 dólares o quilo. A. L. Kishore Kumar, um dos maiores negociantes do ramo na região, contou por e-mail que compra no templo cabelos de todas as cores, de pessoas de todas as idades. É de empresários como ele que enviados especiais como Lino compram cabelos na Índia todos os anos.

 

Lino frequentou os primórdios dessa ponte aérea cada vez mais cabeluda. Segundo as estatísticas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em 1999 o Brasil importou 6 toneladas de cabelos indianos, pelos quais pagou 184 562 dólares. No ano passado, a importação foi sete vezes maior, cerca de 42 toneladas, pelo total de 891 677 dólares. A autorização para a entrada no país tem que ser dada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. É preciso que os cabelos tenham sido desinfetados de micro-organismos e desinfestados de parasitas como piolhos. A análise e a liberação da mercadoria demoram, em média, cinco dias úteis.

No Centro de São Paulo, clientes do salão O Rei dos Cabelos pagam até 3 mil reais por um megahair. Francisco Braz, dono do salão e “corretor de cabelos”, faz de vinte a trinta aplicações do tipo por semana. Ex-manobrista e ex-garçom, Braz mudou de ramo há dezessete anos, quando investiu 1 mil reais em cabelos importados. Hoje seu estabelecimento, perto da praça da Sé, tem 25 funcionários.

As madeixas indianas também ajudaram a impulsionar a vida de Márcia Maria de Lima, de 33 anos, cabeleireira há quinze. Moradora de Santo André, na Região Metropolitana de São Paulo, Márcia tomou um empréstimo com uma instituição de microcrédito para comprar sua primeira partida de cabelo da Índia. Hoje ganha 700 reais para cada hora e meia que gasta na confecção de um megahair. Graças aos deuses hindus, Márcia conseguiu construir sua casa, onde mantém o salão.

Apesar de ter montado seu empreendimento sobre a importação de cabelos, Francisco Braz diz que hoje não gosta muito dos importados. “Cabelo de fora em geral dá problema. Eles têm uma maneira diferente de cortar e 80% chegam embaraçados”, afirma. Quando a matéria-prima é nacional, ele atua em todas as etapas do processo, do tratamento ao corte dos cabelos. E sonha com o dia em que as brasileiras vão se animar a doar em vez de vender: “Se algum dia o pastor pedir cabelos para ajudar a igreja, as pessoas entregam.”

Já Rui Lino desistiu do negócio quando surgiu a oportunidade de virar taxista. Segundo ele, é uma profissão mais estável, que lhe permite ficar sempre próximo da família e, principalmente, não causa sobressaltos a seu estômago.

Janes Rocha

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