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história pessoal

Memórias da China

Uma brasileira conta como viveu, aos 14 anos, os protestos da Praça da Paz Celestial, em 1989

01ago2019_07h10

Foto revelada em 2009, dez anos depois do massacre na Praça da Paz Celestial, registra à esquerda, ao fundo, o jovem que se postou diante dos tanques; seu paradeiro segue desconhecido

Passei a adolescência na China. Minha família chegou a Pequim no início de 1989, no meio do inverno. Lao Li, motorista da embaixada, conduziu-nos em silêncio do aeroporto até o Centro da cidade. A caminho do novo lar, víamos pela janela um mundo cinzento e pré-fabricado. Os prédios eram todos idênticos, de cimento, enfileirados como dominós. Eucaliptos haviam sido plantados em linha reta ao longo da estrada. Até mesmo a estrada tinha sido montada em blocos. Sob os pneus, as frestas no asfalto serviam de marca-passo: tuk, tuk, tuk.

Cruzamos com pessoas de bicicleta, vestidas de preto e cinza, com os rostos cobertos contra o frio cortante. À medida que nos aproximamos do Centro da cidade, as ciclovias foram ficando mais cheias. As ruas, no entanto, eram largas e vazias: quase não havia automóveis. Também não havia propaganda comercial. A cidade tinha a marca de uma estética comunista: sem outdoors, sem neon.

Passei a adolescência na China. Minha família chegou a Pequim no início de 1989, no meio do inverno. Lao Li, motorista da embaixada, conduziu-nos em silêncio do aeroporto até o Centro da cidade. A caminho do novo lar, víamos pela janela um mundo cinzento e pré-fabricado. Os prédios eram todos idênticos, de cimento, enfileirados como dominós. Eucaliptos haviam sido plantados em linha reta ao longo da estrada. Até mesmo a estrada tinha sido montada em blocos. Sob os pneus, as frestas no asfalto serviam de marca-passo: tuk, tuk, tuk.

Cruzamos com pessoas de bicicleta, vestidas de preto e cinza, com os rostos cobertos contra o frio cortante. À medida que nos aproximamos do Centro da cidade, as ciclovias foram ficando mais cheias. As ruas, no entanto, eram largas e vazias: quase não havia automóveis. Também não havia propaganda comercial. A cidade tinha a marca de uma estética comunista: sem outdoors, sem neon.

Eu tinha 13 anos. Meu pai, Roberto Abdenur, diplomata de carreira, havia sido nomeado embaixador do Brasil na República Popular da China. Seria seu segundo posto no comando de uma embaixada. Antes de Pequim, passamos quatro anos de calmaria em Quito, uma cidade aprazível e verdejante ao sopé do vulcão Cotopaxi. Morávamos em uma casa antiga com um jardim dominado por um grande carvalho. Estudávamos em uma escola bilíngue – inglês e espanhol – mas, em casa, meus pais insistiam que falássemos português. “Lembrem-se sempre”, diziam, “vocês são brasileiros.” Duas vezes ao ano, passávamos as férias no Rio de Janeiro, dividindo o tempo entre a capital, com meus avós paternos, e Nova Friburgo, com os maternos. Tinha tido uma infância de poucas preocupações.

Ao chegarmos à China, portanto, eu tinha apenas uma vaga noção das mudanças históricas que moldariam nossas vidas nos anos seguintes. Tanto o Brasil quanto a China se abriam para o mundo, ainda que timidamente. No Brasil, a redemocratização avançava aos trancos e barrancos. O rebuliço da Constituinte havia culminado na Constituição de 1988. José Sarney, alçado à Presidência após a morte de Tancredo Neves, chegava ao fim do seu mandato, e as expectativas eram grandes em relação às eleições presidenciais previstas para o fim daquele ano. Essa seria a primeira vez, desde que Jânio Quadros fora eleito, em 1960, que os brasileiros escolheriam seu presidente da República. No prelúdio da adolescência, eu seguia as notícias pelos jornais, pela televisão e, sobretudo, pelas conversas entusiasmadas que entreouvia nas rodas de amigos dos meus pais: o Brasil seria novamente uma democracia.

Do outro lado do planeta, a China também tentava se transformar, a partir de uma reinvenção econômica. Uma década inteira havia passado desde que Deng Xiaoping, que sucedeu Mao Tsé-tung como líder supremo do Partido Comunista, lançara as primeiras e ainda tímidas reformas para modernizar a economia chinesa. O país mal se recuperava da sequência de traumas sofridos durante a era Mao. Vinte anos antes, na época da Grande Revolução Cultural Proletária, Mao exortara as massas de jovens que lotavam a Praça da Paz Celestial, conhecida como Tiananmen, a destruírem os “quatro antigos” – costumes, cultura, hábitos e ideias – e quaisquer resquícios de oposição, fechando universidades e atacando as instituições.

Em meio a tantas transformações, a mudança para a China representava um risco para a família. Moraríamos longe do nosso país, sob um regime fechado, no momento em que o Brasil se desfazia de algumas das principais amarras da ditadura. Por outro lado, o momento parecia promissor para expandir as relações Brasil-China. Meu pai falava com entusiasmo de um acordo recém-assinado entre os dois países, que previa uma cooperação tecnológica para satélites. Ele enxergava naquela iniciativa – bastante ambiciosa para a época – uma oportunidade estratégica para o fortalecimento das relações bilaterais entre dois países de porte continental. Além disso, após décadas de fechamento, a China dava alguns passos na direção de uma abertura que, tornava-se claro, não seguiria o mesmo rumo que a sua vizinha ao norte. Enquanto a União Soviética vinha em crise ao longo dos anos 80 e os cidadãos do Leste Europeu davam sinais de insatisfação em relação aos regimes comunistas, Pequim experimentava reformas incrementais que alavancavam um crescimento auspicioso. Do ponto de vista do trabalho, aquele momento parecia uma oportunidade irrecusável para um casal já acostumado a grandes mudanças.

A embaixada ficava na rua Guanghua, atrás de um dos conjuntos habitacionais onde diplomatas e outros estrangeiros residiam, mais ou menos segregados da população local. O prédio da embaixada tinha o formato de U. A ala da frente, que dava para a rua, comportava a chancelaria; a sala de jantar, com sua enorme mesa de mogno, interligava a chancelaria à residência, que completava o U. No meio, havia um jardim tristonho, com a grama ressecada e uma árvore franzina, um salgueiro-chorão que derramava suas ramas até o chão.

Escrevi no meu diário – um volume de capa cor-de-rosa que trouxe na mochila da Company – que nosso novo lar parecia uma triste caixa de sapatos. Por dentro, um carpete rançoso cobria o assoalho de ponta a ponta, e cortinas pesadas cobriam as janelas. Pela primeira vez na vida tive a impressão de que minha mãe, Maria Izabel, estava apreensiva. Tempos depois ela confessaria ter titubeado: “Será que tomamos a melhor decisão?”, perguntou na época a meu pai.

 

Alguns detalhes me encantaram. Na porta de entrada, batia-se em um gongo chinês em vez de tocar a campainha; o som reverberava por vários quarteirões. Descobrimos uma mesa de pingue-pongue empoeirada em um depósito da chancelaria. Certo dia, no canto do jardim, achamos um filhote de ouriço, que trouxemos para dentro de casa em uma caixa de papelão (até que o jardineiro veio resgatá-lo).

Minha mãe lançou-se na ingrata e aparentemente interminável tarefa de tornar o espaço mais aconchegante. Ela contava com o apoio de Marilda Lopes Oliveira, uma jovem oriunda de Sobradinho, cidade-satélite de Brasília, que meus pais contrataram para apoiar na administração da casa. Marilda desembarcara em Pequim ainda no final do inverno, calçando Havaianas e sem falar uma palavra de inglês ou chinês. De todos nós, foi ela quem se adaptou mais rapidamente: em alguns meses, por meio do convívio com os funcionários e a comunidade internacional, aprendeu o essencial do mandarim, do inglês e do espanhol. No jantar, para matar a saudade da comida brasileira, Marilda fritava na manteiga um punhado de farelo de torrada, improvisando uma farofa.

Algumas escolas estrangeiras haviam se estabelecido na cidade. A maior, de longe, era a russa, que atendia não apenas à colossal embaixada da União Soviética, mas também aos filhos de diplomatas de países aliados a Moscou. Eu faria belas amizades com alunos dessa escola, inclusive com o filho do embaixador cubano, um homem afável e corpulento que havia lutado ao lado de Fidel Castro na revolução – e com quem meu pai, liberal convicto, fez rápida amizade. Jorge, o filho, ensinou-me o alfabeto russo enquanto falava, irrequieto, do futuro do socialismo. Impressionava-me muito o espanhol dos amigos cubanos: solto e célere, salpicado de expressões russas.

Pequim era considerada pelos Ministérios de Relações Exteriores um posto difícil, não muito apropriado para crianças, e muitos diplomatas de países desenvolvidos optavam por mandar seus filhos para internatos no país de origem. Mas um grupo de estrangeiros de países de língua inglesa havia improvisado uma pequena escola internacional na garagem da embaixada irlandesa. Pouco antes da nossa chegada, a escola havia sido transferida para um antigo hospital nos arredores de Pequim, ao lado de um córrego que irrigava campos de arroz. Durante o recreio, jogávamos futebol no campo de brita e, quando o frio era intenso, organizávamos campeonatos de pingue-pongue.

A língua de ensino da escola era o inglês, mas também tínhamos aulas de chinês, usando livros publicados pela editora oficial do Partido Comunista. Aparentemente, o material não havia sido atualizado desde a década de 70. Passávamos horas reproduzindo os caracteres em folhas quadriculadas até memorizá-los. Foi assim que aprendi o mandarim, decifrando anedotas sobre a vida de Mao Tsé-tung, Lênin e Deng Xiaoping (várias delas, me dou conta hoje, apócrifas), além de algumas histórias alarmantes sobre os “inimigos invasores japoneses”.

Minha melhor amiga era Roberta, uma menina da minha idade, filha do adido da Aeronáutica. Na escola, tínhamos contato regular com alunos chineses por intermédio de um programa de intercâmbio com a famosa Escola Secundária Número 55, onde estudavam filhos da elite do Partido e alguns estrangeiros, inclusive Roberta. Lembro que, no primeiro encontro, um menino franzino, de olhar decidido, veio conversar comigo. Chamava-se Ping. Alternávamos entre o meu mandarim ainda tosco e o inglês, que ele dominava com a exatidão didática de quem jamais teve contato com a cultura pop ocidental. Meses depois, Ping me presenteou com uma caixinha de porcelana em formato de coração, que guardo até hoje.

 

Passado o susto da chegada, aqueles primeiros meses em Pequim foram uma das épocas mais felizes da minha vida. À medida que a primavera avançava, a fina poeira de carvão que parecia sempre pairar sobre a cidade se levantava. As árvores na rua Guanghua pendiam com caquis, e no jardim da embaixada brotaram tulipas. Nos fins de semana, explorava a cidade e seu entorno com amigos. Na época havia apenas duas marcas de bicicleta disponíveis em Pequim: Pomba Voadora e Fênix de Shanghai. As duas me pareciam perfeitamente idênticas. Desfrutamos, por esse curto período, de uma liberdade incomum. Eu pedalava desenfreadamente pela Guanghua na minha reluzente Pomba Voadora carmim: descia a grande avenida Chang’an, que cruza a parte central de Pequim de leste a oeste; atravessava a Praça da Paz Celestial sob o olhar plácido de Mao Tsé-tung, imortalizado no famoso quadro à entrada do Grande Salão do Povo, a sede do Parlamento; passava ao lado do seu mausoléu e, em seguida, rente ao insólito Kentucky Fried Chicken (KFC) instalado ainda nos anos 80 à sombra de um antigo portão da dinastia Ming. Era a única loja de fast-food americana em toda a República Popular da China. Na praça Tiananmen, soldados guardando o mausoléu nos olhavam de soslaio, mas nunca nos paravam. Um ou outro chegava a acenar, sorrindo.

Pedalávamos rumo ao Palácio de Verão, um complexo de jardins ao nordeste da cidade. Fazíamos piqueniques e ouvíamos fitas cassete que colegas contrabandeavam de Hong Kong com as últimas músicas de Freddie Mercury e de George Michael (cuja banda, Wham!, havia sido o primeiro grupo pop ocidental a tocar na China, em 1985). Conheci meu primeiro namorado, David, filho de um diplomata francês e uma vietnamita, com quem me comunicava na única língua que tínhamos em comum: o mandarim. No Centro da cidade fomos descobrindo, aninhados entre os blocos insossos da arquitetura comunista, os pitorescos hutongs, vielas labirínticas entre fileiras de casas tradicionais, cada qual erguida ao redor de um pátio central. Comprávamos castanhas e batatas que os vendedores de rua retiravam, ainda fumegantes, de tonéis recheados de carvão em brasa.

Nos fins de semana, almoçava com a família no hotel Jianguo, em cujo lobby funcionava um dos poucos restaurantes ocidentais na cidade. Meu pai nos contava, animado, sobre os avanços no programa de satélites. Apesar das respectivas burocracias, engenheiros do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) viriam à China conhecer melhor os satélites de observação da Terra e os foguetes lançadores que as contrapartes chinesas haviam construído, e que serviriam como base para o projeto de cooperação.

Eu também gostava de acompanhar meus pais nas andanças pelos antiquários da cidade. As lojas vendiam desde preciosidades da era imperial até quinquilharias kitsch do tempo da Revolução Comunista Chinesa de 1949. Papai apontava um cachimbo de ópio, um livrinho vermelho com os dizeres de Mao, um quepe soviético. Eu absorvia, curiosa, aquele mundo tão diferente da América do Sul e, antes de dormir, anotava minhas impressões no diário cor-de-rosa e nas cartas que escrevia copiosamente para os primos no Brasil.

Ao lado do complexo dos diplomatas, Jianguomenwai, ficava a Loja da Amizade, do governo chinês. O estabelecimento só aceitava o Certificado de Câmbio de Moeda Estrangeira – moeda criada para que o governo acumulasse preciosos dólares – e os chineses eram barrados na porta. Nós, os estrangeiros, estávamos em tese proibidos de usar o renminbi, a “moeda do povo”.

Era um dos poucos lugares que ofereciam artigos importados, embora as opções fossem limitadas. Comprávamos chocolates, café e, de vez em quando, o New York Times, muito disputado – em tempos pré-internet, não era fácil se conectar com o mundo lá fora. A CNN ainda engatinhava em Pequim, e a transmissão ficava restrita a alguns hotéis. Na embaixada, podíamos assistir apenas à inusitada programação do Partido Comunista: noticiários chapa-branca, séries sobre a Revolução de 1949 e, misteriosamente, telenovelas brasileiras. Tudo em chinês. A brasileira mais famosa na China era Lucélia Santos, protagonista de A Escrava Isaura, novela que havia sido transmitida lá ainda no início da década. Em março, ligamos o aparelho para ver que Selva de Pedra, novela de Janete Clair do início dos anos 70, estreara logo após o noticiário da tarde. Regina Duarte, Francisco Cuoco e elenco apareciam dublados em mandarim, sendo que as cenas mais picantes (para os padrões chineses) haviam sido cortadas pela implacável tesoura da censura local.

Na prática, fazíamos todas as compras nas lojas populares e nas feirinhas que salpicavam o Centro da cidade. Marilda barganhava com desembaraço roupas e alimentos com os comerciantes da Sibéria que atravessavam a fronteira e desciam a Manchúria até Pequim. Conquistava-os com uma mistura de inteligência e simpatia, e me parecia que sempre – sempre – saía vitoriosa.

A China era comunista, mas Pequim flertava com o capitalismo. Ping me fazia mil perguntas sobre o Brasil. Eu lhe contava o que sabia da distensão política em curso no país. Eleições nacionais haviam sido marcadas para novembro. Queríamos os dois saber qual a sensação de votar. Concordávamos em um ponto: a julgar pelo que víamos nas ruas, era uma questão de tempo para que a China também se transformasse em uma democracia.

 

Os primeiros sinais de descontentamento apareceram no início de abril no campus da Universidade de Pequim, conhecida como Beida. Durante uma visita organizada pela escola para assistir a uma aula de kung fu, vi pôsteres com caracteres enormes escritos à mão espalhados pelos muros da faculdade. Eu ainda lia pouco em chinês e tinha dificuldade para decifrar o conteúdo, mas reconhecia esse formato a partir dos documentários que assistira antes de chegar à China. Sabia que o dazibao era uma forma tradicional de protesto político, usado pelo próprio Mao em 1966, nessa mesma universidade, quando apelou ao povo chinês para “bombardear a sede” – referência velada aos colegas da liderança do Partido Comunista, dentre os quais Deng Xiao-ping, que se opunham à histeria em massa alimentada pelo líder supremo. Na história política da China, o surgimento dos dazibaos era, quase sempre, prenúncio de protestos.

Na embaixada, ficamos sabendo que os dazibaos de abril de 1989 eram elegias a Hu Yaobang. Hu ajudara a implementar a primeira leva de reformas econômicas, sob a direção de Deng Xiaoping, como secretário-geral do Partido Comunista. Em 1987, foi expulso do Partido por ter se disposto a dialogar com manifestantes. Naquele ano, inspirando-se em Fang Lizhi – renomado astrofísico que, após retornar de um período na Universidade Princeton, fizera um tour pelas universidades chinesas criticando o autoritarismo do regime –, lideranças estudantis organizaram uma série de manifestações em Pequim, demandando que o governo acelerasse as reformas. Os protestos se alastraram pela China e segmentos mais conservadores do Partido viram em Hu um bode expiatório. O secretário-geral acabou sendo expurgado.

Em 1989, quando a notícia de que Hu Yaobang havia morrido se espalhou por Pequim, os universitários associaram sua morte aos eventos de 1987. Na praça, lideranças estudantis iniciaram uma greve de fome para pressionar o governo. Pequenos grupos começaram a se formar espontaneamente em torno do Monumento aos Heróis do Povo, no centro da praça Tiananmen. Alguns estudantes se reuniram perto da entrada de Zhongnanhai, o complexo onde residia o escalão superior do Partido, pedindo diálogo com o governo. Quando a polícia os impediu de entrar no complexo, os estudantes se recusaram a deixar o lugar. Em um editorial publicado na capa do Diário do Povo, o Partido caracterizou os manifestantes como “conspiradores”. Era um alerta severo.

Um funeral de Estado foi organizado às pressas para Hu. No mesmo dia, um pequeno grupo de estudantes conseguiu entrar no Grande Salão do Povo, onde apresentou uma petição para se reunir com o premiê Li Peng, da ala dura do Partido. A televisão chinesa mostrou cenas de Wu’er Kaixi, um dos líderes da greve de fome, dando uma bronca em Li Peng.

As manifestações, naquele momento, não foram reprimidas com violência e surgiram protestos em outras cidades, espelhando o movimento na capital. Em Pequim, os estudantes começaram a se organizar mais amplamente, formando uma união entre as universidades. Os diplomatas brasileiros passaram a frequentar a praça periodicamente para tirar a temperatura das manifestações e às vezes meu pai permitia que nós, crianças, o acompanhássemos.

Até o final de abril, as principais reivindicações dos estudantes eram de natureza política – além de abertura, pediam o fim da corrupção entre os oficiais do alto escalão do Partido. A exposição de universitários e intelectuais chineses ao Ocidente havia ampliado o rechaço à repressão imposta pelo Partido no país. Grupos de trabalhadores aderiam aos protestos, e a pauta passou a incorporar demandas econômicas. As reformas conduzidas por Deng haviam produzido resultados mistos. Embora o crescimento econômico fosse acelerado, a inflação subia e os salários continuavam baixos. A desigualdade não apenas se aprofundava, como também se reconfigurava.

Víamos parte dessa transformação na massa de trabalhadores que emergiam diariamente da estação de trem, recém-chegados de zonas rurais. Sem ter para onde ir, centenas deles acampavam em frente à estação. Essa vasta “população flutuante”, como eram denominados, mostrava de forma cabal que a estrutura socioeconômica do país estava vivendo grandes transformações, nem sempre positivas. Os migrantes não possuíam o hukou, o registro domiciliar hereditário que daria a eles e suas famílias direito a usufruir dos serviços públicos da capital. Lembro-me que Ping se perguntava, preocupado: “O que será deles?”

Os efeitos colaterais das reformas também alimentavam um racha no seio do Partido. Por um lado, as forças reformistas incentivavam o então secretário-geral, Zhao Ziyang, que era relativamente liberal, a avançar nas transformações sob a égide de Deng Xiaoping. Por outro lado, os setores conservadores reagiam mal às reformas, considerando-as incompatíveis com a tradição comunista ou, até mesmo, enxergando nelas potenciais ameaças à sobrevivência do regime. As divergências entre os dois grupos foram se acirrando à medida que as manifestações ganhavam corpo. Ficava claro que o premiê, Li Peng, favoreceria uma reação repressiva.

 

Em 15 de maio, Mikhail Gorbachev, o líder que arquitetava os processos de abertura da União Soviética, chegou a Pequim para uma visita oficial. Na quadra de basquete de Jianguomenwai, meu amigo cubano Jorge e seus colegas russos estavam agitados. Falavam da perestroika, restruturação econômica, e da glasnost, a abertura política. “Tentar os dois ao mesmo tempo – isso não tem como dar certo”, repetia Jorge.

Aquela era uma ocasião especial: a primeira vez, em trinta anos, que um líder soviético visitava a China. Embora a China e a União Soviética tivessem compartilhado a mesma crença no comunismo, a Aliança Sino-Soviética de 1950 havia descarrilhado em meio a divergências doutrinárias e uma crescente competição entre Mao e Kruschev. O encontro em Pequim representaria o primeiro passo para a normalização das relações bilaterais. Seria o maior triunfo da política externa de Deng.

Minha família e eu assistimos à chegada de Gorbachev na televisão do saguão do hotel Jianguo. Estávamos ansiosos não apenas porque a ocasião marcaria a retomada das relações entre os países, mas também porque os manifestantes em Tiananmen exigiam do governo muitas das mesmas mudanças que Gorbachev punha em marcha a partir de Moscou. Pouco antes, as primeiras eleições com múltiplos candidatos haviam sido realizadas na União Soviética, por meio do recém-estabelecido Congresso de Deputados do Povo. Meus amigos cubanos falavam com espanto das revoluções que pipocavam no Leste Europeu contra os regimes autoritários. Ping se perguntava: “O que será do mundo comunista?”

Para a consternação do Partido, a cúpula acabou sendo diretamente afetada pelos acontecimentos em Tiananmen. Os manifestantes se recusaram a desocupar a praça para o encontro entre os chefes de Estado, e a greve de fome, que já contava com alguns milhares de adeptos, produzia imagens impactantes que circulavam pelo mundo. A cerimônia de boas-vindas foi realizada ainda na pista do aeroporto, longe da comoção, mas sob os holofotes da mídia internacional. Gorbachev teve de ser levado às escondidas para dentro do Grande Salão do Povo, e sua visita à Cidade Proibida foi cancelada quando centenas de milhares se dirigiram a Tiananmen.

Embora a cúpula tenha sido vista como um sucesso de política externa tanto em Pequim quanto em Moscou, as concessões feitas aos manifestantes durante o encontro foram consideradas uma humilhação pela cúpula do Partido, indispondo Zhao com Deng e o resto da liderança.

A visita de Gorbachev marcou duas importantes mudanças no escopo e no teor dos protestos. Em primeiro lugar, já não se tratava de uma manifestação estritamente estudantil; a cidade aderira em massa. Havia, inclusive, registros de que militares, policiais e oficiais do baixo clero do Partido Comunista tinham se incorporado aos descontentes. Eu via nas ruas centenas de bicicletas se dirigindo à praça. Circundando-a montada na minha Pomba Voadora, pude testemunhar, ao lado de Ping, quando enfermeiros da Cruz Vermelha Chinesa atendendo os estudantes em greve de fome.

Os protestos se espalhavam pelo país. Em meados de maio, centenas de cidades por toda a China haviam se tornado palcos para os manifestantes. Embora reivindicassem algum grau de abertura, e não a mudança do regime, os protestos haviam se tornado uma contestação frontal ao governo. A temperatura só subia.

Meu pai se encontrava com colegas de outros países no esforço comum de entender os acontecimentos. O embaixador dos Estados Unidos, James Lilley, havia sido (ou ainda era?) dos quadros da CIA. Além disso, Lilley era veterano da China: filho de missionários, havia passado a infância no país e falava mandarim com fluência, o que, presumíamos, lhe facilitava a vida como agente da inteligência americana. Meu pai conta que certa vez, ao encontrá-lo na embaixada, topou com um pequeno grupo de “turistas” americanos, que dias antes circulavam à paisana entre os manifestantes colhendo informações para a embaixada dos Estados Unidos.

Outra fonte de meu pai era o paulistano Jayme Martins. Ele havia se exilado na China em 1976 e trabalhava na Rádio Pequim. Comunista fervoroso, Martins e sua mulher tinham duas filhas. Andrea e Raquel haviam crescido na capital e falavam mandarim sem qualquer traço de sotaque. A família era uma ponte única entre o Brasil e a China.

Acusado por alguns de expor o Partido a situações constrangedoras, o secretário-geral Zhao Ziyang se encontrou com manifestantes no dia 19 de maio, em uma tentativa de aplacar a inquietação popular. Com um alto-falante, Zhao se dirigiu aos estudantes pedindo que não sacrificassem suas vidas. Foi a sua última aparição em público; perderia o cargo um mês depois.

A lei marcial foi declarada logo depois do apelo frustrado de Zhao, em 20 de maio. As áreas da cidade que haviam sido ocupadas por manifestantes passariam a ser controladas pelas Forças Armadas. A poucas semanas do fim do ano letivo, as escolas suspenderam as aulas. Teríamos que portar documentos o tempo todo e ficar dentro da embaixada após o anoitecer, quando soava o toque de recolher.

Em momentos de grande turbulência, como aquele, a comunidade estrangeira fica vulnerável até mesmo a ataques violentos, a despeito da imunidade diplomática.

Da residência, eu tentava ligar para Roberta, minha melhor amiga, e David, meu namorado (como a maioria dos chineses, a família de Ping não tinha telefone). Nos dois casos, as linhas de telefone estavam sempre ocupadas. Na embaixada, as atividades normais haviam sido suspensas; o programa de satélites e as demais iniciativas de cooperação teriam que esperar. Toda a equipe diplomática se debruçava sobre os acontecimentos na capital. Enfurnada na sombria caixa de sapatos da rua Guanghua, eu me sentia irrequieta.

 

Ouvimos dos funcionários chineses da embaixada que o Exército se preparava para entrar na cidade. Os manifestantes haviam armado barricadas nas principais entradas de Pequim, mas as colunas de caminhões militares se esquivaram do entulho e desceram a Chang’an (cujo nome, ironicamente, se traduz como “avenida da Paz Eterna”). Logo apareceram fileiras e fileiras de soldados. A distância, a visão era impressionante. Mas, conforme se aproximaram, percebemos que as tropas estavam mal armadas e um tanto desorganizadas. Os soldados chegavam à cidade sob um sol escaldante e pareciam assustados. Eram muito jovens e visivelmente inexperientes.

Em vez de acuar os manifestantes, a entrada do Exército na cidade os deixou mais inflamados. Ainda nos subúrbios de Pequim, os soldados foram confrontados por grupos furiosos. Na manhã seguinte, decidi ir a pé até a interseção da Chang’an com o Segundo Anel Viário, que ficava logo ao lado de Jianguomenwai. Civis haviam tomado o entroncamento e bloqueavam a passagem, gritando “Vão embora! Voltem para as casernas!”. Em uma foto feita por minha mãe da varanda de um apartamento em Jianguomenwai, é possível ver nitidamente um grupo de estudantes de cócoras, fumando e dialogando com alguns soldados. Eram cenas constrangedoras para o regime.

Houve repressão em alguns pontos da cidade, mas o resultado foi o exato oposto do que o governo havia esperado. Centenas de milhares de pessoas desceram às ruas, juntando-se aos estudantes que chegavam de trem de outras localidades da China. Era a pior crise política do país desde a Revolução Cultural.

O governo tentou cortar as atividades dos canais e agências internacionais, interrompendo a transmissão da CNN, que operava a partir do hotel Sheraton. Em boa medida, as tentativas de censura foram em vão: a visita de Gorbachev havia atraído para a cidade um número elevado de jornalistas. Muitos deles, enxergando nos protestos uma notícia potencialmente maior do que a cúpula, haviam resolvido ficar em Pequim após o encontro.

Papai também foi à praça, como já era de costume, acompanhado por dois outros diplomatas brasileiros, o então primeiro-secretário Evandro Didonet (cuja esposa, a segunda-secretária Susan Kleebank, era a única mulher diplomata da equipe) e o segundo-secretário Francisco Fontenelle, conhecido como Chicão, um carateca que havia servido em Tóquio. Impactados pelo mau cheiro, voltaram para a embaixada preocupados com as condições insalubres na praça, onde centenas de estudantes ainda acampavam, e reforçaram a sensação de que a imprevisibilidade havia se acentuado.

Acuado, o governo ordenou que o Exército se retirasse da cidade. As tropas retrocederam às bases nos entornos da capital. Por um instante, pensamos que o regime havia desistido da repressão. Pequim foi tomada por uma estanha calmaria, que não duraria muito. Logo ouvimos relatos de que mais de 250 mil soldados haviam sido enviados às redondezas da capital. Uma nova reação do governo parecia iminente. Mas uma coisa estava clara: os manifestantes não tinham a menor intenção de abandonar a praça.

Na Academia Central de Belas Artes da China, estudantes se reuniram para esculpir, em gesso e papel machê, uma enorme estátua, erguida em módulos, de uma mulher empunhando uma tocha. A Deusa da Democracia – como foi batizada – ficou pronta no início de junho; desmembraram-na e dispuseram as suas partes sobre triciclos de carga para transportar até Tiananmen. Policiais tentaram bloquear a passagem, mas foram impedidos pela população, e as peças enfim chegaram à praça. Lá, sob o nariz de Mao, a Deusa da Democracia foi montada e inaugurada pelos manifestantes com estardalhaço. Os líderes estudantis pretendiam organizar, aos pés da estátua, aulas públicas sobre democracia. Anunciaram que ali seria fundada, na noite de 3 de junho, a “Universidade da Democracia”. Era uma provocação sem precedentes.

 

Na manhã de sábado, dia 3 de junho, corriam boatos de que o regime estava determinado a esvaziar a praça. Todas as lojas permaneceram fechadas. Os editoriais dos jornais oficiais exortavam os estudantes a deixar Tiananmen. Os canais de televisão pediam que a população ficasse em casa. O rebuliço na praça, no entanto, continuava.

Ao anoitecer, o Exército voltou a entrar na cidade. E dessa vez a ofensiva militar foi mais robusta e ágil. Os líderes do protesto determinaram a partir de Tiananmen que novas barricadas fossem erguidas nos principais pontos de acesso à cidade. Os manifestantes se apoderaram dos ônibus da frota municipal, atravessaram os veículos nas avenidas e atearam fogo, criando barreiras incandescentes. Não foi suficiente para conter o avanço de unidades do Exército.

Ouvimos relatos de que um blindado havia atropelado um grupo de civis, matando três. Brasileiros chegavam à embaixada às pressas, em busca de abrigo; alguns traziam apenas as roupas que vestiram naquela manhã. Um diplomata chegou com a família; contou que, fugindo de Jianguomenwai com a mulher e a filha bebê, ficaram na mira de fuzis antes que a passagem fosse autorizada.

David me ligou e disse que sua família estava sendo retirada do país; achava que não voltaria a Pequim. Pediu que eu fosse encontrá-lo do lado de fora da embaixada, e que levasse uma foto minha. Percebi que a guarita estava vazia e saí pelo portão, com a foto no bolso. Avistei David na esquina e comecei a atravessar a rua quando senti um puxão; alguém me arrastava para trás pela gola da camisa. Era o adido do Exército, o coronel Fernando Cardoso. Lembro-me que ele apontou, exaltado, na direção de Chang’na – “Tem uma fileira de blindados lá” – e me conduziu de volta à embaixada.

Quando entrei na chancelaria havia um frenesi entre os brasileiros alojados às pressas ali. Mamãe e Marilda percorriam a residência juntando colchões, almofadas, cobertores. Os adultos permaneceram no saguão da chancelaria, ansiosos. Na sala de jantar, as crianças brincavam de pega-pega.

Colocamos um colchão ao lado da minha cama para que Roberta pudesse dormir. Começamos a ouvir disparos. Peguei meu colchão e o arrastei para o chão. As rajadas prosseguiam, intermitentes. Lembro que deixamos as luzes do quarto acesas para minimizar a sensação de pânico.

Conforme o Exército avançava ao longo de Chang’an, rumo a Tiananmen, as rajadas pareciam cada vez mais próximas. Blindados esmagavam as barricadas, e as tropas disparavam contra manifestantes que ousavam se interpor no caminho.

De madrugada, por volta das quatro e meia, um grande estrondo fez vibrar as vidraças do meu quarto. Roberta segurou minha mão. Deduzimos que as tropas seguiam as ordens de “limpar” a praça. Os tiros de artilharia continuaram a noite toda.

Em certo momento, Roberta e eu fomos até a sala de jantar. Os adultos estavam todos acordados, em silêncio. Alguns fumavam, e Marilda distribuía calmantes.

Aprenderíamos mais tarde que aquela leva de soldados era muito diferente dos jovens inexperientes que haviam entrado na cidade quando a lei marcial fora declarada, dias antes. Estes eram mais velhos e mais experientes e vinham de outras regiões do país. De acordo com alguns diplomatas, haviam dito para as tropas que Pequim teria sido tomada por “forças invasoras”.

Aos poucos os relatos foram se tecendo. A maioria das mortes havia ocorrido na outra ponta da Chang’an, ainda durante a marcha dos soldados. Um detalhe nos assombrou: soldados dispararam contra prédios onde moravam altos funcionários do Partido Comunista, matando pessoas que acompanhavam os acontecimentos das sacadas. Era um sinal de que as tropas não seguiam ordens de maneira uniforme.

Há até hoje enormes divergências em relação ao número de mortos – as estimativas variam entre algumas centenas e vários milhares. Jornalistas haviam conseguido chegar à praça logo após o massacre; fotografias mostram corpos incinerados e pilhas de entulho. Não restava sinal da Deusa da Democracia.

A imagem que ficou do massacre, como símbolo da resistência dos estudantes, foi a de um jovem solitário que se coloca diante de uma fileira de tanques, movendo-se à frente do primeiro blindado, conforme este tenta desviar. Não se conhece a identidade daquele jovem, nem se sabe qual foi o desfecho da história – se ele foi preso, se sobreviveu àquele momento, se ainda está vivo. Sua coragem entrou para a história. Trinta anos depois, ainda topo com pôsteres e cartazes da cena do “homem do tanque” em universidades do mundo todo.

Na manhã do domingo, ainda ouvíamos alguns tiros. Por cima do muro da embaixada, colunas de fumaça surgiam da praça. A cidade parecia em polvorosa. Meu pai instruiu os brasileiros a não saírem da embaixada em nenhuma hipótese. Lembro-me de seu olhar ao reforçar o recado para mim.

 

O Exército havia rodeado Tiananmen na tentativa de isolar a praça após o massacre. No domingo à noite um adido militar que morava em Jianguomenwai acompanhou meu pai até o complexo. Da varanda do apartamento, olharam para baixo. As tropas haviam se colocado em filas, de dois a dois, de costas para Tiananmen. Os adidos mostraram ao meu pai que os canhões estavam levantados a meia altura. Ele explicou que aquela era a postura que blindados tomavam para atirar.

Crescia a preocupação com a segurança da comunidade internacional em Pequim. A exemplo do que ocorrera com a família de David, muitas embaixadas começaram a retirar seus cidadãos da cidade, incluindo algumas de países que ainda se consideravam comunistas.

Meu pai chegou à conclusão de que seria essencial que todos os brasileiros que ainda não estivessem abrigados na embaixada chegassem até o fim do dia. Pediu que abandonassem seus apartamentos e trouxessem o que ainda tinham de alimentos. A cidade estava paralisada e havia temor de escassez. Nos preparávamos, na prática, para um estado de sítio.

A maior preocupação era com relação aos brasileiros que estudavam nas universidades da cidade. Meu pai entrou em contato com um deles, aluno de artes marciais que agia como líder informal do pequeno grupo que permanecia no campus, no lado oposto de Tiananmen. Combinaram que no dia seguinte um comboio da embaixada iria resgatá-los.

Bem cedo na segunda-feira, os funcionários pegaram bandeirinhas do Brasil que sobraram da festa do Sete de Setembro do ano anterior e as colaram nas janelas da van e dos automóveis da embaixada. Saíram pelo portão e fizeram o longo percurso até a universidade. Viram carros revirados, carbonizados, e sinais de que haviam ocorrido conflitos. Numa das barreiras, um soldado parou o carro onde estavam o Chicão (o diplomata Francisco Fontenelle) e a intérprete Yang, e apontou o fuzil para suas cabeças. Chicão pediu a Yang que explicasse que eram da embaixada. “Ele não me entende”, ela respondeu. O soldado era da Mongólia Interior e não falava mandarim. Após alguns minutos muito tensos, foram interpelados por um oficial que conseguiu se comunicar com a tradutora, e então a passagem foi liberada.

Os estudantes aguardavam o resgate em um dormitório. Amontoaram-se entre o banco traseiro e o bagageiro da van e chegaram à embaixada sem incidentes. De quebra, deram carona para um punhado de estudantes de outras nacionalidades, que, logo em seguida, foram encaminhados para suas respectivas representações diplomáticas. Já não havia espaço nem comida na embaixada do Brasil; éramos, no total, 77 pessoas, entre adultos e crianças.

Meu pai entrou em contato com o Itamaraty em Brasília, pedindo apoio para que setenta brasileiros fossem retirados de Pequim. A primeira reação do Ministério não foi favorável. Temia-se que a manobra pudesse ofender as autoridades chinesas. Meu pai argumentou que havia um vácuo perigoso de poder em Pequim e solicitou um DC-10 que fazia a rota entre o Rio de Janeiro e Tóquio. Em meio ao caos, o aeroporto permanecia aberto. Alguns países enviavam aviões fretados para recolher seus cidadãos. Com a recusa de Brasília de enviar o DC-10, os diplomatas rastrearam as companhias aéreas até descobrirem um voo comercial da Pakistan International Airlines que fazia escala na cidade. Se não fosse suspenso, o próximo voo partiria de Karachi na quinta-feira e pousaria em Pequim a caminho de Tóquio.

Passamos os três dias seguintes trancafiados na embaixada, aguardando que os diplomatas negociassem assentos no voo. Os adultos estavam cada dia mais aflitos e mamãe se esforçava para acalmá-los. Comíamos o que tínhamos estocado; já não havia legumes, frutas ou ovos, e o leite chegava ao fim. Na sala de estar, as crianças se amontoavam nos sofás para assistir a filmes da coleção dos meus pais: Hitchcock e Woody Allen, e um ou outro cassete de vídeos contrabandeados da MTV de Hong Kong.

A certa altura, meu pai estava na chancelaria ao telefone, falando com Brasília, quando ouvimos um tiroteio pesado perto da embaixada. Meu pai e um dos adidos atravessaram a rua até o complexo diplomático. Algumas tropas haviam saído de Tiananmen na direção do Jianguomenwai, parado ao pé dos prédios e atirado indiscriminadamente na direção dos apartamentos. Só não ocorreu uma fatalidade porque os residentes tinham abandonado seus aposentos. Na casa da Maria Graça Souza, secretária da nossa embaixada, foram encontrados três projéteis alojados no teto do quarto.

Horas depois, na quarta-feira à tarde, os diplomatas arriscaram mais uma saída da embaixada. Temiam que o voo de Karachi fosse cancelado e decidiram ir à agência da companhia aérea paquistanesa. Chicão e Didonet subiram a Chang’an, em direção oposta a Tiananmen. Chegaram ao China World Trade Center, o primeiro grande empreendimento com capital de fora a ser implementado em Pequim. O prédio, que abrigava escritórios de firmas estrangeiras e alguns apartamentos para expatriados, era um lugar simbólico das reformas de Deng. No momento em que os diplomatas se aproximavam do local, tiros estilhaçaram várias janelas. Os dois tiveram que se esconder atrás de uma sacada até a situação se acalmar, e só então seguiram em direção à agência. A embaixada interpretou o ataque como uma investida contra um símbolo da abertura do país ao Ocidente, talvez uma retaliação à cobertura jornalística simpática aos manifestantes.

Na agência, Chicão assinou um cheque de 136 mil dólares por setenta assentos. Ele conta que suava frio – a embaixada não tinha recursos para cobrir tantas passagens, mas não havia outra saída. Coube a meu pai brigar com Brasília, enviando uma saraivada de telegramas para que a verba emergencial fosse liberada. Por sorte, o dinheiro entrou a tempo.

Na noite da quarta para quinta-feira – véspera do embarque – minha mãe determinou que juntássemos as sobras de comida na embaixada. Havia o suficiente para três refeições. Foi combinado com o Itamaraty que a embaixada brasileira em Tóquio enviaria mantimentos à pequena equipe que permaneceria em Pequim: os diplomatas e um adido. Se não conseguíssemos embarcar, o risco de desabastecimento era real.

Na quinta-feira, juntei alguns pertences na mochila, inclusive o meu diário cor-de-rosa, para ir ao aeroporto. Em uma foto que fiz ainda no saguão abarrotado, minha mãe e meu irmão mais velho aparecem abatidos. O único que sorri para a câmera é o caçula, então com 9 anos, ouvindo rock no seu walkman amarelo. Lembro bem do voo lotado, com famílias de várias nacionalidades. Ao desembarcarmos em Tóquio, fomos rodeados por jornalistas. Meus avós contaram, mais tarde, que assistiram à cena em Friburgo, pelo Jornal Nacional.

Meu pai, que permaneceu em Pequim, lembra do alívio por ter conseguido embarcar os brasileiros. A televisão na chancelaria continuava ligada. A cidade estava paralisada, mas os canais chineses continuavam com a programação normal, como se nada tivesse acontecido.

E então, de repente, a transmissão de Selva de Pedra foi interrompida. No lugar surgiu a imagem de Deng Xiaoping, o presidente Yang Shangkun e outros líderes do Partido. Cumprimentavam os comandantes das tropas que haviam entrado em Tiananmen. Era o primeiro sinal de que o Partido havia restabelecido o controle da situação.

Naquela noite meu pai recebeu um telefonema de um amigo no Rio de Janeiro, o cosmólogo Mario Novello. A ligação o surpreendeu: o que queria Mario em meio à convulsão em Pequim? O físico lhe disse que estava preocupado com um colega chinês que enfrentava dificuldades. “Você não poderia abrigá-lo aí na embaixada?”, perguntou. O amigo era o astrofísico Fang Lizhi. Meu pai respondeu, sem poder dar detalhes, que Fang já estava sob proteção de diplomatas de outro país. Meses depois, fiquei sabendo: Fang e sua mulher estavam escondidos em um cubículo sem janela na embaixada dos Estados Unidos, atrás de uma enorme pilha de livros. Lá ficariam por mais de um ano, sob a proteção de Lilley e sua equipe, até que o ex-secretário de Estado Henry Kissinger e diplomatas norte-americanos conseguissem convencer o governo chinês a liberar a ida do casal para os Estados Unidos.

 

Tenho poucas memórias das “férias” impostas. Após dois dias em Tóquio, seguimos para o Rio de Janeiro. Devo ter ido a Friburgo ver meus avós maternos, mas não guardo lembranças precisas dessa estada. Estávamos exauridos, ainda preocupados com meu pai e os demais que haviam permanecido em Pequim. Por muito tempo, estrondos interromperam meu sono. Não escrevi nada no diário rosa durante dois meses.

Voltamos para Pequim em setembro. Logo após o massacre, as potências ocidentais adotaram sanções e diminuíram o diálogo político e o comércio de armamentos com a China. O turismo caiu e Pequim ficou muito parada. A Loja da Amizade ficou vazia. Em mais de uma ocasião, descobri que eu era a única cliente em todo o prédio.

A cidade permaneceu altamente militarizada por meses. Meus amigos e eu não podíamos mais atravessar Tiananmen de bicicleta. Não havia entulhos nas calçadas, quaisquer traços do confronto tinham sido minuciosamente removidos das ruas. Passamos a ser vigiados constantemente, bem mais do que antes. Um sedã da inteligência chinesa estacionava diariamente em frente à embaixada e dois agentes anotavam toda entrada e saída. Ping e outros amigos chineses passaram a ser barrados pelo guarda chinês. Assim como muitos outros estrangeiros, David e sua família não voltaram à China após o massacre, e perdemos o contato.

Eu me encontrava com Ping fora da embaixada; percebia no seu rosto um peso que não existia antes. Falávamos pouco do que acontecera em Tiananmen. Ele parecia profundamente afetado pelo desfecho dos protestos, mas sem poder expressar sua reação – ao menos, para a cidadã de um país que avançava na sua redemocratização. Ele continuava me perguntando sobre a política no Brasil, sobre as eleições que se aproximavam – Fernando Collor e Lula disputariam o segundo turno. Discutíamos também, com uma mistura de assombro e excitação, os grandes movimentos tectônicos na geopolítica mundial. Aquele foi um ano extraordinário. Em 9 de novembro, soubemos que o Muro de Berlim havia ruído, ao mesmo tempo que a União Soviética desmoronava. Falávamos de democracia em toda parte, menos na China.

A China, de fato, seguiu outro caminho. Após um longo ano de fechamento, durante o qual o Partido Comunista freou as reformas, o país se lançou novamente, e com vigor redobrado, na abertura econômica. Deng saiu vitorioso das lutas travadas entre diferentes grupos na liderança do Partido, embora optasse por um perfil discreto, quase de bastidores (contrastando com seu predecessor, Mao).

Sinais da abertura apareciam por toda a capital. Placas de neon começaram a pipocar na cidade. A primeira loja do McDonald’s em Pequim, na rua comercial Wangfujing, foi inaugurada com grande alarde em 1992 para um público exclusivo de estrangeiros; me entupi de McNuggets e levei um hambúrguer para Ping, que me aguardava em um banco ali perto. Em poucos anos, sob Xi Jinping, a China incorporaria um novo capitalismo selvagem, mesmo que sem abandonar o discurso oficial do comunismo.

Na embaixada, meu pai e o resto da equipe retomaram os esforços de cooperação entre os países. Seguindo a tradição de não impor sanções que não sejam aprovadas pelas Nações Unidas, o Brasil havia mantido suas relações com o governo chinês. O projeto dos satélites avançou para além das expectativas, e abriram-se novas frentes de cooperação bilateral. Em 1993, Brasil e China estabeleceram uma parceria estratégica, ampliando os laços econômicos, políticos e de defesa.

Parti da China em maio de 1993, com 18 anos, para fazer faculdade nos Estados Unidos; havia ganhado uma bolsa para estudar neurociências em Harvard. As experiências em Pequim, no entanto, haviam me marcado profundamente. Dois anos depois, deixei Cambridge e voltei à capital chinesa para fazer um intercâmbio na Beida. Meus pais e irmãos haviam retornado ao Brasil em 1994. Morando no campus, fora da bolha da embaixada, pude vivenciar a China sob outra perspectiva.

Ping também estudava lá e, como grande parte da sua turma, se direcionava cada vez mais ao mundo dos negócios. Nos fins de semana, nos encontrávamos às margens do Weiminghu, o Lago Sem Nome, que fica bem no centro do campus da Beida. Todo sábado, os estudantes organizavam sessões de dança de salão. Certa vez, Ping cochichou no meu ouvido: Espero que, um dia, possamos relembrar os nossos mortos. Eu entendi.

Voltei para Harvard e mudei minha área de estudos – das neurociências para a política chinesa, com ênfase nos direitos humanos.

Em outubro de 1999, o governo chinês convidou meu pai para assistir ao lançamento do CBERS-1, resultado da cooperação sino-brasileira em satélites, a partir do centro de lançamento de foguetes no interior do país. Meu pai conta que ver aquele foguete de longo alcance perfurar a atmosfera foi um dos momentos mais gratificantes de toda a sua carreira.

Marilda permaneceu na China mais alguns anos, a convite do embaixador João Augusto de Médicis, que sucedeu meu pai, e chegou a acompanhar a família dele ao Chile antes de se estabelecer no Distrito Federal.

Ping, hoje em dia, é um alto executivo em uma das maiores transnacionais do planeta. A empresa é chinesa.