poesia

Memórias póstumas

Eucanaã Ferraz

EIS

1
Parte considerável dos casos de amor
vividos ao longo e ao estreito destes séculos
permanece submersa. Destroços
podem ser encontrados aqui, nas minhas tripas.
Mas romancistas cineastas estudantes editores
todos estão mais interessados em explorações
de caça-níqueis ao tesouro. Poemas
porém continuam inventando sítios
arqueológicos sob a água desses dias de merda.

2
Menos no coração que no fígado
é onde sinto, doutor, doerem uns navios
afundados. É relativamente comum
que mergulhadores sigam para tais áreas
em viagens mais arriscadas para mim que para eles.
Sou sempre eu que não volto.
Tenho morrido mais do que posso.
Sim, trouxe os exames, estão aqui, há também
uns versos anexos.

3
Não tinha como fazer escavações carregando o peso
de tantos dicionários gramáticas clássicos
da literatura universal. Larguei tudo, ou quase,
e segui ao fundo onde constatei que entre os navios
que a pique vieram parar nos intervalos
de minhas costelas viviam esquecidos estes poemas
que ora dedico à memória de todos os amantes
mortos em combate.

 

QUEM

Cheguei à mais absoluta baixeza:

usei da lógica; segui em linha reta
até ao chão da certeza;

fui à razão, bebi suas regras;
delimitei o que era e o que não era.

Hoje, porém, posso vender a crédito
todos os meus pensamentos;

mas quem confiaria num comerciante
que a própria filosofia fia?

Minha pele, fiquem com ela,
é de graça e já não é minha.

Comigo não quero senão a extravagância
de amar quem jamais me ama.

 

LHE

Não era uma víscera qualquer.
Se o que boiava no sangue era só
gordura e nervos, invisíveis lá
subsistiam mitos cartas de suicidas
madrigais canções de amigo.

Pus – cuidadosamente – nessa bandeja
e lhe entreguei, Salomé
que degolasse a si mesma,
porque às vezes é preciso ser literal
trazer a imagem mais recôndita
ao chão em que descalço pisa o pé da letra.

Mas você
você não sabia sequer a diferença
entre um coração e uma almôndega.

 

ME

Fogo que se pode ver.
As transparências vêm aos olhos

com a consistência de um touro
que ardesse por vontade própria

nas ruas e praças.
Devia ser assim nos meus dentes

cabelos braços no meu casaco
em labaredas que mais me despiam

tanto que na rua apontavam
lá vai o amor e eu seguia

contente de queimar em público
saltando à vista eu o incandescente

o evidente até que
refletido num vidro qualquer

da cidade vi não mais que cinzas
meu antigo rosto.

Agora
vejam é nítido este verso frio sou eu

que espio os faróis as lâmpadas na noite
invejando-lhes a estrela momentânea.

 

DE

Tentei prender um guizo
no pescoço da hora.

Mas ela sobre nós arremeteu
um fogo tão frio e tão afoito

que não pude salvar um só instante
de nossa pele se quebrando.

 

OS

Deixei contigo uma lâmpada acesa, seu raio
contra a folha branca; e livros, tardes
transparentes dentro; numa delas o jardim
onde estivemos num silêncio tão grande

que ouvimos a flor-da-Abissínia dizer seu nome;
deixei também um ramo de lágrimas,
ficou sobre a mesa de cabeceira,
que brotaram em nossa última madrugada.

Quando saí o paletó ficou preso à maçaneta,
foi só um instante, parecia ironia, parecia
um pedido de socorro, que tudo voltasse
do começo, aos dias das palavras felizes.

Deixei contigo as canções da minha adolescência.
Deixei contigo a tua cidade, a tua cidade
já não me interessa. Deixei contigo meu relógio,
meus óculos, duas taças, jogue tudo fora.

Trouxe comigo na bolsa, por inútil engano,
tua orelha agarrada à chave que abre a porta
do apartamento; e eu não estar aí para abri-la
torna tudo mais absurdo ainda.

 

NOS

Não sermos mais nós dois é agora um traço negro tênue;
só eu o vejo; atravessa a superfície azul de outubro
sem dizer nada senão adeus e se isso fosse o fim

– não é; a memória dança doida no pátio de onde
desaparecemos
numa terça-feira meia-noite e vinte e cinco.

 

DES

Não basta salgar os olhos rasurar os lábios bater
o peito contra o vão de cimento é preciso deixar
que chova cá dentro de modo que tudo se liquefaça
e se torne caldo em torno dos ossos que pouco
a pouco se desengrumam. Não basta que a pele
esqueça. É necessário que toda a memória
do corpo desapareça. Mas o amor
é lentamente que se mata.

 

SEM

Que as estrelas morrem ensina a ciência
numa espécie de obituário absoluto.

Também a felicidade é passageira dizem
pode estar agora em Porto Alegre Planaltina

Ponte Nova lugares onde o mundo não existe
(o mundo é de onde a felicidade pôs-se a caminho

e não regressa). Ser feliz sei onde passa:
dura algumas horas

nós dois
sob o céu de um hotel sem estrelas.

 

TE

Desobedecendo ao velho fado, gostei de ti
sem que me pedisses. E dancei sonhei cantei
ri. A eternidade durou vários dias, mais
do que imagináramos, menos
do que eu pediria.

Agora, é preciso que me mates. Eu te disse
uma vez: quero que me mates. E peço mais,
que sobre o defunto dances sonhes cantes
rias para que sobre a terra não paire nada
menos que a tua alegria.

 

E

Aqui está o silêncio entre nós dois posso vê-lo
mesmo no escuro posso vê-lo melhor no escuro
brilha como o farol de um carro no entanto parado
sua retina fria na noite quente posso ver o fosso
a garganta quase posso tocar as sílabas
que se partem no desvão e a fenda gravando
mágoas nos gestos aqui está entre nós o oceano
sideral teu rosto interrompido no vento
na voragem do verão o silêncio aqui está
em todos os lugares posso vê-lo no escuro
dividindo-nos outra vez em dois e.

Eucanaã Ferraz

Poeta e ensaísta carioca, publicou Sentimental e Retratos com Erro pela Companhia das Letras

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