poesia

Meu amor selvagem que abre trilhas na ravina

A noite é longa, meu amor, e o teu enfermo é paciente

Heinrich Heine
ILUSTRAÇÃO: CONVERSATION_1922_FRANCIS PICABIA_©TATE GALLERY, LONDON_2011*

Por séculos afora,
Inertes no infinito,
Estrelas se entreolham
No amor irresolvido.

A língua em que murmuram
É rica e muito bela;
Filólogo nenhum
Jamais há de entendê-la.

Porém tenho-a aprendido
Em teoria e prática:
A face em que eu orbito
Serviu-me de gramática.

*



O mundo é tolo, o mundo é cego,
E cada vez mais descarado;
Que disparate, meu chamego,
Dizerem que não tens caráter!

O mundo é tolo, o mundo é cego,
Não saberá te dar valor
Nem ver os beijos que recebo
No caldeirão do teu amor.

*

Os teus beijinhos foram tantos,
Meu lábio está em carne viva;
Agora exijo um outro tanto
Para curar minha ferida.

Não te preocupes, por favor,
Em apressar o expediente:
A noite é longa, meu amor,
E o teu enfermo é paciente!

*

Se nos casarmos no papel,
Então vão todos te invejar:
Hás de passar a leite e mel
Os dias de papo pro ar.

Quando tiveres teus chiliques,
Prometo que não vou chiar;
Porém meus versos não critiques,
Que aí vou me divorciar.

*

Me entupiram de conselhos,
Me fartaram de honrarias,
Prometeram de joelhos
Que depois me ajudariam.

Já estaria em pele e osso,
Apesar da distinção,
Não tivesse um valoroso
Homem me estendido a mão.

Devo a vida ao cavalheiro
Que de mim não se esqueceu!
Eu quisera dar-lhe um beijo,
Só não dou porque sou EU!

*

A Edom!

Há dois milênios já perdura
A convivência tão fraterna –
Quando eu respiro, tu me aturas,
Se te enraiveces, eu tolero.

Algumas vezes, convenhamos,
Cruzaste as raias do mau gosto,
As santas unhas mergulhando
Na tinta rubra do meu corpo!

Nossa amizade agora cresce
A cada dia e nunca para;
Virei alguém que se enraivece,
Estou ficando a tua cara.

*

Os grandes deuses ora dormem,
Envoltos numa nuvem cinza;
Escuto como roncam forte,
A tempestade se aproxima.

Que tempo atroz! A tempestade
Quer destroçar a embarcação –
No vento e no escarcéu quem há de
Pôr sela, arreios e bridão?

Não tenho culpa se a procela
Empurra os barcos para o fundo,
Então me enrosco nas cobertas
E, como um deus, enfim eu durmo.

*

A morna fragilidade
Da tua alma não combina
Com o meu amor selvagem
Que abre trilhas na ravina.

Amas no amor a avenida;
E eu te vejo assim impávida,
De mãos dadas com o marido,
A flanar feliz e grávida.

*

Por qual das duas se apaixona
Meu coração que o amor balança?
A mãe tem ares de madona,
A filha é uma linda criança.

Ver essas formas graciosas,
Tão inocentes, que delícia!
Mas quem resiste àqueles olhos
Que sabem ler toda a malícia?

Meu coração parece, assim,
O amigo cinza e sem ação
Ante dois montes de capim:
Não sabe qual é sua ração.

*

Uma garota, lá na praia,
Acompanhando o pôr do sol,
Com olhos rasos d’água solta
Suspiros fundos e alguns ais.

Ora, garota, paciência!
É sempre a mesma velha história:
Agora o astro sai de cena –
De manhãzinha, está de volta.

*

Vinte e quatro horas eu
Espero a felicidade
Que a melíflua claridade
Dos teus olhos prometeu.

A linguagem é imperfeita,
A palavra, desastrada!
Sai da boca, ela esvoaça –
Lá se vai a borboleta.

Mas a imensidão do olhar
Faz teu seio parecer
Infinito, feito o céu
Em rejúbilo estelar.

*

“Às vezes acho que te nubla
A vista uma saudade oculta –
Já sei de cor tua desdita:
Um falso amor, vida perdida!

Tão triste acenas! Eu não pude
Te devolver a juventude –
Não há quem cure a tua dor:
Vida perdida, um falso amor!”

* Tradução de André Vallias

Heinrich Heine

Heinrich Heine (1797–1865), poeta e ensaísta alemão. Poemas extraídos da antologia Heine, Hein?, a ser publicada em maio pela Perspectiva.

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