questões futebolísticas

A mídia “parça” de Tite

A bolha de proteção e bajulação em torno do treinador da Seleção Brasileira

Marcos Caetano
Se quiser transformar seu sucesso de público em sucesso de resultados, Tite precisará dedicar mais atenção aos raros comentaristas que o criticam do que aos fãs incondicionais
Se quiser transformar seu sucesso de público em sucesso de resultados, Tite precisará dedicar mais atenção aos raros comentaristas que o criticam do que aos fãs incondicionais ROBERTO NEGREIROS_2018

“Bota ponta, Telê!” O bordão, eternizado por Jô Soares com seu personagem Zé da Galera, é o retrato de um tempo em que mesmo treinadores competentes e adoráveis, como o saudoso Telê Santana, não estavam livres de críticas por parte da torcida e da imprensa esportiva, que sempre exigia da Seleção Brasileira um futebol bonito, beirando o impossível. Não se pode dizer que Telê não tentou. Ele botou pontas – Éder Aleixo e Paulo Isidoro – na equipe de 1982, e o Brasil encantou o mundo com seu futebol envolvente, fiel a um estilo, a um éthos. Fiel até a morte, vale dizer.

Perdemos aquela Copa e, nos corações dos privilegiados que a acompanharam, ficou a cicatriz do sonho não realizado. Ninguém, no entanto, jamais sentiu vergonha daquele time. E muitos nunca aceitariam trocar a mais bela derrota de uma equipe nas copas do mundo, desde os tempos longínquos da Hungria de Puskás, pela conquista do título graças a um jogo burocrático como o da Itália de Paolo Rossi. Com todos os títulos possíveis no currículo, a Seleção Brasileira é a única que pode se dar ao luxo de consentir ser derrotada para não ter que abrir mão de uma filosofia de jogo, não importa o quanto ela seja considerada anacrônica. Não compreender esse aspecto talvez seja o grande erro da lista de erros razoavelmente robusta de Tite.

Entretanto, antes de falarmos dos erros de Tite – e dos fãs incondicionais do treinador – é preciso reconhecer as virtudes do trabalho desenvolvido por ele. Há dois anos, o treinador gaúcho sucedeu outro gaúcho, Dunga, que por sua vez havia sucedido outro gaúcho, Felipão. A Seleção Brasileira, após várias gestões conturbadas, estava em péssimo estado. Elogiado pela mídia, Tite chegou ao comando do escrete nacional quase que por aclamação, algo bastante incomum na história do nosso futebol. Isso facilitou bastante a sua tarefa, sobretudo nos primeiros tempos, quando a pressão costuma ser maior. De qualquer forma, era inegável que, após os sete famigerados gols da Alemanha e uma eliminatória sofrida sob o comando de Dunga, mesmo com o carinho incondicional de especialistas e torcedores, a tarefa do novo treinador não seria simples.

 

Com discurso agregador, postura tranquilizadora e obsessão pelo chamado padrão tático, Tite fez a Seleção desfilar em campo nas eliminatórias, tendo ela se classificado de forma antecipada para a Rússia e, ao longo de todos os jogos oficiais e amistosos, perdido apenas uma partida – sem levar sequer dois gols em um confronto. Treino é treino, jogo é jogo, mas que nos perdoe Didi, autor desse célebre aforismo: os resultados da Seleção Brasileira nos últimos dois anos, ainda mais se considerarmos o contexto de reconstrução, foram nada menos do que formidáveis.

O mesmo, infelizmente, não pode ser dito do futebol que exibimos na Rússia. Não chegamos perto de ter uma atuação vergonhosa como a do Mineirazo, mas tampouco conseguimos fazer um jogo minimamente encantador, algo que, aliás, não acontece há muito tempo em copas do mundo: a última seleção europeia derrotada por nós em um jogo de mata-mata foi a Alemanha, na final da Copa de 2002. O time de Tite foi fulminado pela mesma escrita – e, dessa vez, não diante de uma seleção poderosa e tradicional como a da França em 2006, a da Holanda em 2010 ou a da Alemanha em 2014, mas apenas a da valorosa Bélgica.

É interessante notar que Parreira e Felipão, tidos como ultrapassados, e Dunga, o treinador que a crônica esportiva ama odiar, começaram seus mandatos sob enorme escrutínio da imprensa e, embora tenham feito campanhas iguais ou melhores do que a da Rússia (a Seleção de Parreira acabou na quinta posição em 2006; a de Dunga, na sexta em 2010; e a de Felipão, na quarta em 2014), foram considerados, ao final dos mundiais, como os grandes vilões.

Tite, por outro lado, apesar da sexta posição – o que o igualou a Dunga na pior colocação desde 1990 –, saiu da Copa do Mundo ouvindo os clamores de igual intensidade dos que pediam a sua permanência e dos que rogavam por sua saída. Os vilões da derrota? As opções do cardápio são variadas: do indecifrável VAR (árbitro assistente de vídeo) ao cai-cai de Neymar, ambos convertidos em fenômenos midiáticos mundiais, passando pelo eficiente antijogo da Bélgica e por todas as possíveis teorias conspiratórias. Segundo a voz quase uníssona da mídia esportiva, todos podem ter culpa pela queda do Brasil nas quartas de final. Todos, menos Tite.

Permitam-me discordar.

 

A minha lista de erros cometidos pelo celebrado treinador – o qual, desde já aviso, gostaria que continuasse no cargo, a não ser que a CBF tivesse tido a coragem de trazer um nome internacional inquestionável, como o extraordinário Pep Guardiola – começa pelo básico. Na verdade, pelo mais básico: Tite deveria ter copiado o exemplo do veterano uruguaio Óscar Tabárez e comandado não apenas a seleção principal, mas também as seleções sub-20 e sub-17 do país. No trabalho de renovação que fatalmente se fará necessário para a Copa do Catar, ele precisa corrigir essa falha. Conhecer desde cedo os maiores talentos, desenvolver seus fundamentos e lançá-los na hora certa, com base em sua própria observação e não em palpites de pessoas raramente isentas, seria um grande trunfo. Essa deveria ser a primeira exigência de Tite para renovar seu contrato.

O segundo erro de Tite – que talvez não seja exatamente um erro, mas um exagero de uma característica que, bem dosada, seria uma virtude – é o tom professoral. Nada contra o didatismo, uma vez que no futebol moderno não há mais espaço para técnicos intuitivos e que apostam na motivação do grupo como panaceia (muito embora Renato Gaúcho insista em provar o contrário), mas há limites para a linguagem catedrática e os jargões executivos.

Ao ver Tite falar nas coletivas, muitas vezes fico com a impressão de que ele está mais preocupado em alcançar o coração dos gestores das empresas patrocinadoras da Seleção do que o dos jogadores ou do Zé da Galera. Futebol lúdico, inquietude do saber, intensidade de atuação, reprogramar uma jogada, o campo fala, representação da emoção e plenitude mental são expressões capazes de eriçar os pelos dos braços de quase todos os MBAs do mercado, mas dificilmente sensibilizarão boleiros rodados e famosos, com milhões de seguidores em redes sociais, cheios de tatuagens e fixados em videogames e cortes de cabelo. Não deve ser coincidência o fato de vermos tantos executivos de grandes empresas fechando contratos milionários para ter Tite projetando sua imagem de vencedor e recitando platitudes em suas campanhas publicitárias. Lamentavelmente, imagem, publicidade e platitudes não ganham copas do mundo.

Há algo, por outro lado, que Tite poderia aprender com os gestores de grandes empresas, ao menos das mais sérias: o desprezo ao favoritismo e ao paternalismo. A situação de Tite se tornou complexa a partir do momento em que, como um dos grandes críticos da gestão da CBF no passado, teve que se calar depois de assinar contrato com a entidade que já foi investigada por uma CPI e tem ex-presidentes presos ou condenados, proibidos de deixar o país. Pensando no bem maior e no desejo de comandar uma das grandes paixões do povo brasileiro, o treinador foi em frente, mas, exatamente por isso, jamais deveria ter contratado o próprio filho, Matheus Bacchi, para o cargo de auxiliar técnico e tecnológico da Seleção.

Por mais méritos que o profissional tenha, a prática do nepotismo deveria ser combatida a todo custo por qualquer um que se diz gestor, ainda mais em um país que trava uma luta de vida ou morte contra a corrupção. Se fosse um político ou um técnico com baixa popularidade, como Dunga, Tite teria sido imolado. Mas não foi – e este é um perfeito exemplo da atmosfera de crítica zero que cerca o treinador. O favoritismo com o filho, de certa forma, se repetiu no campo, desde a convocação até a escalação do time. Alguns jogadores que chegaram à convocação no auge da forma foram preteridos por outros longe de dispor das melhores condições. Iniciada a competição, alguns atletas, mesmo com baixo rendimento em campo, não foram substituídos. As justificativas para essas decisões foram evasivas e deixaram no ar um cheiro de favorecimento, espertamente disfarçado de coerência.

A Copa do Mundo é uma competição impiedosa, em que não há margem para erros. Ao convocar e manter jogadores cuja performance é questionável, temendo macular um princípio que considera sagrado – a gratidão aos que o ajudaram –, Tite viu o inseguro Fernandinho se tornar o mapa da mina para a vitória belga, o desgastado Paulinho não conseguir se impor no meio-campo e o tímido Gabriel Jesus ser incapaz de marcar o gol que precisávamos para chegar à prorrogação. Gratidão não faz a bola entrar, e nem tudo o que é belo na vida funciona em um campo de futebol.

 

Deixo para o fim aquela que talvez tenha sido a grande falha do nosso técnico e certamente a mais surpreendente: Tite falhou como psicólogo, justamente aquilo que todos consideravam seu indiscutível superpoder. A tal capacidade de “administrar o emocional do grupo”, para usar uma clássica expressão titeana, deixou bastante a desejar. Por acreditar que as coisas sairão como planejadas, já que para ele o planejamento é um mérito em si, nosso técnico parece incapaz de não ser blasé.

Se aceitasse perder um pouco da compostura e subir o tom para conseguir impor o que é melhor para o grupo, se entendesse que a Seleção não é uma empresa cujo planejamento é de longo prazo e que tem o ano inteiro para executar, Tite não permitiria que Neymar tentasse chamar a atenção do mundo com penteados, em vez de fazê-lo com futebol. Enxotaria seu cabeleireiro, seu colorista e ameaçaria o camisa 10 com a reserva, caso ele insistisse em dramatizar as faltas que deveras recebeu, e que foram muitas. Também teria falado mais grosso contra a má arbitragem, pois o VAR poderia ter sido acionado pelo menos cinco vezes em nosso favor e foi utilizado apenas uma vez, contra nós, para anular um pênalti que existiu em Neymar, apesar da dramatização de praxe.

Entre ser deselegante e perder a Copa do Mundo, nosso comandante parece insistir na elegância. Estou seguro de que o velho Zagallo, em seus bons tempos, jamais deixaria passar o lance do empate da Suíça e o pênalti claro em Gabriel Jesus, no final do jogo contra a Bélgica. Teria entrado em campo, ficado roxo e rolado pela grama como um Neymar enfurecido até que o VAR fosse acionado. Como fez o elenco inteiro da França, quando a bola bateu na mão do croata, na finalíssima. Até hoje, ninguém do mundo do futebol entende como o Brasil perdeu de 7 a 1 em casa sem que nosso técnico tivesse entrado em campo para sacudir um zagueiro ou trocado dois jogadores depois do terceiro gol alemão. Faltou a Tite a capacidade de se enfurecer – e ninguém ganha uma Copa do Mundo sem um pouco de fúria. Perguntem a Pelé ou qualquer outro campeão.

Em linhas gerais, foram essas as falhas de Tite. Significativas, mas nenhuma tão grave quanto a que foi cometida por quase todos os especialistas de futebol do país, profissionais ou amadores: a de não saber criticar um treinador adorado a ponto de virar guru de autoajuda e estrela de campanhas publicitárias. Fora um ou outro comentarista caricato, daqueles que turbinam a audiência interpretando uma persona raivosa e extremamente crítica, ninguém na mídia tradicional sentiu vontade ou dever de criticar os erros que o comandante cometia pelo caminho. Isso fez mal a Tite, da mesma forma que fazem mal a Neymar os “parças” e bajuladores que cercam com uma redoma de milhões de elogios – e nenhuma crítica – o jovem craque, já não tão jovem assim.

Tite deve permanecer no comando da Seleção. Mas, se quiser transformar seu sucesso de público e crítica em sucesso de resultados, precisará dedicar mais atenção aos raros comentaristas que o criticam do que aos fãs incondicionais. Se tiver o desejo sincero de reconhecer seus erros e ajustar sua filosofia de trabalho, nossas chances em 2022 serão enormes.


Em memória de Alexandre Abreu Gontijo, a pessoa que mais entendeu de futebol na história da humanidade.

Marcos Caetano

Marcos Caetano é especialista em comunicação, comentarista esportivo e colunista do Meio e Mensagem

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