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Missão pedagógica

A produção da entrevista de Marisa Lajolo sobre Monteiro Lobato na tevê

Roberto Pompeu de Toledo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

“Professora Marisa? Boa-tarde. Gostaríamos de convidá-la…” As insidiosas luzes da televisão chamavam outra vez. “Quem resiste à mídia?”, pergunta Marisa Lajolo, professora de teoria literária e de literatura brasileira na Unicamp e na Universidade Mackenzie. Ela mesma responde: “Eu não.” A TV Gazeta de São Paulo a convidava para participar, tal dia, tal hora, de um programa levado ao ar à tarde. Marisa Lajolo já produziu trabalhos, acadêmicos ou não, sobre vários escritores e temas literários, mas tornou-se mais conhecida como especialista em Monteiro Lobato. Sobre o criador do Sítio do Picapau Amarelo assinou livros que se tornaram referência, como a biografia Monteiro Lobato: Um Brasileiro Sob Medida e, em parceria com João Luís Ceccantini e um grupo de alunos, Monteiro Lobato Livro a Livro, em que as obras infantis do autor são esmiuçadas uma a uma. Vez ou outra a chamam para falar de educação ou de literatura infantil em geral, mas na maior parte dos casos é sobre Lobato. Era sobre Lobato, desta vez também.

Marisa Lajolo já conhece o ritual. Quando chega mais perto da entrevista, recebe um telefonema ou um e-mail da produção (“A produção! Coisa misteriosa, mas respeitadíssima”, afirma) perguntando se não pode adiantar algo do que vai dizer. “Eu – tonta – achava que entrevista era assim: o entrevistador perguntava e o entrevistado respondia. Mas já aprendi que nem sempre é assim. Então, quando vêm esses pedidos, geralmente anexo algum texto meu e começo a acender velas e a cruzar os dedos.”

Marisa mandou dois textos de sua autoria sobre Lobato. Aí veio outro e-mail da produção: “Não seria bom, talvez, providenciar algum cantor que cantasse as músicas do Sítio do Picapau Amarelo?” Afinal, a entrevista seria de vinte minutos, e os textos que ela havia enviado foram considerados insuficientes para inspirar perguntas que preenchessem todo esse tempo. Não, respondeu Marisa. A seu ver, era altamente desaconselhável ouvir “Marmelada de banana, bananada de marmelo”, em meio a uma entrevista. A produção perguntou então se não poderia ela mesma, Marisa, pautar a entrevista.

Por que não? Podia ser uma boa estratégia de redução de danos. Marisa caprichou: “Lobato criança: que aspectos de sua vida podem ter contribuído para a carreira literária? (Sua mãe era filha ilegítima, ele ficou órfão muito cedo, foi criado pelo avô.) Lobato jovem: Como foi sua formação profissional? Quais cursos fez? Que relação têm esses cursos com sua obra? Lobato adulto: Que profissões teve para ganhar a vida? Que relação têm essas atividades com sua obra? Ficou rico? Lobato escritor: Qual era seu método de escrita? Em que se inspirava para escrever suas histórias? Seus livros tiveram sucesso instantâneo? A contemporaneidade de Lobato: sua obra tem coisas a dizer aos leitores do século XXI? Ele era racista?”

Este é apenas um resumo. O roteiro enviado à produção ia bem além. “Confesso a imodéstia. Gostei tanto do roteiro que achei que iam me propor um emprego na produção”, diz Marisa. Já a produção, ela própria… Não. A produção achou o roteiro “ótimo”, mas curto. Não via meios de extrair mais perguntas com base nele, e precisava desesperadamente de mais perguntas. “Precisamos de um texto mais completo, para você e a apresentadora comentarem”, pediu. Também aproveitava para perguntar se Marisa não podia adiantar a resposta ao último item do roteiro, aquele que falava da contemporaneidade de Lobato.

Marisa hesitou, quase entregou os pontos, mas, acreditando no raio da missão pedagógica que o bom Deus fez por bem atribuir a criaturas de sua profissão e sua laia, respondeu: “Prezada Fulana, estou meio perdida. Entendo que as perguntas que enviei são o roteiro da conversa. Responderei a elas, claro que abordando e aprofundando o assunto durante o programa. Ou não é assim? Quanto à questão da contemporaneidade de Lobato, é a mais aberta de todas. Não há uma resposta específica. Mesmo assim, tento: ‘Lobato introduz seus leitores num mundo ao mesmo tempo antigo (como era o Brasil ao tempo dele) e contemporâneo (a força da imaginação na mudança da realidade).’”

Ficou faltando o tal “texto mais completo” para ser comentado durante o programa. Como Marisa não o enviou, a produção, valentemente, encarou-o ela própria. Trechos: “Um país se faz com homens e livros […] cético, tinha como um de seus ditos preferidos o de ‘não acreditar em nada por achar tudo muito duvidoso’. Porém, contrariando sua frase predileta, acreditou em muitas coisas durante sua vida e uma delas foi a indústria brasileira do livro, fundando, em 1918, a Monteiro Lobato e Cia., a primeira editora brasileira. Antes, todos os livros eram impressos em Portugal […] um grande escritor que, segundo ele mesmo disse, ‘talento não pede passagem, impõe-se ao mundo’ […] logo depois do início de sua gloriosa carreira literária viajou para os Estados Unidos…”

 

O texto foi enviado a Marisa, que teve tempo apenas de passar os olhos e corrigir os erros mais rombudos. Publicavam-se, sim, livros no Brasil antes da Monteiro Lobato e Cia. E não foi “logo depois” do início da carreira literária que ele seguiu para os Estados Unidos – foi em 1927, nove anos após a publicação do livro de estreia, Urupês. Em seguida, rabiscou um último e-mail à produção: “Estou entre reuniões. Pintei de amarelo algumas passagens que não correspondem exatamente ao que conheço sobre Lobato. Estarei amanhã na Gazeta às 14 horas. É isso, não é? Abraço.”

Um derradeiro vacilo. Ir? Não ir? Mas, se não for, como fica a missão pedagógica? E a curiosidade de saber no que vai dar? Marisa não só foi, como levou dois presentes para a apresentadora: o , de 96 páginas, e uma antologia de contos que publicou na coleção Para Gostar de Ler: Histórias sobre Ética, de 136 páginas. Entregou-os antes de entrar no ar. A apresentadora gostou mais do primeiro: “Bom livro mesmo é um bem fininho, porque não custa muito para ler. Acaba logo.” Na entrevista em si, Marisa, meio mal-humorada, disparou a falar e deu pouca chance à outra parte. Teve dois retornos, de duas mães de amigos, que acharam que ela estava ótima. Uma delas elogiou sua blusa.



Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo, jornalista e escritor, é colunista de Veja. Publicou A Capital da Solidão: Uma História de São Paulo das Origens a 1900 e o romance Leda, ambos pela Objetiva.