esquina

Moli vai à China

Uma garota fissurada em mandarim

Paula Scarpin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Do hotel em frente à Baía da Guanabara, Amiris Rodrigues divisou o ponto em que o sol se levanta e entoou o mantra Daimoku, recomendado pela tradição budista àqueles que precisam de força para transformar o destino. Era fim de junho. A adolescente miúda, de óculos e aparelho nos dentes, pediu em japonês – idioma que ignora – o reconhecimento de sua competência em mandarim. Dentro de poucas horas, a moça de 16 anos disputaria a final brasileira do Chinese Bridge, concurso mundial de língua e cultura chinesas para alunos dos ensinos médio e superior. Um dos requisitos da competição é que os participantes não tenham nenhum elo familiar com a China. “Meu bisavô paterno nasceu na Espanha e se casou com uma baiana. Minha bisavó materna era índia, casada com um nortista”, apressou-se em me explicar a garota. Até um ano e meio atrás, tudo o que ela sabia a respeito do gigantesco país asiático limitava-se às lições recebidas durante as aulas de geografia num colégio agrícola de Franca, cidade paulista onde nasceu e mora. Nem rolinho primavera a menina havia experimentado.

No começo de 2015, mal ingressou no ensino médio, Rodrigues descobriu que, além de aprender inglês e espanhol, poderia se inscrever num curso optativo de mandarim, graças a uma parceria da escola com o Instituto Confúcio. A organização sem fins lucrativos, vinculada ao Ministério da Educação da China, possui 500 centros espalhados pelo mundo. “É meio bobo falar desse jeito, mas o mandarim deu sentido à minha vida”, confidenciou a jovem. O currículo regular do colégio agrícola não a desafiava – tampouco a convivência com outros adolescentes. Muito estudiosa, nem sempre se interessava pelo papo dos colegas. “Em resumo, morria de tédio.”

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES

Paula Scarpin

Foi repórter da revista por doze anos, e fundou a rádio piauí. É diretora de criação da Rádio Novelo.

Leia também

Últimas

Queridos, encolhi o país

Brasil piorou em PIB, renda per capita, indicadores de saúde e educação

Passou a boiada e agora chama a polícia

Bolsonaro desmonta sistema de fiscalização ambiental e, pressionado por Biden, diz que Força Nacional vai combater desmatamento

A cada 15 minutos, um Henry pede socorro

Serviços de saúde atendem por ano quase 33 mil crianças de até 9 anos com sinais de violência física, sexual ou psicológica; em cada quatro agressões, três acontecem dentro de casa

Temas recorrentes, tragédias perenes

A Última Floresta documenta, com olhar antropológico, aldeia na terra Yanomami

É praia, é piscina, é viagem oficial!

As equipes precursoras de Bolsonaro aumentam o número de dias das viagens e aproveitam para fazer turismo às custas do dinheiro público

Sem clima pra boiada

Conferência de chefes de Estado quer metas concretas de redução do desmatamento ilegal; estratégia bolsonarista atropela acordos com Biden

Mais textos