despedida

Morre um puro

Alejandro Robaina, o cubano que virou fumaça

Dorrit Harazim
Robaina foi o único tabaquero a receber a maior honraria do métier: uma marca de “puro” que porta o seu sobrenome e imagem
Robaina foi o único tabaquero a receber a maior honraria do métier: uma marca de “puro” que porta o seu sobrenome e imagem

Instado a definir felicidade, o comediante americano George Burns foi claro: “Felicidade? Um bom charuto, uma boa refeição, um bom charuto, uma boa mulher – ou mesmo uma não tão boa – um bom charuto… Depende da quantidade de felicidade que você consegue administrar.” Burns administrou charutos, refeições e mulheres até morrer, com 100 anos de idade, em 1996.

O cubano Alejandro Robaina, o mais reverenciado conhecedor de tabaco do mundo, contribuiu a vida inteira para a felicidade de aficionados como Burns. Morreu no mês passado, aos 91 anos, e foi enterrado na fazenda familiar La Piña, ao lado da plantação de 16 hectares que, desde 1845, sobrevive intacta a todos os solavancos políticos e econômicos de Cuba.

As sedosas folhas verdes da terra dos Robaina, que já eram colhidas quando a então colônia ainda pertencia aos reis da Espanha, atravessaram soberanamente a história da ilha. De safra em safra, abasteceram de “puros” os tempos de José Martí, a geração da guerra da independência, o período de domínio americano, as três encarnações da ditadura Fulgencio Batista. Dois nomes estelares dos puros, os Cohiba Espléndidos e os Hoyo de Monterrey Double Coronas, vêm das folhas plantadas por Robaina.

Mesmo depois de 1959, ano em que os barbudos de Fidel Castro proclamaram Cuba um Estado revolucionário, o status de Alejandro Robaina como produtor autônomo permaneceu inalterado. “Fidel queria que eu fizesse parte de uma cooperativa, mas recusei. Expliquei que queria continuar trabalhando com minha família”, ele contou à revista Cigar Aficionado, em 2006. “El Comandante acabou entendendo, visto que hoje boa parte da terra voltou para as mãos de pequenos agricultores.”

De fato, na Cuba em transição de Fidel para Raúl Castro, 80% das plantações de tabaco da região de Pinar del Río estão em mãos privadas. Mas o governo de Havana continua a ser o único comprador. Fidel continuou degustando charutos até 1985, quando cedeu a ordens médicas de abandonar o vício mantido ao longo de 44 anos. Em entrevista concedida uma década mais tarde, contou que combatia a abstinência dos seus Habanos sonhando com eles.

 

Filho de um camponês sem instrução, Robaina começou a trabalhar no cultivo do tabaco aos 10 anos de idade, junto ao pai. Em meados dos anos 90, já septuagenário, recebeu das mãos de Fidel Castro o título de melhor tabaquero de Cuba. A consagração maior, contudo, lhe foi proporcionada pela empresa mista Habanos S.A., responsável pela comercialização e distribuição de charutos cubanos no mundo todo: em 1997, ela criou uma marca de charuto em sua homenagem, o Vegas Robaina. No espanhol falado em Cuba, a palavra vega designa plantação de tabaco.

Foi a primeira vez na história da produção tabaqueira que se batizou um selo novo com o nome de um guajiro, um simples homem do campo. E, ainda por cima, em vida. A partir daí, a Finca La Piña passou a integrar o roteiro turístico da ilha. Apreciadores do mundo inteiro não se constrangiam em pedir a Don Alejandro que autografasse a caixa de puros com a sua imagem, cuja produção anual chega a três milhões de unidades. Caravanas de ônibus de turismo despejavam curiosos que queriam ver de perto o personagem de rosto sulcado pelo sol. “Já não preciso mais viajar pelo mundo: o mundo está vindo a mim”, comentou dois meses atrás ao jornalista James Suckling, da Cigar Aficionado, referindo-se aos anos em que desempenhou o papel de embaixador itinerante do produto de exportação mais cobiçado de Cuba.

 

Por diferenças na linha do tempo, desencontros da história e malvadezas do destino, Alejandro Robaina jamais cruzou com Sigmund Freud, que fumava vinte símbolos fálicos por dia. Tampouco pôde ouvir de Winston Churchill o quanto era difícil fumar um puro quando se está com uma máscara de oxigênio tapando boca e nariz. Para manter sua média de oito a dez charutos diários durante a Segunda Guerra Mundial, mesmo quando a bordo de aviões não pressurizados, Churchill ordenou a invenção de uma máscara que atendesse a seus hábitos.

Dentre tantas figuras da história que frequentam a lista dos dependentes das plantações de Pinar del Río, coube a John F. Kennedy assumir de forma mais explícita o seu temor de ficar sem seus charutos preferidos. Corria o ano de 1962 e o presidente americano estava prestes a decretar o embargo que proibiria a entrada nos Estados Unidos de qualquer produto proveniente de Cuba. Antes, porém, escalou Pierre Salinger, seu assessor de imprensa e homem de confiança, para a missão sigilosa: obter mil unidades de cubanos Petit Upmann, no prazo máximo de 24 horas. Salinger se revelou à altura da tarefa: conseguiu arrebanhar 1 200 exemplares para o ocupante da Casa Branca.

Alejandro Robaina ainda fumava cinco charutos por dia no final da vida. Morreu de câncer e foi enterrado na finca da família. Não conheceu John Kennedy nem qualquer um dos nove presidentes americanos que o sucederam. Quanto ao embargo decretado em 1962, está em vigor até hoje.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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