esquina

Morte anunciada

Obituários fazem sucesso na Irlanda

Felipe Sáles
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

No noroeste da Irlanda, onde o Atlântico encontra uma parede de falésias rochosas cobertas de gramíneas verdes, onde castelos, florestas e precipícios à beira-mar compõem um cenário de filme épico, situa-se o condado de Sligo, um dos principais destinos turísticos do país. Em torno de 65 mil pessoas vivem em paz – uma paz excessiva – nesse cartão-postal na borda do mapa, terra em que viveu o poeta William Butler Yeats.

Os moradores costumam combater o tédio da cidade de Sligo, capital do condado, com partidas de rúgbi, banhos hidroterápicos e passeios a cavalo. Mas o que realmente galvaniza a vida por lá são as emissões radiofônicas de obituário, quando os habitantes da cidade, do condado e de vilarejos vizinhos ficam de orelha em pé para se inteirar da mais recente lista dos mortos da redondeza.

Conhecidos como death notices , esses programas têm atravessado gerações como fenômeno de audiência: no interior da Irlanda, só perdem em popularidade para o futebol da Champions League. São transmitidos quatro vezes por dia pela Ocean FM, rádio local de Sligo, com picos de audiência de 25 mil ouvintes, de acordo com pesquisas da JNLR MRBI, o Ibope das rádios irlandesas. Um case midiático que se repete em outras regiões do país, mas que é exclusivo da Irlanda, sem paralelo mesmo nas vizinhas Irlanda do Norte, Escócia ou Inglaterra.

A simplicidade da atração aumenta o enigma de seu sucesso. A death notice de maior audiência na Ocean FM, no meio da manhã, se encaixa entre The Breakfast Club e o North West Today. Tem duração de 1 a 6 minutos – a depender do número de desafortunados – e é antecedida por uma vinheta sonora semelhante a trilha de filme romântico antigo. Só então entra no ar a voz de Niall Delaney, um irlandês de 50 anos, calvo, cuja fisionomia lembra a do personagem Doug Stamper, assessor de Frank Underwood na série House of Cards.

Delaney tem experiência no metiê. Com milhares de mortes no curriculum vitae, passou metade da existência transmitindo obituários. Recita um a um os nomes dos finados, seus endereços, circunstâncias de óbito, local de sepultamento e missa, além de pedir doações ou sugerir para onde enviar flores. Capricha nas pausas e dá uma carregada na respiração pesada, efeitos que produzem a tensão necessária ao show. É um sucesso.

Que o diga um açougueiro de Sligo. Certo dia, desatento do noticiário, notou uma movimentação estranha diante da loja. Longe dali, sua mulher caminhava pelo Centro sem entender por que todos a cumprimentavam com um obsequioso aperto de mãos. Ainda que ela soubesse que essa é a forma cerimoniosa com que os irlandeses demonstram pesar, nem lhe passou pela cabeça que um defunto homônimo do marido tivesse sido anunciado pouco antes pelas ondas da Ocean FM.

“O açougueiro ligou para a rádio e não conseguia parar de rir”, contou Delaney. O locutor garante que, para evitar erros e trotes, as informações são sempre confirmadas com as funerárias. “Nós costumamos dar o nome e o endereço do morto, mas em geral ninguém presta atenção na localidade, daí a confusão. A mulher do açougueiro nunca recebeu tantos cumprimentos.”

 

Em Sligo, o apreço aos mortos não é de hoje: o município conta com mais de 5 mil sítios arqueológicos, entre eles o Cemitério Megalítico Carrowkeel, construído há cerca de 6 mil anos, e portanto mais antigo que as pirâmides do Egito. As falésias, praias e florestas dos arredores se prestam à preservação de mitos e lendas celtas – que deram origem ou inspiraram histórias como a dos Cavaleiros da Távola Redonda, Tristão e Isolda e até a da ilha Hy Brazil, um paraíso que se pensava existir na mesma latitude da Irlanda.

Essa atmosfera feérica, no entanto, não tem nada a ver com o interesse dos irlandeses pelos mortos, segundo Delaney. O tema é para eles cotidiano, natural. “As pessoas se interessam porque é notícia. E são novidades locais, que é o que as pessoas querem. Lembro o hábito de meu pai ao ler o jornal: ele ia direto para a editoria de esportes e logo passava para os obituários, para ver se precisava ir a algum funeral. Só depois lia as manchetes da primeira página.”

No início dos anos 90, antes até que o crescimento da internet alterasse o modo como as pessoas se informam, muita gente começou a augurar o provável fim das death notices. Davam como certo que, quando os ouvintes mais antigos entrassem na pauta, o programa também morreria. A convicção caiu por terra não só pela estabilidade da audiência, como por causa dos 250 mil visitantes mensais na página de obituários do site da Ocean FM. A seção é destaque nos endereços eletrônicos das emissoras do interior, sem contar pelo menos três portais dedicados exclusivamente ao tema.

O assunto é rotineiro na mesa das famílias tradicionais. No dia em que algum conhecido integra a lista fatídica, os mais antigos têm por hábito perguntar “Adivinha quem morreu?”, e o interlocutor se vê obrigado a citar metade da vizinhança, até descobrir. Às vezes a estratégia é outra: por quinze minutos a matriarca conta histórias divertidas de um amigo, para no fim anunciar que ele passou desta para melhor.

Apesar do desassombro com que os irlandeses tratam a morte, a matéria nunca se torna burocrática. Depois de 25 anos de carreira, Delaney ainda se deixa afetar pelo que divulga, embora procure manter a compostura. Não foram poucas as vezes, ele disse, em que chegou para trabalhar e descobriu um amigo na lista. Só lhe restou engolir em seco e dar conta do recado.

Nem sempre se pode contar com esse nível de profissionalismo. Corre que, em meados dos anos 80, numa rádio que funcionava num condado da região central do país – uma emissora pirata, mais tarde fechada pelo governo –, o interesse de um locutor pelas notícias acabou transparecendo. Depois de ler todo o obituário do dia, com o microfone ligado, o sujeito respirou com alívio: “Graças a Deus, ninguém que a gente conhece!”

Felipe Sáles

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