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Morte de domínio público

Pacote funerário gaúcho inclui cartazes sobre as exéquias

Maurício Brum
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Protegido do ar gelado do inverno gaúcho por um sobretudo preto e uma boina da mesma cor, Semarino Alves Pereira caminhava com passos decididos pelo Centro de Cachoeira do Sul. Naquela manhã do início de agosto, tinha recebido a missão de buscar alguns exemplares do jornal local para a escola onde a filha leciona, e agora avançava convicto pela rua Sete de Setembro até a redação. No meio do caminho, deteve a marcha e estacou em frente ao antigo Cine-Teatro Coliseu – um imponente edifício vermelho e branco com a fachada art déco, abandonado desde 1985. Sem cartazes de filmes para ler, Semarino parou por alguns segundos para analisar outro tipo de anúncio. “Às vezes a gente é pego de surpresa por um nome na parede”, justificou.

Os nomes na parede que tanto surpreendem os transeuntes cachoeirenses são os últimos falecidos da cidade, cujo velório pode estar ocorrendo no momento em que se leem os avisos colados nos principais prédios do Centro. São cartazes simples, feitos em folha de ofício branca, produzidos pelas funerárias e retirados – ou substituídos – logo após o enterro. Informam quem morreu, o local e o horário das exéquias. Os que chegam de fora veem com curiosidade a tradição típica de Cachoeira. Para os moradores, os convites fúnebres espalhados pela rua são parte tão natural da paisagem que parecem estar ali desde sempre.

Aos 84 anos, o próprio Semarino Pereira não guarda memória de uma época em que não houvesse participações de falecimento divulgadas de alguma forma pela cidade. “Antigamente, certas funerárias iam ainda mais longe e entregavam os folhetos por baixo da porta das casas, em envelope de carta. Faziam isso em qualquer casa, mesmo sem nenhum parente ou amigo do falecido morando ali”, recordou. Em cidade pequena, o boca a boca se encarregava de complementar a divulgação e fazer a notícia chegar aos interessados.

Hoje com pouco mais de 83 mil habitantes, Cachoeira do Sul ostenta o faustoso título de Capital Nacional do Arroz, alcunha nascida após as safras recordistas registradas na primeira metade do século passado. Com o tempo, a produção do município caiu para o oitavo lugar no país, e a pujança de outrora deixou como legado alguns prédios vetustos que se ressentem de dias mais gloriosos, como o interditado Coliseu.

 

O que permaneceu intocável na cidade foi a tradição dos convites fúnebres nas paredes de lojas e bares. Trazida provavelmente por algum morador vindo de Portugal ou Espanha, países onde algumas cidades ainda cultivam o mesmo costume, a estratégia de divulgação das funerárias se aprimorou com o tempo. “Até quinze anos atrás, era preciso levar o modelo do convite para a gráfica e montar com muito cuidado. Uma letrinha errada e todo o trabalho era jogado fora. Hoje é uma facilidade: uma impressora com jato de tinta e já se sai com quarenta folhas”, contou Milton Weber, da Funerária Madre Teresa.

As novas técnicas de impressão também tornaram os anúncios mais sofisticados. O padrão nunca se alterou: o nome do falecido vai em letras garrafais no centro do papel e as demais informações seguem em corpo miúdo, acima e abaixo. Só que agora também aparecem os apelidos do finado, o local onde morava e até mesmo sua idade. Desde julho, algumas funerárias deram um passo a mais na direção da modernidade post mortem e passaram a incluir fotografias – tiradas em vida – daqueles que estão se despedindo.

Weber estima uma média de três óbitos por dia na cidade. Quando a família solicita o serviço funerário, já repassa também as informações que deseja ver no cartaz. Mesmo o pacote mais básico, em torno de 800 reais, inclui a impressão e colagem de panfletos. Para muitos, não faz sentido investir um pouco mais para republicar a mesma informação num jornal – o cartaz costuma ser lido bem antes. Com os anúncios de parede, a família também pode traçar o público-alvo para a divulgação, sugerindo locais que o falecido frequentava ou ruas de sua antiga vizinhança.

Não que conhecer o defunto seja exatamente um pré-requisito. Com as informações sobre velórios expostas nas ruas, muitos cachoeirenses mantinham o hábito de frequentar o adeus a desconhecidos. Atraídos pela curiosidade ou pelo café que costuma ser oferecido durante as cerimônias, infiltravam-se na pequena multidão e perguntavam pelos parentes do morto, para manifestar seu pesar. Essa modalidade de luto terceirizado, porém, vem perdendo adeptos. “As pessoas não têm mais tempo. Já não é o tumulto de antes em volta do caixão”, diagnosticou Weber.

A trajetória dos convites fúnebres poderia ter sido encurtada abruptamente em 2006, quando os vereadores locais discutiram uma lei contra a poluição visual, incluindo os ditos cartazes. Além do excesso de mensagens, alegavam que o cola-descola vinha estragando as fachadas dos edifícios. A população não tardou a reagir. Uma a uma, as casas comerciais da cidade se sucederam na tentativa de salvar a tradição: “Na minha parede pode colar.”

O meio-termo foi determinar que a colagem só ocorresse em locais previamente autorizados, além da instalação de quadros com o fim específico de receber os cartazes. “Depois do enterro, uma versão do convite fica com a família como uma lembrança do ente querido”, assinalou Mirian Ritzel, pesquisadora do Arquivo Histórico da cidade. A instituição recolhe alguns anúncios e repassa para o acervo do museu local, que busca registrar sua evolução. “Nunca deixa de causar estranheza ver nomes conhecidos nas paredes. Quando passo na frente de um convite, fico imaginando como vai ser o meu.”

Maurício Brum

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