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Museu do Futebol

O ostracismo do Pacaembu

Fábio Fujita
Pouco utilizado desde a inauguração das novas “arenas” em São Paulo, o Pacaembu tem sido alugado por empresas para jogos amadores
Pouco utilizado desde a inauguração das novas “arenas” em São Paulo, o Pacaembu tem sido alugado por empresas para jogos amadores FOTO: ERNESTO NOGUEIRA_2015

Treze de abril de 2014. Josa, um baiano de 84 quilos e 1,81 metro de altura, permaneceu ajoelhado no meio de campo, numa prece pessoal, enquanto os atônitos companheiros corriam a esmo, tamanha a felicidade. Minutos antes ele batera seu pênalti e convertera. A seguir, o goleiro do time, o modestíssimo Ituano, defendeu a cobrança adversária. Terminava ali o Campeonato Paulista. Seria ele mesmo, Josa, a receber das mãos dos dirigentes o cobiçado troféu. “Eles estavam com cara de quem não queria que um time do interior tivesse vencido, mas eu não quis nem saber”, conta o volante, que tratou de tomar para si o que lhe era de direito. Ao bater o Santos, Josa pode ter se tornado o último capitão a ter erguido uma taça na história do Pacaembu.

Palco de muitas das maiores glórias do desporto paulista, nos últimos meses o histórico Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho passou a viver uma fase de ostracismo. Desde que as novas “arenas” do Corinthians e do Palmeiras tomaram forma em 2014, os dois times que mais atuavam no Municipal deixaram de fazê-lo. O mês de abril, em que o Pacaembu soprou velinhas por seus 75 anos de vida, passou em branco, sem nenhuma partida profissional (em maio, até houve um Portuguesa x Brasil de Pelotas, pela série C). Pela tabela deste ano do Campeonato Brasileiro da série A, nenhum jogo está programado no estádio, que em sua festa de inauguração, em 1940, foi classificado pelo presidente Getúlio Vargas como o “marco da grandeza de São Paulo a serviço do Brasil”.

A despeito dos intensos debates nos últimos anos sobre o futuro do Pacaembu, nada de muito concreto aconteceu. A tendência hoje é que sua gestão seja entregue à iniciativa privada – pelo menos é esse o anseio da prefeitura, que no fim de janeiro lançou um edital em busca de interessados numa concessão que deverá ser de 25 ou 30 anos. Para fazer do estádio uma arena moderna, estima-se ser necessário um investimento de 300 milhões de reais. Coordenador do Complexo Esportivo do Pacaembu, Francisco Carlos Dada afirma que o processo de escolha do concessionário, ainda na primeira fase, tende a ser moroso – no passo atual, pode se estender por uns dois anos.

Como o edital determina que sob a nova gestão o complexo acolha “atividades esportivas ou culturais”, há margem até para que o futebol deixe de ser protagonista no Pacaembu. Mecenas do rúgbi, por exemplo, podem querer entrar na corrida para fazer do estádio a “nova” casa da modalidade. “Para mim, seria a morte cerebral”, decreta Francisco Dada, ao ser confrontado com a hipotética situação de o Paulo Machado de Carvalho perder seu DNA futebolístico. Ciente, porém, de que tal conjectura não é de todo impossível, atenua: “Se for o melhor para o munícipe, que assim seja.”

 

De fato, é difícil imaginar o Pacaembu sem a bola rolando. Na partida inaugural, não foram necessários mais do que dois minutos para dar início à trajetória de gols a que o estádio viria a assistir: o ponta-direita Zequinha, do Coritiba, deixou dois zagueiros na saudade, invadiu a área em velocidade e fuzilou o goleiro Gijo, marcando pela primeira vez e entrando para a história contra o então Palestra Itália, em 28 de abril de 1940. A partir daí, aquele gramado não parou de ser palco para marcos históricos. Em 24 de maio de 1942, Leônidas da Silva fez estourar a capacidade do estádio de 70 mil lugares, atraindo 72 018 pessoas – muitas carregando marmitas para almoçarem nas arquibancadas –, que o viram estrear pelo São Paulo contra o Corinthians. Naquele mesmo ano, no dia 20 de setembro, o Palestra Itália jogou ali pela primeira vez com seu novo nome, Palmeiras, contra o São Paulo. No Pacaembu, Pelé chegou a atuar como goleiro numa partida contra o Grêmio, em 19 de janeiro de 1964. Foi também naquele campo que o adolescente Neymar, em 7 de março de 2009, atuou pela primeira vez como boleiro profissional, contra o Oeste de Itápolis. Ali o Corinthians jogou 1 686 vezes, viu seu atacante Cláudio se tornar o maior artilheiro do local, com 186 gols, e calou a boca dos rivais ao se sagrar campeão da Copa Libertadores da América, em 4 de julho de 2012.

Por tudo isso, ver o estádio Paulo Machado de Carvalho abandonar a grande cena esportiva é motivo de lamento para Celso Unzelte, historiador do esporte das multidões. Não faz sentido rotular o estádio de anacrônico, ele diz. “O Pacaembu tinha tudo para ser a sede paulista na Copa do Mundo de 2014: acesso fácil, tradição esportiva e até espaço para uma reforma que incluiria estacionamento, respeitando a conservação do patrimônio histórico, como fizeram com o estádio olímpico de Berlim”, analisa. “Se isso não foi feito, é porque tinha gente mais interessada em faturar na construção de estádios novos, que movimenta mais dinheiro do que qualquer reforma”, completa Unzelte.

O historiador é também consultor do Museu do Futebol. A instituição, dedicada à história do esporte e instalada significativamente no subsolo do Pacaembu, contabilizava até o dia 24 de maio 97 907 visitantes. Neste ano, mais gente visitou o estádio para conhecer as glórias do passado do que para torcer por seu time. O público acumulado dos seis jogos oficiais realizados até maio foi de 60 436. Mesmo incluindo na conta a final da Copa São Paulo de Juniores (Corinthians x Botafogo-SP, em janeiro), que foi a partida de maior público, com 36 083 espectadores, o número não supera o do museu: 96 519.

 

Francisco Dada, embora ciente de que a demanda de outrora pelo estádio não voltará, garante que jogos esporádicos ainda vão ocorrer. Com a entressafra de partidas oficiais, a administração do Pacaembu vem se ocupando sobretudo da “vida por detrás do ‘Tobogã’”, como disse Dada, em referência ao apelido de um dos setores, o mais inclinado, da arquibancada. “Precisamos ficar de olho no casalzinho que sumiu no meio do mato, no outro que desceu para fumar um cigarro de maconha, no cara que quer pular na piscina em reforma”, conta o administrador.

A ociosidade do estádio às vezes é quebrada por eventos corporativos: partidas organizadas por empresas, que pagam o preço público de locação do espaço – 27 mil reais. No último 20 de maio, uma quarta-feira – o dia da semana típico para os jogos de campeonato –, o campo havia sido reservado pela Dclemente & Associados, uma agência de publicidade e eventos.

Quatro equipes disputaram um minitorneio, em jogos de vinte minutos cada. Misturados ao pessoal da firma, brilhavam sob os holofotes do Pacaembu heróis dos gramados de outras épocas, contratados para a ocasião. O ex-centroavante Evair, 50 anos, o sexto maior artilheiro da história do Palmeiras, compôs com o pessoal do time verde – e vez ou outra reclamou que a bola não chegava. Ainda assim, ajudou a equipe a vencer um dos dois jogos, desempenho superior ao do tetracampeão Paulo Sérgio, 45, do time branco, que perdeu as duas partidas que disputou.

Na peleja derradeira, o time vermelho, do ex-são paulino Müller, 49, atuando como um volante improvisado, enfiou 3 a 0 no escrete azul, do ex-atacante do Napoli Careca, 54 – anulado pelos parrudos beques rivais. A saída de campo foi rápida, incentivada por um dos organizadores do evento. De posse de um megafone, na beirada do gramado, ele convidava os jogadores, inclusive os craques do passado, para um churrasco de confraternização “com caipirinha”.

Fábio Fujita

Fábio Fujita é jornalista baseado em São Paulo.

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