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A mutação da Amazônia

    A química Luciana Gatti: ela e seus colegas estão concluindo um estudo sobre o balanço das emissões de carbono na floresta em 2019 e 2020. “A notícia é terrível. A Amazônia piorou”, diz CRÉDITO: VICTOR MORIYAMA_2022

anais da floresta II

A mutação da Amazônia

Luciana Gatti desvenda como uma parte da floresta, em vez de absorver o gás carbônico da atmosfera, está se tornando fonte de CO2 por causa do desmatamento e das queimadas

Giovana Girardi | Edição 190, Julho 2022

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Luciana Gatti entra acelerada no Laboratório de Gases de Efeito Estufa no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, no interior paulista. Cumprimenta os colegas Caio Correia, especialista em tecnologia nuclear, e Luciano Marani, geofísico, que preparavam a “mala” que ela levaria em uma viagem dali a dois dias, e logo descobre que estão faltando alguns itens importantes, que não chegaram a tempo. Gatti solta um sonoro “PQP”, mas não deixa a irritação dominar os ânimos. Rapidamente, começa a pensar em alternativas para contornar o problema.

A “mala” é, na verdade, uma caixa metálica – com frascos, uma bombinha de sucção, tubos, válvulas – que funciona como amostrador. Acoplada em um avião, ela serve para coletar amostras de gases atmosféricos. As peças que deveriam ter chegado havia alguns dias eram fundamentais para o aparelho funcionar.

Enquanto os colegas tentam dizer que vai dar tempo de arrumar tudo antes de Gatti embarcar para Santarém, no Pará, ela começa a vistoriar o equipamento, animada com as possibilidades que ele trará para sua pesquisa. O amostrador de gases atual é a versão melhorada de outro aparelho que os cientistas usaram durante alguns anos e foi ferramenta importante para uma das pesquisas mais perturbadoras divulgadas sobre a Amazônia recentemente.

Há um ano, Gatti publicou na revista científica Nature um trabalho liderado por ela e feito em colaboração com dezoito colegas brasileiros e estrangeiros[1] que agitou as comunidades ambientalista e científica em todo o mundo, bem como a imprensa, ao revelar que partes da Amazônia estão perdendo sua capacidade de absorver gás carbônico. Por causa de ações humanas, como o desmatamento e as queimadas, combinadas com os efeitos das mudanças climáticas, algumas áreas da região hoje emitem mais CO2 do que o absorvem. Se essa situação não for revertida logo, a preocupação é que a floresta possa atingir o temível ponto em que perde suas características de proteção ao clima e se transforma em uma bomba a favor do aquecimento global.

Naquela terça-feira do início de maio, em São José dos Campos, Gatti estava prestes a embarcar em uma nova expedição pela Amazônia para incorporar mais elementos à análise sobre o impacto exercido pelos seres humanos na floresta. Ao mesmo tempo, preparava um novo artigo, a ser publicado nos próximos meses, com dados ainda mais preocupantes. No texto, ela vai revelar com números e gráficos que, durante o governo de Jair Bolsonaro, a situação da Amazônia piorou.

 

Manter a Amazônia – a maior floresta tropical do mundo – preservada é algo fundamental para garantir que a Terra não aqueça, em média, mais do que 1,5ºC na comparação com a temperatura média do planeta na era pré-industrial (antes de 1850). Essa é a meta do Acordo de Paris, que em 2015 quase todos os países do mundo se comprometeram a cumprir, reduzindo suas emissões de gases do efeito estufa para conter o aquecimento global.

A Amazônia tem pelo menos dois papéis nessa história, do ponto de vista global. Por um lado, suas árvores ajudam a retirar o gás carbônico que está em excesso na atmosfera. No processo de fotossíntese (a forma como as plantas se “alimentam”), elas absorvem o CO2 e o armazenam em suas folhas, troncos e raízes. Estima-se que a Floresta Amazônica consiga estocar até 120 bilhões de toneladas de carbono. No Relatório de Avaliação da Amazônia – a compilação mais abrangente de estudos científicos já feita sobre o bioma –, lançado no fim do ano passado pelo Painel Científico para a Amazônia, consta que, todo ano, a floresta sequestra mais de 1 bilhão de toneladas de CO2 da atmosfera.

Por outro lado, se a floresta é destruída, com desmatamento e queimadas, o carbono que ela absorveu e estava armazenado nas árvores acaba voltando para a atmosfera, piorando o cenário climático.

A devastação total da Amazônia seria uma tragédia, mas provavelmente não é preciso chegar a esse ponto para que haja um impacto importante no meio ambiente. Há algumas décadas, cientistas têm alertado que os ecossistemas florestais da região funcionam de maneira tão complexa e intrincada que, mesmo que somente parte da floresta seja perdida (em um porcentual ainda a ser definido), isso poderia desencadear tamanho empobrecimento na vegetação restante que faria a Amazônia perder várias das suas funções ecológicas – inclusive a capacidade de absorver bastante carbono.

É o chamado ponto de não retorno, ou tipping point.

O que o trabalho liderado por Gatti mostrou é que as partes da Amazônia que estão mais desmatadas – em especial o sudeste (em torno da cidade de Alta Floresta, em Mato Grosso) –, e compõem o chamado arco do desmatamento, podem já estar passando por esse processo. Lá, mais carbono tem sido lançado na atmosfera do que absorvido.

A capa da revista Nature, uma das mais conceituadas publicações científicas, destacou assim o estudo que Gatti e colegas publicaram em 15 de julho do ano passado: “Desequilíbrio climático: Desmatamento transforma parte da Amazônia de sumidouro em fonte de carbono.” O título não diz que “pode transformar”, levantando uma suspeita ou uma dúvida. É uma afirmação: já está acontecendo. Um artigo de opinião que acompanhou o estudo arrematou a preocupação. “Medições atmosféricas mostram que o desmatamento e o rápido aquecimento local reduziram ou eliminaram a capacidade da Floresta Amazônica oriental de absorver dióxido de carbono – com implicações preocupantes para o aquecimento global futuro”, escreveu Scott Denning, pesquisador do Departamento de Ciência Atmosférica da Universidade Estadual do Colorado, nos Estados Unidos.

O trabalho foi amplamente divulgado pela mídia internacional e nacional, em meio a informações de que a taxa de desmatamento da Amazônia em 2021 talvez tivesse um novo aumento. Quando os dados foram divulgados pelo Inpe, no fim do ano, confirmou-se que a perda da floresta entre agosto de 2020 e julho de 2021 havia sido a maior em quinze anos: mais de 13 mil km2.

 

Química de formação, Luciana Gatti não tinha planos de lidar com mudanças climáticas quando concluiu o doutorado e foi trabalhar no Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA, na sigla em inglês). Inaugurado havia pouco, o LBA reúne dezenas de cientistas de várias instituições brasileiras e estrangeiras para desvendar o funcionamento e a interação dos componentes do ecossistema amazônico – atmosfera, solos, rios, flora, fauna e humanos. “Teve uma série de grupos com estratégias diferentes, e um monte de torres foram construídas, com pessoas medindo o fluxo de gases que sai do solo, do rio, da árvore”, conta Gatti à piauí. “O LBA tinha duas perguntas principais. A primeira, se a Amazônia mais emite ou mais absorve gás carbônico. A segunda, se o que acontece lá afeta todo o planeta ou só a floresta, regionalmente.”

Gatti trabalhava fazendo medições de alguns gases e compostos orgânicos emitidos por plantas, e entrou em contato com um grupo da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa, na sigla em inglês), cujo laboratório é referência mundial na medição de gases do efeito estufa. Essa agência do governo norte-americano estava iniciando um projeto de medir o fluxo de carbono da Amazônia com a ajuda de um avião. O objetivo era coletar amostras em uma área maior e fazer uma análise mais ampla do que a dos estudos realizados no solo e até a copa das árvores.

Os pesquisadores da Noaa fizeram coletas entre 2000 e 2003, mas houve problemas na metodologia das medições e análises feitas nos Estados Unidos. Com isso, os resultados nem chegaram a ser publicados. Para dar continuidade aos trabalhos, surgiu a ideia de construir no Brasil uma réplica do laboratório da Noaa. “Eles precisavam de alguém para cuidar desse laboratório. E o ideal era que fosse um químico. Então, fui convidada”, diz Gatti. Na época, ela era pesquisadora do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), e o laboratório foi construído lá. Em parceria com os norte-americanos, a pesquisadora começou a coordenar as coletas na Amazônia a partir de 2004. “Eu topei o desafio e fui me apaixonando, porque adoro aprender coisa nova.”

Não é força de expressão. Era realmente um mundo novo para ela, sobre o qual teve que aprender tudo. Mas não foi a primeira vez que Gatti, hoje com 61 anos e mãe de dois filhos, se aventurou por caminhos diferentes. Natural de Birigui, no interior paulista, ela cresceu na cidade de Cafelândia e se mudou para São Carlos para fazer graduação em química na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Eu vim do interiorzão, mal sabia que a gente vivia uma ditadura, eu não via nada disso e caí naquela situação, ‘vixe maria’. Quando ingressei na faculdade tinha 22 estudantes presos, sendo torturados.” Ela decidiu entrar no movimento estudantil. Mas, ao perceber que devido à militância tinha escanteado os estudos, transferiu-se para a USP de Ribeirão Preto, cidade para onde sua família tinha se mudado. Concluiu a graduação lá e voltou a São Carlos, para fazer o mestrado em química analítica, no campus da USP na cidade, e depois o doutorado em química na UFSCar.

Começar os trabalhos de medição de gases na Amazônia foi até agora o seu maior desafio. “Eu não sabia nada do que sei hoje. Veja, sou química. E a cabeça do químico só pensa em reação química. Então, se, por exemplo, a concentração de CO2 aumentou, deve ter alguma reação acontecendo e produzindo na atmosfera aquele composto. E, se a concentração está diminuindo, alguma reação está consumindo aquilo. Só que não.”

Ela descobriu que vários outros fatores podiam alterar as medidas. “Foi estudando CO2 na Amazônia que aprendi sobre mudanças climáticas, entrando devagarzinho no assunto. Fui aprendendo meteorologia também. Trabalhar numa área interdisciplinar exige o conhecimento de várias ciências. Não é fácil ser um cientista ambiental. Um químico vai e quantifica. Mas o que significa essa concentração da atmosfera? Não basta medir apenas, sem interpretar. Então, comecei a estudar outras áreas.”

Até sobre eletrônica Gatti teve de aprender para poder operar o laboratório da Noaa que estava sendo instalado no Brasil. Era um maquinário tão complexo que poucos técnicos no país sabiam manipulá-lo. Em agosto de 2003, ela foi para a cidade de Boulder, no estado do Colorado, onde fica o laboratório de monitoramento global de gases da Noaa, para aprender a lidar com as ferramentas de coleta das amostras e montar o laboratório de análise de gases do efeito estufa. Ficou dois meses e fez um pós-doutorado curto enquanto estava lá. Ela conta que cada dia tinha uma tarefa diferente, como aprender a montar a caixinha de alumínio, um modelo de amostrador que seria usado nas coletas de avião na Amazônia. “Eu montei tudo. Até 2008, quem consertava era eu, com a ajuda de um técnico eletrônico para as coisas mais complicadas.” Em 2015, todo esse trabalhão teve de ser refeito, quando Gatti trocou o Ipen pelo Inpe e transportou o laboratório inteirinho (composto, entre outros equipamentos, por computadores, sensores e tanques de gases) do campus da USP, em São Paulo, para São José dos Campos, a 112 km de distância.

 

Depois que o trabalho de Gatti e seus colegas foi publicado na Nature, ela passou a dar várias entrevistas por dia e foi instada a se manifestar sobre uma gama de assuntos muito maior do que o de sua pesquisa. Por exemplo, sobre o futuro da Amazônia e as chances de sobrevivência da floresta. Em meio a muita explicação científica, ela não se furtou a dar algumas opiniões carregadas de emoção. E de aflição, até. “Eu sou cientista, mas também sou cidadã. E estou vendo a Amazônia ser destruída e as coisas irem para o lado errado”, justifica.

Gatti se expressa em negrito, como brincou uma colega jornalista ao ouvi-la se manifestar. Suas falas carregam um inconformismo – e até um tanto de desespero e pessimismo – que não é comum encontrar entre cientistas. Boa parte da indignação está voltada para a situação de desmonte das políticas ambientais do país. “Isso aqui está uma calamidade, e eu me sinto morando num hospício. Os especialistas nunca são escutados, mas sim as pessoas que têm ideias fixas completamente equivocadas. E o país inteiro vai indo para o buraco, porque quem tem ideia fixa não tem a sabedoria de consultar os que realmente conhecem o assunto”, diz. Ela está se referindo, é claro, ao comportamento de membros do governo Bolsonaro durante a pandemia e ao lidar com a Amazônia. “Isso me desespera muito. Tanto pelas vidas perdidas na pandemia quanto pela destruição tresloucada do meio ambiente. Nós estamos plantando a destruição do país. Você sabe o que um agricultor falou para mim uma vez? Aquilo me agrediu tanto que nunca esqueci. Ele disse que floresta é desperdício de terra. É essa turma que está representada no governo atual. É essa mentalidade.”

A reação de Gatti é reflexo dos quase vinte anos que ela passou observando os sinais dados pela Amazônia. A pesquisadora e seus colegas fizeram um primeiro alerta na mesma Nature, em um artigo publicado em 6 de fevereiro de 2014. O estudo foi o principal destaque da revista, que estampou na capa, em primeiro plano, a foto de uma castanheira e, ao fundo, um céu alaranjado, simbolizando a Amazônia, com o seguinte título: “Sumidouro ou fonte?”

O trabalho se apoiava em medidas de gases feitas nos anos 2010 e 2011, e a ferramenta de coleta era parecida com a adotada no estudo mais recente. Um avião fez sobrevoos a partir de quatro cidades: Santarém, no Pará, Alta Floresta, em Mato Grosso, Rio Branco, no Acre, e Tabatinga, no Amazonas – pontos que, por causa das correntes de ar, representam para os pesquisadores as regiões nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste da Amazônia, respectivamente. A aeronave alcançou até 4,5 km de altitude, onde foram iniciadas as coletas. Após chegar à altitude máxima, o avião começou a descer em espiral até cerca de 300 metros da superfície, realizando o que os pesquisadores chamam de perfil vertical da quantidade de gases. Depois, no laboratório, calculou-se a presença de gases, principalmente o CO2.

As análises mostraram que, no balanço geral de carbono, mais CO2 tinha sido emitido do que absorvido em 2010. Naquele ano, um forte El Niño – fenômeno climático que aquece as águas do Pacífico e provoca seca em várias partes do Brasil, inclusive na Amazônia – gerou muitos focos de queimadas na região. A pesquisa levantou a suspeita de que a capacidade da Amazônia de absorver gás carbônico estaria associada à quantidade de chuvas. Isso porque os pesquisadores compararam esses dados com os de 2011, que foi mais chuvoso, e o balanço, apesar de negativo, mostrou que as emissões de CO2 não tinham sido tão marcantes. Eles propuseram que, com o estresse hídrico provocado pela seca intensa, talvez as árvores fizessem menos fotossíntese.

Ainda havia dúvidas por parte dos autores sobre o resultado do estudo – tanto que a capa da revista trazia uma interrogação em seu título. Mesmo assim, ele chamou muita atenção. A preocupação era sobre o que os dados estariam projetando para o futuro: em um mundo que corre o risco de enfrentar secas cada vez mais intensas e outros eventos extremos, por causa do aquecimento global, talvez a Amazônia se converteria em uma fonte de carbono, mesmo que temporariamente, piorando ainda mais o clima.

Os pesquisadores continuaram os trabalhos, na expectativa de ter uma série histórica e uma melhor ideia da situação. Algo, porém, logo começou a preocupar Gatti. “O ano de 2011 foi mais chuvoso que 2010, com temperatura menor, mas ainda assim a Amazônia foi fonte de CO2, embora menor. A gente pensou que a floresta tivesse sofrido demais em 2010 e estava se recuperando no ano seguinte”, conta. Ela e sua equipe então calcularam as emissões de 2012, que se revelaram superiores às de 2011. “E teve 2013, um ano superchuvoso, quando continuamos a ver a Amazônia como fonte de CO2. Começamos a pensar se o método estava certo: ‘Cadê o sumidouro de carbono que não estamos vendo?’”

Os dados geravam desconfiança porque divergiam dos modelos mais aceitos até então, que colocavam a Amazônia como um importante sumidouro de CO2. A questão gerou conflitos até mesmo entre pessoas da equipe de Gatti, o que motivou um aprimoramento das análises. “Quem está na floresta medindo o CO2 a partir do chão [método conhecido como bottom-up, de baixo para cima] vê a absorção de carbono, vê a floresta crescer. Como nós medimos uma região gigante, não estamos vendo só o que acontece na floresta, mas a somatória de tudo. E, com essa somatória, vemos que faz uma década que a Amazônia é fonte de carbono”, diz ela.

Essa é uma questão importante. A coleta feita a partir de cima (top-down), com avião, reúne amostras que representam áreas muito grandes. Ou seja, as quantidades de gases amostradas podem não ser só da floresta, mas ter alguma influência das emissões urbanas e de locais onde predomina a agropecuária, por exemplo. Por isso, os pesquisadores tentaram delimitar bem os vários tipos de mudanças que estão ocorrendo nas quatro áreas estudadas para propor uma explicação ao que estaria causando mais ou menos emissões. E a maior correlação que observaram foi com o total desmatado em cada região analisada.

No estudo mais recente, publicado no ano passado, os pesquisadores constataram que entre 2010 e 2018 – o período analisado – a região nordeste da Amazônia (Santarém e entorno, no Pará) foi a que apresentou a maior emissão de CO2, seguida da sudeste (Alta Floresta e entorno, em Mato Grosso). As regiões sudoeste e noroeste (Rio Branco, no Acre, e Tabatinga, no Amazonas) eram mais neutras.

A correlação entre o desmatamento e a quantidade de emissão de gás carbônico ficou clara, pois as regiões nordeste e sudeste são, historicamente, as mais desmatadas. Os pesquisadores também analisaram a evolução da temperatura e das chuvas ao longo daqueles nove anos. Observaram que na região nordeste – que já perdeu 31% da cobertura original de floresta – houve uma redução de 34% nas chuvas no período seco (agosto, setembro e outubro) e um aumento de 1,9ºC na temperatura nessa mesma época. A região sudeste teve um desmatamento de 26%, uma queda de 24% nas chuvas nos meses de seca e um aumento de 2,5ºC na temperatura. “Uma coisa são as mudanças climáticas globais, e elas influenciam a região. Outra é o que está acontecendo na Amazônia, que é muito maior do que a mudança climática. Porque o desmatamento está mudando as condições de chuva e temperatura da floresta. A estação seca está cada vez mais seca, mais quente e mais longa. Esse é o impacto do desmatamento. Foi minha principal lição”, afirma a pesquisadora.

A conclusão veio de um longo processo de interpretação dos números. Porque outro dado destoava um pouco daquela relação direta de emissões com o tanto que foi desmatado. “Vamos fazer outro raciocínio. Dividindo a área que estudamos só em dois lados, Leste e Oeste da Amazônia, vemos que o Leste já foi, em média, 30% desmatado, e o Oeste, 11%. Por essa lógica, as emissões do lado Leste deveriam ser cerca de três vezes maiores do que a emissão do Oeste. Só que ela é dez vezes maior. Por quê?”

Foi uma dúvida que intrigou os pesquisadores. Gatti propõe que, possivelmente, não é só o desmatamento e as queimadas que estão causando emissão. A floresta que continua em pé ao lado de regiões já muito desmatadas pode estar tão enfraquecida pelas temperaturas mais altas e pelo aumento da estação seca que ela própria está perdendo a capacidade de absorver carbono. “O desmatamento provoca uma mudança na condição climática, e a floresta está se modificando em função disso. Está ficando mais inflamável. O desmatamento causa um dano direto, porque joga na atmosfera um monte de gás carbônico, que vai se somar ao tanto que já está lá e contribuir com as mudanças climáticas. Mas ele também causa um dano indireto, e é isso que não está nos modelos. Na região sudeste da Amazônia, a mortalidade das árvores supera o crescimento de novas árvores”, descreve Gatti.

Vale explicar o mecanismo dessas emissões provenientes do desmatamento. A maneira mais rápida é com as queimadas, claro, mas mesmo o que não foi queimado – o material que resta, como toco dos troncos, galhos, raízes – vai se decompondo lentamente ao longo dos anos e liberando aos poucos o carbono que estava armazenado ali. Além disso, a floresta remanescente também pode acabar pegando fogo com mais facilidade, porque já não está mais tão úmida e protegida.

É no sudeste da Amazônia que esse estresse da floresta ficou mais evidente para Gatti e sua equipe. Na análise de emissões de cada região, eles conseguiram medir quanto CO2 vinha diretamente das queimadas e quanto vinha da própria floresta. “A emissão do sudeste da Amazônia é basicamente pela perda da capacidade da floresta de absorver carbono. Porque a própria floresta virou uma fonte”, diz Gatti. “Nesses últimos cinco anos, a floresta emitiu tanto quanto as queimadas. Esse cenário é catastrófico. Talvez essa região sudeste já tenha passado do tipping point.

 

Em novembro do ano passado, Gatti foi convidada a participar de um debate online sobre o futuro da floresta, promovido pela Amazônia 2030 – uma iniciativa de pesquisadores brasileiros para criar um plano de desenvolvimento sustentável para a Amazônia – e pelo Brazil LAB, um centro multidisciplinar de estudos sobre o país na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. No evento também estavam o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador da MapBiomas, rede colaborativa que mapeia o desmatamento no país, e Stephen Pacala, pesquisador de Princeton que trabalha com simulações sobre o que aconteceria caso a Amazônia fosse toda perdida para a agropecuária. Em setembro, Pacala havia sido indicado para o Conselho de Assessores de Ciência e Tecnologia do presidente Joe Biden.

Com seu jeito meio teatral, gesticulando bastante e entremeando os dados com expressões indignadas (como “É um pesadelo, é horrível”), Gatti expôs toda a ciência que ela desenvolveu na apresentação. As informações causaram impacto em Pacala. O pesquisador, que tinha dúvidas sobre a possibilidade de a Amazônia chegar ao tipping point, disse que os dados de Gatti e de Azevedo eram perturbadores. “O trabalho de Luciana e de outros reafirmam muitos dos mecanismos e fenômenos que sempre nos preocuparam a respeito da Amazônia e seu tipping point. Como ecólogo, isso é uma das coisas que me tiram o sono”, afirma Pacala. “Você desmata, causa uma mudança climática local, alterando o tipo de vegetação para gramíneas, que também são mais inflamáveis. Assim, as mudanças climáticas e as alterações locais fazem tudo ficar mais inflamável, o que causa uma perda florestal adicional. Em determinado momento, não dá mais para recuperar.”

Ele lembrou que a maior parte dos modelos climáticos não previa o colapso da Amazônia. Mas novos modelos indicam que isso já pode ter começado e que vai se acelerar a partir de 2040, se o cenário atual de altas emissões de gases do efeito estufa e mudanças climáticas continuar associado com o desmatamento elevado. “As notícias agora, no front científico, são em geral sombrias, a não ser que a gente promova ações de fato significativas. Isso é particularmente pungente para o Brasil. Porque o tipping point da Amazônia é uma das únicas coisas que eu imagino serem capazes de impedir que o Brasil se torne uma das mais fortes economias do mundo. É uma coisa perigosa para o país e também para o mundo”, alerta Pacala.

 

A hipótese de que o desmatamento da Amazônia, combinado com as mudanças climáticas, poderia levar a um ponto de transformação dramática da floresta começou a ser aventada nos anos 1990. Um dos principais pesquisadores que se dedicaram ao assunto foi o climatologista Carlos Nobre, que Gatti considera seu “ídolo”. O pesquisador paulistano, de 71 anos, atuou longo tempo no Inpe e é uma das principais referências sobre a Amazônia e o clima no Brasil. Em maio passado, foi o primeiro cientista brasileiro eleito membro da Royal Society, a academia de ciências mais antiga do mundo ainda em atividade.

Em seus estudos, Nobre defendeu que, a partir de certa quantidade X de desmatamento, que ele calculou ser em torno de 30%, a floresta tropical poderia começar a sofrer um processo de savanização – um conceito polêmico, que não foi amplamente aceito na academia, apesar de ter se tornado de uso comum entre quem trabalha com a Amazônia.

Gatti diz que, ao se dar conta do que revelavam os dados de sua pesquisa, lembrou-se imediatamente do climatologista e marcou uma reunião. “Fui mostrar os nossos resultados, e ele ficou impressionado. Então começamos a conversar, a combinar, e o Carlos Nobre acabou virando coautor do artigo”, conta. “O que estamos assistindo hoje é o que ele previa ocorrer só lá na frente.”

Nobre disse à piauí que se sentiu “vingado, com tristeza”, ao ver os resultados do estudo de Gatti e seu grupo. “O que era minha preocupação deixou de ser uma hipótese. Estamos vendo acontecer. Há um aumento de mortalidade de árvores, e algumas partes estão emitindo carbono. A estação seca está cinco semanas mais longa do que na década de 1980. O envelope climático está mudando. Estamos na véspera do ponto de não retorno. Não é mais para o futuro.”

Ele mesmo diz que não usa mais o termo “savanização” por ter entendido que, nesse processo de empobrecimento, a Amazônia não vai se transformar em algo como o Cerrado – chamado de savana brasileira. “Não vai virar uma savana com a biodiversidade e o tanto de carbono armazenado no solo como tem no Cerrado. A degradação da Amazônia que calculamos pode levar a um ecossistema degradado, com cara de savana, mas poucas árvores. Hoje eu chamo o ecossistema degradado de ‘dossel aberto’”, explicou. Pelos seus cálculos, e também os de Pacala e outros cientistas, se esse ponto de não retorno for ultrapassado e a Amazônia perder sua capacidade de absorver carbono, pode se tornar impossível atingir as metas firmadas no Acordo de Paris para conter o aumento da temperatura. “Se não conseguirmos reverter a situação, o aumento da temperatura do planeta vai passar de 2ºC”, afirmou Nobre. Ele estima que, atravessado o tipping point, o processo de empobrecimento poderia atingir entre 60% e 70% da floresta. “Só sobrariam de 30% a 40%, e mais na porção Oeste, onde é muito úmido.”

Nobre, assim como Gatti, faz questão de frisar que não acredita que a Amazônia como um todo já tenha chegado ao tipping point – condição que não ocorre de uma hora para outra, nem é fácil de identificar. “Acho que estamos à beira disso, não estou falando que já passamos”, disse ele. Mas o climatologista reforça que é preciso agir imediatamente. Nas recomendações do relatório lançado no ano passado pelo Painel Científico para a Amazônia, do qual Nobre é copresidente, a principal mensagem foi sobre a necessidade de zerar logo o desmatamento em toda a Amazônia e iniciar grandes projetos de restauração. “Parar de desmatar e restaurar o Sul da Amazônia poderia zerar esse processo e fazer a floresta voltar a funcionar ali. A restauração diminui a temperatura, o solo fica mais úmido. Isso vai jogar mais umidade na atmosfera, vai aumentar a chuva na estação seca, o que pode ajudar a recuperar a parte que está degradada”, explicou Nobre. “Tem de ser uma restauração em grande escala no Sul da Amazônia. Eu tenho chamado isso de reverter o arco do desmatamento para um arco de reflorestamento.”

Gatti ecoa o mestre: “Será que, se parássemos de desmatar e queimar, e fizéssemos um monte de projetos de restauração florestal nessa região, não conseguiríamos reverter o cenário? Talvez sim. Nós não estamos em condição de dizer que não. O que nós não podemos é não tentar fazer alguma coisa”, disse a química, buscando trazer uma perspectiva um pouco mais otimista para um quadro que, em geral, ela traça em tom bastante apreensivo.

 

A forma dramática como Gatti se manifestou sobre os resultados de seu estudo chegou a ser criticada por alguns pesquisadores e ambientalistas. Eles acharam que ela transmitia uma visão pessimista, como se a situação já estivesse perdida, o que levaria as pessoas a se perguntarem: “Se a floresta virou fonte de carbono, por que continuar preservando?” Gatti correu para dizer que não, pelo contrário: ela quis fazer um alerta para que se tomem providências o quanto antes e o processo destrutivo seja interrompido.

Para os que estão lá na outra ponta das pesquisas sobre a Amazônia, trabalhando na recuperação da floresta, o chacoalhão de Gatti foi inspirador. “Ela conseguiu quantificar, materializar de uma forma muito contundente que não se trata mais de uma possibilidade em um futuro não determinado. Mesmo com todas as incertezas envolvidas, é um alerta para o momento que a gente está vivendo”, diz o pesquisador Bernardo Strassburg, diretor executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade (iis) e uma das referências mundiais em restauração florestal. Ele desenvolveu uma ferramenta que identifica áreas prioritárias para a restauração, a fim de tornar os projetos mais eficientes em termos de proteção à biodiversidade e captura de carbono, além de economicamente viáveis.

A ideia de Strassburg é que a “Amazônia pode salvar a própria Amazônia”. Ele calculou, com a colaboração de outros cientistas, que com a restauração de apenas 10% da área degradada da Amazônia – o equivalente a cerca de 5,7 milhões de hectares –, e desde que se leve em conta os pontos prioritários, seria possível retirar 2,6 bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera (que é aproximadamente o que o Brasil emite por ano) e gerar uma receita de até 132 bilhões de reais com créditos de carbono. “A ideia não é substituir a conservação. A medida mais importante a ser tomada ainda é conter o desmatamento. Mas, enquanto tentamos fazer progresso nessa frente, há áreas enormes, hoje ocupadas por pecuária de baixíssima produtividade, que podem ser restauradas no meio-tempo”, explica Strassburg.

Ele diz que o país está trocando a floresta por um deserto, “ainda que com uma gramínea por cima, que traz benefícios limitadíssimos do ponto de vista econômico, numa visão muito míope e curto-prazista”. A restauração da floresta, segundo Strassburg, é muito mais interessante para a economia brasileira no longo prazo. “Podem ser restauradas áreas gigantescas no arco do desmatamento que correspondem a vários países europeus. Se essas áreas voltarem a ter floresta, há uma capacidade bem grande de mitigação das mudanças climáticas, com a remoção de CO2 da atmosfera”, diz. “A gente vai ter de fazer isso, mesmo parando o desmatamento, porque o planeta já está no rumo de aquecer mais de 2ºC. E hoje não existe maquininha melhor para sequestrar CO2 do que as árvores, principalmente na Amazônia.”

Nos últimos três anos, contudo, as máquinas que avançaram na floresta foram as motosserras, num ritmo que não se via desde meados dos anos 2000. Os números oficiais de desmatamento registrados pelo Inpe mostram que, nos primeiros três anos do governo Bolsonaro, a Amazônia perdeu cerca de 34 mil km2 – área um pouco maior do que a Bélgica. Para comparação, os três anos anteriores à posse do presidente somaram juntos pouco mais de 22 mil km2 – uma média anual de cerca de 7,5 mil km2. No atual governo, essa média foi superior a 11 mil km2, sendo que a taxa do ano passado foi a mais alta desde 2006. Como era de se esperar, tudo isso abalou ainda mais a capacidade da Amazônia de absorver carbono.

Gatti e seus colegas ainda estão concluindo um novo artigo científico que vai mostrar o balanço de carbono da floresta em 2019 e 2020, mas ela adianta: “A notícia é terrível. A Amazônia piorou.” Principalmente por causa das queimadas de 2019.

 

Luciana Gatti tenta se manter otimista, mas não consegue represar o inconformismo. “É muito difícil ser uma cientista da área de mudanças climáticas hoje, por causa da consciência de que estamos plantando a nossa própria destruição”, diz, com a voz embargada. “Isso me dá uma tristeza muito grande e me faz sentir isolada. É um peso carregar esse nível de consciência. É difícil saber que no futuro tem muita dor.”

Em 2021, quando esteve na Floresta Nacional do Tapajós – nas proximidades de Santarém, onde realizou boa parte de suas pesquisas –, Gatti postou uma foto no Twitter ao lado de uma samaúma, a gigantesca árvore amazônica capaz de chegar até 70 metros de altura. “O que eu disse lá foi o seguinte: eu sou natureza, todos somos natureza, e quem destrói a natureza está se desumanizando, se autodestruindo. É um resumo do que eu penso sobre a vida e o mundo.”

Ela conta que na primeira vez que foi à Amazônia, no início dos anos 2000, coletou várias sementes. “Tem árvores da Amazônia cuja semente está dentro de uma carapaça e, se não tiver um bichinho roedor para abrir a carapaça, aquela planta irá se extinguir.” Vidrada com as sementes, Gatti levou várias para sua casa em São José dos Campos. Cuidou bem das sementes, regando-as com frequência, mas nenhuma germinou. “Quando voltei à Amazônia, no ano seguinte, me deparei até com uma semente brotando em teia de aranha. Entendeu? Aquele ecossistema é extremamente complexo. Tem aquela umidade, aquelas folhas mortas sobre aquele solo, com aqueles microrganismos e aquela condição de sombra. É assim que tudo sobrevive ali. Se você tirar de lá, não tem vida.”


[1] Os coautores do estudo são Luana Basso, John Miller, Manuel Gloor, Lucas Gatti Domingues, Henrique Cassol, Graciela Tejada, Luiz Aragão, Carlos Nobre, Wouter Peters, Luciano Marani, Egidio Arai, Alber Sanches, Sergio Corrêa, Liana Anderson, Celso von Randow, Caio Correia, Stephane Crispim e Raiane Neves.