esquina

Na cola de quem cola

A apoteose da tecnologia e o adeus aos estudos

Cristina Tardáguila
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Parado na porta da escola, usando jeans e camiseta azul, Danilo Galvão checou o reloginho do celular quatro vezes em menos de dez minutos. Eram 6h50 de uma manhã de dezembro e ele estava impaciente. Seu amigo Eduardo Vasconcelos ainda não tinha cruzado os portões do Colégio pH, no Rio de Janeiro, e, se atrasasse mais um pouco, correria o risco de perder a prova. Risco retórico, é bem verdade. Risco real quem corria era Danilo, cuja aflição nada tinha a ver com o zero iminente do amigo Dudu. Danilo se assustava mesmo era com a eventualidade de não ter de quem colar.

Numa roda de bar no Leblon, Dudu, hoje calouro de engenharia, relembra a cena. “Fui fazer aquelas provas só pra ajudar os amigos. Já tinha nota pra passar de ano.” Ele é magro, alto, tem nariz fino e olheiras fundas. Fala pouco e baixo. Na escola, mantinha média 10 em matemática. Seu amigo Danilo é tagarela e risonho. Mantém uma vida noturna tão intensa que nunca conseguiu tirar uma nota acima de 6. Entre rodadas de chope gelado – chope é uma das raras coisas que definitivamente os une –, eles toparam reconstituir com detalhes aquela manhã de dezembro.

Às 7 horas, ouviram o sinal que dava início à prova. Os monitores mandaram desligar os celulares. Todos os aparelhos deveriam ser guardados na mochila. Dudu não prestou atenção, já resolvia a primeira pergunta de física. Danilo, por sua vez, ouviu as instruções de braços cruzados. Não estava mais aflito. Confiava no amigo e, sobretudo, no Nokia 1100 que encaixara entre as pernas, ativado na função vibracall.

Quarenta e cinco minutos depois, quando Dudu entregou o exame e deixou a sala de aula, Danilo estalou os dedos: “Hora de começar”. Aproveitou que os fiscais atendiam uma aluna com dúvidas e tirou o telefone do meio das pernas. Apertou o botão de discagem rápida e cruzou os braços por cima da cabeça, como quem se alonga para dar uma diminuída na tensão. O Nokia foi parar entre a orelha e o ombro.



Nessa hora, no pátio do colégio, Dudu atendeu a chamada ao primeiro toque. “Vai, Danilo, decora aí! Quê é igual a eme cê delta tê! Usa isso na número um”, sussurrou. “O resto vai por torpedo já, já.” Na outra ponta, Danilo parava de se alongar e, olímpico, escrevia: Q = MC T. Tudo ia muitíssimo bem, até que ele viu um terceiro monitor entrar na sala. “Driblar três é coisa de mestre”, pensou imediatamente, entre ansioso e exultante, como um alpinista aos pés do Everest. Dali a pouco, começou a sentir na parte interna da coxa os torpedos de Dudu. Uma hora depois, entregava a prova de física completa e revisada. Havia alcançado o topo da montanha.

“Ele não só conseguiu ler tudo, como chegou a discutir a cola comigo por torpedo!”, admira-se Dudu, o sábio, alterando pela primeira vez o tom de voz. “É que a cola não tinha ficado clara”, retruca Danilo, lançando languidamente a mão em direção a mais uma batata frita, “os resultados não estavam batendo.”

 

Danilos e Dudus proliferam no ensino brasileiro. Na Universidade do Vale do Paraíba, no campus de Jacareí (SP), Carlos Fernandes Filho e sete colegas do curso técnico de química usaram casacos de moleton para camuflar os respectivos celulares. Tinham pela frente vinte questões de múltipla escolha, correspondentes a cinco matérias diferentes. Ninguém ali roía as unhas. Adotando o regime de mutirão, haviam distribuído as questões em blocos de cinco.

Carlos ficou com a química. Sentou-se longe dos amigos – “Quem cola bem não precisa ficar perto” – e, em menos de uma hora, concluiu as cinco questões sob sua responsabilidade. Aí, em procedimento de espião furtivo, deu uma olhada para os lados. Vendo que o professor estava longe, movimentou o braço. O celular, um Motorola V3, deslizou para a palma de sua mão. Apenas com a ponta do telefone fora da manga, Carlos fotografou o gabarito. Em seguida, apertou um botão na lateral e pronto: as respostas migraram do papel para a memória do seu aparelho e, dali, para o dos colegas. Minutos depois, começou a sentir as vibrações. Eram as fotos do gabarito das outras seções da prova. “É muito melhor que torpedo. Numa única foto você vê várias respostas e só precisa de um ou dois cliques pra acessar”, Carlos explica, com precisão de estrategista militar.

Se telefonemas, torpedos e fotos já são técnicas manjadas pelas escolas mais antenadas, o bluetooth ainda faz parte das novidades subversivas. Para quem souber esconder um fone sem fio no cabelo ou no capuz, a guerra estará praticamente ganha. Em março, em Ribeirão Preto, a oitava série do Colégio Brasil fez prova de geografia. Ao receber o exame, Pedro Coelho Filho constatou que precisaria recorrer mais uma vez ao seu Sony Ericsson W810i. Tirou o aparelho do bolso da calça, apertou duas teclas e descobriu que outros dezessete colegas também tinham bluetooths ativados. Eram dezoito aparelhos na mesma sintonia. Pediu socorro e, até terminar o teste, foi trocando preciosíssimas informações com os amigos. Ninguém notou.

O carioca Pablo Montenegro, aluno da Universidade Estácio de Sá de Cabo Frio, também não foi flagrado. Sua estratégia consistiu em fazer a prova de teoria geral dos sistemas com um mp3 player no ouvido. No lugar da música relaxante que o professor supôs que ele escutava, havia cola. Um resumo gravado em áudio e transferido do computador para o mp3 na véspera.

Diante da onda da cola tecnológica, praga que hoje corrói concursos públicos e provas em geral, resta aos colégios tentar erguer contrabarreiras. O Bandeirantes, de São Paulo, aposta no seu Programa de Gestão Escolar (Progesc), que registra até a hora em que o aluno vai ao banheiro. “Se alguém for muitas vezes, chamamos para um papo”, diz o diretor de tecnologia aplicada à educação, Sérgio Boggio, um engenheiro de 60 anos. Quem tira uma nota muito alta depois de uma seqüência de notas baixas passa a ser observado. “O aluno pode ter estudado, é claro, mas ficamos de olho sempre que o desvio padrão passa de 0,8”, explica Boggio, que há 25 anos se dedica ao aperfeiçoamento do Progesc com o amor que um pai dedica ao filho.

No Rio de Janeiro, quem chega à filial do Colégio Ícaro no Recreio dos Bandeirantes dá de cara com o aviso: “Sorria. Você está sendo filmado”. Sorria bastante, porque as filmagens são muitas e acontecem por toda parte. Desde 2004, o Ícaro convive com dezesseis câmeras apontadas para a entrada, a secretaria, o pátio, os corredores e as salas de aula. Na diretoria, uma televisão transmite as imagens a intervalos de 10 segundos. “É o Big Brother da vida acadêmica”, brinca uma secretária.

“Um dia, eu estava aqui e vi na TV um aluno se virando para trás durante uma prova, lá na filial de Jacarepaguá. Peguei o carro e fui voando. ‘Bom dia. Sou Marcelo Barreto, coordenador pedagógico da escola.'” Presume-se que o sacripanta tenha ficado verde ao ser interpelado. Barreto, de 27 anos, tem controle quase absoluto sobre o que acontece em seus domínios. Da escola ou de casa, ele acessa as imagens pela internet e vê o que deseja, a qualquer hora do dia. “É a prova definitiva para o aluno que nega ter colado e para aqueles pais que não acreditam na gente e vêm contestar a punição aplicada.”

 

No Orkut, as comunidades “Já colei na prova” e “A arte de colar”, as duas maiores sobre o assunto, têm mais de 300 mil filiados. Já as comunidades “Não sei colar” e “Eu nunca colei numa prova” não chegam a 40 mil. Nas primeiras, há um link para a “Casa da Cola”. Desde 1997, o site já vendeu mais de 300 CDs (31,99 reais a unidade) com programas que “facilitam a vida” dos alunos que fazem provas com calculadoras HP. Por 2,99 reais, compra-se uma caneta chinesa cuja tinta só é vista sob a luz negra projetada por uma de suas extremidades. Outro recurso é o toque de celular que viaja a 17 KHz e, em teoria, escapa inteiramente a ouvidos com mais de 29 anos de idade. Basta uma investigação superficial para concluir que os velhos papeizinhos com fórmulas escritas a lápis tendem a desaparecer dos estojos escolares. “Digite seu resumo no Word. Use fonte Arial, tamanho 6. Configure a página para duas colunas. Imprima numa transparência (impressora a tinta, porque a laser queima o papel), corte e coloque a transparência entre a prova e a mesa. É infalível”, garante mais um ladino na internet.

Danilo e Dudu nunca tinham ouvido falar nessas comunidades. Ficaram de queixo caído. Não se apurou se sacaram um caderninho e começaram a anotar.

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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