ficção

Não me deixe dormir o profundo do sono

Se a mocinha e a tetravó não cuidassem uma da outra, quem cuidaria?

Elas: “Izorinha passou a vigiar o sono da tetravó sem que ela percebesse. E, assim, mais um elo foi construído entre as duas, que passaram a cumprir um ritual de afeto e desespero”
Elas: “Izorinha passou a vigiar o sono da tetravó sem que ela percebesse. E, assim, mais um elo foi construído entre as duas, que passaram a cumprir um ritual de afeto e desespero” ILUSTRAÇÃO: LINOCA SOUZA_2020

Quando a mulher, a velha Sá Izora, titubeou ao levantar da cama e olhou de soslaio para a mais nova, respirou aliviada. Sorte, muita sorte, pois a outra não tinha percebido nada do cambalear da anciã. Um sono jovem deixava a moça em estado de quase desmaio. Apesar da distância, Sá Izora, por intuição, sentia o leve resfolegar da mocinha. A velha caminhou então, passos sem pressa, em direção à cama da outra. Ligeireza, Sá Izora já não podia. Mesmo se pudesse, a extensão do quarto em que dormiam as duas não permitia largas passadas. E como se estivesse atravessando o tempo de um século, acrescido de nove anos, Sá Izora, dona dessa idade, atingiu o outro canto do cômodo. Envergou um pouco, mais do que o corpo já era, e vigiou a respiração de sua tetraneta. Izorinha dormia, como se o amanhecer estivesse ainda guardado na madrugada.

– Izorinha, Izorinha – murmurou a velha.

O chamado era tão baixinho que mais parecia cantiga de ninar do que a intenção de acordar alguém. Com gestos lentos, dificultados pela dormência que desde o ano anterior fazia cosquinha por todo o braço dela, a velha desenhou no ar, três vezes, uma cruz sobre o corpo da mocinha. Em seguida, mais extenuada ainda, cuidou de ajeitar as pontas do cobertor da moça, que escorriam pelo chão. Afatigada, mas tomada por grande alívio, se regozijou intimamente. Conseguira realizar o sinal da cruz três vezes. O primeiro em cima da cabeça. O segundo na altura do coração. O terceiro na direção dos pés da mocinha. Pronto! Sexta-feira, e estava fechado o corpo de Izorinha para os ataques do mundo. Mais um dia havia rompido no céu e lá estava ela cumprindo a função de proteger a sua tetraneta.

Sá Izora, rezadeira que era, continuou as orações com os olhos pregados na menina. Havia orações que ela dizia em quase silêncio. Outras, o seu corpo cansado cantava, insinuando leves movimentos. Durante essas invocações de palavras cantadas e gestos, quando estava acordada, Izorinha dançava no ritmo de Sá Izora. Era tudo muito bonito, e a sensação que se experimentava era de que os Deuses e as Deusas ali invocados se faziam presentes.



Quem é de muita fé tem várias. Assim era a Velha Izora. Tinha tantas, desde menina. Aprendera todas com quem viera, antes de ela nascer, para essas terras. Por isso, búzios, rosários, velas, ramos, sementes, conchas, cuias… Tudo de pertença dela. Tudo colocado com cuidado e reverenciado na mesinha que ficava entre a cama dela e a de Izorinha.

Era preciso pedir proteção para a mocinha. As súplicas naqueles dias se intensificaram aos pés de Santana. Lá fora um adoecimento podia contaminar mortalmente a vida de qualquer um. Antes, Sá Izora pedia à Santa Velha que cuidasse dela própria, Izora, e das pessoas de largos tempos vividos. Ouvira dizer que a moléstia gostava de arquejar corpos feito o dela. Soubera que, em menos de um mês, quinze pessoas próximas, aprofundadas de um tempo centenário ou quase, tinham ido morar na habitação eterna. Algumas nem pelos hospitais passaram. O ar faltante e a violenta sufocação minguavam rapidamente a pessoa invadida pelo vírus. Muito desenlace da vida acontecia em casa ou rumo aos locais que deveriam ser o ponto de salvação. Pessoas adoecidas que conseguiam chegar aos hospitais lá recebiam a sentença fatal. Não havia vagas para acolher tantos enfermos. As enfermarias, os quartos, partes dos corredores com camas improvisadas, tudo estava a não caber ninguém. E ainda havia o sofrimento de quem trabalhava cuidando dos doentes. Muitos adoeciam e morriam também do mesmo padecimento.

Nesses dias de sentença de morte, por causa do maldito vírus e de outras causas advindas dele, a fé das pessoas ficou descoberta. E até quem não tinha nenhuma crença inventou uma no escondidinho do medo. Só a medicina não bastava. A urgência da vida estava sendo atacada pela ligeireza da morte. “Só Deus na causa”, repetiam muitos, e cada um sabia a qual Deus estava se referindo. Mas alguns criam que não necessitavam de Deus nenhum. Não sei bem por qual razão, muitos desses chegavam aos bons hospitais, aos aparelhamentos de primeira, às atenções especializadas. Para essas pessoas, parece que o milagre acontecia sem a intervenção divina. Para outras, não. Por mais que médicas e médicos se dedicassem, e o pessoal de apoio se desdobrasse em mil, a vida de muitos, de milhares, falhava. Nenhuma maravilha sobrenatural acontecia para suprir a escassez de material e ambulâncias. Vagas nos hospitais não podiam ser multiplicadas como o pão e o vinho abençoados por Cristo. Mesmo assim, a fé, mais do que nunca, se tornava necessária, e as preces de todos os credos se fizeram necessárias também.

As rogações de Sá Izora encompridaram, então. Todos os dias, com tamanha fé, pedia à Santa Velha que cuidasse dela, de sua família, de seu bairro, de sua cidade, de seu país. E, se a Santa não se incomodasse com o tamanho do pedido, que cuidasse do mundo inteiro, pois a Terra todinha estava adoecida.

Sá Izora sabia que podia esperar pelo socorro de Santana. Havia muito ela acreditava na Santa Velha. Ouvira falar de Santana como se fosse uma história familiar, e era. Era tão familiar a narrativa sobre a Santa Velha que Sá Izora a contara para Izorinha. A menina crescia, e a fé dela em Santana também. Tudo porque, em tempos passados, quando Sá Izora era bem pequena, se contava a história de uma parenta sua que, já beirando os 50 anos, não conseguia engravidar. Ter filhos era o grande desejo da mulher, que se chamava Ijabo. Anos e anos Ijabo passou tomando garrafadas, que se transformavam em lágrimas junto ao indesejado sangue vertido por ela todos os meses. O rosto e o ventre da mulher já começavam a resguardar as marcas do tempo e, no útero, nenhuma movimentação de algum rebento. Até que o significado de seu nome, Ijabo, “um desejo que se cumpriu”, se efetivou em seu corpo e sua vida. A mulher engravidou. Pariu sete crianças de uma vez só, para a sua alegria e a de seu companheiro. Ijabo reconheceu que forças femininas tinham se cumpliciado com ela na realização de seus desejos. Por isso, era grata à Senhora, aquela que protege o ventre das mulheres, fé adquirida por Ijabo da religião ancestral de seu povo. E guardava também gratidão a Santana, a santa de quem, um dia, ela ouvira o padre da fazenda falar. A Santa Velha dos católicos, que tinha sido mãe quando ninguém mais acreditava na fertilização do seu corpo, nem ela.

 

Sá Izora, fiel na crença de tantos mistérios, sabia que a ciência também é feita de perguntas, perguntas, perguntas… O caminho para as respostas é cheio de experimentações, tropeços e enganos. Por isso, quando o mundo se acha perdido entre mortes, a garantia para a vida, além de tratamentos e remédios, precisa também da fé. Então, Sá Izora, fervorosa que era, mais e mais se agarrou ao auxílio que Santana poderia lhe dar. Ela sabia que a Santa Velha, tida por infecunda, vivera a solidão da esterilidade ao lado do esposo, também velho, São Joaquim. Mas eis que um dia o corpo de Santana se tornou merecedor de um milagre. Depois de velha, aconteceu no corpo dela a concepção. Maria, a Mãe do Salvador, veio do ventre envelhecido de Santana. E assim a Santa Velha se tornou Vó do Menino Jesus. Agradecida ao milagre que aconteceu em seu corpo, Santana retribui a graça recebida, milagrando o corpo de quem nela deposita fé.

O coração de Sá Izora, alimentado por uma crença múltipla, seguia respondendo ao apelo da vida. E os familiares seguiam sempre atentos a qualquer reclamação da velha. Parece que pretendiam fazer de Sá Izora uma pessoa eterna. A preocupação, os cuidados de todos tinham redobrado. Na família, havia mais pessoas velhas, mas com Sá Izora o zelo tinha de ser especial. Ela era a velha das velhas. Para enfrentar o perigo iminente, uma espécie de geografia de cautelas foi traçada. Tia Paulina ficaria aos cuidados do filho mais velho. Prima Vantuili escolhera ficar com a sua prima Aparecida. Tia Lionora continuava com o seu companheiro velhinho, Tio João. E os homens adultos da família seriam os encarregados de fazer as compras para as mais velhas. Alguns, nas primeiras compras, se atrapalharam, mas, na segunda vez, orgulhosamente deram conta do recado. E assim seguia o roteiro de cuidados e afetos da família. Sá Izora ficaria com Izorinha, que acompanhava a tetravó desde o nascimento.

Izorinha, quando nasceu, a mãe dela tinha 16 anos. O rapazinho, pai, tinha a mesma insuficiente idade para assumir um filho. Sá Izora já havia assistido às suas filhas parirem. E às filhas de suas filhas também. Com Izorinha, ela assistia ao nascimento da filha de sua bisneta. Enquanto na família havia falas de tom lamentoso, porque Temba Maria, sua bisneta, tinha parido aos 16 anos, Sá Izora celebrava a vida que persistia nela, permitindo que ela conhecesse uma tetraneta. Quem criou Izorinha foi Sá Izora, uma vez que a mãe de Izorinha trabalhava e estudava, e a avó de Izorinha faleceu pouco tempo depois de a neta nascer. Em meio à dor guardada de Sá Izora por ter perdido uma neta, a tetraneta, Izorinha, chegou aliviando o luto. E foi tanta a alegria de Sá Izora por ter assumido os cuidados com a tetraneta, tanto foi o júbilo que, mesmo depois dos 90, ela deu para rejuvenescer. Sá Izora remoçou a olhos vistos. E avisava em alto e bom-tom que iria viver muito ainda. Iria acompanhar o crescimento de Izorinha, e assim o tempo deixava acontecer.

Tudo corria bem com Sá Izora. Coração, rins, intestinos, audição, olfato, visão. Tudo corria bem, por dentro e por fora. Os cabelos, dependendo do lugar em que ela estivesse ao sol, não se sabiam brancos ou reluzentes à prata. A voz um pouco rouca, só um pouquinho, entoava canções antigas que pareciam buscar o passado para fazê-lo presente. E Izorinha seguia os passos da tetravó. Cantava tão bem! E como brincavam juntas! Charadas, anedotas, trava-línguas… As duas tinham a língua solta. Só um detalhe apontava a velhice da velha: sua locomoção lenta, tartaruguenta, de fazer dó, como dizia Izorinha. A essa provocação, Sá Izora respondia que era lenta na velhice porque, em tempos idos, já tinha corrido muito da perseguição de moços bonitos e na perseguição deles também. E as duas riam, como se o mundo fosse tão somente uma gozação.

E o mundo continuava, para as duas e para o entorno delas, sem muito sobressalto. Izorinha fazia companhia para Sá Izora, estudando, aprendendo os serviços de casa, tendo tempo para as brincadeiras e saídas com jovens vizinhos e da escola. A família, que morava bem próximo, vinha para a casa de Sá Izora nos fins de semana. Izorinha gostava do extenso clã familiar e dos agregados. Juntos, toda gente brincava, brigava, se alegrava e se entristecia. Os mortos de uma casa eram de todos, e os nascituros também.

O futuro era sonhado como uma página da vida que seria acessada, com certeza. Na intimidade das duas, nenhuma dificuldade. A velha tinha saúde e a jovem também, apesar de uma infância debilitada. Quando pequena, Izorinha sofria de asma, mas, depois de vários tratamentos, o seu respirar acalmou. Coração e pulmão viviam em paz. Entretanto, Sá Izora nunca esqueceu o cansaço de Izorinha em crise. O respirar ofegante. O movimento do peito abaixando-levantando, abaixando-levantando, como se fosse rasgar a blusinha da menina. E depois, quando a respiração acalmava, a preocupação de Sá Izora não sossegava. Era outro o temor. Uma ameaça surgia nos dias de calmaria no peito e no sono de Izorinha. O sono da menina parecia traiçoeiro. Era tão tranquilo que se assemelhava a um desmaio. Era como se Izorinha tivesse adentrado o profundo do sono.

 

Atormentada com os modos de adormecimento da menina, Sá Izora tantas vezes acordou Izorinha que, um dia, teve de lhe dar uma explicação. A menina tinha nessa ocasião uns 10 anos. Quando ouviu a explicação, Izorinha sorriu da preocupação da tetravó Sá Izora. Mas incorporou o temor de adentrar o profundo do sono. E por um momento pensou se, no profundo do sono, dorme o não acordar mais, um perigo para Sá Izora. Ela, tão velhinha, poderia entrar mansamente, numa noite qualquer, no profundo do sono. Desde aquele dia, Izorinha passou a vigiar o sono da tetravó sem que ela percebesse. E, assim, mais um elo foi construído entre as duas, que passaram a cumprir um ritual de afeto e desespero. Todas as noites, mutuamente, uma velava o sono da outra.

Com os olhos vigilantes na tetraneta, Sá Izora sentiu algo como um calafrio e foi atravessada por um leve tremor. Izorinha dormia, e sua respiração era apenas pressentida. Sá Izora se lembrou do combinado entre as duas logo que tiveram notícias de que uma doença estava devastando a cidade. Ficariam juntas como sempre.

Incomodada com o longo dormir da mocinha, Sá Izora não sabia como proceder. Finalizou as orações da manhã. A menina passivamente recebera as palavras, os murmúrios, os cânticos baixinhos daquela que cuidava dela. Passivamente, sem o menor sinal de que iria acordar. Sá Izora não se conteve. Suavemente, balançou o corpo da tetraneta. Izorinha acordou e seus olhos estavam vermelhos, em chamas.

Sá Izora, que já havia terminado a conversa com as forças que têm a dádiva de proteger a vida, retomou as preces. Os rogos continuaram demandando por clemência. Nunca os olhos de Izorinha se apresentaram daquela forma. Vagarosamente, Sá Izora se aproximou mais da cama. Tocou a fronte da menina. Ela ardia em febre.

No final da tarde, depois de recusar toda alimentação que Sá Izora lhe ofereceu, Izorinha reclamava de um mal-estar que lhe tomava o corpo inteiro. Tirar um cochilinho depois do almoço com a tetravó, como de costume, não conseguiu. Sá Izora também não. A noite, para as duas, se fez um tempo de agonia. Sá Izora, sentada na beirada da cama da tetraneta, vigiava todos os movimentos da jovem. Izorinha teve um sono maldormido, sem entrega. Longe, bem longe do profundo do sono. Apresentava uma respiração que denunciava problemas. Era como se o corpo dela flutuasse, afundasse, flutuasse, afundasse… A dificuldade do ato respiratório se desenhava no arquejante peito de Izorinha. Depois de tantos anos, a asma estaria voltando?

Contrariando os desejos de Izorinha, a Velha Izora resolveu chamar mais alguém da família. Uma das tias recebeu logo o recado e veio ao encontro das duas. Passaram a noite juntas, as três. De manhã, tal era a prostração de Izorinha que o rumo do hospital foi a ponderação escolhida. Entretanto, ela recusava deixar Sá Izora sozinha. Outra pessoa viria passar os momentos que fossem necessários com a velha. A família era grande. Mas Izorinha não se conformava. Ninguém acordaria à noite nem vigiaria o cochilo de sua tetravó. Era preciso espreitar. Não podia deixar que Sá Izora dormisse o profundo do sono.

 

Mal entregou a tetraneta para a tia levar ao hospital, Sá Izora sentiu um travo de desgosto no peito. Não, a vida não podia ser assim. A maldita doença não podia estar rondando a menina. Estavam aconchegadas em casa. Os homens da família estavam trazendo tudo. Izorinha não saía para nada. Até os possíveis encontros com o mocinho que começava a se engraçar por ela foram adiados. A própria Izorinha dizia não querer ir à rua. Tinha medo do ar fora de casa. Dizia brincando que, da soleira da porta para a rua, a atmosfera estava infestada de estranhos, nocivos e minúsculos corpos. Insetos transparentes a voarem juntos, de mil em mil. Os bichinhos invisíveis transportavam algo, como nojentas bolhas d’água, numa corrida louca. Tudo de propósito. Era uma correria para colidirem uns contra os outros. E, ao se trombarem, seus corpos se desfaziam no ar. Melecas mortíferas eram expelidas no rosto de quem vagava distraído, na enganosa sensação de liberdade. A casa, portanto, era o melhor refúgio.

Os dias em que Izorinha ficou internada se transformaram em tormento maior para Sá Izora. Não que ela se deixasse abandonar pela fé. Ao contrário, cria e rezava mais ainda. Tinha muito medo de que ninguém velasse o sono da menina. Há um lugar no sono, diziam os antigos, que, se a pessoa em sua dormida chegasse até lá, corria um mortal risco: podia não acordar mais. Cairia no vazio. Não vê os bebês e as pessoas velhinhas? Na inocência, são seduzidos para chegar até lá. No hospital, quem velaria o sono de Izorinha? Quem cuidaria para que ela não dormisse o sono profundo dos desacordados? Era preciso vigiar sempre. E quem faria isso no hospital? Tantos eram os enfermos…

Sá Izora também não entendia como ela, já tão velha, estava ali resistindo. Não trazia sintoma algum da moléstia, embora trouxesse tamanho sufocamento no peito. Se alguém na família tivesse de correr o risco de um desenlace, a escolhida deveria ser ela. A suspensão da vida deveria cair sobre ela, a mais velha. Por que houve aquela inversão? Já havia passado uma semana. Onde estava Izorinha? Quando ela iria voltar? Na volta, permitiriam que sua tetraneta continuasse com ela? Izorinha voltaria? A vida deixaria acontecer o retorno? Haveria o reencontro? Uma vontade de partir inundou a vida da velha. Mas e se Izorinha retornasse e não encontrasse mais a sua tetravó?

A mocinha ardia em febre no leito do hospital. Sentia uma sufocação profunda. O ar faltante se fazia mais desesperador do que a asma, que a perseguira a infância inteira. Izorinha experimentava a sensação de que sua vida podia se esvair a qualquer momento. E ela só tinha um desejo. Se fosse atendida, nem se importaria mais com o momento seguinte. Poderia ser até seu último desejo. O ponto final. Ela queria o colo da velha. Precisava do aconchego de Sá Izora. Queria deitar a cabeça no colo dela. Nem era mais um colo macio. As pernas de Sá Izora se tornaram ossos puros. Ao se aconchegar nelas, Izorinha tinha até medo de machucar a velha. E se sua cabeça esfarelasse um dos ossos? Mas sua tetravó dizia que a mocinha não lhe causava incômodo algum. Afirmava, mexendo nas tranças de Izorinha, que cabeça de anjo não pesa. A mocinha precisava voltar para casa. Em quinze anos, nunca passara um dia ou uma noite distante de Sá Izora. Sabia que a tetravó estava carecendo dela também.

Enquanto Izorinha, sem o chão familiar e o aconchego de Sá Izora, temia adormecer até chegar ao profundo do sono, médicos, enfermeiros, mulheres e homens passavam por ela no hospital e puxavam assunto. Informavam que ela não estava tão mal assim. Que a força da juventude era milagrosa. E, de tanto insistirem nessas afirmativas, apesar de tudo que estava sentindo, Izorinha tentou olhar o entorno. Foi quando percebeu que ela era “a mascotinha” dos enfermos. Sentiu-se mais desamparada ainda.

Sá Izora já não pedia à Santana com as forças das palavras, mas com as do pranto. Era uma fonte de lágrimas só. Dizem que os velhos são desidratados por causa da idade. A água do corpo rareia. A tetravó de Izorinha era como um graveto. Tão sequinha… Mas como um corpo tão ressecado podia conter tanta água? Quem estava com ela, por não conseguir consolar a velha, também rezava os torrenciais rogos. E foi num desses momentos que Sá Izora teve uma espécie de visão. Ela viu Izorinha muito distante e muito próxima. No tempo faltante que a vida permitiu a Sá Izora dividir conosco, ela só fazia repetir o que viu.

Ela tinha visto Izorinha entrar pela porta adentro. A mocinha chegava vestida com uma túnica, que parecia branca e ia se azulando. Tinha as mãos e os pés cobertos de barro, de lama. Chegava arquejante como se tivesse travado uma longa batalha para voltar.

A calma com que Sá Izora narrava a visão aliviou toda a família. As pessoas mais velhas sabiam de que batalha Sá Izora estava falando. Ela estava contando aquilo que ela conhecia, aquilo em que acreditava. Quem não sabia ainda o significado da batalha se calava em respeitoso silêncio. Um dia, entenderiam. Ninguém, porém, duvidou que Izorinha iria se recuperar. Em casa, toda família se tranquilizou. A volta dela era certa. O sonho de Sá Izora era uma premonição do retorno de Izorinha.

A menina, no hospital, clamava pela tetravó. Sua voz saía como um fiapo de lamento. Entretanto, os prognósticos médicos eram de que a jovem paciente estava vencendo a doença. Izorinha nada respondia quando se dirigiam a ela. Só fazia chorar e dizer baixinho que queria Sá Izora. Queria Sá Izora, Sá Izora, Sá Izora…

Na última noite no hospital, temendo dormir até entrar no profundo do sono, desejou rezar, mesmo sozinha. Se conseguisse cantar, soltaria a voz. Mas estava tão cansada, e o corpo doía tanto… Tudo era como se fosse uma dor única. Uma agonia da cabeça aos pés. Em meio à dor e ao desamparo por estar longe dos seus, Izorinha escutou uma voz rouca e triste. Eram os lamentos de Sá Izora. Sua tetravó rezava. Rezava em prantos. Izorinha, se lembrando das rezas e da fé que aprendera com Sá Izora, encontrou conforto. Pediu à Santana que milagrasse seu corpo. Que, no lugar da doença, fecundasse saúde, fecundasse cura. Que cuidasse de seu sono, já que a velha, a Sá Izora, não estava por perto. E se apaziguou clamando pela Santa Velha, como velha era Sá Izora. Pediu à Santana, como se pedisse à sua tetravó:

– Não me deixe dormir o profundo do sono.

Era como se a vida da tetravó se aprofundasse nos dias da mocinha. Sá Izora firmou a vista no tempo aparentemente vazio diante dela. E viu. Viu o pulsar do coração de Izorinha. Mais uma vez, ela bendisse a vida por lhe dar tanto. Havia o vital movimento sob a camisola da menina. Um corpo flutuava, afundava, flutuava, afundava, flutuava. Sua tataraneta respirava.