despedida

Não trema em 2009

Dois pingüins dão adeus ao mais misterioso dos sinais diacríticos, mas não sabem ainda onde pô-lo, ou pólo (Sul)

André Conti

Dois pingüins graúdos da cultura nacional – representantes de uma cervejaria e de uma revista – conversam à beira de um iceberg.

“Onde fica o pólo Norte?”, pergunta o primeiro.

O pingüim da revista contempla com tristeza o amigo. Sem se importar com os traços evidentes de bebida no bafo do colega, explica a ele que não há mais necessidade de diferenciar o substantivo “pólo” (aprazível paragem de veraneio de qualquer pingüim encalorado) da antiga preposição aglutinada polo (por+o), destronada por “pela”, sem contar a combinação de pôr e lo, “polo” – como em: “Onde devo pô-lo, meu suéter pólo?”

“No fim do mês será tudo sem acento”, esclarece.

“Qüem, qüem”, balbucia o cervejeiro, o olhar perdido numa aurora austral.

“Não!”, subleva-se a ave letrada. “Não: o correto agora é ‘quém, quém’.”

“Quem o quê?”, indaga o bêbado.

Tomado pela sensação de dever para com sua espécie – uma das mais prejudicadas pelo novo acordo ortográfico –, o pingüim da revista pega o amigo pela asa e põe-se a explicar as mudanças pelas quais passou a língua portuguesa desde o início do século XX:

“Até 1911, você seria um penguím. Havia também uma porção de ípsilons e pê-agás na língua. Pois os portugueses resolveram botar ordem na casa. Só que o acordo de 1911 não foi adotado no Brasil, que seguiu falando um português antigo e pomposo.”

O amigo o encara com o semblante de um pingüim que bateu a cara num iglu, se iglu houvesse no pólo – ou polo – Sul.

“No início da década de 40, acadêmicos portugueses e brasileiros resolveram unificar a língua e assinaram um acordo que colocaria, enfim, os pingos nos is das suas, deles, diferenças ortográficas. No entanto, por se tratar de acadêmicos, e ainda por cima lusos e brasílicos, o acordo não unificou nada.

“Mas nessa época eu ainda era um penguím?”

“De maneira alguma. O tratado de 1943 marcou a chegada do que é o sinal diacrítico mais importante da história, pelo menos no que diz respeito à nossa espécie: o trema.”

Seu colega põe-se a chacoalhar a cauda, e depois o corpo inteiro. “Assim?”, pergunta.

O pingüim da revista abre seu exemplar do Dicionário Houaiss, um tanto amassado pelo uso, e recita: “O trema é um sinal diacrítico, usado sobre a letra u, dos dígrafos gu e qu, nos vocábulos em que essa letra, seguida de e ou i, é pronunciada: agüentar, cagüira, eloqüente, qüinqüenérveo.” “Parece-me uma coisa suspeita”, diz o outro pingüim, finalmente despertando para a magnitude do problema. “Qüinqüenérveo?”

O sóbrio pingüim prossegue, satisfeito: “E a coisa não para por aí.”

“Para por o que aonde?”

“Não! ‘Para’, do verbo parar, em oposição à preposição ‘para’. O acento que diferenciava certas palavras também não existe mais, lamentavelmente.”

O outro pranteia o fim do acento diferencial, em solidariedade.

Continua o pingüim da revista:

“E quem sai perdendo somos nós, os pingüins brasileiros. Portugal, talvez por não ter pingüins, aboliu o trema em 1946. Os esfeniscídeos nacionais tornaram-se os únicos a carregar o estandarte dessa tradição, que em certos países tem o mesmo estatuto de outros diacríticos mais badalados, como a cedilha e o til. Na Alemanha, não se anda duas quadras sem um trema. Na França, é possível andar duas quadras, mas não se sai do arrondissement sem um bom par de tremas, ou seja, quatro mimosas bolinhas

“Mas na Alemanha”, retruca sorrateiramente o amigo da cevada, “o trema tem uma função diferente. Conhecido como Umlaut, ele pousa sobre as vogais a, oe upara indicar a mudança de som. A Gisele Bündchen, por exemplo, seria pronunciada “Bundchen” se não fosse o Umlaut.

 

O retruque deixa o pingüim sabichão sem palavras. Ambos imaginam um mundo sem pólo, sem trema e sem Gisele Bündchen.

“Mas e de quem foi essa idéia infeliz de abolir o trema?”, pergunta, de súbito, o mais burrinho, que aos poucos atenta para o golpe que a nova regra assestará na auto-estima pingüinácea.

“Na verdade uma ideia, já que os ditongos abertos ei e oi também não levam mais acento. O fim do trema foi – arram! – uma epopeia. Em 1971, cortaram um bocado de acentos, os mais divertidos, na minha opinião. Imagina, aceitar gêlo sem chapeuzinho, foi difícil. Mas por motivos que nenhum pingüim jamais soube, o trema ficou.”

O outro pingüim, cada vez mais apegado ao seu trema, imagina que perdê-lo será o equivalente, até pela semelhança, a perder seus testículos.

Imbuído de sentimentos solidários, a ave da revista (com ou sem trema, o pingüim segue sendo uma ave) improvisa um palanque de neve e proclama: “Nosso dever é assegurar uma transição civilizada dentro da categoria. Há uma legião de pingüins confusos por aí, à mercê de toda sorte de faux pas ortográficos. Embora se torne obrigatório apenas em 2013, ano que vem já está valendo, e em 2010 todos os livros de escola estarão despidos de tremas. Os portugueses têm até 2014.”

“Eu vou segurar o meu trema até o último minuto”, decidiu o cevador.

“Não seja um pingüim anacrônico. O ano praticamente acabou, o acordo ortográfico está aí. Que desejemos boas-vindas às novas palavras. Feiura, enjoo, paleozoico, micro-ondas. Vão chegando, a casa é sua.”

“E Piauí?”

“O que tem?”

“Leva acento?”

“Passou raspando.

Piauí foi salva por uma exceção. Palavras com o i e o u finais e tônicos, precedidos de ditongo aberto, perderam os agudos. Mas só as paroxítonas. E Piauí, como você está careca de saber, é oxítona. Tuiuiú também se safou. Mas baiuca vai ter que se acostumar.”

André Conti

André Conti é editor na Companhia das Letras.

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