ficção

Natasha

Presente raro: a experiência metafísica e visionária de uma donzela russa, num conto que permaneceu guardado na Biblioteca do Congresso americano até o início deste ano, 31 anos após a morte do autor

Vladimir Nabokov
IMAGEM: HOME STILL, 2007_BASTIENNESCHMIDT.COM

Embora famoso por seus romances, Lolita à frente, Vladimir Nabokov foi um prolífico contista, tendo feito aos 22 anos sua primeira incursão no gênero com “O duende da floresta”. Dos seus 52 contos editados em vida, 41 foram escritos em russo e um em francês, sendo mais tarde traduzidos para o inglês pelo próprio escritor, quase sempre em colaboração com o filho Dmitri. Os outros dez foram escritos em inglês, depois que ele se radicou nos Estados Unidos. Em 1995, Dmitri e Véra, sua viúva, organizaram a coletânea final com 65 contos, incluindo outros originalmente escritos em russo. Como o supersticioso autor só permitia que se editassem livros com 13 contos (a “dúzia de Nabokov”), “Natasha” talvez tenha permanecido nos arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos para não quebrar a crendice numérica. Mas sem dúvida merecia ver a luz do dia por ser a primeira (e a mais explícita) das muitas viagens que o grande mago literário fez aos territórios ignotos do Além. – JORIO DAUSTER

I

Natasha topou na escada com o barão Wolfe, o vizinho que morava do outro lado do hall. Ele galgava com certa dificuldade os degraus de madeira, acariciando o corrimão e assobiando baixinho, entredentes.

“Aonde é que você vai com tanta pressa, Natasha?”

“À farmácia, para aviar uma receita. O doutor acabou de sair. Papai está melhor.”

“Ah, essa é uma boa notícia.”

Ela passou voando por ele na capa de chuva farfalhante, sem chapéu.

Debruçando-se sobre o corrimão, Wolfe procurou vê-la de novo. Por um instante avistou de cima o repartido lustroso e juvenil de seu cabelo. Assobiando ainda, chegou ao último andar, jogou a pasta encharcada pela chuva em cima da cama e por fim se deu ao prazer de lavar e enxugar cuidadosamente as mãos.

Bateu então à porta do velho Khrenov.

Khrenov morava com a filha no quarto do outro lado do hall. Ela dormia num sofá cujas molas, estupendamente móveis, se erguiam como tufos metálicos no flácido forro de veludo. Havia também uma mesa de madeira natural, sempre coberta de jornais com borrões de tinta de imprensa. Khrenov, um velhinho enfermo e murcho, vestindo uma camisola que ia até os tornozelos, voltou para cama tão rápido quanto lhe permitiam as pernas emperradas e puxou as cobertas para cima quando a cabeçorra raspada de Wolfe despontou por trás da porta.

“Entre, que bom vê-lo, trate de ir entrando.”

O velho respirava com dificuldade e a porta da mesinha-de-cabeceira não havia sido fechada de todo.

“Ouvi dizer que você estava quase inteiramente recuperado, Alexey Ivanych”, disse o barão Wolfe, sentando-se na cama e dando um tapa nos joelhos.

Khrenov, oferecendo-lhe a mão amarela e pegajosa, sacudiu a cabeça.

“Não sei bem o que você anda ouvindo, mas não tenho a menor dúvida de que vou morrer amanhã.”

Fez com os lábios o som de uma bola de encher ao estourar.

“Bobagem”, Wolfe interrompeu em tom alegre, extraindo do bolso de trás da calça uma enorme charuteira de prata. “Se incomoda se eu fumar?”

Tentou por um bom tempo acender o isqueiro, girando sem sucesso a roda denteada. Khrenov semicerrou os olhos. Suas pálpebras eram azuladas como a palmura de uma rã. Pêlos acinzentados cobriam o queixo protuberante. Sem abrir os olhos, ele disse: “É assim que vai ser. Eles mataram meus dois filhos, e empurraram a mim e a Natasha para fora de nosso ninho natal. Agora querem que a gente morra numa cidade estranha. Pensando bem, que idiotice…”

Wolfe começou a falar alto, escandindo as sílabas. Disse que Khrenov, felizmente, ainda tinha muito tempo para viver e que todo mundo estaria voltando para a Rússia na primavera, junto com as cegonhas. Emendou com o relato de um incidente de seu passado.

“Foi quando eu andava lá pelo Congo”, disse ele, balançando ligeiramente o corpo avantajado e algo balofo. “Ah, o longínquo Congo, meu caro Alexey Ivanych, terras tão distantes, você sabe… Imagine uma aldeia na floresta, mulheres com os peitos caídos e o brilho da água, negra como o astracã, em meio às choupanas. Debaixo de uma árvore imensa – um kiroku – havia umas frutas cor de laranja parecendo bolas de borracha e, à noite, de dentro do tronco vinha um som como o de ondas quebrando na praia. Tive uma longa conversa com o reizinho local. Nosso tradutor era um engenheiro belga, outro sujeito curioso. Aliás, ele jurava que em 1895 tinha visto um ictiossauro nuns pântanos não muito longe da Tanganica. O reizinho lembrava uma baleia, de tão gordo, e a barriga dele tremia como se fosse feita de gelatina. Estava coberto com um pó de cobalto, os dedos cheios de anéis. Mas veja só o que aconteceu…”

Wolfe, saboreando sua própria história, sorriu e acariciou a cabeça de um azul pálido.

“Natasha voltou”, interrompeu Khrenov em voz baixa mas firme, sem erguer as pálpebras.

Ruborizando-se de imediato, Wolfe olhou a seu redor. Um segundo depois se ouviu ao longe o estalido da fechadura da porta da frente e passos rápidos cruzando o hall. Natasha entrou apressada, os olhos brilhando.

“Papai, como você está?”

Wolfe levantou-se e disse com falsa indiferença. “Seu pai está muitíssimo bem e nem sei por que está de cama… Vou contar para ele um episódio com um bruxo africano.”

Natasha sorriu para o pai e começou a desembrulhar o remédio.

“Está chovendo”, falou baixinho. “Um tempo horroroso.”

Como costuma acontecer quando se fala do tempo, os outros olharam para a janela. Isso fez com que uma veia cinza-azulada do pescoço de Khrenov se contraísse. Ele então deixou a cabeça tombar de novo sobre o travesseiro. Repuxando os lábios, Natasha contou as gotas enquanto os cílios marcavam o tempo. Pérolas de chuva enfeitavam os cabelos pretos e luzidios, sob seus olhos havia adoráveis sombras azuladas.

II

De volta em seu quarto, Wolfe caminhou de um lado para o outro por longo tempo com um sorriso excitado e feliz, deixando-se cair vez por outra numa poltrona ou na borda da cama. Depois, sabe-se lá por quê, abriu a janela e ficou olhando para o pátio escuro e gorgolejante lá embaixo. Por fim, sacudiu um só ombro espasmodicamente, pôs o chapéu verde e saiu.

O velho Khrenov, que desmoronara no sofá enquanto Natasha arrumava sua cama para a noite, comentou em voz baixa, sem grande entusiasmo: “Wolfe saiu para jantar.”

Depois suspirou e enrolou-se ainda mais no cobertor.

“Pronto”, disse Natasha. “Suba de volta na cama, papai.”

Do lado de fora se estendia a cidade saturada de água ao anoitecer com as negras torrentes das ruas, as cúpulas móveis e reluzentes dos guarda-chuvas, o clarão das vitrines derramando-se sobre o asfalto. Na esteira da chuva, a cidade começou a fluir, enchendo as profundezas dos pátios, bruxuleando nos olhos das prostitutas de pernas finas que percorriam em passos lentos as esquinas apinhadas de gente. E, mais acima, as luzes circulares de um anúncio cintilavam intermitentemente como uma roda iluminada em movimento.

A temperatura de Khrenov havia se elevado ao cair da noite. O termômetro estava quente, vivo – a coluna de mercúrio subira muitos degraus na escadinha vermelha. Durante bastante tempo resmungou palavras ininteligíveis, mordendo os lábios e sacudindo de leve a cabeça. Enfim caiu no sono. Natasha despiu-se à luz desmaiada de uma vela e viu seu reflexo no vidro escuro da janela – o pescoço fino e pálido, a trança negra que caíra sobre a clavícula. Ficou assim parada, numa imobilidade langorosa, e de repente pareceu que o quarto, levando consigo o sofá, a mesa conspurcada pelas pontas de cigarros, a cama onde um velho suarento de nariz afilado dormia de boca aberta um sono inquieto… que tudo isso começou a se mover e agora flutuava como o convés de um navio rumo à noite escura. Ela suspirou, passou a mão pelo ombro nu e quente, e, levada em parte pela tontura, deitou-se no sofá. Então, com um sorriso vago, começou a enrolar e tirar suas velhas meias, tantas vezes cerzidas. Mais uma vez o quarto se pôs a flutuar e ela teve a impressão de que alguém soprava ar quente em sua nuca. Abriu bem os olhos – olhos negros, alongados, um tom azulado tingindo as escleras. Uma mosca de outono começou a voar em torno da vela e, como um caroço preto e zumbidor, foi bater contra a parede. Natasha enfiou-se lentamente debaixo da coberta e se esticou, sentindo, como se fosse uma mera espectadora, o calor de seu próprio corpo, as coxas longas, os braços nus jogados por trás da cabeça. Uma sensação enorme de indolência a impedia de apagar a chama, de expulsar o formigamento sedoso que a fazia comprimir involuntariamente os joelhos e fechar os olhos. Khrenov soltou um gemido fundo e ergueu um braço em meio ao sono. O braço tombou de volta como se estivesse morto. Natasha levantou ligeiramente o corpo e soprou na direção da vela. Círculos multicores começaram a nadar diante de seus olhos.

Estou me sentindo tão bem, ela pensou, rindo contra o travesseiro. Estava agora toda encolhida, imaginando-se incrivelmente pequena, e todos os pensamentos que povoavam sua mente eram como centelhas quentes que se espalhavam e deslizavam em doces movimentos. Já estava caindo no sono quando seu torpor foi rompido por um grito forte e lancinante.

“Papai, o que está acontecendo?”

Ela tateou os objetos em cima da mesa e acendeu a vela.

Khrenov estava sentado na cama, arquejante, os dedos agarrando a gola da camisa. Tendo acordado alguns minutos antes, ficara paralisado de terror ao imaginar que o mostrador luminoso do relógio, deixado sobre uma cadeira próxima à cama, era o cano imóvel de um fuzil apontado para ele. Havia aguardado o disparo, não ousando se mexer, até perder o controle e começar a gritar. Agora olhava para a filha, piscando os olhos e esboçando um sorriso trêmulo.

“Papai, fique calmo, não é nada…”

Arrastando os pés descalços pelo chão quase sem fazer ruído, ela ajeitou os travesseiros do pai e encostou a mão em sua testa, pegajosa e fria por causa do suor. Com um suspiro profundo e ainda sacudido por espasmos, ele se voltou para a parede e murmurou: “Todos eles, todos… e eu também. É um pesa-delo… Não, não faça isso.”

Caiu no sono como se despencasse num abismo.

Natasha voltou a se deitar. O sofá se tornara ainda mais encaroçado, as molas a pressionaram nos lados do corpo, depois nas omoplatas, mas por fim ela se sentiu confortável e flutuou de volta para o sonho incrivelmente acolhedor que havia sido interrompido e do qual só restara uma memória difusa. E então, ao raiar do dia, acordou mais uma vez. Seu pai a chamava.

“Natasha, não estou me sentindo bem. Me dê um pouco de água.”

Algo trôpega, sua sonolência permeada pela alvorada de um azul lavado, ela caminhou até a bacia, fazendo o jarro tilintar. Khrenov bebeu com avidez e disse: “Vai ser horrível se eu nunca mais voltar.”

“Vá dormir, papai. Trate de dormir mais um pouco.”

Natasha vestiu o robe de flanela e se sentou ao pé da cama do pai. Ele repetiu a frase “Isso é horrível” várias vezes e depois lhe lançou um sorriso amedrontado.

“Natasha, não paro de pensar que estou atravessando a pé nossa aldeia. Se lembra daquele lugar na margem do rio, perto da serraria? Era difícil andar por ali. Você sabe, com toda aquela serragem. Serragem e areia. Meus pés se enterram. Faz cócegas. Uma vez, quando viajamos para o exterior.” Franziu as sobrancelhas, lutando para seguir seus pensamentos titubeantes.

Natasha recordava-se com extraordinária clareza de sua aparência naquela época, lembrava da barba curta e alourada, das luvas de camurça cinza, da capa de viagem axadrezada de padrão semelhante ao de uma bolsinha emborrachada para guardar esponjas – e de repente sentiu que estava a ponto de chorar.

“Sim, é isso aí”, Khrenov balbuciou sem sentido, olhando para a névoa matinal que toldava a janela.

“Durma mais um pouco, papai. Eu me lembro de tudo.”

Ele tomou desajeitadamente um gole de água, esfregou o rosto e recostou-se nos travesseiros. Subiu do pátio o canto doce e vibrante de um galo.

III

Por volta das onze horas da manhã seguinte, Wolfe bateu à porta dos Khrenov. Alguns pratos tintinaram de medo no quarto, ao que se seguiu o riso franco de Natasha. Um instante depois ela escapuliu para o hall, fechando com cuidado a porta a suas costas.

“Estou tão feliz – papai está bem melhor hoje.”

Vestia uma blusa branca e saia bege abotoada dos lados. Os olhos amendoados e brilhantes projetavam felicidade.

“Uma noite horrivelmente agitada”, ela continuou, falando rápido, “mas agora a febre foi embora. A temperatura está normal. Ele até decidiu se levantar. Acabaram de dar um banho nele.”

“Hoje está fazendo sol”, disse Wolfe enigmaticamente. “Não fui trabalhar.”

Estavam de pé no hall mal iluminado, encostados na parede, sem saber mais sobre o que falar.

“Sabe de uma coisa, Natasha?”, Wolfe subitamente arriscou, afastando as costas largas e adiposas da parede e enfiando as mãos bem fundo nos bolsos da amarrotada calça cinza. “Vamos fazer um passeio no campo. Podemos estar de volta às seis. O que é que você acha?”

Natasha manteve um ombro de encontro à parede, empurrando o corpo um pouco para a frente.

“Como é que posso deixar papai sozinho? Muito embora…”

Wolfe de repente se animou.

“Natasha, minha querida, vamos. por favor. Seu pai está bem hoje, não é mesmo? E a senhoria vai estar por aqui se ele precisar de alguma coisa.”

“Bom, isso é verdade”, disse Natasha devagar. “Vou falar com ele.”

E, com um rodopio que fez a saia esvoaçar, voltou para o quarto.

Já vestido, mas sem o colarinho da camisa, Khrenov procurava com mãos frágeis alguma coisa sobre a mesa.

“Natasha, Natasha, você esqueceu de comprar os jornais ontem…”

Natasha preparou o chá no fogareiro a álcool.

“Papai, eu hoje queria fazer um passeio no campo. O Wolfe me convidou.”

“Muito bem, querida, você deve ir”, disse Khrenov enquanto o branco-azulado de seus olhos se enchia de lágrimas. “Acredite em mim, hoje estou melhor. Não fosse por essa fraqueza ridícula…”

Depois que Natasha se foi ele voltou a procurar com gestos lentos alguma coisa no quarto… Grunhindo baixinho, tentou mover o sofá. Depois olhou em baixo dele – deitou-se de bruços no chão e lá ficou, a cabeça girando, nauseado. Devagar, com grande esforço, pôs-se outra vez de pé, andou com dificuldade até a cama, deitou-se… E de novo teve a sensação de que estava atravessando alguma ponte, que podia ouvir o som da serraria, que os troncos amarelos das árvores boiavam, que seus pés se enterravam mais e mais na úmida serragem, que um vento frio soprava do rio congelando-o de cima a baixo…

IV

“Sim, todas as minhas viagens. Ah, Natasha, às vezes me sentia como um deus. Vi o Palácio das Sombras no Ceilão e atirei em pequenos pássaros cor de esmeralda em Madagascar. Os nativos de lá usam colares feitos de vértebras e à noite cantam de forma muito estranha na praia, como se fossem chacais querendo fazer música. Vivi numa tenda não muito longe de Tamatave, onde a terra é vermelha e o mar azul-escuro. Não consigo descrever para você aquele mar.”

Wolfe se calou, jogando uma pinha para o alto e a apanhando de volta em gestos compassados. Então, correu a palma balofa por toda a extensão do rosto e caiu na risada.

“E cá estou eu sem um tostão, atolado na cidade mais miserável da Europa, sentado num escritório entra dia, sai dia, como se fosse um preguiçoso, mastigando pão com lingüiça de noite num café freqüentado por motoristas. E dizer que houve um tempo…”

Natasha estava deitada de bruços, os cotovelos bem abertos, observando os topos iluminados dos pinheiros à medida que gradualmente se confundiam com o céu cor de turquesa. Pontinhos luminosos giravam, reluziam e se dissipavam em seus olhos. Vez por outra algo voava de um pinheiro para outro num espasmo dourado. No terno cinza e largo, o barão Wolfe estava sentado próximo às pernas cruzadas de Natasha, mantendo a cabeça raspada abaixada e brincando ainda com a pinha ressequida.

Natasha suspirou.

“Na Idade Média”, disse ela, olhando para o cimo dos pinheiros, “eles teriam me queimado numa fogueira ou me feito santa. Às vezes tenho umas sensações estranhas. Como um tipo de êxtase. Aí me sinto quase sem peso, parece que estou flutuando em algum lugar, e compreendo tudo – a vida, a morte, tudo… Um dia, quando eu tinha uns dez anos, estava sentada na sala de jantar, desenhando alguma coisa. Aí fiquei cansada e comecei a pensar. De repente, assim sem mais nem menos, apareceu uma mulher descalça, vestindo umas roupas azuis desbotadas, com um barrigão enorme. O rosto dela era pequeno, magro e amarelado, com uns olhos doces e extraordinariamente misteriosos… Passou por mim sem me olhar e desapareceu no outro quarto. Não senti medo, por alguma razão pensei que ela tinha vindo lavar o chão. Nunca mais vi essa mulher, mas sabe quem ela era? A Virgem Maria…”

Wolfe sorriu.

“Por que você acha isso, Natasha?”

“Eu sei. Ela apareceu para mim num sonho cinco anos depois. Segurava uma criança e alguns querubins estavam recostados a seus pés, amparando-se nos cotovelos como naquele quadro do Rafael, só que eles estavam vivos. Além disso, às vezes tenho outras visões mais simples. Quando levaram meu pai em Moscou e fiquei sozinha na casa, aconteceu o seguinte: em cima da escrivaninha havia um sininho de bronze, igual àqueles que penduram nas vacas no Tirol. De repente, ele se ergueu no ar, começou a tilintar e depois caiu. Que som maravilhoso, tão puro!”

Wolfe lhe lançou um olhar estranho e, atirando a pinha para longe, falou numa voz fria e opaca.

“Há uma coisa que preciso lhe dizer, Natasha. Você sabe, nunca estive na África ou na Índia. É tudo mentira. Tenho quase 30 anos e, fora duas ou três cidades russas e uma dúzia de aldeias, além deste país miserável, nunca visitei lugar nenhum. Me perdoe por favor.”

Ele sorriu, melancólico. Subitamente sentiu uma pena intolerável daquelas fantasias grandiosas que o haviam sustentado desde a infância.

O tempo outonal estava quente e seco. Os pinheiros rangiam baixinho ao balanço dos topos dourados.

“Uma formiga”, disse Natasha, levantando-se e passando as mãos pela saia e pelas meias. “Estávamos sentados em cima das formigas.”

“Você sente muito desprezo por mim?”, Wolfe perguntou.

Ela sorriu. “Não seja bobo. Afinal de contas, estamos quites. Tudo o que falei sobre meus êxtases, a Virgem Maria e o sininho era pura fantasia. Imaginei tudo isso um dia e, depois, naturalmente, tive a impressão de que realmente havia acontecido…”

“É assim mesmo”, disse Wolfe, abrindo um grande sorriso.

“Me conte mais sobre suas viagens”, Natasha pediu sem uma ponta de sarcasmo.

Como de hábito, Wolfe tirou do bolso sua pesada charuteira.

“Às suas ordens. Certa feita, quando cruzava de Bornéu para Sumatra numa escuna…”

V

Um ligeiro declive levava ao lago. As estacas do cais de madeira refletiam-se como espirais cinzentas na água. A outra margem do lago também era ocupada por escura floresta de pinheiros, mas aqui e ali se divisava um tronco branco e a mancha difusa das folhas amarelas de uma bétula. Nas águas cor de turquesa escura flutuavam reflexos de nuvens, e Natasha de repente lembrou-se das paisagens pintadas por Levitan. Teve a impressão de que estavam na Rússia, de que só poderia estar na Rússia quando uma felicidade tão incandescente lhe dava um aperto na garganta, e ela estava adorando as maravilhosas bobagens que Wolfe contava, e as pedrinhas chatas que ele lançava, soltando pequenos gemidos, e que magicamente saltitavam na superfície da água. Como era um dia de semana, não havia ninguém à vista e só de vez em quando se ouviam algumas nuvenzinhas de exclamações ou risos. No lago pairava uma asa branca – a vela de um barco. Os dois caminharam por muito tempo ao longo da margem, subiram correndo a pequena encosta escorregadia e encontraram uma vereda onde moitas de framboesa exalavam um bafejo úmido e sombrio. Um pouco além, à beira do lago, havia um café totalmente deserto, sem um único freguês ou garçom, como se estivesse ocorrendo um incêndio por perto e todos houvessem corrido para vê-lo, levando as canecas e os pratos. Wolfe e Natasha circundaram o café, sentaram-se a uma mesa vazia e fingiram comer e beber ao som de uma orquestra. E, enquanto trocavam gracejos, Natasha de repente achou que tinha ouvido o som claríssimo e alaranjado de uma música tocada por instrumentos de sopro. Então, com um sorriso misterioso, teve um sobressalto e saiu correndo pela beira do lago. O barão Wolfe a seguiu num trote pesado. “Espere, Natasha, ainda não pagamos!”

Depois disso, descobriram um prado verde-maçã cercado de juncos, através dos quais o sol fazia a água cintilar como ouro líquido, e Natasha, semicerrando os olhos e inflando as narinas, repetiu várias vezes: “Meu Deus, que coisa maravilhosa…”

Wolfe sentiu-se ofendido pela falta de eco e se calou. E, naquele instante risonho e ensolarado às margens do vasto lago, passou voando por eles um quê de tristeza qual um besouro melodioso.

Natasha franziu a testa e disse: “Sei lá por quê, mas acho que papai voltou a piorar. Talvez eu não devesse ter deixado ele sozinho.”

Wolfe lembrou-se de ter visto as pernas finas do velho, reluzentes por causa dos cabelos brancos, quando ele pulou de volta para a cama. Pensou no que aconteceria se ele de fato morresse naquele dia.

“Não diga isso, Natasha, ele agora está bem.”

“Também acho”, disse ela, e voltou a ficar alegre.

Wolfe tirou o paletó e de seu torso atarracado, envolto na camisa listrada, se desprendia uma leve aura de calor. Ele caminhava bem próximo a Natasha, que olhava diretamente à frente mas se deliciava com aquela sensação cálida a seu lado.

“Eu sonho tanto, Natasha, sonho tanto”, ele dizia, brandindo um graveto que assoviava ao cortar o ar. “Será que estou mesmo mentindo quando conto minhas fantasias como se fossem verdade? Tive um amigo que serviu durante três anos em Bombaim. Bombaim? Meu Deus! A música dos nomes geográficos. Essa palavra sozinha contém algo gigantesco, bombas de luz solar, tambores. Imagine só, Natasha, esse amigo meu era incapaz de comunicar qualquer coisa, só se lembrava das briguinhas no trabalho, do calor, das febres e da mulher de um coronel inglês. Qual de nós dois realmente visitou a Índia? Evidente que fui eu. Bombaim, Cingapura. Me recordo, por exemplo.”

Como Natasha caminhava bem junto à água, as ondinhas do lago vinham lamber seus pés. Mais além da floresta passou um trem, como se estivesse trilhando uma corda musical, e ambos pararam para ouvir. O dia ficara ainda mais dourado, ainda mais doce, e os pinheirais na outra margem do lago ganhavam agora um tom azulado.

Perto da estação ferroviária, Wolfe comprou um saquinho de ameixas, mas elas estavam amargas. Sentados no compartimento de madeira vazio do trem, ele ia jogando as frutas pela janela e não parava de se lamentar por não haver surrupiado no café alguns daqueles discos de papelão que servem de descanso para as canecas de cerveja.

“Eles voam tão bonito, Natasha, como se fossem passarinhos. Dá prazer em ver.”

Natasha estava cansada; fechava os olhos bem fechados e logo depois, como havia acontecido durante a noite, era dominada e transportada por uma sensação de vertiginosa leveza.

“Quando eu contar a papai sobre nosso passeio, por favor não me interrompa ou me corrija. Talvez eu fale sobre coisas que nem vimos. Várias coisinhas maravilhosas. Ele vai entender.”

Chegando à cidade, decidiram voltar para casa a pé. O barão Wolfe, taciturno, fazia caretas quando as buzinas dos carros soavam furiosas, enquanto Natasha parecia impelida pelo vento, como se sua fadiga a sustentasse, lhe desse asas e suprimisse seu peso, e Wolfe se tingia de azul como a tarde que caía. Um quarteirão antes de chegarem, Wolfe parou de repente. Natasha seguiu célere. Depois parou também. Olhou em volta. Erguendo os ombros, enfiando as mãos bem fundo nos bolsos de suas calças largas, Wolfe baixou a cabeça azul-clara como um touro. Olhando para o lado, disse que a amava. E então, voltando-se rapidamente, deu-lhe as costas e entrou numa tabacaria.

Natasha ficou parada por algum tempo, como se suspensa no espaço, e depois seguiu devagar para casa. Vou dizer isso também ao papai, ela pensou, avançando através de uma névoa azul de felicidade em meio à qual os lampiões da rua se acendiam como pedras preciosas. Sentiu que estava ficando fraca, que ondas quentes e silenciosas subiam por sua coluna vertebral. Chegando ao edifício, viu seu pai, num paletó preto, cobrindo com uma das mãos o colarinho desabotoado da camisa enquanto com a outra sacudia as chaves da porta. Ele saiu às pressas, ligeiramente encurvado na névoa vespertina, rumando para a banca de jornais.

“Papai”, ela chamou, buscando alcançá-lo. Ele parou na beira da calçada e, inclinando a cabeça, olhou para ela com o sorriso manhoso que lhe era característico.

“Meu galinho garnisé de penas grisalhas. Você não devia estar na rua”, disse Natasha.

Seu pai inclinou a cabeça para o outro lado e disse bem baixinho: “Minha querida, tem uma coisa fabulosa no jornal de hoje. Só que esqueci de trazer a carteira. Você pode dar um pulo lá em cima e apanhar o dinheiro? Te espero aqui.”

Ela abriu a porta com um repelão, aborrecida com o pai e ao mesmo tempo feliz em vê-lo tão bem. Subiu as escadas aos saltos, aérea, como se estivesse num sonho. Atravessou o hall correndo. Ele pode pegar um resfriado esperando por mim lá fora.

Por alguma razão, a luz do hall estava acesa. Ao chegar perto da porta, Natasha ouviu uma conversa sussurrada dentro do quarto. Abriu a porta de um golpe. Da lâmpada de querosene sobre a mesa subia uma densa fumaça. A senhoria, uma arrumadeira e alguém que ela não conhecia bloqueavam a vista da cama. Todos se voltaram quando Natasha entrou e a senhoria, exclamando qualquer coisa, correu para ela…

Só então Natasha viu seu pai deitado na cama, em nada lembrando a pessoa que acabara de encontrar, e sim apenas um velhinho morto com um nariz cor de cera.

Vladimir Nabokov

Vladimir Nabokov, escritor russo (1899–1977), autor de Lolita.

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