carta do Reino Unido II

Nenhum país é uma ilha

As desilusões de um jovem filósofo com o Brexit

Tom Whyman
Para nossos pais, a Europa Oriental era como outro planeta; para nós, todo o continente europeu é parte de nosso quintal. Por isso, em 

grande medida, agora sofremos uma espécie de desespero
Para nossos pais, a Europa Oriental era como outro planeta; para nós, todo o continente europeu é parte de nosso quintal. Por isso, em grande medida, agora sofremos uma espécie de desespero ILUSTRAÇÃO: @PEJAC_ART / WWW.PEJAC.ES

Qual a sensação, depois do Brexit? Uma possível descrição: é como levar um murro na cara, só que bem devagar. Deveríamos ter visto o punho vindo em nossa direção – o plebiscito sobre a permanência do Reino Unido na comunidade econômica e política europeia estava na mesa desde janeiro de 2013 –, mas nós o ignoramos, não nos demos conta de que se aproximava, até que fosse tarde demais; apenas o estrepitar horrível do punho em nossos dentes, nossos lábios se partindo e o gosto de sangue na boca nos alertaram para o que realmente se passava. Ninguém pensou que iríamos de fato votar por nossa saída da União Europeia – afinal, boa parte de nossa segurança econômica e da nossa capacidade de influência em política externa estava atrelada ao fato de pertencermos a essa entidade supranacional específica. Não era pouca coisa. Era coisa demais, na verdade, para que pudesse ser atirado janela afora por qualquer grupo político que agisse de forma racional. Mas foi o que fizemos.

Outra sugestão: o Brexit é como um animal que está preso, e o espaço confinado onde ele se encontra está começando a se encher de água. A gente começa a entrar em pânico, o coração acelera, corremos de um lado para o outro em busca de uma saída, subimos pelas paredes e emitimos um estranho ganido de medo e dor. Por fim, percebemos que havia uma saída, mas o mesmo problema que fez com que a água vazasse ao ponto de agora inundar a cela também teve como efeito bloquear aquela rota de fuga, o único lugar por onde poderíamos fugir. O melhor a fazer numa situação como essa é, digamos, ser capaz de se adaptar a uma realidade em que não é mais possível respirar. É mais ou menos assim que muitos de nós estamos nos sentindo, como cidadãos do Reino Unido, agora que o Brexit se consumou.

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Tom Whyman

É professor-assistente na Universidade de Essex, onde também fez seu doutorado em filosofia. É autor do blog Infinitely Full of Hope