esquina

No inferno, com Foucault

Bolsonaristas atacam mestranda

Fabiano Maisonnave
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Eram três da tarde de 21 de março, quinta-feira, quando a mestranda em letras Cris Guimarães Cirino da Silva iniciou a apresentação do resumo de sua futura dissertação num seminário interno na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Manaus. Para duzentas pessoas, ela projetou na tela o título provisório da pesquisa: “A bolsonarização da esfera pública: uma análise foucaultiana sobre a (re)produção de memes a partir dos discursos de ódio nas falas de Bolsonaro.”

Durante quinze minutos, a mestranda de 41 anos discorreu sobre sua análise das postagens de Jair Bolsonaro nas redes sociais, desde antes da candidatura à Presidência até depois da posse. Além do filósofo francês Michel Foucault, que norteia a dissertação, citou Sigmund Freud e o psicólogo Gustave Le Bon. O objetivo do trabalho, explicou, é entender “como os discursos de ódio são incitados, retroalimentados e se materializam em misoginia, preconceito, racismo, segregação e memificação”.

Depois de ouvir as outras apresentações do seminário – uma espécie de atividade obrigatória para ela se qualificar ao mestrado –, Silva consultou o WhatsApp. Encontrou mensagens de dois amigos que reproduziam uma página do Grupo da Ufam no Facebook com uma foto dela e, ao fundo, a imagem projetada do título da dissertação. “Tá cheio de comentários lá, e contra você”, escreveu um dos amigos. Eram quatro e meia da tarde. Começava o inferno de Cris Silva.

A foto se espalhou pelo meio acadêmico de Manaus, e logo a mestranda passou a receber mensagens de WhatsApp e ligações telefônicas de amigos e conhecidos. “Você está louca de fazer isso? Que infantilidade científica a sua”, escreveu um professor. Alguém questionou: “Por que você não estuda o Lula?” Assustada com a repercussão e orientada por amigos e pela família, Silva decidiu suspender temporariamente as suas contas no Facebook, Instagram e Twitter.



No dia seguinte, uma sexta-feira, logo pela manhã começaram a chegar, via WhatsApp, as primeiras mensagens anônimas com insultos. Ela ficou aturdida, mas resolveu dar prosseguimento às suas tarefas no segundo dia do seminário. Como havia sido escalada para cuidar do coffee break e precisava passar numa padaria, achou melhor ir de carro. Enquanto caminhava em direção ao veículo, recebeu uma mensagem de WhatsApp em que alguém ameaçava furar os pneus do carro dela. “Minha vontade foi pedir um Uber”, contou Silva à piauí, na sala de um colégio privado da elite manauara, do qual é chefe de Recursos Humanos.

Apesar da ameaça, Cris Silva seguiu até a padaria. Ao voltar para o carro com a encomenda dos salgadinhos, o susto: uma das portas estava aberta, embora sem sinais de arrombamento. Além disso, tinham sido furtados sua bolsa com os papéis do seminário e alguns documentos. Ela chegou à Ufam aos prantos. À noite, fez um boletim de ocorrência numa delegacia de polícia.

O epílogo nefasto daquela sexta-feira ocorreu às 22h43, horário em que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) postou no Twitter – onde ele tem 1,4 milhão de seguidores – a foto da apresentação de Silva no seminário, acompanhada das seguintes frases: “Alguém me diga que isso é mentira… Não sei se dou risada ou choro.” Até meados de abril, esse post havia gerado 4,4 mil comentários, a maioria com ataques pessoais à mestranda e sua pesquisa.

O orientador de Silva, o professor de letras Leonard Christy Souza Costa, 39 anos, também passou a ser achacado nas redes sociais e em comentários na internet. O ataque mais grave veio de um bolsonarista de Manaus que espalhou comentários ofensivos acompanhados de uma foto do professor com a filha de 5 meses.

Só no sábado foi que Silva, que tem dois filhos, se deu conta da situação: ela havia se tornado parte da própria pesquisa. Respirou fundo, ganhou coragem e reabriu a conta no Facebook e no Instagram.

Encontrou ali uma avalanche de comentários depreciativos. “A pessoa já mora no cu do mundo… aí me faz LETRAS. Pra piorar me manda uma tese dessas…”, escreveu alguém. “Por isso as crianças, adolescentes e jovens de até 25 anos não sabem nem tabuada… mas virar militante e homossexual… ahh, isso sim”, disse outro. Para alguns, a dissertação era a prova cabal de que comunistas estão desgraçando as universidades brasileiras.

“O que mais me preocupa é a criminalização”, afirma Silva. “Para eles, o Leonard e eu deveríamos ser expulsos da universidade, somos pessoas de merda. Mas não cometemos crime nenhum.” Com receio de perder o emprego, ela apresentou a pesquisa no colégio onde trabalha, a fim de deixar claro que não é uma petista agindo no RH para “interferir no processo seletivo” dos funcionários.

Nem Silva nem Costa são ligados ao PT ou se consideram marxistas. Qualificam-se apenas como seguidores de Foucault (que, por sinal, não era comunista). Para a mestranda, o autor do clássico As Palavras e as Coisas oferece instrumentos para a “análise do saber, do modo como a gente busca a verdade, de quais instituições ideológicas corroboram para construir essa verdade que a sociedade compra. É um filósofo muito contemporâneo”.

Por causa dos ataques, os dois decidiram contratar advogados. Estão processando quem ameaçou vandalizar o carro, quem fez o primeiro post no Facebook e o bolsonarista que divulgou foto da filha de Costa. Orientador e orientanda também depuseram no Ministério Público Federal, que vem realizando uma ação nacional para combater o assédio moral contra professores. Desde novembro, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão já enviou 54 recomendações a instituições públicas de educação, solicitando que não tomem medidas abusivas contra docentes.

Silva ainda está se restabelecendo do choque emocional que sofreu. Para evitar situações ainda piores, vai solicitar à Ufam que o público não tenha acesso à defesa do mestrado, que deve ocorrer até março de 2020. Também planeja um suicídio virtual. “Falei pro Leonard: ‘Assim que eu defender, posso cancelar as minhas contas nas redes sociais?’” Ele não só autorizou, como disse: “Vou fazer o mesmo.” Os dois preparam-se, como disse Silva, para um “detox digital total”.

Fabiano Maisonnave

É correspondente da Folha de S.Paulo na Amazônia e do Climate Home News na América Latina

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