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No Olimpo

O retrato de um obstinado, Carlos Arthur Nuzman

Dorrit Harazim
“Eu não sou autoritário, apenas exerço a autoridade”, gosta de repetir o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, discípulo de João Havelange, de quem costuma emprestar a frase
“Eu não sou autoritário, apenas exerço a autoridade”, gosta de repetir o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, discípulo de João Havelange, de quem costuma emprestar a frase FOTO: ROGÉRIO REIS

No canto esquerdo da sala de trabalho do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro jaz um kit de minigolfe para executivos. Os dois tacos, as sete bolas, o tapetinho verde e o copo que faz as vezes de buraco estão ali há anos, intocados. Nenhuma das três secretárias de Carlos Arthur Nuzman lembra quem deu o presente – “excelente terapia”, “ótimo relaxamento para executivos”, garante o fabricante. Se foi alguém bem-intencionado, não tem ideia de quem é Nuzman. E, se tiver sido um mal-intencionado, que quis sugerir ao presenteado que poderia se aposentar após quatro mandatos à frente do Comitê Olímpico, perdeu tempo e dinheiro.

Num final de tarde recente, poucas horas após ter retornado de uma enésima viagem internacional, seguida de breve parada no consultório do cardiologista Mauricio Vaisman, Nuzman constatou, satisfeito: “Na história de 116 anos dos Jogos Olímpicos, sou o único presidente de Comitê de Candidatura e do Comitê Organizador que também é membro do Comitê Olímpico Internacional e presidente do Comitê Olímpico de seu país. Isso nunca existiu.”

Como se o fato mais notável de sua biografia – ter conseguido trazer os Jogos Olímpicos para o Rio de Janeiro, em 2016 – não bastasse. É justamente a dimensão desse triunfo pessoal que não tem paralelo na história.

Mesmo quando o empresário americano Peter Ueberroth lançou uma cruzada solitária e obteve o direito de sediar os Jogos de 1984, o precedente empalidece. À época, a candidatura de Los Angeles não teve concorrentes, visto que nenhuma outra cidade quis se aventurar. E o escopo do empreendimento foi acanhado, comparado aos padrões de hoje.

A tenacidade do carioca de ascendência bielorrussa Carlos Nuzman, ao derrotar mega-candidaturas como as de Madri, Tóquio e Chicago, é resultado de uma mente singular.

Já o cipoal de cargos do olimpismo, que no seu caso atuam como vasos comunicantes, só tem valor para o próprio Nuzman. Mas, como efeito colateral, alimenta o pelotão de críticos, adversários ou inimigos que amealhou ao longo do percurso. E, sobretudo, o coloca na mira de quem precisa cortar-lhe algumas asas para poder abiscoitar uma fatia do seu cobiçável reinado.

Sentado num restaurante não longe da casa em que mora há 26 anos, no Jardim Pernambuco, um condomínio de abastados no Leblon, ele relembrou o diálogo que teve nos anos 60 com o deputado Tenório Cavalcanti, o truculento “Homem da Capa Preta” da Baixada Fluminense:

“Então, meu filho, você quer ser eleito?”

“Claro, deputado”, respondeu Nuzman, que cobiçava uma vereança.

“É muito fácil. Compra um jornal e põe ele para falar de você. Ele te elege.”

“Mas eu não tenho dinheiro para comprar um jornal.”

“Isso não é problema. Você cria um fato que dê primeira página para dividir a opinião pública. Você vai ter a metade a teu favor, e metade contra. E você está eleito. Resolveu o problema.”

Nuzman não se elegeu.

 

Seus quatro avôs emigraram de um vilarejo próximo a Minsk, a capital da Bielo-Rússia. Começaram a vida brasileira na Baixada Fluminense, vendendo de porta em porta. Na geração seguinte, o pai já conseguiu se formar em direito e a mãe nasceu na Zona Sul. Carlos Arthur pôde, assim, crescer num apartamento espaçoso da rua Constante Ramos* e estudar no colégio Mello e Souza, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Jogava tênis e nadava. Essa infância que se anunciava mansa foi interrompida aos 10 anos de idade, quando ouviu gritos da mãe vindos do banheiro do apartamento. Ao acorrer, o menino se deparou com a mãe envolta por labaredas – vestida de um négligé de náilon, ela tinha riscado um fósforo para acender o aquecedor a gás, mas o palito escapou-lhe das mãos e caiu numa bacia de álcool. Houve uma explosão e o fogo se espalhou com violência. E o menino, em choque, fechou a porta do banheiro para poupar a irmã caçula da visão. A mãe chegou a ser hospitalizada, mas faleceu pouco depois.

“Quando me levaram para fazer análise, aos 12 anos, o consultório ficava no 8º andar de um prédio que existe até hoje, mas eu simplesmente saía correndo”, ele contou. A tentativa seguinte, a conselho de uma amiga da família, foi colocar Nuzman numa casa cheia de brinquedos, onde lhe foi permitido destruir todos, se quisesse, inclusive atear-lhes fogo. Entre outras sequelas, o desconforto com elevadores perdura até hoje. “Procuro entrar só quando já tem alguém dentro”, explicou. “Meu pavor são os elevadores ditos inteligentes, sem botões – saio na hora. Mas disfarço bem: assobio, olho para os lados como se não tivesse pressa, até aparecer algum outro passageiro. Não há Papai do Céu que me faça subir sozinho.”

 

A sede para onde o Comitê Olímpico Brasileiro se mudou em 2006, na Barra da Tijuca, tem apenas quatro andares. A sala da presidência fica no segundo. “Mas ali me sinto em casa, conheço bem, e subo sozinho”, esclareceu Nuzman. O prédio, alugado por 260 mil reais ao mês, é elegante e funcional. O 3º andar, reservado para o planejamento dos Jogos de 2016, ainda parece espaçoso e, sobretudo, silencioso. A calmaria é temporária. Os 52 profissionais que trabalham exclusivamente sobre planilhas de 2016 se transformarão, mais adiante, num formigueiro de 4 mil pessoas.

A foto de uma dama de cabelos grisalhos, elegante no trajar europeu, com um jovem quase sorridente a seu lado, enfeita a estante mais próxima da cadeira ergonômica do gabinete do presidente do COB. Apesar de o jovem da foto ser quase meio metro mais alto, é a mão da senhora, tocando-o de leve, que parece protegê-lo. “Minha avó foi minha mãe”, disse Nuzman, que tem 68 anos de idade. “Perdi meu avô em 1975, meu pai em 1988 e minha única irmã morreu de um câncer fulminante aos 50 anos. Felizmente, minha avó foi longeva.”

Ele se formou pela Faculdade Nacional de Direito, na turbulenta turma de 64, mas permaneceu ao largo da efervescência política. “Não houve cobrança”, disse. “Todos sabiam do meu envolvimento com o esporte e eu tinha amigos dos dois lados.” Atacante promissor da Seleção Brasileira de Voleibol, Nuzman relembra os anos de agitação pelo filtro do esporte: 1962 foi o ano do Mundial na União Soviética, em 1963 houve o Pan-americano de São Paulo e, em 1964, participou de sua primeira Olimpíada, a de Tóquio.

Data daquele período o que talvez seja o “marco zero” da formação pessoal do futuro dirigente: foi soldado do Exército por um ano inteiro. Como era de praxe, apresentou-se no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. Por cursar a faculdade e não haver vaga para todo mundo, estava certo que passaria a reservista de terceira categoria. “Só que malandros como eu tinha aos montes, e acabou todo mundo sendo mandado para a tropa”, explicou.

O tom com que relembra a vida de caserna é de inconfundível empolgação. “Eu servia no Forte Duque de Caxias, no Leme, 2ª Bateria de Obuses e ia para o quartel de bonde às quatro e meia da manhã. “Fiquei aquartelado um ano, dava serviço à noite, apartava briga em padaria, saía em missões no interior, aprendi a costurar, a engraxar coturno, portar capacete e baioneta calada, fiz todos os serviços e convivi com uma realidade que talvez tenha me influenciado a não me meter nas questões políticas da época”, disse. “Cheguei ao Exército como um jovem medroso, incapaz de tomar decisões, e o Exército me meteu uma arma na mão e confiou em mim. Para um sujeito que não conseguia assumir qualquer responsabilidade, foi um passo enorme. Sou muito grato.” E acrescentou com orgulho: “Ah, e nunca fui punido.”

Até hoje, Nuzman trabalha melhor quando acorda de madrugada. Embora saiba atirar, nunca teve arma nem pretende ter e não anda com segurança. O dispositivo mais incrementado de sua Pajero blindada é um longo trilho que mandou instalar sob o banco da frente para não ter de dobrar um joelho capenga.

 

Bernard Rajzman criou a arma mais letal da “Geração de Prata” do vôlei brasileiro, o saque Jornada nas Estrelas, que se perdia nas alturas do ginásio e despencava sobre o lado do adversário com efeito demolidor. Ele estreou nas quadras aos 13 anos, quando Nuzman estava parando de jogar. A partir de então, as carreiras deles se entrelaçaram, mas com a trajetória traçada por Nuzman.

Bernard jogou o primeiro Pan-americano em 1975, no México, quando Nuzman estreava como presidente da Confederação Brasileira de Voleibol. Em 1977, Nuzman preparava o primeiro Campeonato Mundial Juvenil de Vôlei, a ser realizado no Rio, e o Botafogo, que por onze anos consecutivos se sagrava campeão carioca, se preparava para disputar a final contra o Fluminense. Nuzman baixara a norma de que nenhum atleta poderia jogar pelo seu clube enquanto treinasse na Seleção.

Bernard conta que Francisco Horta, ex-presidente do Fluminense o chamou e disse: “Meu filho, vem cá. Garanto que, se você jogar, não vai acontecer nada. Sou advogado e sei dessas coisas. Você vai fazer a diferença, e benefícios virão.” O Fluminense de fato venceu. “A festa foi de arromba, o mimo que recebi foi graúdo para um garoto de 17 anos”, disse Bernard. No dia seguinte, Nuzman o cortou do Mundial no Brasil. “O torneio teve transmissão pela televisão para o mundo! E eu fiquei na arquibancada”, relembrou o atacante, apontando para a foto do seu exílio num dos livros de memória olímpica.

Lição aprendida. Ele foi convocado para a Seleção adulta e brilhou no Mundial de Roma de 1978. Primeiro jogador de vôlei brasileiro a ser contratado como profissional na Itália, apontou o caminho seguido por William, Montanaro, Badá e outros grandes. Bernard manteve-se nas quadras por dezessete anos.

No mesmo período, Nuzman projetou-se com a imagem de dirigente inovador e operoso. Apoiado pelo empresariado, que injetou dinheiro na montagem de times potências (Atlântica/Boa Vista, Pirelli, Supergasbras, Fiat), criou um campeonato brasileiro de alto nível. Secundado na Confederação por Ary Graça, seu silencioso escudeiro, fez o Brasil apaixonar-se pelo vôlei, que invadiu as transmissões de televisão, deu visibilidade aos patrocinadores, além de fama e fortuna aos jogadores.

O próprio Nuzman, que na vida pública sempre soube se posicionar na foto, mas mantém um estilo reservado de vida privada até hoje, teve o seu momento de celebridade. “Exclusivo: Marta Rocha, um novo mas verdadeiro amor”, anunciou a revista Manchete no final de 1980. Até então, ninguém sabia quem era “o cavalheiro louro, alto e de olhos azuis” visto com frequência ao lado da eterna Miss Brasil. A revista revelou que não se tratava de um desconhecido: “É Carlos Arthur Nuzman, advogado, presidente da Confederação Brasileira de Vôlei, ex-titular das seleções brasileiras e cariocas de voleibol, ex-jogador do Botafogo e Fluminense, e considerado por Ana Maria Tornaghi, amiga do casal, ‘um bom partido, que resistiu a vários envolvimentos amorosos antes de conhecer Marta.’” Na capa da revista, o casal maravilha.

Nos bastidores, o estilo Nuzman de comandar se assentava aos solavancos. A começar pela sua primeira reunião para a escolha do técnico da Seleção, ainda em 1975. “Reuni a diretoria, eu fresquinho no cargo, e anunciei que deveríamos escolher um técnico para nos tirar do 15º lugar que ocupávamos no ranking mundial”, relembrou meses atrás, quando sua agenda apontava para o número de semanas que faltam para a sexta-feira, 5 de agosto de 2016, dia da cerimônia de abertura dos Jogos no Maracanã. “Só que ganhou um técnico horroroso e me deu pânico. ‘Olha’, falei, ‘vocês vão me perdoar, mas no sistema presidencialista é o presidente que resolve, e o técnico vai ser o Feitosa [o carioca Carlos Eduardo Albano Feitosa]. Agradeço muito a opinião de vocês e espero que me apoiem. Vai ser o Feitosa’. Ou você dá o tom no início, ou não dá mais”, concluiu.

 

Na metade de sua permanência de vinte anos à frente da cbv, outra decisão radioativa. O Brasil disputava em Brasília o Pré-Olímpico para os Jogos de 1988, em Seul. Ainda na fase dos amistosos o clima ficou pesado entre os jogadores e o técnico da época, levando Nuzman a se reunir a portas fechadas com os doze atletas e o desafeto da equipe. “Todos na sala. Eu nunca tinha visto onze jogadores ficarem contra um técnico, com apenas um atleta a favor. Fiquei do lado do técnico para a competição e enfrentei o risco de um motim. Perdemos de 3 a 0 para a Argentina logo no primeiro jogo. Às vezes você é obrigado a trabalhar no fator tempo”, concluiu dessa vez.

O motim de verdade, que explodiu no ano olímpico de 1988, veio acompanhado de um manifesto assinado por todos exigindo a saída de Young Wan Sohn, o técnico sul-coreano convidado pela CBV. Coube a Bernard a tarefa de entregar a Nuzman a carta que acabaria vazando na imprensa. Foi visto como o líder do movimento quando na realidade, faz questão de frisar, estava mais empenhado em mediar. “Moral da história: partimos para um confronto direto, Nuzman e eu, gravado pela TV Globo, e o episódio continua trancado a sete chaves até hoje – nenhum dos dois jamais vai botar para fora tudo o que aconteceu entre nós”, disse Bernard. Moral da história 2: Nuzman desconvocou o time todo e manteve Sohn no comando. Só o substituiu um mês antes do início dos Jogos em Seul, com a reconvocação da Seleção demitida – à exceção de Bernard, que parou de jogar no ano seguinte e foi ser secretário nacional de Esportes no governo Collor.

Ainda assim, Bernard tinha motivos para se imaginar delfim de Nuzman na Confederação, quando este acedeu à presidência do Comitê Olímpico Brasileiro, em 1995: fora um prodígio nas quadras (viria a ser o primeiro brasileiro indicado para integrar o Hall da Fama do vôlei mundial em Massachusetts, Estados Unidos, em 2005), tinha trânsito fácil na esfera federal e estadual (duas vezes deputado estadual, ajudou várias confederações a se tornarem de utilidade pública), sabia fazer o meio de campo, mesclava astúcia com leveza. Sobretudo, sempre se manteve leal ao comandante, apesar dos solavancos. Nuzman ungiu Ary Graça Filho, o craque em gestão que fora seu vice-presidente até 1983.

 

Por ofício, o jornalista Claudio Motta acompanha a trajetória de Nuzman há onze anos – primeiro como assessor de imprensa da Confederação de Vôlei e agora no COB, como funcionário do Grupo Textual, da qual a entidade é cliente há quinze anos. Profissional seguro, Motta dá a receita para quem pretende ter vida longa com o chefe, cujo estilo de comando ele define como “solta a corda, estica a corda”: “Sair de foco quando vai sobrar para quem estiver na frente, e procurar não dar mole, trabalhando bem.” A seu ver, Carlos Nuzman chegou aonde chegou pela capacidade de decifrar o que lhe é útil, de ver o que ninguém enxerga. Para ilustrar seu ponto de vista, lembra da insanidade que foi sediar de emergência os 7º Jogos Sul-Americanos de 2002 quando Bogotá teve de desistir em cima da hora. A equipe de Nuzman, arregimentada no laço, ficou alarmada além do habitual. “Ele está louco” era a frase corrente. Já Nuzman viu na empreitada “uma oportunidade” de mostrar a seus pares olímpicos que ele entrega a mercadoria. O evento foi montado em três meses, com competições em quatro cidades: Rio, São Paulo, Belém e Curitiba. Deu certo.

A indicação do advogado Ary da Silva Graça Filho para sucedê-lo na Confederação de Vôlei deu mais certo ainda – talvez até demais para os especialistas em ciumeiras nos esportes. Embora também seja um veterano das quadras, “Aryzão” é dono de uma biografia mais eclética. Ex-seminarista porque não tinha dinheiro para estudar no colégio Santo Inácio, do Rio de Janeiro, acumulou mais de meia dúzia de graduações em história, marketing, administração, matemática financeira, além de pós-graduações no exterior. Durante sete anos, foi homem de confiança absoluta do economista e diplomata brasileiro Roberto de Oliveira Campos. “Ele me chamava de piá, porque eu tinha só 26 anos quando ele quis me fazer diretor do banco. Nossos diálogos eram mais ou menos assim:

“O que é, piá?”

“Tem um probleminha, professor…”

“Você não sabe que em sala de presidente não se traz probleminhas, só soluções?”

Ou então:

“Professor, o senhor está bastante endividado…”

“Quanto?”

“Dois milhões de dólares.”

“Ah bom, então quem vai estar intranquilo são meus credores, porque não vou pagar.”

Ary Graça também trabalhou muitos anos no Banco Mercantil de São Paulo – “Fui o principal puxa-saco do Dr. Gastão Vidigal”, diz ele – antes de se tornar presidente do grupo Supergasbras. Autor de cinco livros, esse bancário e banqueiro brinca que não aguentava mais ganhar tanto dinheiro quando Nuzman o convocou para assumir o vôlei brasileiro. Em poucos anos, deixou a Confederação nos trinques, transformando-a na primeira entidade esportiva do mundo a ter um certificado ISO 9000:2001. E como máquina de ganhar títulos dentro das quadras, continua a pleno vapor.

Sua definição do amigo que conhece desde os 11 anos de idade: “Nuzman tem cabeça de estadista, ele não perde o rumo, costura. Suas ações estão sempre voltadas para um objetivo lá na frente. Tem uma capacidade de trabalho absurda. É difícil que uma pessoa obstinada com missão tão determinada venha a falhar.”

Tão astuto quanto irreverente, Ary Graça não demorou a perceber quando um dos membros de uma das entidades esportivas presididas por Nuzman passou a bajular o chefe. “Esse cara ainda vai te trair”, alertou Graça. Antes da assembleia seguinte, mandou confeccionar uma gravata azul, estampada com o rosto de Nuzman, e foi para a reunião. Pediu a palavra, abriu o paletó e bradou: “E aí [citando o nome do bajulador], não admito alguém puxar mais o saco do Nuzman do que eu!” A gravata está guardadinha.

 

Para quem preside a realização de um evento complexo como uma Olimpíada, cada período de 24 horas a menos na contagem regressiva deve zerar pelo menos uma entre as milhares de tarefas programadas. A perspectiva de ser surpreendido por algo novo, e ainda por cima desastroso, é indigesta. Sobretudo quando numa das pontas está Nuzman, cuja aversão a improvisações, desatenção e erros desnecessários é quase epidérmica.

Foi numa sexta-feira, 29 de janeiro passado, que a professora doutora Katia Rubio, da Universidade de São Paulo, retornou das férias para cair no verão abafado da cidade. Ao chegar à faculdade, havia um envelope com a logomarca do COB à sua espera. Sendo ela uma estudiosa da psicologia do esporte, autora e organizadora de vários livros, integrar o corpo docente da Escola de Educação Física e Esporte e contar com o apoio de agências oficiais como a Fapesp e o CNPQ para suas pesquisas, imaginou que pudesse se tratar de algum convite envolvendo as atividades da entidade.

Era uma notificação extrajudicial datada de 15 de janeiro, assinada pelo vice-presidente André Richer, alertando-a quanto ao “uso não autorizado de marca e símbolo olímpico em livro intitulado Esporte, Educação e Valores Olímpicos”. Entre as regras elencadas no ofício de quatro folhas lia-se:

Uso dos termos “Olímpico, Olímpica, Olimpíada, Jogos Olímpicos” e variações são, na forma do artigo 15, parágrafo 2, da lei 9.614 (Lei Pelé) e do Regulamento nº 1.2 das Regras nº 7 a 14 da Carta Olímpica do COI, de uso privativo do Comitê Olímpico Brasileiro no território brasileiro.

Outro trecho se referia à estilização, na capa do livro, do símbolo olímpico constituído pelos cinco anéis entrelaçados, e citava o artigo 189 da Lei de Propriedade Industrial (lei nº 9.279/96): “Comete crime […]. Pena: detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.” À vista do exposto, a autora devia recolher todos os exemplares e garantir por escrito, num prazo de dez dias, a intenção de acatar a carta-notificação.

A professora, filha de um metalúrgico-ferramenteiro do velho Partido Comunista Brasileiro e mãe de um universitário de 19 anos, passou a mão no telefone em busca de orientação jurídica. Dentre os quase 300 mil causídicos registrados em São Paulo, a escolha recaiu sobre um que ela conhece há seis anos: Alberto Murray Neto, justo o inimigo mais visceral do Comitê Olímpico Brasileiro de Carlos Nuzman. Neto do major Sylvio de Magalhães Padilha, que ocupou a presidência do COB durante 27 anos (entre 1963 e 1990), Alberto Murray mantém um blog de combate radioativo contra os Jogos Olímpicos do Rio e contra a permanência de Nuzman na presidência da entidade. Seu blog também serve de confluência para o caudal de denúncias envolvendo o esporte e o descontentamento entre atletas. Não tardou, assim, para que o caso Katia Rubio adquirisse existência viral na internet. Tampouco faltou uma carta aberta de Alberto Murray ao presidente da República.

“Vários colegas me escreveram, inclusive dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver. Nuzman estava lá e foi onde tomou ciência do caso, do qual parece que não tinha conhecimento até então”, contou Katia Rubio. De fato, foi somente ao desembarcar em solo pátrio que Nuzman se embrenhou na genealogia de tamanha inépcia. Primeiro, o reparo: no mesmo dia ditou e assinou uma carta à autora, esclarecendo que o COB “não adotará qualquer medida judicial ou extrajudicial contra V.Sa., e vem expressamente autorizar a publicação e circulação do livro…”.

Reparo condescendente, em tom soberano, visto que a carta não contém vestígio de pedido de desculpas. “O homem chegou querendo matar uma pessoa”, confidenciou alguém da casa.

 

Sessenta e quatro anos atrás, em Los Angeles, episódio semelhante foi encerrado de forma bem mais saborosa. Após também receber uma longa notificação extrajudicial do estúdio Warner Brothers por violação de lei de propriedade autoral, o inigualável Groucho Marx esmerou-se na resposta. Uma seleta dos trechos mais memoráveis, publicada na ultima edição da revista literária Lapham’s Quarterly:

Queridos Warner Brothers,

Pelo visto, há mais de uma maneira de se conquistar uma cidade e torná-la sua propriedade. Até recentemente, quando começamos a planejar as filmagens de Uma Noite em Casablanca, não tinha ideia de que a cidade de Casablanca pertencia exclusivamente à Warner Brothers.

Mesmo que vocês cogitem relançar o filme de vocês, acho que o espectador comum conseguiria distinguir, em tempo hábil, Ingrid Bergman de Harpo. Não lhes garanto que eu conseguirei, mas prometo me esforçar.

Vocês sustentam ser donos de Casablanca e que ninguém pode usar esse nome sem autorização expressa de vocês. Mas e Warner Brothers? Também é propriedade de vocês? Acho provável que vocês tenham o direito de usar o nome Warner, mas e Brothers? Profissionalmente, nós fomos irmãos muito antes de vocês…

Suspeito que essa tentativa de nos impedir de usar o título brotou de um asno que quer fazer carreira no seu departamento jurídico… Mas não permitiremos que um aventureiro dessa raça cause discórdia entre os Warner e os Marx. Somos todos irmãos sob a mesma pele.

 

Durante um almoço num restaurante da Barra da Tijuca, e já de saída para nova viagem, Nuzman encerrou o episódio do livro de Katia Rubio de forma cortante: “Foi malfeito, foi errado e desnecessário. Um tiro no pé, fogo amigo. Quanto mais você cresce, mais você entra em área de risco. A partir de agora nada sai daqui [do COB] sem primeiro passar pelo crivo do Sergio Mazzillo, meu advogado.”

E designou Bernard para dar um telefonema de cortesia à professora em São Paulo. Bernard Rajzman novamente na órbita de Nuzman? Sim. Convidado a integrar o COB como membro da Assembleia em 1996, o ex-atleta define com bonomia sua condição. “Sou voluntário, não tenho sala e venho aqui à hora que quero e quando posso. Minha função é ser coringa e para-raios.” Perde seu tempo quem acha esse arranjo por demais esdrúxulo num país que pretende acelerar a ainda insípida profissionalização de quadros administrativos no esporte.

Bernard empilha títulos – já é presidente da Comissão de Atletas do COB e vice-presidente da Academia Olímpica Brasileira –, aceita tarefas coalhadas de pepinos como chefiar a delegação de 700 integrantes aos Jogos Sul-Americanos de Medellín, e toureia uma média de vinte pedidos de embaixadores estrangeiros para uma audiência com Nuzman. “O mundo inteiro quer uma casquinha de 2016”, diz o coringa, “e não estou nem falando de governadores, prefeitos, vereadores, deputados à espera de uma brecha.” Dá-se por satisfeito com as diárias de 100 dólares que recebe quando está no exterior a serviço do COB, e em viajar de classe executiva. Tendo feito seu pé-de- meia em três temporadas como jogador na Itália, além de vinte campanhas de comerciais de televisão no Brasil, considera-se estabilizado financeiramente. Difícil encontrar alguém menos estressado do que ele nos quatro andares do COB.

Em compensação, durante quatro longos meses, a confiança que sempre empurrou Carlos Arthur Nuzman a não ver impedimento nem limite para as suas metas, quase foi a pique no início de 2010. Em meio às festas do final de 2009 e à tropelia nacional do período de férias, poucos notaram o seu prolongado sumiço das páginas dos jornais, onde tinha presença cativa desde que o Rio virara Rio 2016. O motivo da hibernação tinha nome e sobrenome: Carlos Roberto Osório. No retorno ao país em outubro, recém-retornados de Copenhague, o seu braço direito e secretário-geral da candidatura vitoriosa confidenciou-lhe que precisava refletir se queria permanecer a bordo durante os próximos sete anos. Nuzman percebeu rápido o tamanho da encrenca e se fechou em copas. Teve de aguardar com impaciência crescente uma decisão que ameaçava desconstruir o trabalhoso organograma do Comitê Organizador – que como tudo que se refere às várias etapas de uma Olimpíada, precisa seguir um calendário rigoroso se não quiser fracassar.

Dezembro chegou e passou. Janeiro também. Somente às vésperas de embarcar para os Jogos de Inverno de Vancouver, em fevereiro, recebeu a temida negativa. O anúncio oficial teve de ser feito e surpreendeu meio mundo, pela desistência de Osório ocorrer apenas quatro meses depois da festejada vitória carioca na escolha das sedes. Segundo norma do COI, todas as nomeações para os cargos-chaves do Comitê Organizador precisam ser comunicados à sede em Lausanne. E se tem um foro que o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro respeita, teme e venera é o dos cardeais do esporte aquartelados na Suíça. “Vivemos um clima muito pesado que só foi se desanuviar em maio”, admitiu Nuzman.

 

Mesmo sem ter uma recaída aos níveis de destempero que marcaram sua presidência na Confederação de Vôlei, ele nunca conseguiu domar por completo seus lendários rompantes. “Ele não segura as contrariedades e eu mesmo já fui alvo várias vezes de seus destemperos”, admite com naturalidade o homem-forte da nova configuração do CO-Rio 2016, Leonardo Gryner. “Em contrapartida, nada fica enrustido com Nuzman, sabotando a relação. Você sabe imediatamente onde está pisando. É ‘não gostei’, ‘está tudo errado’, e ponto.” Paradoxalmente, mesmo quem é fulminado em público por alguma de suas temidas descargas verbais, raras vezes deixou de superar a mágoa.

“Eu não sou autoritário, apenas exerço a autoridade”, gosta de repetir o discípulo de Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange, de quem costuma emprestar a frase. Há divergências.

Em plena manhã do feriadão da Sexta-Feira Santa, 2 de abril, Carlos Roberto Osório sentou-se na última mesa ainda livre do varandão, hoje desativado, do restaurante Garcia & Rodrigues, no Leblon. Estava sozinho, vestia calças jeans, uma camisa esporte listrada tão atípica que parecia sequer lhe pertencer, e deixara a barba para fazer mais tarde. Para quem se habituou a vê-lo sempre enfiado no mais impecável figurino de executivo que a ocasião demandava, foi difícil reconhecê-lo de imediato naquele espaço ruidoso e superlotado. Recapitulou seus últimos cinco anos de COB e a decisão de jogar fora a cintilante carreira de executivo olímpico ao lado de Nuzman. “Sou a única Greta Garbo que foi parar no Irajá e está achando ótimo”, resumiu ao final.

Aos 44 anos, trocou a projeção mundial e a ascensão garantida que os Jogos de 2016 lhe assegurariam, dentro ou fora do olimpismo, por um posto sem qualquer charme aparente na Prefeitura do Rio, um salário inicial por volta dos 17 mil reais (“Mais 2 mil reais como presidente do Conselho de Administração da Comlurb”, acrescentou ele), o título de secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos e muito trabalho miúdo, porém muito útil na vida do morador carioca. Ao se despedir para subir a serra e passar o resto do feriado com a filha de 12 anos, pareceu contente. E lembrou que certa vez lhe perguntaram se ele tinha vendido a alma para o Diabo, ao trabalhar de forma tão insana durante dois anos na caça aos votos dos 112 eleitores do COI. “Não”, respondeu à época e reiterou na saída do restaurante, “vendi a alma por um sonho.”

Dois meses atrás, em meio a uma conversa que já durava mais de uma hora, Carlos Nuzman se ajeitou várias vezes na cadeira ao ter de responder a uma pergunta totalmente fora da pauta. Pergunta capciosa, sobretudo pela forma direta e sem escape possível. “Quem são seus melhores amigos de sempre?”

“…Nunca me fizeram essa pergunta… Nunca pensei nisso…”

A pergunta lhe foi reformulada: “Com quem o senhor pularia de um precipício de olhos fechados?”

(mais pausa) “…O Havelange certamente é um deles …eu acho que têm alguns …tem de ser no Brasil? …acho que o Leonardo Gryner …o Sergio Mazzillo, meu advogado e colega de tantos anos …Só podem ser três?”

Menos de duas horas mais tarde, a jornalista recebe uma ligação de Nuzman. “Me dei conta de que ficaram faltando os nomes de Ary Graça, Coaracy Nunes [presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos] e Roberto Gesta [presidente da Confederação Brasileira de Atletismo].” Passadas algumas semanas, na mesma sala de reunião em que foi feita a pergunta inicial, Nuzman pergunta novamente se a repórter não se esqueceu de anotar o nome de Coaracy – dentre todos os citados, provavelmente o único capaz de cogitar pular num precipício por alguém. “Coaracy é coração puro, não tem cabeça”, costuma dizer o pragmático Ary Graça. Para o dirigente do vôlei, fazer caber um círculo de velhas amizades numa vida de busca tão focada e intensa como a de Nuzman é, de fato, complicado. “O cara pode até ter uma vida social contínua. Mas amigo, amigo mesmo, daqueles de chamar para consolar, acho que no caso dele não passam de dois ou três.”

Coube a Claudio Motta, o assessor de imprensa que o acompanha há mais de uma década, o palpite de que Nuzman talvez venha a ser salvo algum dia por um amigo de quem já não se recorda.

Nuzman, por outro lado, se lembra com detalhes surpreendentes de boa parte dos colaboradores e funcionários que já provaram da cultura personalista do COB. Indagado se a rotatividade de seu plantel de secretárias era alta (não é), Carlos Nuzman se pôs a falar sobre o dia em que Sonia Almeida, “filha de um modesto pedreiro português” veio se candidatar a uma vaga de secretária, mais de vinte anos atrás. Sonia, que hoje ocupa o segundo cargo mais alto da Diretoria de Esportes dos Jogos, após ter se formado em letras e direito, confirma: “Lembro que por insegurança e ansiedade fui para a entrevista de vestido de manga comprida e que quando vi todas aquelas garotas do vôlei de sainha curta e sandálias de uma brancura que eu nunca tinha imaginado, pensei, ‘já dancei’.”

O dirigente ensinou a Sonia algo difícil de ser transmitido: a capacidade de não ceder ao pânico diante do surgimento de problemas ou imprevistos. Para quem vai organizar o equivalente a 32 campeonatos mundiais de 32 modalidades esportivas ao mesmo tempo, num espaço de tempo de dezesseis dias, é um ensinamento crucial.

Nuzman acredita que seu estilo de chefia faz aflorar qualidades e talentos muitas vezes hibernados. Só que não raro ninguém sabe o que vai acontecer até o momento em que ele sobe ao palco e se dirige aos fiéis. “No Comitê reina um fantasma: ‘O Nuzman não gosta’”, admite o próprio. “Hoje em dia, procuro ser mais flexível e sempre apresento argumentos – se eu não tiver nenhum, me curvo, até por instinto de advogado. Só não quero ouvir que algo está errado sem que me apontem uma solução. Ou, no mínimo, uma ideia. Não podemos perder tempo.”

 

Exatamente seis anos atrás, em novembro de 2004, faltando dois anos e meio para a cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, Nuzman foi submetido a uma cirurgia cardíaca de emergência no Hospital Samaritano. Dissecção da aorta. Não bastasse o confronto com o risco de morte, cujas sequelas permanecem latentes muito além da recuperação física, Nuzman teve quase cinco meses de ausência forçada da linha de frente. Por mais que a continuidade da organização estivesse sendo assegurada por Carlos Roberto Osório e Leonardo Gryner, o impacto sobre o dirigente autotreinado para liderar pode não ter sido percebido de imediato. Nuzman nunca deixa de evocar a Operação Entebbe de 1976, ação militar israelense que libertou mais de 200 reféns no aeroporto do Uganda*, e na qual apenas um militar morreu: o comandante da operação, Yonatan “Yoni” Netanyahu, irmão mais velho do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “Comigo as estratégias para as grandes conquistas dão certo porque sou um dos sobreviventes”, acredita Nuzman*. “O bicho voltou outro”, contou meses atrás um de seus amigos.

Desde então, o dr. Mauricio Vaisman aprova todas as suas viagens, que não são poucas. Somente para a campanha que antecedeu a escolha do Rio para 2016, foram dezenove voltas ao redor do mundo. Com o plano de voo em mãos, o médico define em qual escala o paciente deve descansar, onde ele deve dormir, qual assento deve ocupar nos vários tipos de aeronaves. Nuzman, por seu lado, jamais embarca sem um relatório médico em inglês e francês, além de um CD com as imagens da cirurgia. Meias de compressão passaram a fazer parte de sua bagagem e, em 95% de seus deslocamentos, tem a companhia de mais alguém do COB, em missão de trabalho, ou de sua mulher, a jornalista Márcia Peltier. Carlos Arthur Nuzman precisa estar em forma para a longa travessia até a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio.

Por definição, a realização de uma Olimpíada não tem proprietário. Contudo, para Nuzman, que estará postado como ele gosta no centro da tribuna de honra do Maracanã, talvez será difícil expulsar do íntimo uma sensação de autoria. É provável que jamais consiga traduzir a dimensão dessa sensação. Carina Almeida, a diretora da agência de comunicação que tem por função saber traduzir os feitos e sonhos de seus clientes, saiu-se com uma comparação não de todo fora do alvo:

“Talvez seja parecido com o que um presidente sente quando consegue fazer a paz.”

E a partir da manhã do dia 22 de agosto de 2016?

“Não tem muito mais, não é?”, indaga Nuzman, pensativo. “Não consigo pensar em nada para depois. O COI veta idade… mas vou continuar sendo membro honorário, com todos os benefícios. Só não vou poder votar.”

Leonardo Gryner, mais prático e pragmático, devolve Nuzman para o mundo dos mortais: “Se ele sair senador pelo Rio, vai ser eleito de barbada.”

*Correção em relação à versão impressa.



Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012