cartas

No que dá se meter a falar de eleição e de Santos Dumont

AÉCIO NA VITRINE

Gostaria de parabenizar Malu Delgado pela matéria “O público e o privado”, sobre Aécio Neves (piauí_93, junho). Sabemos que a candidatura dele à Presidência da República é um plano antigo, e a oscilação do candidato foi bem apresentada. Mas, como eleitores, precisamos considerar seu lado “alegre e descontraído” e sua mania de evitar assuntos polêmicos. Ele se compara a uma mãe “que fica em casa, preparando a macarronada, […] a mãe real”, quando perguntado sobre o uso de cocaína. Em vez de responder sobre a política de drogas – tema de grande importância atual – do seu possível governo, responde sobre a sua vida “digna e honrada”. Ora, alegria, descontração e vida honrada não me parecem atributos essenciais ao cargo de presidente. Qual diálogo seria possível com grupos que reivindicam os direitos das mulheres e questionam as relações da sociedade com as drogas?

Destaco ainda a ideia do presidenciável de que não ganhar a eleição seria muito bom para ele próprio: o que, aparentemente, é um anúncio de sacrifício pessoal em nome da nação me parece mais, depois de ler a matéria atentamente, o desdém retratado na conhecida fábula da raposa que rejeita as uvas dizendo que estão verdes – como quem afirma que nem queria mesmo aquele objetivo inicial.

Há quem fale do amadurecimento político do candidato, o que questiono muito, pois sou mineira e vivo no estado há trinta anos, acompanhando suas ações públicas. Se suas preocupações são os laços familiares, o mestrado em Harvard, pegar ondas, e não os problemas sociais e econômicos que o Brasil enfrenta, talvez fosse melhor priorizar sua vida pessoal, e não a política.

TULÍOLA ALMEIDA_BELO HORIZONTE/MG

Escrevo este e-mail já como ex-assinante da revista e venho relatar o motivo de cancelar minha assinatura. Assinava piauí havia um ano e sempre gostei dos temas debatidos, até me deparar com a desagradável biografia de Aécio Neves na capa. A proposta de piauí nunca foi ser política como Veja, CartaCapital e outras, mas pelo visto a redação da revista anda querendo fazer campanha a favor do candidato para as próximas eleições.

É claro que o Grupo Abril sempre fez e sempre fará campanha a favor de quem mais gera lucro para suas publicações, o que nesse caso é o PSDB de Aécio Neves. Não vou nem comentar o cerceamento à liberdade de imprensa que o Aécio Neves promove em meu estado. Eu não quero ler matérias tentando desmentir o fato de que o Aécio Neves é um playboy de má índole (com vários casos notórios de abuso de álcool e drogas aqui em Belo Horizonte), e que está gastando uma fortuna para tentar reverter a má fama que tem pelo país afora em uma revista que sempre teve o intuito de discutir cultura e não política.

Fica registrada minha indignação em relação à posição partidária da revista. Resumindo, esta é mais uma das matérias compradas pelo Aécio Neves, com excesso de adjetivos e bajulações. Por favor, não tratem seus leitores como ignorantes políticos; a proposta desta publicação é exatamente atender leitores mais bem informados.

SERGIO TEIXEIRA AMZALAK_BELO HORIZONTE/MG

Se uma parte considerável dos eleitores fosse leitora de piauí, Aécio não se elegeria nem para síndico.

JOSÉ ANÍBAL SILVA SANTOS_TEÓFILO OTONI/MG

Sei que estou sendo preterido pela piauí em meus comentários, mas, como missivista contumaz, arrisco mais esta carta. A bem estruturada reportagem de Malu Delgado (“O público e o privado”) sobre Aécio Neves mostra que herança política, apenas, não basta para formar o caráter de uma pessoa. Poeticamente, Tancredo poderia até arriscar que “não teve filhos, sonetos”, mas não é o caso. A oposição ao PT teve a chance quatro e oito anos atrás de lançar esse playboyzinho como candidato, mas insistiu em alquimia serrana, fadada, como se soube, ao insucesso. Da mesma forma, agora, não vinga o discurso do bom-mocismo sem propostas, como se vê ao longo das nove páginas do texto.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_LORENA/SP

Antes da regulamentação da Emenda 29, cabia aos Tribunais de Contas avaliar e aprovar as despesas executadas pelos governos estaduais na área da saúde. Diversos estados adotaram o mesmo procedimento do Governo de Minas, ao considerar investimentos feitos pelas empresas públicas estaduais em saneamento, com recursos próprios, como gastos em saúde. O Estado nunca afirmou que os recursos foram transferidos do Tesouro para o caixa da Copasa, mesmo porque se trata de operação impossível de ser realizada. A informação de que se tratava de recursos próprios da Copasa consta, inclusive, de documentos públicos da época.

Sobre recurso feito pela promotora Josely Ramos, decisão judicial tomada em 11 de junho (depois da publicação da reportagem) foi contrária, mais uma vez, aos argumentos apresentados.

Lamentamos, ainda, que tenha sido desconsiderado o vídeo A verdade sobre a Imprensa em Minas, no qual jornalistas refutam a edição feita de depoimentos dados ao estudante Marcelo Baêta em vídeo veiculado na campanha eleitoral do PT em 2006.

Por fim, registramos o fato de que a única fonte externa ao governo ouvida sobre equilíbrio financeiro alcançado por Minas, conhecido como “Déficit Zero”, tenha sido um integrante da equipe responsável pela decretação da moratória do Estado.

MARCUS PESTANA_PRESIDENTE DO PSDB DE MINAS GERAIS/MG

NICOLELIS E O 14-BIS

Li duas vezes a matéria “O voo de Nicolelis” (piauí_93, junho), do Stefano Pupe. Não entendi. Quero dizer que não entendi o que Pupe quis dizer. Ficou uma vaga sensação de que, seja o que for que Nicolelis está fazendo, não deveria. Nicolelis estaria tentando enganar a humanidade à medida que tenta nos fazer crer que só ele e mais ninguém pesquisa e trabalha com este projeto do exoesqueleto? Já havia outros pesquisadores fazendo esse trabalho, e portanto não seria necessário investir nessa área?

Milhares de cientistas e outras pessoas estão neste momento trabalhando e aperfeiçoando a mesma coisa. Alguém vai levar a fama. Se for brasileiro não pode? É aquele complexo? Acho que Pupe também gastou uma página fazendo o mesmo que muita gente faz. E daí? Eu só perdi meu tempo. Ele poderia nos ter falado de alguma pesquisa que esteja fazendo, por exemplo.

DILAMAR SANTOS_FLORIANÓPOLIS/SC

12 de novembro de 1906: Em pé, preso numa pequena cesta, com as mãos e os pés ocupados operando os controles, e o corpo ligado aos ailerons nas asas, Santos Dumont decolou com o 14-Bis e voou 220 metros em 21 segundos. Seu voo foi realizado diante de uma comissão de especialistas e do público e anunciado com antecedência. É o primeiro voo homologado da história da aviação e o voo inaugural da era da aviação.

12 de junho de 2014: Diante de um público de milhares de espectadores, Juliano, vestido com estranho aparato, dá um tímido chute numa bola durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo. O invento de Miguel Nicolelis, graças ao “padrão Fifa”, praticamente não foi visto nem pelos presentes no estádio, que estavam aguardando o chute inicial do jogo Brasil x Croácia, nem pelos milhões de espectadores que haviam assistido ao decepcionante show de abertura do evento.

As demonstrações científicas de protótipos muitas vezes se apresentam aos não iniciados de forma frustrante. Um exemplo é o invento de Michael Faraday, que, em 1821, apresentou um estranho aparato constituído por uma haste de metal suspensa sobre um recipiente cheio de mercúrio, tudo ligado a uma pilha rudimentar. O invento do físico era o protótipo dos motores elétricos que passaram a fazer parte da vida de todos.

Em 14 de outubro de 1905, foi criada a Federação Aeronáutica Internacional, nos moldes do Comitê Olímpico, e definiram-se os critérios que seriam adotados para se considerar que um aparelho voador mais pesado que o ar fosse considerado um avião. Esses critérios baseavam-se em alguns elementos: o voo deveria ocorrer sem o auxílio de qualquer ajuda do vento, da gravidade ou de outro aparato qualquer, na presença de uma comissão de especialistas previamente convocada ou diante do público.

Dias após a criação da FAI, em 16 de outubro, os irmãos Wright, Wilbur e Orville, anunciavam que interromperiam seus ensaios. Desde 17 de dezembro de 1903, eles diziam ter conseguido resolver o problema do voo do avião. De fato, naquela data haviam realizado um voo com o Flyer na praia de Kill Devil, nos Estados Unidos, de 300 metros e 59 segundos de duração. O voo foi realizado com um vento de mais de 30 quilômetros por hora que permitiu ao Flyer despregar-se do chão. No ano seguinte já estavam voando vários quilômetros, sempre necessitando de alguma ajuda externa: vento ou catapulta. Todos os seus ensaios foram realizados sem a presença de uma comissão de especialistas, não foram anunciados com antecedência e as poucas testemunhas não tinham conhecimento para analisá-los. E eles não haviam divulgado nenhuma informação sobre seu invento.

O voo do 14-Bis, assim como a divulgação das características da aeronave, permitiu que os demais inventores compreendessem o que é necessário para decolar do chão sem qualquer auxílio externo. Em 1907, vários aviadores começaram a realizar seus voos: Blériot, Esnault-Pelterie, Voisin e o próprio Santos Dumont com o Demoiselle 19.

O voo do 14-Bis foi um pequeno voo, mas um grande feito para a humanidade. A demonstração pública do exoesqueleto BRA-Santos Dumont 1 de Miguel Nicolelis foi um pequeno chute, mas, talvez, um grande avanço para o conhecimento. E parabéns para Juliano Alves Pinto. Só quem vive, conviveu ou convive com uma pessoa com grandes limitações pode entender com mais acuidade o esforço e a dedicação dele.

HENRIQUE LINS DE BARROS_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA DA REDAÇÃO: O missivista não contradiz as alegações do texto. Há argumentos para municiar tanto defensores quanto críticos do pioneirismo de Santos Dumont e de Nicolelis.

EMINENTE, IMINENTE

“Iminência” parda, senhores(as) revisores(as) da piauí (“O público e o privado”, piauí_93, junho)? Fiquei chocada!

PRESCILLA PARNES KRITZ_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA DA REDAÇÃO: Estávamos aqui na maior descrição, torcendo para que ninguém percebesse, quando o leitor nos pegou em flagrante. Diante disso é impossível absorver os responsáveis, a quem daremos duas opções: ou delatam o revisor faltoso, ou serão todos despensados. Desgostoso com a crônica incapacidade da revista em lidar com parônimos, nosso diretor de Redação decidiu imigrar para Pyongyang, onde não há imprensa e, principalmente, onde os leitores não podem se manifestar.

POESIA DE GUERRA

Quero parabenizar João Moura Jr. pelo belíssimo texto sobre a poesia da Primeira Guerra (“Nas trincheiras”, piauí_93, junho). A guerra, por mais perversa que seja, alimenta o mundo da poesia, ante o isolamento e a distância do combatente da família. Desafio João Moura Jr. a escrever sobre os poemas escritos na Segunda Guerra Mundial, por combatentes dos dois lados.

THIAGO COELHO DA CUNHA_VÁRZEA GRANDE/MT

LETRAS NO TÁXI

Na esquina “Hemingway do subúrbio” (piauí_93, junho), o suicídio simbólico do taxista, escritor e boxeador Dedé Mendonça perante a sociedade do “ter” refletiu o suicídio dramático de Ernest Hemingway. A vida é mais que uma carreira, mais que um cotidiano medíocre. O boxeador errático evidencia que viver é melhor que aparecer. Excelente texto.

FELIPE MARQUES BORGES_CATALÃO/GO

ŽIŽEK

Interessantíssimo dizer que as ambições geopolíticas e seus argumentos fundamentalistas internos e externos, ocidentais e asiáticos, pretendem, mas não conseguem fazer todos os gols na crise da Ucrânia (“Barbárie com face humana”, piauí_93, junho).

MARCELO BELARMINO FERNANDES_SÃO GONÇALO/RJ

PIAUÍ EM MAIO

Vocês não estão deixando a peteca cair. A edição 92 (maio) estava muito boa. Carol Pires “cantou a pedra” na matéria que fez, em Havana, sobre as negociações entre o governo colombiano e as Farc (“A guerrilha na mesa”). Foi um dos grandes assuntos das eleições colombianas, e fica evidenciado como é um caminho longo e delicado. Já a decadência de Detroit, cidade que conheci em seu auge, é destrinchada com uma ótica singular por Daniela Pinheiro (“Cacos da velha potência”). É um grande naco do sonho americano que se perdeu. Nas desventuras de Pablo Scioscia com seu cão, Romeo (“Amor canino”), observa-se que nem todo cão é o melhor amigo do homem e, em especial, do seu dono. E Felipão é muito bem retratado por Daniel Galera (“Sem poesia, com afeto”), que, além de ser ótimo escritor, fez o artigo imbuído do mais alto espírito gauchesco. Certamente, tomando chimarrão e de bombachas.

ANTÔNIO CARLOS DA FONSECA NETO_SALVADOR/BA

NOTA DE DANIEL GALERA: A la pucha! Estava aqui meio abichornado com o jogo Irã x Nigéria quando chegou o teu chasque. Macanudo! Estás desde já convidado a dobrar o cotovelo num bolicho até ficarmos à meia guampa.

SEXISMO

O artigo “O truque de McCracken” (piauí_91, abril) ilustra como funciona o privilégio. Os motivos para uma pessoa não compreender a aplicabilidade do impedimento no futebol variam de não ter qualquer interesse em saber até achar a regra complexa demais. Entretanto, na lógica do autor, Hernán Casciari, mulheres não entendem a regra do impedimento porque são mulheres.

FLÁVIA RODRIGUES BORGES_SÃO GONÇALO DO SAPUCAÍ/MG

CARTAS

As cartas da piauí são o máximo, bem como as respostas a elas. Assim, na esperança de ser publicado pela revista, declaro: quero trabalhar na piauí. Se o emprego não me for dado, pelo menos terei sido publicado pela revista.

LÍVIO SOARES DE MEDEIROS_PATOS DE MINAS/MG

NOTA DA REDAÇÃO: Realizar 50% dos sonhos é uma boa média.

AMOR ATRASADO

A leitura da edição 90, de março de 2014, da piauí foi tão fenomenal que não resisti a escrever sobre meu grande amor pela revista. Infelizmente meu amor anda a passos lentos, está atrasado, problemas da vida moderna, e meu TOC só me permite ler a revista na sequência. Chorei litros com “Passageiro clandestino” e “Sobre meu pai”, além das excepcionais matérias sobre a caça ao tesouro na África (“O tesouro, o mercador, o ditador e sua amante” e “Contrato de risco”). Parabéns a todos que colaboram com a piauí, continuem cativando meu amor.

GORETTE LIRA_CORRENTE/PI

NOTA LITERÁRIA: No seu livro predileto, o diretor de Redação aprendeu que somos responsáveis por aquilo que cativamos. Conte com nosso eterno empenho.

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