esquina

No rastro dos mochicas

Arqueólogo desde o berço

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Ignacio Alva Meneses praticamente nasceu num sítio arqueológico. Filho de arqueólogos da Universidade Nacional de Trujillo, no noroeste do Peru, aos 2 anos ele já participava das expedições organizadas pelo pai, Walter Alva, um dos principais nomes da disciplina em seu país. Nacho, como é conhecido, mal entrara na adolescência quando seu pai iniciou os trabalhos que levaram a uma das mais importantes descobertas arqueológicas do Peru: um conjunto de catorze tumbas construídas pelos mochicas, o povo pré-colombiano que ocupou o vale de Lambayeque e seus arredores no primeiro milênio, bem antes de os incas se estabelecerem por ali.

Em fevereiro de 1987, um telefonema da polícia acordou Walter Alva. Queriam que ele examinasse artefatos que haviam sido roubados de Huaca Rajada, sítio arqueológico até então desconhecido (insatisfeito com sua parte do butim, um dos ladrões delatara os comparsas). Alva ficou de queixo caído ao ver uma máscara de ouro com olhos de turquesa e outros finos exemplos da ourivesaria mochica. “Meu pai e sua equipe foram imediatamente para lá, mas se depararam com uma multidão que ouvira falar do tesouro e ameaçava saqueá-lo. Tiveram que pedir ajuda à polícia”, relembrou Alva Meneses, um moreno de 43 anos e farta cabeleira preta, que se tornou arqueólogo como os pais.

Foi ele que ciceroneou a piauí durante uma visita a Huaca Rajada. Da estrada já é possível avistar um par de grandes pirâmides (ou huacas) que tinham função cerimonial para os mochicas. A primeira delas foi erguida antes do ano 300. Feitas de adobe – tijolos de argila secos ao sol –, ambas conservam o ar imponente, apesar da erosão.

A maior atração do complexo é a tumba do Senhor de Sipán, governante mochica que viveu no início do século VII e morreu por volta dos 40 anos. Seu ataúde ocupa o centro de um sepulcro de 5 metros quadrados e guarda não apenas uma máscara funerária como também um capacete e uma profusão de escudos e adornos, tudo em ouro, prata e pedras semipreciosas. “O Senhor de Sipán era baixo, media 1,65 metro, e exibia dentes perfeitos, sem nenhuma cárie”, contou o arqueólogo. Junto do governante estão enterrados um cachorro, duas lhamas e mais seis indivíduos (três mulheres jovens, uma criança de 9 ou 10 anos e dois homens), além de 451 oferendas e objetos de uso religioso.



Os mochicas não tinham escrita e, durante muito tempo, eram conhecidos por um número restrito de cerâmicas e objetos achados em sítios arqueológicos. A fartura de material que havia em Huaca Rajada – catorze túmulos e centenas de artefatos encontrados em vinte anos de escavação – deu aos arqueólogos um retrato muito mais nítido daquele povo. “O descobrimento dessas tumbas mudou completamente o entendimento que tínhamos da estrutura de poder dos mochicas”, disse o arqueólogo.

 

Alva Meneses bem que tentou fugir da carreira dos pais. Após cursar dois semestres de arqueologia, resolveu mudar de rumo e virou artista plástico. Oito anos depois, porém, voltou para a universidade, “muito mais maduro”. Quando a equipe de seu pai localizou a última tumba de Huaca Rajada, em 2007, ele já era um pesquisador neófito e ajudou a escavar o sítio que frequentava desde os 13 anos.

Seu trabalho mais significativo como arqueólogo se deu em Huaca Ventarrón, a 24 quilômetros dali, onde sobressai um templo erigido cerca de 4 500 anos atrás, antes do advento dos mochicas. Também descoberto por Walter Alva, o sítio abriga o mural mais velho das Américas. Coordenador de um projeto de pesquisa financiado pelo governo no local, Alva Meneses se mudou para um casebre próximo à entrada de Ventarrón, em 2008. Levou a mulher e os cinco filhos. “Nacho conhece aquele lugar como ninguém”, afirmou a arqueóloga paulistana Marcia Arcuri, que já liderou um grupo de pesquisadores brasileiros na região.

A intimidade do arqueólogo com o sítio, no entanto, não impediu que o Ministério da Cultura do Peru decidisse afastá-lo do projeto em 2015. O órgão avaliou que a situação poderia configurar nepotismo, uma vez que seu pai também é funcionário do ministério – dirige o Museu das Tumbas Reais do Senhor de Sipán, que guarda as relíquias de Huaca Rajada. Alva Meneses decidiu, então, buscar o sustento longe da arqueologia, mas perto de Ventarrón, e hoje trabalha para uma fábrica de açúcar, onde cuida do marketing e da imagem institucional.

Os canaviais revelam-se abundantes nas imediações do sítio arqueológico. A queima descontrolada da palha de cana numa dessas plantações foi provavelmente a causa do incêndio que se espalhou por Ventarrón em novembro do ano passado. As chamas atingiram 95% da área e destruíram a camada de pintura do antiquíssimo mural. À época, Alva Meneses denunciou nos jornais e nas redes sociais a negligência da usina em que fica o canavial e o despreparo das autoridades para lidar com o fogo.

 

Quando conduziu a piauí por um giro nos arredores, antes do incêndio, o arqueólogo contou que o primeiro templo de Ventarrón surgiu mais ou menos em 2 600 a.C., edificado por um povo anterior aos mochicas que ainda não sabia fazer cerâmica. O colapso das civilizações que viveram ali resultou possivelmente de uma enorme crise climática.

De tempos em tempos, as águas do Pacífico esquentam e causam uma reviravolta no clima do continente, um fenômeno batizado de El Niño. Não à toa, os mochicas promoviam sacrifícios humanos na esperança de apaziguar as tempestades torrenciais que desabavam sobre seu território nessas ocasiões. Segundo Alva Meneses, o El Niño é especialmente intenso a cada 700 ou mil anos, quando os vendavais deixam um rastro de destruição, fome e doenças.

Para o arqueólogo, a memória desses eventos preparou os povos da região para fazer frente a futuras catástrofes. Eles têm algo a ensinar a um mundo que deverá enfrentar fenômenos climáticos extremos com mais frequência, em razão do aquecimento global. “Quem passou por isso sabe que precisa ser resiliente e se adaptar. Só assim é possível reestruturar tudo novamente.”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial

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