esquina

No Reino de Caíssa

O Bill Gates do enxadrismo paraibano

Cristina Tardáguila
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Na manhã de 13 de setembro, repetindo a liturgia a que se entregara nas 188 segundas-feiras anteriores, Fernando Melo, 65 anos, barba e bigode inteiramente brancos, abriu as janelas de seu gabinete e deixou que o sol de João Pessoa iluminasse o pôster de Honoré de Balzac na parede. Passou os olhos pelas três estantes de livro, sentou-se diante do computador e, enquanto esperava que o processador carregasse os primeiros bytes da semana, acariciou uma das peças do tabuleiro de xadrez sobre a mesa. Buscava inspiração. Dali a não mais de três horas, enviaria à redação do Correio da Paraíba mais uma edição do Reino de Caíssa, a única coluna impressa de xadrez do Brasil.

Batizada em homenagem à deusa criadora do xadrez, a coluna ocupa uma tripa de cima a baixo na página D4, a última do caderno de esportes. Sai toda terça-feira e costuma dividir espaço com as notícias regionais de judô e natação, com as quais, pela regra, não disputa leitores. O Reino de Caíssa se compõe de uma coleção de cinco ou seis pílulas informativas, de um parágrafo cada uma. A apuração é feita nos e-mails que o autor recebe – ele é secretário da Federação Paraibana de Xadrez – e nas visitas constantes aos sites www.clubedexadrez.com.br e chessbase.com.

A abertura da coluna é invariavelmente reservada às personalidades do mundo enxadrístico. Na edição de 31 de agosto, Melo celebrou o enxadrista Luis Flavio Paiva: “Para a nossa alegria, ele está de volta!” – o patrono do Campeonato Paraibano Absoluto de 2009 e 2010 retomava o tabuleiro competitivo. Em 14 de setembro, comemorou o credenciamento regional do árbitro Ivanilson Pereira: “Não há dúvida que Ivanilson merece galgar essa posição.”

Os torneios e competições têm espaço garantido, assim como as aulas de xadrez que Melo oferece na própria casa. O texto que informa sobre o assunto – “Lembre-se que aprender xadrez melhora a qualidade de vida em muitos aspectos, sem esquecer que ele tem o poder de fazer as pessoas felizes. Ensinamos a todas as idades” – costuma resultar em dois ou três telefonemas por semana. É sempre um pai ou uma mãe querendo saber se torres, damas, peões e bispos podem mesmo render uns pontinhos extras no QI de seus rebentos. Ele nunca desmente.



Nas colunas de agosto, Melo ofereceu uma cobertura detalhada do Primeiro Campeonato de Veteranos do Nordeste Absoluto e Aberto e do Primeiro Torneio Alagoa-grandense de Xadrez. No entanto, não produziu uma linha sequer sobre a eleição para a presidência da Fide, a Federação Internacional de Xadrez, fundada na França em 1924. “É que eu não gosto de entrar em política, sabe?”, explicou. “A ideia é fazer uma coluna pop, suave.”

 

Fernando Melo não ganha nada pelo trabalho que consome suas manhãs de segunda-feira. Até a assinatura do jornal sai de sua conta bancária. Ele não se queixa. Também não vê ameaça no que anda acontecendo com as colunas de xadrez pelo mundo. O Estado de S. Paulo suspendeu a sua, escrita pelo enxadrista Herman Claudius, em novembro de 2001, depois de 31 anos de existência. O Washington Post dispensou o trabalho de Lubomir Kavalek em janeiro deste ano, depois de mais de duas décadas.

Melo está protegido contra a decadência: “Escrevo por amor à causa.” Na década de 70, quando ainda trabalhava na editoria de política, chegava a produzir três laudas diárias sobre xadrez para o jornal A União e sempre sobrava assunto, diz ele, rindo. “Meu prazer hoje em dia é ver que em três anos – coincidentemente, desde que a coluna nasceu – a Paraíba passou de seis jogadores Rating Fide [a categoria mais baixa da federação] para 25! Um orgulho, não sabe?”

Em julho de 1976, sua devoção aos peões o levou ao hospital. Depois de se encafuar por treze dias seguidos no hotel Tropical Tambaú, onde se realizaria o campeonato brasileiro daquele ano, caiu doente. Não se lembra de ter aproveitado as regalias – camarões e brisa à beira-mar, por exemplo. É possível que não tenha comido nada. É que a responsabilidade de cuidar das súmulas das partidas em andamento o mantinha ocupado o tempo todo, entre o saguão e o salão principal.

A estafa teve suas compensações: “Naqueles dias, tive a oportunidade de assistir à partida mais longa de que tenho notícia, a vitória do paulista Cícero Braga sobre o paraibano Ivson Miranda depois de onze horas e meia de jogo. Foram três dias de batalha!”

Fernando Melo fala rápido. Às vezes, engole palavras. No entanto, o raciocínio vem límpido e reto se o assunto é xadrez de internet: “Sou radicalmente contra! A beleza do negócio é aguentar a tensão psicológica do encontro.”

O colunista não tem uma parede repleta de títulos de xadrez. O mais longe que chegou foi a um vice-campeonato paraibano nos anos 70, numa partida disputada em casa. É que em sua residência – além do gabinete de trabalho – funciona a Academia de Xadrez Caldas Vianna, espremida na garagem e corredor que dá acesso à casa. “A gente não pode esquecer que o Bill Gates saiu de uma garagem, não é mesmo?”, diz Melo. Ana, sua mulher, que também arrisca uns movimentos de peão, serve um cafezinho para os enxadristas que frequentam a academia. Num fim de semana comum, a família costuma reunir quase 100 pessoas em torno dos cinquenta tabuleiros de sua coleção.

Enquanto não revela o novo Garry Kasparov, Melo se diverte com a montagem de uma academia de xadrez interestadual que reunirá enxadristas da Paraíba, de Pernambuco e do Rio Grande do Norte. O modelo é o das academias de letras, mas, em vez de quarenta cadeiras, ela terá 64 casas, em homenagem ao tabuleiro. Em vez de ocupar a cadeira número tal, o enxadrista ocupará, por exemplo, a casa E1, a do rei, ou a D1, a da dama. Ele sintetiza: “Xadrez nunca é demais.”

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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