ficção

No Sul

Somos sulistas, no sul da nossa cidade, no sul do nosso país, no sul do continente. Somos uns caras calorosos, lentos e sensuais, e não como os peixes frios do norte

Salman Rushdie
IMAGEM: © 2009 FRANCESCO CLEMENTE. DA EXPOSIÇÃO DO MUSEU MADRE, NÁPOLES, MAIO 2009

O dia em que Júnior caiu começou como um dia qualquer: a explosão de calor provocando ondulações no ar, a luz do sol atordoante, as ondas do trânsito em enxurradas, os cânticos de orações ao longe, a música vulgar de filmes que vinha do andar de baixo, os espalhafatosos solavancos pélvicos de um típico número de dança para encher linguiça em filmes comerciais indianos que passava na televisão do vizinho, um choro de criança, uma bronca da mãe, uma risada sem explicação, expectorações vermelhas, bicicletas, as tranças recém-amarradas nos cabelos das meninas a caminho da escola, o cheiro de café forte e doce, uma asa verde que rebrilhava numa árvore. Sênior e Júnior, dois homens muito velhos, abriram os olhos em seus quartos no 4º andar de um prédio verde-mar numa alameda frondosa, logo depois de Elliot’s Beach, onde naquela noite os jovens iriam se reunir, como sempre faziam, para cumprir os ritos da juventude não muito longe da aldeia dos pescadores, os quais não tinham tempo para tais frivolidades. Os pobres eram puritanos dia e noite. Quanto aos velhos, eles tinham seus próprios ritos e não precisavam esperar a noite. Com o sol fincando seus raios em ambos através das persianas das janelas, os dois velhos se esforçaram para ficar de pé e cambalearam até suas varandas contíguas, e apareceram ali quase ao mesmo tempo, como personagens de um conto antigo, apanhados de surpresa por coincidências do destino, incapazes de fugir dos efeitos do acaso.

Quase ao mesmo tempo, começaram a falar. Suas palavras não eram novas. Eram falas rituais, reverências ao novo dia oferecidas num formato de chamada-e-resposta, a exemplo dos diálogos ritmados ou “desafios” dos virtuosos da música carnática durante o festival anual de dezembro.

“Sejamos gratos por sermos homens do sul”, disse Júnior, se espreguiçando e bocejando. “Somos sulistas, no sul da nossa cidade, no sul do nosso país, no sul do continente. Deus seja louvado. Somos uns caras calorosos, lentos e sensuais, e não como os peixes frios do norte.” Primeiro coçando a barriga e depois a nuca, Sênior contestou na mesma hora: “Em primeiro lugar”, disse Sênior, “o sul é uma ficção que só existe porque os homens concordaram em chamá-lo assim. Suponha que os homens tivessem imaginado a terra de cabeça para baixo! Aí nós seríamos nortistas. O universo não compreende um em cima e um embaixo; um cachorro também não. Para um cachorro, não existe norte nem sul. Nesse aspecto, os pontos cardeais são como o dinheiro, que só tem valor porque os homens dizem que tem. E em segundo lugar você não é um sujeito tão caloroso assim e uma mulher até riria se ouvisse você dizer que é sensual. Mas você é lento – disso não há dúvida.”

Assim eles eram: brigavam, partiam para cima um do outro como velhos lutadores cujos pés esquerdos estivessem amarrados um ao outro pelos tornozelos. A corda que os unia tão firmemente era o seu nome. Por um acaso curioso – que eles se habituaram a considerar como o “destino” ou, como chamavam na maioria das vezes, “uma maldição” – os dois compartilhavam o mesmo nome, um nome comprido como tantos nomes no sul, um nome que nenhum dos dois se dava ao trabalho de dizer. Ao banir o nome, ao reduzi-lo à sua letra inicial, “V”, tornavam invisível a corda, o que não significava que ela não existia. Os dois também faziam eco um ao outro de outras maneiras – tinham voz aguda, um físico igualmente magro e firme, estatura mediana, ambos eram míopes e, depois de passarem a vida toda orgulhosos da qualidade dos dentes, os dois se haviam rendido à humilhante necessidade de dentaduras – mas era o nome não usado, aquele V simétrico, o Nome Que Não Podia Ser Falado, que os havia unido como gêmeos siameses durante décadas. No entanto, os dois velhos não faziam aniversário no mesmo dia. Um era dezessete dias mais velho do que o outro. Assim deviam ter começado os apelidos de “Sênior” e “Júnior”, embora os apelidos já fossem usados havia tanto tempo que ninguém conseguia lembrar quem os inventara. Tornaram-se V. Sênior e V. Júnior para todo o sempre, Sênior V. e Júnior V. discutindo até a morte. Tinham 81 anos de idade.



 

“Você está péssimo”, disse Júnior para Sênior, como fazia toda manhã. “Parece um homem que está só esperando a hora de morrer.”

Sênior – fazendo que sim com a cabeça, com ar grave, e também falando conforme a tradição particular de ambos – respondeu: “Mas isso é melhor do que ter o aspecto de um homem que ainda está esperando para viver, como é o seu caso.”

Nenhum dos dois conseguia mais dormir direito. De noite, ficavam em camas duras sem travesseiros e, por trás das pálpebras fechadas, seus pensamentos perturbados corriam em direções opostas. Dos dois homens, V. Sênior tinha levado uma vida incomparavelmente mais plena. Era o mais jovem de dez irmãos, todos eles brilhantes em suas respectivas áreas de atividade – atletas, cientistas, professores, soldados, sacerdotes. Ele mesmo tinha começado a carreira como campeão na corrida de longa distância na faculdade, depois ascendera a um alto cargo na companhia ferroviária e durante anos tinha viajado pelas estradas de ferro, cobrindo dezenas de milhares de milhas a fim de certificar a si mesmo e às autoridades de que estavam sendo mantidos os níveis de segurança adequados. Tinha se casado com uma mulher gentil e foi pai de seis filhas e três filhos; todos eles por sua vez provaram ser férteis e lhe deram o contingente de 33 netos. Seus nove irmãos geraram ao todo mais 33 filhos, seus sobrinhos e sobrinhas, que lhe infligiram não menos do que 111 parentes adicionais. Para muitos, isso seria uma prova da sua boa sorte, pois um homem abençoado por uma família de 204 membros era de fato um homem rico, mas a abundância dava uma permanente dor de cabeça de grau brando a Sênior, propenso ao ascetismo. “Se eu fosse estéril”, dizia para Júnior muitas vezes, “como a vida seria tranquila.”

Depois que se aposentou, Sênior fazia parte de um grupo de dez amigos que se encontravam todos os dias para discutir política, xadrez, poesia e música numa cafeteria no bairro de Besant Nagar e vários comentários seus sobre tais assuntos foram publicados no excelente jornal que tinha sua sede na cidade. Entre seus amigos estava o editor daquele jornal, e também um dos empregados do editor – um celebrado personagem local, um pouco incendiário e muito beberrão, mas criador de cartuns políticos esplendidamente grotescos. Havia também o melhor astrólogo da cidade, que tinha estudado para ser astrônomo, mas passara a acreditar que as verdadeiras mensagens das estrelas não podiam ser recebidas por meio de um telescópio; e um sujeito que durante muitos anos havia disparado a pistola que dava o sinal de largada em corridas de cavalos bem frequentadas; e assim por diante. Sênior se regozijava na companhia daqueles homens e dizia para a esposa que era ótimo um homem ter amigos com quem podia aprender coisas novas todos os dias. Mas agora todos haviam morrido. Seus amigos tinham sido consumidos pelas chamas um a um, e a cafeteria que poderia ter conservado a sua memória também fora demolida. Dos dez irmãos, só sobrava um e as esposas dos irmãos também já haviam deixado este mundo há muito tempo. Até a sua gentil esposa tinha morrido e ele havia casado de novo, arranjando para si uma mulher com uma perna de pau, com a qual ele agia com uma irritação que espantava seus filhos e netos. “Não se tem muita opção na minha idade”, dizia para ela, a fim de ferir, “por isso escolhi você.” Ela retaliava ignorando as suas solicitações mais simples, até quando pedia água, coisa que nenhuma pessoa civilizada devia recusar. O nome dela era Aarthi, mas ele nunca o usava. Tampouco chamava a esposa por um diminutivo ou tratamento carinhoso. Para ele, ela era sempre “mulher” ou “esposa”.

Sênior suportava os numerosos problemas de saúde dos muito idosos, as agruras diárias da bexiga e da uretra, das costas e dos joelhos, a película leitosa que cobria os olhos, os problemas respiratórios, os pesadelos, a lenta decadência corporal. Seus dias escoavam numa inatividade enfadonha. Certa vez, deu aulas de matemática, de canto e dos Vedas, para passar o tempo. Mas todos os seus alunos acabaram indo embora. Sobraram a esposa com a perna de pau, a televisão com chuvisco e Júnior. Estava longe de ser o suficiente. Toda manhã ele lamentava não ter morrido à noite. Dos seus 204 familiares, só uns poucos tinham partido para o seu repouso flamejante. Sênior tinha esquecido quantos eram e até seus nomes fugiam inevitavelmente da sua memória. Muitos dos sobreviventes vinham vê-lo e o tratavam com bondade e afeição. Quando dizia que estava pronto para morrer, o que acontecia muitas vezes, os rostos deles assumiam expressões de dor e seus corpos se curvavam ou ficavam rijos, conforme a natureza de cada um, e diziam para Sênior palavras de ânimo, estímulo e, é claro, em tom de ofensa, falavam do valor de uma vida tão plena de amor. Mas o amor também tinha começado a entediar Sênior, como tudo o mais. A sua família era uma família de mosquitos, pensava ele, um enxame que ficava zumbindo à sua volta, e o amor era uma picada que dava coceira. “Quem me dera houvesse uma espiral que a gente pudesse acender para manter os parentes afastados”, dizia para Júnior. “Quem dera existisse uma rede em volta da cama para manter todos eles bem longe.”

 

A vida de Júnior tinha sido uma decepção para ele. Não esperava que viesse a ser uma pessoa comum. Tinha sido paparicado pelos pais, que inocularam nele um sentimento de destino e de direitos assegurados, mas ele acabou se tornando um tipo mediano, condenado por resultados acadêmicos medianos a uma vida de trabalho burocrático nas repartições da companhia de água. Seus sonhos acima do mediano – viagens de carro, de trem, de avião, talvez em naves espaciais – tinham sido abandonados fazia muito tempo. Mas não era um homem infeliz. A descoberta de que era acometido pela incurável doença da mediocridade poderia ter intimidado um espírito menos exuberante, mas Júnior continuava animado, com um sorriso sempre pronto para o mundo. Ainda assim, a despeito do seu aparente entusiasmo pela vida, havia certa insuficiência no quesito energia. Ele não corria, mas andava, e andava devagar – andava assim desde os dias distantes da juventude. Abominava exercícios e tinha um jeito de alfinetar com gentis sarcasmos aqueles que se exercitavam. Tampouco se interessava por política ou pela cultura popular, que se difundia por toda parte, nem pela música e pelo cinema que ela engendrava. Em todos os aspectos relevantes, não tinha conseguido se tornar um participante do desfile da vida. Não se casara. Os grandes acontecimentos de oito décadas tinham se cumprido sem nenhum esforço da sua parte para lhes dar alguma ajuda. Júnior se mantivera à margem, e havia apenas contemplado enquanto um império ruía e uma nação nascia, e evitava exprimir opiniões a respeito. Foi um homem numa escrivaninha. Manter o fluxo da água do município foi um desafio suficiente para ele. No entanto, tinha todo o aspecto de ser um homem para quem a vida ainda era uma alegria. Tinha sido filho único, portanto havia poucos parentes que cuidassem dele em sua idade avançada. A imensa família de Sênior o havia adotado fazia muito tempo, e lhe traziam quitutes e cuidavam das suas necessidades.

A questão da parede que separava os apartamentos contíguos de Sênior e Júnior às vezes era levantada pela horda de visitantes da parentela de Sênior: resolver se a parede devia ser derrubada para que os dois homens pudessem compartilhar suas vidas com mais facilidade. Nessa questão, porém, Júnior e Sênior falavam a uma só voz.

“Não!”, dizia Júnior.

“Só por cima do meu cadáver!”, esclarecia Sênior.

“O que de resto tornaria inútil todo o esforço”, dizia Júnior, como se isso resolvesse a questão.

A parede continuou onde estava.

Júnior tinha um amigo, D’Mello, homem vinte anos mais jovem do que ele, antigo colega do seu tempo de burocrata na companhia de água. D’Mello tinha crescido em outra cidade, Mumbai, a lendária cidade das prostitutas, urbs prima in Indis, e só entendia quando lhe falavam em inglês. Toda vez que D’Mello visitava Júnior, Sênior fechava a cara e se recusava a falar, embora em segredo se orgulhasse de sua destreza naquilo que ele denominava “a língua número 1 do mundo”. Júnior tentava esconder de Sênior como ele gostava das visitas de D’Mello; o homem mais jovem borbulhava com uma espécie de brio cosmopolitano que Júnior achava estimulante. D’Mello sempre chegava com histórias – às vezes relatos indignados de injustiças contra os pobres nas favelas de Mumbai, às vezes piadas divertidas sobre personagens que relaxavam no Wayside Inn, o famoso café de Mumbai na região de Kala Ghoda, batizada em homenagem a uma estátua equestre que já não existia mais, “o bairro do Cavalo Preto de onde o cavalo preto foi banido”. D’Mello era apaixonado por estrelas do cinema (à distância, é claro) e fornecia detalhes sanguinolentos da orgia de matanças de um louco que ainda circulava no bairro de Trombay. “O patife continua à solta!”, gritava alegremente. Sua conversa era salpicada de nomes maravilhosos: Costa de Worli, Bandra, Hornby Vellard, Breach Candy, Pali Hill. Tais lugares pareciam muito mais exóticos do que as prosaicas localidades a que Júnior estava habituado: Besant Nagar, Adyar, Mylapore.

Entre as histórias de D’Mello sobre Mumbai a mais comovente era a do grande poeta da cidade, que havia se rendido ao mal de Alzheimer. O poeta ainda caminhava todos os dias para o seu pequeno escritório atulhado de revistas, sem saber por que ia lá. Os pés sabiam o caminho e assim ele ia, e ficava sentado, fitava o vazio até chegar a hora de retornar para casa de novo, e seus pés o levavam de volta para a sua residência miserável, em meio à multidão que ao anoitecer se comprimia do lado de fora da estação de Churchgate – os vendedores de jasmim, os pivetes atabalhoados, o ronco dos ônibus, as garotas montadas em Vespas, os cães famintos e farejantes.

Quando D’Mello estava presente e falava, Júnior tinha a sensação de que estava vivendo uma outra vida, muito diferente, uma vida de ação e colorido; que ele estava se tornando, vicariamente, o tipo de homem que nunca tinha sido – dinâmico, entusiasmado, interessado pelo mundo. Sênior, observando a luz nos olhos de Júnior, ficava inevitavelmente irritado. Certo dia, quando D’Mello estava falando sobre Mumbai e seu povo com seu habitual fervor gesticulante, Sênior, rompendo sua regra de silêncio, alfinetou-o em inglês: “Por que o seu corpo não volta para lá, se a sua cabeça já se foi?” Mas D’Mello balançou a cabeça com ar tristonho. Não tinha mais lugar para ficar na sua cidade natal. Só em sonhos e em conversas Mumbai ainda era o seu lar. “Morrerei aqui”, respondeu para Sênior. “No sul, entre frutas azedas como você.”

 

A esposa de Sênior, a dama com perna de pau, vingava-se cada vez mais do marido desatencioso entupindo seu apartamento com parentes. Ela também vinha de uma família numerosa, de centenas de pessoas, e começou, de maneira muito particular, a convidar parentes mais jovens, sobrinhas-netas e sobrinhos-netos, com suas esposas e maridos e, especialmente, com seus filhos pequenos a reboque. A presença no apartamento pequeno de um grande número de bebês, cambaleantes crianças de 3 anos, garotinhas velozes de tranças no cabelo e garotos gorduchos e vagarosos preenchia as ambições matriarcais da esposa e também, de modo muito satisfatório, deixava Sênior enlouquecido. Eram as crianças pequenas que mais enchiam a sua paciência. Os bebês sacudiam seus chocalhos, estalavam suas risadinhas e soltavam seus berros de bebê. Adormeciam e então Sênior tinha de ficar em silêncio, ou acordavam, e então Sênior não conseguia ouvir os próprios pensamentos. Eles comiam, defecavam e vomitavam, e o cheiro do excremento e do vômito perdurava no apartamento, mesmo depois de os bebês terem ido embora, e se misturava com um cheiro que desagradava a Sênior mais ainda: o cheiro de talco. “No fim da vida”, queixava-se com Júnior, em cujo apartamento muitas vezes procurava refúgio das hordas tempestuosas da parentela da esposa e dele mesmo, “nada fede mais do que os cheiros do doce início da vida – babadores, fitinhas, mamadeiras de leite quente, misturas com leite em pó, peidos e talco nos fundilhos.” Júnior não podia deixar de retrucar: “Em breve você ficará incapaz e vai precisar de alguém que o ajude a cuidar de suas funções naturais. A sina dos bebês não pertence apenas ao nosso passado, mas também ao nosso futuro.” A trovejante expressão no rosto de Sênior revelava que as palavras de Júnior tinham acertado o alvo.

Porque, na verdade, eram ambos homens de sorte. Não estavam nem totalmente cegos, nem totalmente surdos, e sua mente não os havia traído, como no caso do poeta de Mumbai. O alimento que comiam era macio e de fácil digestão, mas não era aquela papa dos velhos caducos. Acima de tudo os dois se deslocavam sozinhos, ainda conseguiam, uma vez por semana, descer lentamente a escada do seu prédio até a rua e depois andar arrastando os pés, com o auxílio de bengalas e com frequentes paradas para descanso até o correio, onde recebiam o dinheiro de suas aposentadorias. Não precisavam fazer isso. Muitos dos jovens que entupiam o apartamento de Sênior e o levavam ao apartamento do vizinho para discutir com Júnior estavam dispostos e prontos a correr até a rua para trocar os cheques da aposentadoria dos dois velhos e frágeis cavalheiros. Mas os cavalheiros não queriam permitir que os jovens corressem para eles. Era uma questão de orgulho pessoal cada um receber o dinheiro da própria aposentadoria – nesse ponto, pelo menos, os dois estavam de acordo -, viajar com as próprias forças até o balcão onde, atrás de uma grade de metal, um funcionário dos correios aguardava para liberar a soma semanal que era a sua recompensa por uma vida de serviços prestados. “Dá para ver o respeito na expressão daquelas pessoas”, dizia Sênior bem alto para Júnior, que se mantinha mudo, porque o que via atrás da grade era algo mais semelhante ao tédio, ou ao desprezo.

Para Sênior, a viagem para pegar a aposentadoria era um ato de legitimação: a quantia semanal, por pequena que fosse, honrava os seus trabalhos, transmutando em cédulas de papel-moeda a gratidão da sociedade pela sua vida. Júnior encarava a viagem antes como um ato de desafio. “Você não se importa nem um pouco comigo”, disse francamente uma vez para o rosto atrás da grade. “Para você, não tem o menor significado pagar o nosso dinheiro. Mas, quando chegar a sua vez de ficar aqui onde estou, você vai compreender.” Um dos poucos privilégios dos muito idosos era que a pessoa podia dizer exatamente o que pensava, até para estranhos. Ninguém dizia para um velho calar a boca e pouca gente tinha coragem de responder. Acham que em breve estaremos mortos, pensava Júnior, portanto não faz nenhum sentido brigar conosco. Ele entendia a natureza do desprezo nos olhos do funcionário dos correios. Era o desprezo da vida pela morte.

 

No dia em que Júnior caiu, ele e Sênior partiam para a sua jornada na hora de costume, no meio da manhã. Era o final do ano. Os cristãos locais, inclusive D’Mello, tinham acabado de celebrar o nascimento do seu Salvador e a consequente proximidade do Ano-Novo – com sua promessa de futuro, na verdade um futuro interminável em que a sequência daquelas comemorações se estendia ao infinito, com seus intervalos predeterminados – era maçante para Sênior. “Ou vou morrer nos próximos cinco dias, o que significa que não vai haver Ano-Novo para mim”, disse para Júnior, “ou então vai começar outro ano, no qual o meu fim há de vir com certeza, o que não é uma coisa que se possa aguardar ansiosamente.” Júnior suspirou. “Sua tristeza e sua ruína”, resmungou, “serão a minha morte.” Tal frase lhes pareceu tão engraçada que riram às gargalhadas e depois, por um tempo, ficaram bufando e ofegando a fim de recuperar o fôlego. Como estavam descendo a escada do prédio, a gargalhada não era isenta de riscos. Seguraram-se ao corrimão e arquejaram. Júnior estava abaixo de Sênior, já depois do patamar do 2º andar. Era assim que costumavam descer, a certa distância um do outro, para que, se um caísse, não arrastasse o outro escada abaixo. Eram instáveis demais para confiarem um no outro. A confiança também era uma vítima da idade.

No jardim, fizeram uma breve pausa junto ao pé de cássia-imperial que havia ali. Tinham visto a árvore crescer desde um diminuto broto até seu atual esplendor de 18 metros de altura. Tinha crescido depressa e, embora os dois não o dissessem, aquele crescimento rápido os havia perturbado, pois sugeria daquele modo a velocidade com que os anos passavam. O laburno indiano: era outro nome para aquela árvore, um nome entre muitos outros. Era konrai na língua deles, a língua do sul, amaltas na língua do norte, Cassia fistula na linguagem das flores e das árvores. “Agora parou de crescer”, disse Júnior em tom de aprovação, “pois compreendeu que a eternidade é melhor do que o progresso. Aos olhos de Deus, o tempo é eterno. Até os animais e as árvores podem compreender isso. Só os homens têm a ilusão de que o tempo se move.” Sênior bufou. “A árvore parou”, disse ele, “porque essa é a sua natureza, assim como é a nossa. Nós também vamos parar e não demora muito.” Colocou seu chapéu cinzento na cabeça e cruzou o portão na direção da alameda. Júnior estava sem chapéu e vestido de modo tradicional, num veshi branco, camisa xadrez azul comprida e sandálias, mas Sênior gostava de ir aos correios disfarçado de cavalheiro europeu, de terno e chapéu, e rodopiando uma bengala com castão de prata, como um tal Beau-não-sei-das-quantas de Piccadilly, sobre o qual tinha lido, ou o homem naquela velha canção de que gostava, que andava pelo Bois de Boulogne com um ar independente, o homem que quebrou a banca em Monte Caaa-arlo.

A alameda sombreada desembocava numa rua ensolarada e radiante, onde o barulho do trânsito abafava a música suave do mar. A praia ficava a apenas quatro quarteirões, mas a cidade não ligava para isso. Júnior e Sênior caminhavam devagar, arrastando os pés, e passaram pela farmácia de homeopatia, pela loja onde os medicamentos vendidos sob prescrição médica podiam ser facilmente comprados sem perturbar médico nenhum, pelo mercadinho com seus potes, castanhas e pimentas, suas latas de manteiga clarificada e seus queijos importados, e pela banca de jornal da calçada, com suas numerosas edições piratas de livros populares em descarada exposição, e os dois fixaram os olhos no sinal de trânsito 100 metros à frente. Lá teriam de atravessar a rua principal sem lei, onde diversas formas de transporte guerreavam por espaço. Depois disso, uma curva à esquerda e mais uma caminhada de 100 metros, e então chegavam aos correios. Um percurso de cinco minutos para um jovem, e de meia hora cada trecho, no mínimo, para os dois velhos. O sol estava atrás deles e os dois, enquanto avançavam palmo a palmo, olhavam para suas sombras no chão, estendidas lado a lado sobre a calçada poeirenta. Como amantes, pensaram ambos, mas nenhum deles falou, pois seu hábito de oposição estava arraigado demais para permitir que exprimissem uma idéia tão afetuosa.

Depois, Sênior lamentou não ter falado. “Ele era minha sombra”, disse para a esposa de perna de pau, “e eu era a dele. Duas sombras, um seguindo o outro como uma sombra, a isso ficamos reduzidos, veja só. Os velhos se movem no mundo dos jovens como sombras, invisíveis, sem nenhum interesse. Mas as sombras se vêem umas às outras e sabem quem são. Assim era conosco. Sabíamos, permita que eu diga, sabíamos quem éramos. E agora sou uma sombra sem uma sombra para me seguir. Ele que me conhecia agora não sabe nada e portanto eu não sou conhecido. O que mais é a morte, mulher?”

“O dia em que você parar de andar”, retrucou ela. “O dia em que essas idéias cretinas pararem de sair da sua boca. Quando a sua própria boca tiver sido comida pelo fogo. Esse vai ser um grande dia.” Foi o máximo que ela lhe disse durante mais de um ano, e ele compreendeu que ela o odiava e lamentou que tivesse sido o Júnior quem caiu.

Aconteceu por causa das garotas na Vespa, as garotas que iam para a faculdade na sua Vespa nova, as tranças na horizontal atrás delas, enquanto, rindo, conduziam seu veículo rumo ao assassinato. Os rostos delas estavam bem vivos na mente de Sênior, a magra e alta pilotava a lambreta e sua amiga mais gorducha ia atrás, segurando-se para salvar a própria vida. Mas a vida não era uma coisa querida para tais pessoas. A vida era barata, como uma roupa jogada fora com descaso depois de ser usada uma só vez, como a música delas, como os pensamentos daquela gente. Era assim que ele as julgava e, quando mais tarde descobriu que elas não eram nem um pouco semelhantes à sua caracterização injusta, já era tarde demais para mudar de idéia. Eram estudantes sérias, a magra de engenharia elétrica e a outra de arquitetura, e longe de ficarem indiferentes ao acidente, as duas entraram num estado de choque terrível, esmagadas pela culpa, e durante semanas eram vistas quase todos os dias paradas e mudas, de cabeça baixa, do outro lado da alameda na frente da casa de Júnior; ficavam paradas ali de cabeça baixa, em expiação, à espera do perdão. Mas não havia ninguém para lhes dar perdão; aquele que o teria dado havia morrido e aquele que poderia dá-lo não o faria. O arrogante Sênior olhava para elas do alto, com desdém. O que elas achavam que era uma vida humana? Podia ser comprada por um preço tão barato? Não, não podia. Que as duas fiquem lá por mil anos, ainda assim não seria o bastante.

A Vespa cambaleou, disso não havia dúvida; a jovem piloto era inexperiente e a Vespa cambaleou perto demais de onde estava Júnior, esperando para atravessar a rua. Nos últimos dias, ele vinha se queixando de uma fraqueza nos tornozelos. Disse: “Às vezes quando saio da cama tenho a impressão de que os tornozelos não vão suportar meu peso.” Disse também: “Às vezes quando desço a escada tenho medo de torcer um tornozelo. Nunca me preocupei com os tornozelos, mas agora estou assim.” Sênior retrucou em tom de contestação, como de costume. “Preocupe-se com o seu interior”, disse. “Seus rins ou seu fígado vão pifar muito antes dos tornozelos.” Estava errado, no entanto. A Vespa passou perto demais e Júnior pulou para trás. Quando se apoiou no pé esquerdo, o tornozelo de fato torceu e isso acarretou um segundo meio pulo, enquanto Júnior tentava se salvar. Foi uma queda estranha; portanto, mais pareceu um salto e uma meia-volta, mas no final ocorreu o tombo e Júnior, desabando de costas na calçada, bateu com a cabeça, não com força suficiente para perder os sentidos, mas mesmo assim com força. Ficou sem fôlego também. O ar o abandonou num sopro demorado, enquanto ele caía com um forte barulho.

Sênior estava ocupado demais berrando com as garotas apavoradas na Vespa, chamando-as de assassinas e coisas piores, para perceber o momento em que acontece aquilo que deve acontecer com todos nós, no final, quando a última baforada de vapor escapa de nossa boca e se dissolve no ar fétido. “O espírito, seja lá o que for”, como dizia Júnior. “Não creio numa alma imortal, mas também não creio que somos apenas carne e osso. Creio numa alma mortal, a essência incorpórea de nós mesmos, oculta na nossa carne como um parasita, que floresce quando florescemos e morre quando morremos.” Sênior era mais formal em suas crenças religiosas. Lia os textos antigos com frequência e o som do sânscrito era para ele afim à musica das esferas – a sutileza e a profundidade daqueles textos capazes de questionar se a própria entidade criadora compreendia sua criação. Em outra época, discutia aqueles textos com seus alunos, mas já fazia muito tempo que não existiam mais alunos e ele era obrigado a deliberar sozinho a respeito dos graves temas da existência. As antigas ambiguidades lhe davam prazer; em comparação, a invenção laico-filosófica de Júnior de uma alma que morria era banal.

Assim pensava Sênior e, como estava aos berros, deixou de notar o pequeno sopro revelador, que poderia tê-lo convencido a pensar de outro modo. Um instante depois, não existia mais Júnior nenhum, só um corpo sobre a calçada, uma coisa para ser descartada antes que o calor dos trópicos o tornasse mais malcheiroso. Só havia uma coisa a ser feita. Sênior pôs a mão no bolso do amigo e tirou o cheque da aposentadoria. Em seguida, depois de mandar as garotas para o seu apartamento a fim de falarem com sua esposa e os parentes, seguiu sozinho para cumprir sua missão. Haveria tempo para a morte ser respeitada. Nas tradições do Palakkad Aiyars ou Iyers, de quem ele e Júnior descendiam, os rituais em honra aos mortos duravam treze dias.

 

Na manhã seguinte, no sul do planeta, longe da cidade natal de Sênior, mas não longe o bastante, houve um grande terremoto embaixo da superfície do oceano e as águas poderosas, respondendo com sua própria agonia à agonia da terra em seu fundo, ergueram-se numa série de ondas e arremessaram sua dor por todo o globo terrestre. Duas daquelas ondas percorreram o oceano Índico e, às quinze para as sete da manhã, Sênior sentiu sua cama sacudir. Foi uma vibração forte e intrigante, porque nunca tinha havido um terremoto naquela cidade. Sênior levantou-se e saiu para a sua varanda. A varanda vizinha estava vazia, é claro. Júnior havia partido. Júnior agora era cinzas. Os vizinhos estavam todos na rua, em roupas impróprias, com lençóis em volta dos ombros. Todo mundo estava ouvindo o rádio. O epicentro do terremoto tinha sido perto da distante ilha de Sumatra. Os tremores haviam cessado e as pessoas continuaram a tocar suas vidas. Duas horas e quinze minutos depois, chegou a primeira onda gigante.

As áreas litorâneas foram arrasadas. Elliot’s Beach, Marina Beach, as casas da praia, os carros, as Vespas, as pessoas. Às dez horas da manhã, o mar fez um segundo ataque. O número de mortos aumentou: os mortos perdidos, levados pelo mar, os mortos que o mar abandonou em seu caminho, estirados nas faixas de areia remanescentes, os mortos em pedaços, os mortos em toda parte. As ondas não chegaram até a casa de Sênior. A alameda de Sênior ficou intacta. Todos sobreviveram.

Exceto Júnior.

Foi sorte as ondas terem chegado a Elliot’s Beach pela manhã. Os jovens românticos que riam e flertavam ali depois do cair da tarde teriam sido todos massacrados se as ondas tivessem chegado à noite. Assim os jovens amantes e amigos sobreviveram. Os pescadores não tiveram a mesma sorte. A aldeia de pescadores ali perto – seu nome era Nochikuppam – deixou de existir. Um templo à beira-mar permaneceu de pé, mas as choupanas dos pescadores, os catamarãs e muitos pescadores foram destruídos. Depois daquele dia, os pescadores que sobreviveram diziam que odiavam o mar e se recusavam a voltar para lá. Durante muito tempo, foi difícil comprar peixe nos mercados.

Sênior não gostava da palavra japonesa que todos usavam para chamar as águas da morte. Para ele as águas eram a Morte propriamente dita e não precisavam de outro nome. A Morte veio à sua cidade, veio a hecatombe e levou Júnior, bem como muitos desconhecidos. No rescaldo das ondas, à volta de Sênior, ergueram-se como uma floresta os ruídos e as ações que inevitavelmente sucedem a uma calamidade – as boas ações dos gentis, as más ações dos desesperados e dos poderosos, a multidão que se movimenta sem rumo. Sênior estava perdido na floresta daquele rescaldo e nada via, exceto a varanda vazia ao lado da sua e, na alameda, as garotas de cabeça baixa. Chegou a notícia de que D’Mello estava entre os desaparecidos. D’Mello também havia partido. Talvez não estivesse morto. Talvez tivesse simplesmente ido para casa, afinal, para a sua lendária cidade de Mumbai, na outra costa do país, a cidade que não era nem do norte nem do sul, mas uma cidade de fronteira, o maior, mais assombroso e mais aterrador de tais lugares, a megalópole da fronteira, um lugar situado na linha divisória. Ou, por outro lado, talvez D’Mello tivesse se afogado e a Morte, ao tragá-lo, recusado ao seu corpo a dignidade cristã de uma sepultura.

Ele, Sênior, era o único que havia pedido para morrer. A Morte, no entanto, o deixara vivo, levara tantos outros, levara até Júnior e D’Mello, mas o deixara intacto. O mundo não tinha sentido. Não havia um sentido para se descobrir no mundo, pensava Sênior. Os textos estavam vazios e seus olhos estavam cegos. Talvez dissesse uma parte disso em voz alta. Podia até gritá-lo a plenos pulmões. As garotas lá embaixo na alameda olhavam para ele e os pássaros verdes na cássia-imperial estavam inquietos. Então, de repente, Sênior imaginou que do outro lado, na varanda contígua vazia, viu uma sombra se mover. Gritou: “Por que não eu?” E em resposta uma sombra deslizou no local onde Júnior costumava ficar. Vida e morte eram apenas varandas contíguas. Sênior ficou parado numa delas, como sempre fazia, e na outra varanda, dando continuidade à tradição de muitos anos entre os dois, estava Júnior, a sombra de Sênior, o seu homônimo, discutindo.

Salman Rushdie

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