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    CREDITO: REINALDO FIGUEIREDO_2021

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A nova política é como o vinho, quanto mais velha melhor

Reinaldo Figueiredo | Edição 175, Abril 2021

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O inverno está aí mesmo e, com a perspectiva de aumento das contaminações e do número de mortes, a melhor pedida é ficar trancado em casa degustando bons vinhos. Disponibilizamos aqui algumas sugestões (e advertências) exclusivas, para você que é um gourmet exigente.

 

SANGUE DE BOIADA

Vinho produzido pela famosa Vinícola Ricardo Salles, em um terroir muito especial, uma propriedade com milhares de quilômetros quadrados de terras roubadas por grileiros e depois cuidadosamente queimadas e desmatadas. As uvas plantadas nessa região são meticulosamente contaminadas com os agrotóxicos mais desaconselhados por todas as entidades de controle ambiental do mundo.

 

GRAN TOSCO DELLA TOSCANA

Vinho tinto seco, rústico, quase rude. Muitas vezes chega a ser escroto e boçal. Feito exclusivamente com uvas da casta Bolsonaro. No passado, era elaborado também com uvas da casta Bebianno, mas o blend não deu certo. O Gran Tosco é um vinho que não harmoniza com nada. E também não é da Toscana. É do interior de São Paulo. É um legítimo fake wine.

 

CHÂTEAU DAS RACHADINHAS

O proprietário deste château está há pouco tempo no ramo da vinicultura, e já começou inovando. Seu vinho não é feito a partir de uvas, mas de laranjas. Apesar de ser uma vinícola inaugurada no século XXI, o Château das Rachadinhas já tem muita história e tradição. Diz uma lenda que, depois da meia-noite, todos os quartos da mansão são assombrados por funcionários-fantasmas. Um detalhe curioso: o Château das Rachadinhas harmoniza bem com chocolate.

 

VINHO VERDE-OLIVA

Vinho de uso exclusivo das Forças Armadas. Como todo vinho verde, ele é fresco e bem frutado. É tão fresco que às vezes é chamado de “maricas” pelos sommeliers da tropa. Por enquanto, o Vinho Verde-Oliva foi aprovado pela Anvisa apenas para uso emergencial, mas os enólogos que já experimentaram garantem que harmoniza bem com leite condensado e chicletes. A vinícola também disponibiliza uma parte especial de sua produção com o rótulo Vinho Verde-Oliva Camuflado, para ser degustado durante manobras militares na selva.

 

FASE BORDEAUX

Este vinho tinto, de coloração vermelho intenso, tem uma longa história. Surgiu na segunda década do século XXI, quando as vinícolas de São Paulo entraram na “Fase Roxa”. Mas o principal administrador dos vinhedos da região preferiu chamar seu vinho de Fase Bordeaux, um nome mais charmoso e sofisticado. Se tudo der certo, no futuro ele pretende produzir o mesmo vinho em Miami, um terroir mais adequado para um vinho tão elegante.

CASAL QUEIROZ

Vinho produzido na região de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. As terras da vinícola têm um solo extremamente fértil, adubado pelos cadáveres de vítimas das milícias armadas, tradicionais naquele local. As videiras são distribuídas em parcelas bem planejadas, utilizando as faixas de terra que sobram entre as muitas construções irregulares e imóveis ilegais. O Casal Queiroz é um vinho complexo. No nariz, aromas de pólvora e carne humana queimada. Na boca, toques de frutas cítricas, principalmente laranja. O design do rótulo do Casal Queiroz foi roubado de um concorrente, o Casal Garcia.

 

USTRA EXTRA BRUT

Vinho espumante, raivoso e rascante. A vinícola Ustra é proprietária de uma gigantesca adega subterrânea onde mantém trancados os tonéis e garrafas durante muitos anos, sem direito a um telefonema para os familiares nem a um encontro com seus advogados. O espumante Ustra só está disponível no tipo Extra Brut, mas seus produtores juram que ele nunca fez mal a ninguém e é incapaz de matar uma mosca. Como a maioria dos vinhos, o Ustra Extra Brut contém alguns aditivos, como o dióxido de enxofre, o ácido tartárico e o AI-5.

 

CASA DA TUA MÃE

Dentre os vinhos com nomes pitorescos, este é um dos mais curiosos. Sua origem remonta ao início da segunda década do século XXI, e seus produtores dizem que o nome faz referência ao velho costume popular de tratar a mãe do interlocutor de forma desairosa quando se quer terminar uma discussão. Infelizmente, o Casa da Tua Mãe é um desses vinhos que só se destacam por causa do rótulo chamativo. Não é um vinho para ser levado a sério. Na degustação, mostrou-se intragável, com toques de pequi roído.

 

QUINTA DE ATIBAIA

Vinho tradicional de uma região de São Paulo que sempre foi mais famosa por produzir cerveja e churrasco. A história da vinícola é envolta em mistério, e até hoje ninguém sabe dizer quem era o seu real proprietário. Também pairam dúvidas sobre a qualidade do vinho. Enólogos que fazem parte dos júris de vários concursos internacionais ainda não decidiram se o Quinta de Atibaia deveria receber uma medalha, uma menção honrosa, uma advertência por improbidade administrativa ou um puxão de orelha.

 

TOGA NEGRA

Vinho tinto produzido no sul do Brasil, resultado de um consórcio de duas grandes vinícolas italianas: a Cantina del Moro e a Famiglia Dallagnol. Alguns enólogos acham que o Toga Negra é um vinho caro e pretensioso, demasiadamente valorizado pela fama. Dizem que fica melhor depois de envelhecer alguns anos. Admiradores do Toga Negra fizeram a experiência de manter uma garrafa na adega durante sete anos, mas depois, na degustação, admitiram que o vinho deixou um desagradável retrogosto de ó do borogodó.