esquina

Nova York chamando

Dois jovens são assediados para explicar o que ninguém entende

Claudia Antunes
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Em 20 de junho, Alessandra Orofino recebeu um telefonema aflito de uma produtora da rede de televisão CNN. A moça queria saber se ela podia falar, por Skype, sobre os protestos no Brasil. Alessandra, uma garota morena, magrinha e vivaz, se preparou para uma conversa informal, dessas de bastidor. Improvisou um coque nos longos cabelos encaracolados e esperou a ligação. Quando a chamada se completou, deu-se conta de que estava prestes a entrar no ar para milhões de espectadores espalhados pelo mundo. Engoliu em seco e não gaguejou. A entrevista durou quatro minutos, um longa-metragem na tevê. Mais tarde, no site da CNN, a conversa seria arquivada sob o título “Quem são os manifestantes brasileiros?”

Com Miguel Lago aconteceu coisa parecida. Ele vinha conversando com uma repórter do Libération sobre as manifestações. Achava que só estava ajudando sua interlocutora a entender o evento inesperado. Em 19 de junho, deparou-se com uma entrevista sua na home do jornal francês. O texto vinha ilustrado com uma foto em que Miguel aparecia de barba aparada e ar de pensador. “Como achava que era tudo em off, exagerei um pouco. Numa entrevista formal, teria formulado diferente”, disse ele.

Era a imprensa internacional atrás de rostos jovens que pudessem encarnar “os protestos”. Os dois caíam feito uma luva. Alessandra, de 24 anos, e Miguel, de 25, são fundadores da ONG Meu Rio, que há um ano e meio procura criar mecanismos para a população participar das decisões sobre a vida na cidade. Colegas de adolescência, ambos estudaram no exterior – ela se formou em economia e direitos humanos na Universidade Columbia, em Nova York; ele estudou ciência política e fez mestrado em administração pública no Sciences Po, o Instituto de Ciências Políticas de Paris.

Com amigos na Europa e nos Estados Unidos, os dois acabaram assediados pela imprensa internacional quando as manifestações começaram. Falando correntemente inglês e francês, eram interlocutores ideais. Além das inevitáveis comparações com outros movimentos – o Occupy Wall Street, os indignados espanhóis –, Miguel e Alessandra ouviram perguntas básicas: Por que agora? Por que vocês estão protestando? Qual o perfil típico dos manifestantes?



Os dois se deram conta de que muitas ideias já vinham prontas. “Tentavam empurrar a resposta: ‘Não é verdade que os rebeldes são jovens da burguesia brasileira?’”, contou Alessandra. Isso sem falar na busca dos tipos cenográficos, que se conformam à imagem do carbonário de filme. Numa entrevista à BBC concedida na sede do Meu Rio, a câmera se demorou com gosto num estagiário “barbudo, com cara de revoltoso”. O rapaz, bem comportadíssimo, foi eternizado graças à sua iracunda condição capilar. “Quiseram criar uma estética de revolucionário.”

Até de Daniel Cohn-Bendit Miguel recebeu e-mail. “Imagino que você esteja envolvido nisso e seja um dos líderes. Quero conversar contigo”, dizia Dany le Rouge, o mais carismático dos líderes do Maio de 68 francês. “Foi quando a gente parou de dar entrevista. A falta de entendimento é tão grande que poderíamos ser mal interpretados. A gente não é líder da revolução”, explicou Alessandra.

Outro problema eram as simplificações. A imprensa buscava o Santo Graal de uma resposta redondinha, e os dois insistiam: não é só pelos vinte centavos, não é só por causa dos estádios milionários, não é só pela corrupção e muito menos pela PEC-37. “A falta de uma demanda clara revela que é uma questão de processo. Faltam canais para as pessoas expressarem suas insatisfações. Só que nem os manifestantes estão percebendo isso”, disse Miguel. Ele até tentou explicar aos franceses, mas foi difícil. “Quando falei de crise de representatividade, mais de um jornalista me perguntou: ‘Como assim? Lula, Dilma, vocês não estão avançando tanto?’”

 

De certa forma, o Meu Rio adiantou boa parte dos temas que estão nas ruas. Surgiu em setembro de 2011 com uma campanha pela transparência nas obras do Maracanã. Alessandra e Miguel lutam também pela implementação do orçamento participativo no Rio. Eles julgam que a experiência pioneira do PT em Porto Alegre – a única referência brasileira nas aulas de política que tiveram no exterior – acabou monopolizada por gente de partidos, sindicatos e associações de bairro. Querem usar a internet para ampliar isso.

O Meu Rio criou um site, o Panela de Pressão, em que as pessoas podem mandar e-mails ou tuítes para os gestores do dinheiro público. No ano passado, conseguiram derrubar a medida que cobraria 2 reais pelo excesso de bagagem transportada na barca que liga o Rio a Niterói.

“Você leu o livro Ensaio sobre a Lucidez, do José Saramago? O enredo parte de uma eleição em que todos os votos são brancos. A gente está num momento em que o risco é de todos os votos serem simbolicamente brancos. O risco de as pessoas se darem conta de que todos os espaços de participação são de mentira, de que audiência pública não serve para nada, e com isso se retirarem do debate”, disse Alessandra.

Saramago? Imagina dizer isso para um jornalista americano. Os veículos estrangeiros que já tinham correspondente no Brasil até que não se saíram mal. O Financial Times, por exemplo, estabeleceu uma interessante relação entre o uso de jingles de propaganda durante os manifestos e a inclusão dos pobres na cidadania por meio do consumo.

Complicado mesmo foi quando enviados especiais caíram de paraquedas no país, sem falar a língua nem conhecer as cidades. Foi o que aconteceu com a rede de televisão americana MSNBC. Alessandra contou que um jornalista ligava o dia inteiro para saber onde iam ocorrer manifestações. “Um dia eu respondi: ‘Acho que vai ter uma na Barra da Tijuca.’ E ele: ‘E isso é no Rio?’.” Há controvérsias.

Claudia Antunes

Claudia Antunes é jornalista. Foi editora de piauí entre 2012 e 2015

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