polícia

Nove tiros no siri na lata

Depois de escapar de um atentado, Alexandre Neto promete que continuará a atacar as mazelas da polícia fluminense

Breno Costa
“Metade dos policiais, hoje, entra para roubar”, diz o delegado. “Outros 25% querem ser funcionários públicos. Só 10% têm vocação. O resto vai usar a folga para estudar, ganhar um dinheirinho e sair de lá. O Estado quer que você seja um corrupto, para facilitar a campanha do deputado, do vereador”
“Metade dos policiais, hoje, entra para roubar”, diz o delegado. “Outros 25% querem ser funcionários públicos. Só 10% têm vocação. O resto vai usar a folga para estudar, ganhar um dinheirinho e sair de lá. O Estado quer que você seja um corrupto, para facilitar a campanha do deputado, do vereador” ROGÉRIO REIS_2007

O prédio de classe média, no número 68 da Constante Ramos, uma rua arborizada no coração de Copacabana, é daqueles antigos, sem porteiro. É ali que mora o delegado de polícia Antônio Teixeira Alexandre Neto, 48 anos, a quem se pode chamar de sobrevivente. Sua morte foi encomendada para 2 de setembro, um domingo de sol e praia cheia.

Perto de 1 hora da tarde, Alexandre Neto chegou a sua casa com um amigo, num Gol sem sinais exteriores que indicassem pertencer à Polícia Civil. Antes de alcançar o saguão do elevador, deu-se conta de que havia esquecido um embrulho no carro e voltou para pegá-lo. Ao apanhar o pacote, não reparou num Polo prata, que vinha lentamente pela rua. Ao som do primeiro estampido da pistola 380, disparada por um atirador no Polo, o delegado tentou se esconder dentro do carro. Com a mão e o braço direito protegendo a cabeça, sentiu o zunido de mais oito disparos. Cinco tiros atingiram de raspão seu braço e o lado esquerdo do tronco. Outra bala arrancou-lhe o dedo médio. Estilhaços de vidro espalharam-se pelo chão e o delegado tombou no banco do Gol. Enquanto a meia dúzia de fregueses do bar Miraflores, perto do prédio, gritava, o carro prateado escafedeu-se. Com um fio de voz, Neto sussurrou para o vizinho que o acudiu: “Me ajudem, me ajudem”.

Três dias depois, recostado numa maca do Hospital Quinta d’Or, em São Cristóvão, Alexandre Neto contava o atentado. Ele é policial há 21 anos. Desde 1999, é delegado-adjunto da Divisão Anti-seqüestro, uma das 26 delegacias especializadas do Rio. O temperamento mercurial, a verborragia agressiva e a propensão a criticar os seus superiores fizeram de Neto um espécime particular na polícia carioca. A petulância lhe valeu, ainda nos anos 90, o apelido de “Siri na Lata”, pela inquietude e pelo barulho que fazia. A alcunha lhe foi dada por Hélio Luz, seu ex-chefe de Polícia Civil e ex-deputado estadual, pelo PT.

Entre os colegas, Neto é do tipo que se ama ou se detesta. “Os que têm coragem de falar que são meus inimigos são poucos”, disse ele. “Se eu te falar que são meia dúzia, é muito. A maioria é covarde, frouxo mesmo. Vai fazer isso que você está vendo aqui, ó”, e apontou para o antebraço direito, envolto numa faixa que imobiliza os quatro dedos que lhe restaram na mão direita. “Já era para eu estar debaixo da terra há muito tempo. Esse dedinho não é nada. Nasci de novo. Quem fez isso é inimigo declarado, mas não tem colhão para falar.”

Alguns dos seus desafetos são notórios. Um deles é o deputado estadual Álvaro Lins, chefe da Polícia Civil no governo de Rosinha Garotinho. Há também a deputada federal Marina Maggessi, do PPS, inspetora de polícia licenciada. Neto ainda se desentendeu com o advogado Otávio Gomes, ex-presidente da seção fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil, e com Roger Ancillotti, ex-diretor do Instituto Médico Legal. Em instâncias superiores, brigou com o ex-secretário estadual de Segurança, general Nilton Cerqueira.

No apertado gabinete que divide com outros quatro policiais, na Divisão Anti-seqüestro, a DAS, no Leblon, Neto tem um mural destinado aos que considera adversários. Numa parede, emoldurou notas satirizando a dupla Lins e Maggessi, publicadas na coluna de Agamenon Mendes Pedreira, n’O Globo. Além de quilos de papéis bagunçados, em cima de sua escrivaninha, há um adesivo em que se lê “Não façam zona!!”, seguido por cobras, lagartos, caveiras e asteriscos. No armário, guarda caixas de arquivo com recortes de jornais colecionados ao longo de muitos anos. Ao lado da escrivaninha, uma pequena placa: “A verdadeira bravura está em chegar em casa de madrugada, ser recebido pela esposa com uma vassoura na mão e ainda ter peito para perguntar: você vai varrer a casa agora ou vai voar para algum lugar?”

Num bistrô freqüentado por executivos, no Flamengo, Marina Maggessi pediu um Red Label com pouco gelo. Ela é baixa, atarracada e tem os cabelos curtos. Enquanto aguardava o almoço, disse o que pensa de Alexandre Neto. “Ele tem sérios transtornos de personalidade. É extremamente vaidoso e recalcado, uma pessoa muito invejosa”, afirmou. Tomou mais um gole do uísque e prosseguiu: “Alexandre tem a síndrome de sobreloja: por ser delegado, se considera acima dos inspetores. Para ele, ninguém presta. Mas não o considero um inimigo, nem mau-caráter. A polícia tem muita facção. Ele é testa de ferro, um ‘bucha’ de um grupo dentro da polícia que gosta de fazer intriga. Ele é manipulado por esse grupo. É tudo briga pelo poder”.

Em dezembro passado, um grampo da Polícia Federal gravou Maggessi instando um amigo, o inspetor Hélio Machado da Conceição, a dar “um monte de tiro nos cornos” de Alexandre Neto. Ela disse que a frase era apenas força de expressão, usada numa conversa privada. No mesmo mês, Hélio da Conceição foi preso pela Polícia Federal, que o acusa de integrar um bando de policiais que trabalha para a máfia dos caça-níqueis. Ele aguarda julgamento numa cela a poucos metros do gabinete de Neto, na carceragem da Divisão Anti-seqüestros.

Mesmo colegas próximos concordam que a convivência com Neto é turbulenta. O secretário-geral do sindicato da categoria no Rio, Vinícius George, é um deles. “O Alexandre é um excelente policial, inteligente, tecnicamente completo e muito corajoso, mas tem sangue italiano”, disse. “Seu temperamento forte dificulta a relação pessoal. Nós já brigamos muito, mas sempre resolvemos tudo. Ele é polêmico e explosivo, porém um policial de verdade, não é um mafioso disfarçado de policial.” Outro companheiro, seu superior na DAS, o delegado Fernando Moraes, corrobora a impressão: “Suas qualidades são muito maiores do que os defeitos. A principal é a honestidade. Mas, graças a Deus, nunca tive problema com ele”.

Desde o atentado, uma caminhonete da Divisão Anti-Seqüestro vigia a casa do delegado em tempo integral. Dez dias depois do crime, Neto estava de volta ao seu quarto-e-sala. Careca, bem acima do peso, me recebeu sem camisa. Usava calça creme e mocassim marrom-claro. Sua expressão, mesmo quando está calmo, é a de um briguento. Parece um desses tipos que assistem a jogos de futebol em botecos de calçada, sentados em bancos de plástico, com uma disposição perene para bater boca. O apartamento foi comprado há dois anos e passou por uma grande reforma. Desenhista desde criança, Neto planejou cada etapa da remodelação.

A decoração é toda em preto-e-branco, uma homenagem a seu time, o Vasco. Há um tapete de pele de zebra sobre o piso de granito preto. Acima de um sofá, também zebrado, está pendurado um quadro com Carlitos. “Charles Chaplin é o maior gênio da humanidade”, disse o delegado. Noutra parede, uma gravura de mulher em nu frontal é ladeada por outros dois quadros eróticos, mas menos explícitos. Miniaturas de carros de polícia, helicópteros e aviões enfeitam a sala. Do lado direito, está estacionado um minibar de rodinhas, com quinze garrafas de uísque. No chão, vê-se uma cesta transbordando de revistas de mulheres nuas. A pequena estante está abarrotada de DVDs de filmes eróticos.

O delegado, no entanto, revela que prefere os filmes épicos: “Neles você vê o homem verdadeiro, e a vileza que se repete hoje em todas as esferas de poder. Você vê o verdadeiro herói, e vê o safado travestido de herói ao lado dele”. Em cima da mesa, jazia uma pistola carregada. “A arma do policial, hoje, tem de ser a caneta e o computador”, arrematou. Há quase cinco anos, ele vive com Valéria Ribeiro, uma morena de longos cabelos negros. De quimono branco, ela preparava o analgésico e antiinflamatório das 6 da tarde. O casal não pensa em ter filhos.

Neto acomodou-se diante de uma mesa de metal e saboreou um sanduíche de salaminho e suco de maracujá. Gesticulando com o braço avariado, falou sobre os seus colegas: “Ninguém mais procura a polícia por vocação. Metade dos policiais, hoje, entra para roubar, para arrumar um dinheiro. Outros 25% querem ser funcionários públicos. Dez por cento são os que têm vocação. E o resto vai fazer um trampolim, vai usar a folga para estudar, ganhar um dinheirinho e sair de lá. A polícia virou uma casa de passagem”. Antes de dar um gole no suco, completou: “É muito mais fácil o contraventor te arregimentar do que o Estado. A impressão que você tem é de que o Estado quer que você seja um corrupto, para facilitar a campanha do deputado, do vereador”.

Nascido há 48 anos, no bairro de classe média de Laranjeiras, no Rio, Neto é filho de um imigrante português, representante comercial, e de uma funcionária pública, simpatizante da ditadura militar. Era presença assídua nas peladas do Aterro do Flamengo, na época da terra batida. Aluno de colégios tradicionais, como o São Bento, decidiu ser policial por influência de um tio materno, Caetano Maiolino, um ex-diretor do Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, que foi o primeiro delegado de entorpecentes do Rio. Ainda na infância, quando visitava a casa do tio, se divertia revirando arquivos com papéis e fotos de “subversivos” caçados pelo regime militar. “A maioria de óculos e com cara de intelectual”, contou. Ele ainda se lembra do seguinte diálogo:

– Tio, esse cara é mau?

– Esse cara é um perigo!

– Mas ele não tem cara de mau. Como é que ele pode ser mau usando óculos? – insistiu.

– Maldade não tem miopia, meu filho. Eles são muito perversos.

“Meu tio era mais um no time dos corruptos”, afirmou. “Ele foi delegado em Bangu. Devia ser amigo do bicheiro Castor de Andrade. Como delegado de polícia, ele não podia morar onde morava, ter os carros e apartamentos que tinha. Delegado de polícia, na época, ganhava mal demais. Para cada filho que passou para a faculdade, ele deu um carro e um apartamento. Com salário de delegado, isso é impossível. Quando eu entrei na polícia, quase teve um troço”, lembrou.

Neto diz que teve uma adolescência tranqüila. Quase não se meteu em confusões e garante nunca ter usado qualquer droga. No máximo, embalava seus Carnavais com cheirinho-da-loló, a enjoativa mistura de éter e aromatizante. Estimulado pela promessa da mãe de que ganharia um Chevette caso passasse para uma universidade pública, foi aprovado, em 1977, para o curso de direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. No mesmo ano, prestou concurso para a Dataprev, a empresa de tecnologia e informações da Previdência Social, foi aprovado e passou a ganhar três salários mínimos, o que calculou ser o necessário para um solteiro de vida regrada. Durante nove anos, trabalhou na manutenção de fotocopiadoras da companhia. De lá, migrou para um escritório de advocacia, especializado em direito marítimo, área à qual quer se dedicar na aposentadoria. Nunca se interessou pela advocacia criminal. Mesmo depois de virar policial, continuou advogando nas horas de folgas, o que é proibido por lei, mas sem assinar qualquer documento.

A dupla jornada como policial e advogado fez com que se desentendesse com Otávio Gomes, ex-presidente da OAB no Rio, de quem era sócio. Gomes disse ter sido grampeado ilegalmente por Neto, com quem travava uma disputa sobre o fechamento do escritório que dividiam. O delegado negou a autoria da escuta. O deputado Álvaro Lins usou o caso como tema de um discurso na tribuna da Assembléia Legislativa do Rio, quatro dias depois do atentado em Copacabana, quando Neto já o colocara no rol dos suspeitos do crime.

Neto é apontado como autor de um dossiê que acusa Álvaro Lins de envolvimento com a máfia dos caça-níqueis. O material teria sido entregue para a Polícia Federal. “O dossiê contra ele já existia”, disse Neto. “Os federais vieram com o dossiê, me mostraram algumas coisas. Eu disse ‘isso aqui é verdade, isso aqui não é’, fui depurando o que a PF tinha”, contou. No discurso na Assembléia, Lins chamou o delegado de “criminoso”, “incompetente”, “agenciador de prostitutas”, “pilantra” e “canalha”. Quando Lins foi eleito deputado, adquiriu foro privilegiado, e a acusação não foi levada adiante.

Em 1986, Neto prestou concurso para a polícia. Até então, a seleção era feita por indicações. Ele foi aprovado para o cargo de detetive. “A imagem que eu tinha da polícia era de algo que funcionava”, ele lembrou. “Achava que a polícia tinha o poder de fazer com que as coisas andassem certas. Quando você entra e vê que é exatamente o contrário, que a polícia tem o poder de deixar que as coisas erradas continuem erradas, é muito triste.”

Seis meses depois de ter assumido o cargo de detetive, e ser designado para a Delegacia de Homicídios, Neto foi incumbido de dar proteção à mulher de um sargento da Polícia Militar, envolvido em ilegalidades, que havia sido assassinado em Niterói. Certo dia, desconfiou do pedido da mulher para que, tarde da noite, ele a acompanhasse a um mercado, e se recusou a atendê-la. A sua negativa chegou aos ouvidos de Peter Gester, senhor de mais de 70 anos, titular da Delegacia de Homicídios, tido como um remanescente da turma linha-dura da ditadura. No dia seguinte, de folga, Neto foi chamado ao gabinete do chefe. Ali, além de Gester, estava Hélio Luz, à época adjunto da unidade. De memória, Neto reproduziu outro diálogo:

– Você é o que aqui? – perguntou Gester.

– Eu sou policial – respondeu ele.

– Mas qual o cargo que você ocupa?

– Você deveria saber – respondeu Neto, perdendo as estribeiras. – Você é meu superior. Saiba que eu me sinto muito desagradado em ter de falar o que faço aqui. Mas, já que o senhor não sabe, sou detetive de polícia.

– Então, quando o senhor for delegado, o senhor faça o que bem entender. Enquanto você for detetive, tem de obedecer.

– Eu não cumpro ordens do senhor e não vou ser babá de maluca. Se o senhor quiser que alguém faça isso, arrume outro, porque isso eu não faço.

Recém-chegado à polícia, Neto estava em estágio probatório. Mas como havia sido servidor público, na Dataprev, adquirira estabilidade no emprego. Por isso, sentiu-se seguro para afrontar o chefe. A retaliação, no entanto, foi rápida. Ele foi alocado na Homicídios na Baixada, chefiada por um ex-integrante da Polícia Especial de Getúlio Vargas. De lá, seguiu para a Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos, também sob a batuta de um meganha getulista. “Era tudo gente boa, nota 10”, ele explicou. “Mas era tudo burro. Só tinha pessoal grande e burro.”
A exceção era o inspetor-chefe da delegacia, Hélio Brunet, hoje com 65 anos. Foi ele quem incentivou o novato a estudar para o concurso de delegado, liberando-o dois dias por semana. “Ele me ensinou a trabalhar como policial”, disse. Em 1990, Neto prestou o concurso e foi aprovado. Em julho de 2005, Brunet foi preso na Operação Navalha na Carne, acusado de vender munições para traficantes.

Durante o governo do tucano Marcello Alencar, o maior problema na segurança pública fluminense era o seqüestro. A DAS era considerada um antro de corrupção, a ponto de dois delegados da unidade terem sido flagrados na famosa “lista do Castor”, recheada de autoridades que recebiam propina do jogo do bicho. O chamado “seguro-seqüestro” era vendido por policiais da delegacia a empresários com medo. Em 1994, houve 35 seqüestros no Rio (no primeiro semestre de 2007, foram três). Alencar chamou um general para assumir a secretaria de Segurança – Nilton Cerqueira, que estava na reserva. O general convidou o delegado Hélio Luz para chefiar a Divisão Anti-seqüestro. Conhecido como um dos “meninos do Hélio”, Neto foi incumbido de dirigir a DAS.

A onda de seqüestros não arrefeceu. Três casos, quase simultâneos, de estudantes, filhos de famílias tradicionais cariocas, evidenciaram falhas na investigação, ainda que os cativeiros tenham sido estourados por policiais. Neto foi demitido. Ele foi um dos cinco delegados a ocupar o cargo em apenas um ano. “Foi um período muito tenso, a gente estava num pico de seqüestros e sem recurso nenhum”, defendeu-se.

Quando Hélio Luz foi nomeado, Neto achou que ele reajustaria o salário dos delegados. O aumento não veio e ele entregou uma carta de demissão ao chefe, que não a aceitou. Três meses depois, Neto criticou a política do general Cerqueira de distribuir, semanalmente, medalhas aos policiais que demonstravam bravura. “Medalha não enche barriga”, disse ele na época. “O Cerqueira ficou pau da vida comigo e mandou o Hélio me chamar para eu desmentir a crítica. Eu não desmenti, aí o Hélio Luz me exonerou”, contou. “O Hélio achava que ia conseguir me pilotar. Eu não ia abdicar da minha condição de delegado para me submeter a um general de pijama.” Mais uma vez, Neto foi deslocado para uma delegacia menor. Depois disso, o general Cerqueira ainda criou a chamada “gratificação faroeste”, que premiava em dinheiro os policiais que dessem tiros em supostos bandidos. Os assassinatos cometidos por policiais aumentaram exponencialmente. Só em 1998, a gratificação, tida como uma resposta ao comentário de Neto, foi abolida.

Demitido em setembro de 1997 e eleito deputado estadual no ano seguinte, Hélio Luz abandonou a polícia e a política no fim do mandato. Neto não esconde a sua decepção com o antigo mentor e chefe. “Cadê o Hélio Luz?”, perguntou. “Para mim, o cara que não está aqui não existe. Ele se aposentou, pegou uma bolsa de estudos com a mulher, levou as filhas e nunca mais voltou. Para mim, o Hélio nunca foi de esquerda. Foi um infiltrado. Era filho de general, nunca levou um tapa. Nunca fugiu do Brasil, sempre morou na Zona Sul, tinha o perfil de um pequeno burguês conservador, que se dizia revolucionário. Pegou como aliado o general Nilton Cerqueira, que matou o Lamarca. É um petista de cobertura, que não viveu em Cuba, mas na França, no Canadá. É um petista de fachada, desses que absolvem o Renan.”

Hélio Luz mudou-se com a família para Paris, em 2002. Ele evita contatos com a imprensa. Num e-mail, Luz limitou-se a dizer que mantém “residência fora do Brasil”. Em poucas frases, comentou sua relação com o ex-pupilo: “Em 1996, o Alexandre Neto integrava um grupo de delegados novos que ingressou na Polícia Civil por concurso público. Percebiam-se como integrantes da sociedade e policiais, contrastando com os antigos, que se consideravam apenas agentes do Estado, por vezes simples agentes de governo. O Alexandre Neto fez uma boa gestão na DAS. O filho do deputado Albano Reis foi resgatado pelo próprio Alexandre, sem pagamento de resgate. Na ocasião, diversos delegados antigos e ‘notórios’ participaram das investigações e não tiveram êxito”. Vizinho de prédio de Neto, o general Nilton Cerqueira não quis falar sobre o delegado.

Depois do sanduíche, Neto continuou a falar sobre a polícia. “Apesar de serem apenas 10% vocacionados, vale a pena ficar na polícia, porque são esses 10% que fazem a diferença, amigo. Você imagina se essa polícia fosse 90% boa. O Rio seria uma maravilha”, disse. “O crime começa a se organizar quando ele ganha um braço político. O Don Corleone, de O Poderoso Chefão, quis fazer um filho político. Eu não vejo crime organizado sem o Estado estar presente. Vagabundo do morro não é crime organizado. Você não pode admitir que um sujeito daquele, com fuzil, uma bermuda, sem dente na boca, pesando 40 quilos, seja crime organizado. Esse vagabundo do morro eu até respeito. O que a gente não pode aturar é o falso bom moço, que posa de bonzinho e, na realidade, é um ladrão. É o que mais existe.”

Sobre os atuais figurões da polícia, ele é implacável. “Ainda tem influência desse esquema todo de indicação de delegados para delegacias estratégicas, para fazer caixinha de campanha, sim. É claro que tem”, disse, sem citar casos concretos. Mesmo o atual chefe da polícia, Gilberto Ribeiro, não escapa das críticas: “O Gilberto é um cara honesto. Mas aí ele virou chefe e nomeou a própria mulher, Patrícia de Alemany, como chefe de gabinete. Um cara que quer moralizar a polícia não pode fazer isso”. A assessoria de imprensa da Polícia Civil informou que Gilberto Ribeiro não falaria sobre Alexandre Neto.

Sobre o secretário de Segurança, o gaúcho José Mariano Beltrame, ele é mais comedido: “Ele é tranqüilo, tranqüilo até demais. O Beltrame não mora aqui, o estado não é dele. Eu já falei para ele: ‘Você tem dupla obrigação de ajudar o Rio. Primeiro, porque o último que saiu daqui como secretário também era um delegado da Polícia Federal, e deixou isso que está aí. Segundo, porque o último gaúcho que passou por aqui, o Brizola, fez uma merda do caralho’. Ele ficou me olhando assim, meio assustado”.

Enquanto aguarda o dia em que poderá retomar velhos hábitos, como andar na praia ou pilotar seu jet ski no mar de Camboinhas, em Niterói, Neto acompanha à distância as investigações sobre seu caso. Seu advogado é João Tancredo, exonerado da presidência da Comissão de Direitos Humanos da seção fluminense da OAB, depois de denunciar indícios de execução nos laudos cadavéricos dos dezenove mortos no Complexo do Alemão.

No final de setembro, três policiais militares foram presos como suspeitos do atentado. Em fevereiro do ano passado, Neto, que teria insultado os PMs, foi detido por abuso de autoridade. Os policiais foram ameaçados de expulsão por terem criado a confusão com o delegado.

Neto disse que a proximidade da morte não mudou a sua maneira de ser. “Vou atravessar uma fase de precaução, mas prefiro morrer se não tiver a oportunidade de fazer as coisas das quais gosto”, disse. E concluiu, sem remorso: “O que eu já falei e o que eu já fiz não há como apagar”.

Breno Costa

Breno Costa é estudante de jornalismo na Universidade Federal Fluminense.

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