ficção

Nuvens

Sobre a arte de prever o futuro observando os carneirinhos que se esparramam pelo céu

Antonio Tabucchi
ILUSTRAÇÃO: GEORGIA MASSETANI

Nefelomancia, respondeu o homem, é uma palavra grega, nefelo significa nuvem, e mancia, adivinhar, a nefelomancia é a arte de adivinhar o futuro observando a forma das nuvens, porque nesse tipo de arte a forma é a substância, e é por isso que vim passar as férias nesta praia

 

– Você fica aqui na sombra o dia inteiro, disse a menina, não gosta de entrar no mar?

O homem fez um sinal vago com a cabeça, podia parecer um sim ou um não, mas não disse nada.

– Posso tratá-lo por você?, perguntou a menina.

– Se não me engano, já está tratando, disse o homem sorrindo.

– Na minha classe, chamamos até os adultos de você, disse a menina, alguns professores deixam, mas meus pais me proibiram, dizem que é coisa de gente mal-educada, o que o senhor acha?

– Acho que estão certos, respondeu o homem, mas pode me chamar de você, não conto para ninguém.

– Não gosta de entrar no mar?, insistiu ela, acho isso singular.

– Singular?, repetiu o homem.

– Minha professora explicou que não se pode usar maravilhoso para tudo, que em certos casos se pode dizer singular, eu disse maravilhoso só por dizer, porque para mim nadar nesta praia é mesmo singular.

– Ah, disse o homem, concordo, também acho maravilhoso, até singular.

– Tomar sol também é maravilhoso, continuou a menina, nos primeiros dias tive de usar proteção solar 40, depois passei para 20 e agora posso usar o bronzeador dourador, aquele que faz a pele cintilar como se nela houvesse estrelinhas douradas, dá pra ver?, mas por que o senhor é tão branco?, chegou há uma semana e fica sempre debaixo da barraca, nem do sol o senhor gosta?

– Acho o sol maravilhoso, disse o homem, juro, acho que tomar sol é maravilhoso.

– Tem medo de se queimar?, perguntou a menina.

– O que você acha?, respondeu o homem.

– Acho que tem medo de se queimar, mas quem não começa devagarinho nunca fica bronzeado.

– É verdade, confirmou o homem, me parece lógico, mas será que é obrigatório se bronzear?

A menina refletiu.

– Obrigatório propriamente não é, nada é obrigatório, exceto as coisas obrigatórias, mas se a pessoa vem à praia, não entra no mar e não se bronzeia, para que vir até aqui?

– Sabe de uma coisa?, disse o homem, você é uma menina lógica, tem o dom da lógica, e isto é maravilhoso, acho que hoje o mundo perdeu a lógica, é um grande prazer encontrar uma menina com lógica, você me concede a honra de conhecê-la?, como se chama?

Me chamo Isabella, mas os amigos íntimos me chamam de Isabel, com ênfase no e, não como para os italianos, que dizem Isabel com ênfase no i.

– Por que, você não é italiana?, perguntou o homem.

– Claro que sou italiana, contestou ela, italianíssima, mas é importante o nome que meus amigos me dão, porque na televisão sempre dizem Mánuel ou Sebástian, eu sou italianíssima como o senhor e talvez ainda mais, mas gosto de línguas e sei até o hino de Mameli[1] de cor, este ano o presidente da República veio visitar nossa escola e nos falou da importância do hino de Mameli, que é nossa identidade italiana, foi preciso tanto tempo para construir a unidade de nosso país, não gosto nada, por exemplo, daquele senhor da política que pretende abolir o hino de Mameli.

O homem não disse nada, mantinha as pálpebras entreabertas, a luz era intensa e o azul do mar se confundia com o do céu, como se tivesse engolido a linha do horizonte.

– Talvez não tenha entendido a quem me refiro, disse a menina rompendo o silêncio.

O homem não falou, a menina pareceu hesitar, com um dedo rabiscava na areia.

– Não gostaria que o senhor fosse do partido dele, continuou, tomando coragem, em casa me ensinaram que é preciso respeitar sempre as opiniões alheias, porém a opinião daquele senhor não me agrada, você compreende?

– Perfeitamente, disse o homem, é preciso respeitar as opiniões alheias, mas sem desrespeitar as próprias, sobretudo não desrespeitar as próprias, e por que não gosta daquele senhor?

– Bem…, Isabella pareceu hesitar. Além do fato de que, quando fala na tevê, ele sempre tem uma espuma branca nos cantos da boca, mas isso seria o de menos, ele diz um monte de palavrões, escutei com meus próprios ouvidos, e se ele faz isso, me pergunto por que brigam comigo quando faço a mesma coisa, mas por sorte o presidente da República é mais importante que ele, de outro modo não seria presidente da República, e ele nos explicou que temos de respeitar o hino de Mameli, temos de respeitá-lo e cantá-lo como canta a seleção nacional nos campeonatos do mundo, com a mão no coração, na escola cantamos junto com o presidente, líamos nas cópias distribuídas pela professora, mas ele nem lia, sabia de cor, eu o acho maravilhoso, você não acha?

– Praticamente singular, confirmou o homem. Revirou a sacola ao lado da espreguiçadeira, pegou um frasco de vidro e enfiou na boca um comprimido branco.

– Estou falando demais?, perguntou ela, em casa dizem que falo demais e acabo incomodando os outros, estou incomodando?

– De jeito nenhum, respondeu o homem, as coisas que você fala inclusive me parecem singulares, continue, por favor.

– E depois o presidente nos deu uma lição de história, porque, como o senhor deve saber, na escola não se estuda a história moderna, os melhores professores conseguem chegar, ao final da oitava série, no máximo até a Primeira Guerra Mundial, mas o normal é pararem em Garibaldi e na unificação da Itália, mas nós aprendemos um monte de coisas modernas, porque a professora foi ótima, mas o mérito é do presidente, pois foi ele quem deu o input.

– O que foi que ele deu?, perguntou o homem.

– É assim que se diz, explicou Isabella, é uma palavra nova, é para quando alguém começa e arrasta os outros, se quiser repito o que aprendi, é mesmo um monte de coisas que poucos conhecem, quer que eu conte?

O homem não respondeu, mantinha os olhos fechados e estava completamente imóvel.

– Adormeceu?, Isabella tinha um tom tímido, como se estivesse chateada.

– Me desculpe, talvez tenha feito o senhor dormir de tanto tagarelar, é por isso também que meus pais não quiseram me comprar um celular, dizem que de tanto que eu falo receberiam contas astronômicas, sabe, lá em casa não podemos nos permitir os supérfluos, meu pai é arquiteto, mas trabalha para a prefeitura, e quando alguém trabalha para a prefeitura…

– Seu pai é um homem de sorte, disse ele sem abrir os olhos.

Agora falava baixinho, como se sussurrasse.

– Seja como for, continuou, a profissão de construir casas é muito bonita, bem melhor que a profissão de destruí-las.

Isabella deu um gritinho de surpresa.

– Meu Deus, exclamou, existe mesmo a profissão de destruir casas?, não sabia, isso não se aprende na escola.

– Enfim, disse o homem, não é que seja propriamente uma profissão, dá para aprender também de forma teórica, como na academia militar, mas depois há momentos em que certos conhecimentos precisam ser postos em prática, e afinal a meta é essa, destruir casas.

– E como o senhor sabe disso?, perguntou Isabella.

– Sei porque sou militar, respondeu o homem, ou melhor, era, agora estou aposentado, digamos.

– Mas então o senhor destruía casas?

– Não ia me chamar de você?, replicou o homem.

Isabella não respondeu de imediato.

– Acontece que sou um pouco tímida por natureza, embora não pareça, pois falo muito, tinha perguntado se antes você também destruía casas.

– Pessoalmente não, disse o homem, e, para ser sincero, tampouco meus soldados, a minha era uma missão bélica de paz, é meio difícil explicar, sobretudo num dia como este, porém, Isabel, queria te contar uma coisa que talvez não lhe tenham dito na escola, no fundo no fundo a história se resume ao seguinte: existem homens, como seu pai, que por profissão constroem casas e homens do meu ofício que as destroem, e assim são as coisas há séculos, alguns constroem casas e outros as destroem, construir, destruir, construir, destruir, é meio chato, não acha?

– Chatíssimo, respondeu Isabella, realmente chatíssimo, se não fosse pelos ideais, sorte que ainda existem ideais.

– Verdade, confirmou o homem, por sorte na história existem os ideais, quem te disse isso, o presidente ou a professora?

Isabella pareceu refletir.

– Agora não saberia dizer quem explicou isso.

– Talvez tenha sido o presidente quem deu o input, disse o homem, e o que você pode me dizer sobre os ideais?

– Que são todos respeitáveis se a gente acredita neles, respondeu Isabella, por exemplo, no caso da pátria, depois pode ser que alguém se engane por ser jovem, mas, se estiver de boa-fé, o ideal é válido.

– Ah, retrucou o homem, é um assunto sobre o qual devo refletir, mas não me parece o dia mais indicado, hoje está muito quente e o mar parece tão convidativo.

– Então dê um mergulho, provocou ela.

– Não estou com muita vontade, respondeu o homem.

– É porque não está motivado, acho que o que você tem é stress, você não pode imaginar o efeito negativo do stress em nosso espírito, li num livro que minha mãe tem na cabeceira, quer que eu vá pegar alguma coisa pra você no bar do hotel, alguma coisa pra combater o stress?, desde que não seja uma Coca-Cola, que isso eu me recuso.

– Essa você vai ter de me explicar, vamos lá, disse o homem.

– Porque a Coca-Cola e o McDonald’s são a perdição da humanidade, todo mundo sabe disso, na minha escola até o bedel sabe disso.

O homem revirou a sacola e pegou outro comprimido.

– Quantos remédios você toma, exclamou Isabella.

– Tenho uma escala horária, disse o homem, é o que pede a receita médica.

– Acho que todos esses comprimidos lhe fazem mal, afirmou ela com convicção, os italianos tomam remédios demais, disseram isso até na televisão, quando na verdade o mais importante é sintonizar nosso espírito com as forças positivas do universo, por isso algumas comidas e bebidas devem ser evitadas, pois transmitem energia negativa, não são naturais, me entende?

– Isabel, posso te contar uma coisa, aqui entre nós?

O homem passou um lenço na testa. Suava.

– A Coca-Cola e o McDonald’s não levaram nunca ninguém a Auschwitz, para aqueles campos de extermínio sobre os quais devem ter te falado na escola, porém os ideais sim, já parou pra pensar nisso, Isabel?

– Mas aqueles eram nazistas, objetou Isabella, gente horrível.

– Totalmente de acordo, disse o homem, os nazistas eram gente realmente horrível, mas até eles tinham um ideal e faziam a guerra em nome dele, do nosso ponto de vista era um ideal perverso, mas do ponto de vista deles não, tinham uma grande fé nesse ideal, é preciso ficar atento com relação aos ideais, que me diz, Isabel?

– Tenho de pensar nisso, respondeu a menina, quem sabe pense nisso durante o almoço, é meio-dia e meia, daqui a pouco vão servir o almoço, você não vem?

– Provavelmente não, disse o homem, hoje não estou com muita fome.

– Desculpe se me repito, mas creio que você toma remédios demais, faz como todos os italianos que tomam remédios em excesso.

– Mas, afinal, você é italiana ou não?, insistiu o homem.

– Já me perguntou e já lhe respondi, replicou Isabella irritada, sou italianíssima, talvez ainda mais que você, de qualquer modo, se não vier almoçar você vai perder, hoje no hotel tem o bufê e, depois de todas aquelas coisas croatas que nos serviram, finalmente vai ter fettuccine all’arrabbiata, na verdade, na folhinha do menu está escrito fetucine all’arrabbiata, mas acho que é o nosso prato mesmo, às vezes no exterior é preciso perdoar os erros de ortografia, mas desculpe, por que toma tantos comprimidos, você não seria por acaso um viciado como aqueles que vão às discotecas?

O homem não respondeu.

– Vamos, diga, insistiu Isabella, não contarei pra ninguém.

– Serei sincero, disse o homem, não sou um viciado de discoteca, foi o médico quem me receitou, são comprimidos legalizados, me tiram um pouco o apetite, só isso.

– Também te fazem vomitar, disse Isabella, eu percebi, ontem você veio almoçar e, de repente, se levantou e correu para o banheiro e, quando voltou, estava branco como um cadáver, acho que tinha ido vomitar.

– Acertou na mosca, disse o homem, tinha mesmo ido vomitar, é o efeito dos comprimidos.

– E então por que continua tomando?, não tome mais os comprimidos, concluiu ela.

– Raciocínio lógico, é que de um lado me fazem bem e de outro mal: talvez os comprimidos sejam de certa forma como os ideais, depende de quem precisa tomá-los, eu não os imponho aos outros, não faço mal a ninguém.

A menina continuava fazendo rabiscos na areia.

– Não entendo, disse, às vezes é difícil entender vocês adultos.

– Nós, adultos, somos estúpidos, disse o homem, com frequência somos estúpidos, porém, às vezes, acontece que de fato é necessário tomar comprimidos, independentemente de ser italiano ou não, mas você, Isabel, que afirma ser italianíssima, me diga onde nasceu?, note que isso não é fundamental, eu, por exemplo, nasci num lugar que já nem existe no mapa, porque agora o chamam com outro nome, mas sou italiano, a tal ponto que sou, ou melhor era, um capitão do Exército italiano, e para ser capitão do Exército italiano não se pode ser estrangeiro, não te parece lógico?

Isabella concordou.

– E onde nasceu?, perguntou.

– Numa comarca que agora inventaram, você conhece Walt Disney?

Os olhos de Isabella brilharam.

– Quando era criança, vi todos os filmes dele.

– Pronto: é um lugar assim, vilarejo de fábula, todo de cristal, um cristal que não passa de vidro vulgar, de um ponto de vista real fica na Itália setentrional, da mesma forma que a Toscana está na Itália central e a Sicília na Itália meridional, mas a geografia agora se tornou algo secundário e também a história, da cultura é melhor nem falar, o que hoje conta é a fábula, porém, dado que os adultos, além de estúpidos são também complicados, não quero continuar sendo o complicado, vamos ao que interessa, fiz a pergunta primeiro, onde você nasceu?

– Num lugarejo do Peru, disse Isabella, mas me tornei italiana bem cedo, logo que meus pais me adotaram, por isso me sinto tão italiana quanto você.

– Isabel, disse o homem, sinceridade por sinceridade, havia percebido que você não é ariana como eu, ademais sou branco como um cadáver, você mesma disse, você é mais escurinha, ou seja, não é de pura raça ariana.

– E o que seria isso?, perguntou a menininha.

– É uma raça inexistente, respondeu o homem, inventada por falsos cientistas, mas sabe, se aqueles que tinham ideais deste tipo tivessem vencido a Guerra Mundial, agora você não estaria mais aqui, não estaria de jeito nenhum.

– Por quê?, perguntou Isabella.

– Porque aqueles que não fossem de raça ariana nem teriam o direito de existir, querida Isabel, e as pessoas com a pele um pouco mais escurinha, como a sua, que tem de fato uma cor belíssima, especialmente agora com o bronzeador dourador, teriam…

– Teriam o quê?, perguntou ela.

– Deixa pra lá, disse o homem, é uma coisa complicada e num dia como este não vale a pena complicar a vida, por que não vai dar um bom mergulho antes do almoço?

– Posso nadar depois, respondeu Isabella, perdi a vontade e, desculpe, assim que te vi na semana passada, sempre lendo aqui debaixo da barraca, me ocorreu que você seria capaz de me explicar certas coisas que não tinha entendido, pensei que teríamos uma conversa interessante, dessas difíceis de ter com os adultos e, ao contrário, é até pior que antes, faz meia hora que conversamos e, sinceramente, você me parece meio fora de foco, países inexistentes, gente que destrói casas, você que fazia guerra e paz, creio que sua cabeça anda uma confusão e, além disso, não entendi qual era a tal da sua profissão.

– Consistia em observar aqueles que destruíam as casas uns dos outros, respondeu o homem, esta era a missão bélica de paz, e isso acontecia exatamente aqui.

– Nesta praia?, perguntou Isabella, desculpe, mas não me parece possível, sem querer ofender.

O homem não respondeu. Isabella levantou, tinha posto as mãos nos quadris e observava o mar, era magra e sua silhueta se recortava contra a luz violenta do meio-dia.

– Acho que você diz tais coisas porque não come, disse com voz levemente alterada, não comer faz a pessoa dizer frases estranhas, você está delirando, desculpe se te digo, aqui estamos num hotel de primeira, é supercaro, eu vi os preços, você não pode sair dizendo estas coisas porque te deu na veneta, você não come, não toma sol, não entra no mar, acho que tem algum problema, talvez precise mastigar alguma coisa ou beber um bom suco de frutas, se quiser vou buscar um pra você.

– Se quiser mesmo ser gentil, preferiria uma Coca-Cola, disse o homem, me tira a sede.

– Eu quero ser gentil, afirmou Isabella, você é que não está sendo, primeiro tem de me explicar por que veio de férias justamente aqui onde havia guerra e casas eram destruídas e você ficava só olhando, se é que é verdade.

– Era assim mesmo, só que naquele tempo ninguém queria saber disso, tampouco agora, você verá, as pessoas não gostam de saber que nos lugares de férias antes houve uma guerra, porque se pensam nisso estragam as férias, entende a lógica?

– E então por que você veio?, minha pergunta é lógica, concorda?

– Digamos que é o repouso do guerreiro, disse o homem, ainda que o guerreiro não fizesse a guerra, no fundo era um guerreiro, e o guerreiro deve encontrar repouso onde antes houve guerra, é um clássico.

Isabella parecia refletir. Tinha se ajoelhado na areia, metade do corpo ao sol e metade na sombra, no magro corpo infantil vestia um biquíni que nem pediria a parte de cima, seus ombros estreitos começaram a sobressaltar-se como se chorasse, mas não chorava, parecia ter ficado com frio, tinha as mãos afundadas na areia e o rosto dobrado sobre os joelhos.

– Não se preocupe, murmurou, quando faço assim todos se preocupam, é apenas uma pequena crise própria da idade evolutiva, é que tenho os problemas da idade evolutiva, assim disse o psicólogo, não sei se entende.

– Se você erguer o rosto, entendo melhor, disse o homem, não consigo ouvi-la bem.

A menina levantou a cabeça, tinha o rosto vermelho e os olhos úmidos.

– Você gosta da guerra?, sussurrou.

– Não, disse ele, não gosto, e você?

– Então por que fazia guerra?, perguntou Isabella.

– Já disse que não fazia, assistia, mas eu também lhe fiz uma pergunta, gosta de guerra?

– Odeio, exclamou Isabella, eu a odeio, mas você fala como todos os adultos e me provoca a crise da idade evolutiva, porque no ano passado eu não tinha esta crise, depois na escola nos explicaram os vários tipos de guerra, as boas e as más, e depois escrevemos três redações e só então me vieram essas crises da idade evolutiva.

– Você tem todo o tempo que quiser para explicá-las, disse o homem, conte com calma, o fettuccine all’arrabbiata continuará quentinho sob as lâmpadas halógenas, nem te perguntei em que série está.

– Terminei o sexto ano, mas depois do oitavo irei para o colegial, assim vou estudar grego também.

– Magnífico, mas o que tem isso a ver com suas crises?

– Talvez nada, disse Isabella, é que durante o ano estudamos César e também um pouco de Heródoto, mas sobretudo se a guerra pode servir à paz, foi este o tema de história, não sei se me entende.

– Explique melhor.

– No sentido de que às vezes é necessária, infelizmente, disse ela, a guerra às vezes serve para trazer a justiça aos países onde não existe, porém, certo dia chegaram duas crianças daquele país para onde estão levando a justiça e foram internados no hospital de nossa cidade, e a encarregada de levar frutas e doces para eles foi  a minha classe, isto é, eu com Simone e Samantha, os melhores alunos, não sei se me entende.

– Continue, disse o homem.

– Mohamed tem mais ou menos minha idade e sua irmã é menorzinha, não me lembro do nome dela, mas quando entramos no quartinho do hospital Mohamed não tinha braços e sua irmãzinha…

Isabella interrompeu-se.

– O rosto de sua irmãzinha…, murmurou, tenho medo de que, se lhe contar, me volte outra crise da idade evolutiva, a avó era quem os acompanhava porque o pai e a mãe morreram sob a bomba que destruiu a casa deles, assim deixei cair a bandeja com os kiwi e o tiramisù, comecei a chorar e depois vieram as crises da idade evolutiva.

O homem não disse nada.

– Por que não fala nada? Parece o psicólogo que fica me ouvindo e nunca diz nada, diga alguma coisa.

– Acho que você não tem de se preocupar muito, disse o homem, todos sofremos das crises da idade evolutiva, cada um do seu jeito.

– Você também?

– Posso te garantir, disse ele, apesar de achar que a opinião dos médicos está em plena crise da idade evolutiva.

Isabella observou-o. Enfim, tinha se sentado com as pernas cruzadas, parecia mais relaxada e não tinha mais as mãos enfiadas na areia.

– Está brincando, disse.

– Não estou brincando, respondeu ele.

– E quantos anos você tem?

– Quarenta e cinco, respondeu o homem.

– Igual ao meu pai, é tarde para sofrer a crise da idade evolutiva.

– Nem pensar, objetou o homem, a idade evolutiva jamais acaba, na vida nada mais fazemos além de evoluir.

– Evoluir é um verbo que não existe, disse Isabella, se diz evolver.

– Muito bem! Porém, em biologia existe e, de fato, cada um de nós, ao evoluir, tem sua crise, mesmo seus pais têm as deles.

– Como é que você sabe?

– Ontem ouvi sua mãe falando com seu pai no celular, disse o homem, era fácil perceber que andam em plena crise da idade evolutiva.

– Você é um espião, exclamou Isabella, não se pode escutar as conversas alheias.

– Desculpe, disse o homem, a sua barraca fica a três metros da minha e sua mãe falava como se estivesse em casa, queria que eu tapasse os ouvidos?

Os ombros de Isabella foram de novo sacudidos por um arrepio.

– Eles já nem estão mais juntos, disse, assim, eu fui entregue à mamãe e Francesco a papai, um para cada um é o justo, declarou o juiz, Francesco nasceu quando não era mais esperado, mas não tem ninguém no mundo de quem eu goste mais e de noite tenho vontade de chorar, mamãe também chora de noite, já ouvi, e sabe por quê? Porque entre ela e papai há divergências existenciais, assim disseram, significa algo para você?

– Como não, disse o homem, é uma coisa normal, as diferenças existenciais acontecem com todos, não fique preocupada.

Isabella estava de novo com as mãos na areia, mas tinha assumido uma expressão quase travessa, deu uma risadinha.

– Você é mesmo bem esperto, disse, até agora não me disse por que passa os dias sob a barraca, sabe tudo sobre mim e não fala nada de você, mas por que veio para a praia se fica o dia inteiro deitado tomando remédios, o que faz?

– Bem, murmurou o homem, para dizer da maneira mais simples, estou esperando os efeitos do urânio empobrecido e para esperá-lo é preciso paciência.

– Traduzindo…?, perguntou Isabella.

– Explicação longa, os efeitos são efeitos e para entender os resultados não há remédio senão esperar.

– Precisa esperar muito?

– Agora nem tanto, creio, acho que um mês, talvez até menos.

– E nesse meio tempo o que faz o dia inteiro aqui sob esta barraca, não se chateia?

– De modo algum, disse o homem, pratico a arte da nefelomancia.

A menina arregalou bem os olhos, fez uma careta e depois sorriu. Era a primeira vez que sorria pra valer, mostrando pequenos dentes brancos sobre os quais corria um fio metálico.

– É uma invenção nova?

– Ah não, disse ele: é coisa muito antiga, imagine que Estrabão já falava nisso, diz respeito à geografia, mas você só vai estudar Estrabão no ginásio, no primeiro grau, no máximo, se estuda um pouco de Heródoto, como você fez este ano com a professora de geografia, a geografia é uma ciência muito antiga, Isabel, existe desde sempre.

Isabel olhava para ele desconfiada.

– E em que consistiria essa coisa, como se chama?

– Nefelomancia, respondeu o homem, é uma palavra grega, nefelo significa nuvem, e mancia, adivinhar, a nefelomancia é a arte de adivinhar o futuro observando as nuvens, ou melhor, a forma das nuvens, porque nesse tipo de arte a forma é a substância,  é por isso que vim passar as férias nesta praia, porque um amigo meu da Aeronáutica, especializado em meteorologia, me garantiu que, no Mediterrâneo, não existe outra costa como esta, onde as nuvens se formam no horizonte num instante. E, assim como se formaram, num instante se dissolvem, e é exatamente neste instante que um verdadeiro nefelomante deve exercer sua arte, para decifrar o que prediz a forma de uma determinada nuvem antes que o vento a dissolva, antes que se transforme em ar transparente e se converta em céu.

Isabella havia se levantado, sacudia mecanicamente a areia das perninhas magras. Arrumou o cabelo e lançou no homem um olhar cético, mas um olhar também cheio de curiosidade.

– Te dou um exemplo, disse o homem, sente-se na espreguiçadeira ao meu lado, para estudar as nuvens no horizonte antes que se desvaneçam é preciso estar sentado e concentrar-se bem.

Apontou o dedo para o mar.

– Consegue ver aquela nuvenzinha branca, ao longe?, acompanhe meu dedo, mais à direita, perto do promontório.

– Estou vendo, disse Isabella.

Era um pequeno chumaço que rolava pelo ar, longíssimo, no céu de esmalte.

– Observe-a bem, disse o homem, e reflita, para a nefelomancia é preciso uma intuição rápida, mas a reflexão é indispensável, não a perca de vista.

Isabella pôs uma das mãos em frente à testa a modo de viseira. O homem acendeu um cigarro.

– Fumar não faz bem à saúde, disse Isabella.

– Não se preocupe com aquilo que faço, concentre-se na nuvem, neste mundo existem muitas coisas que não fazem bem à saúde.

– Abriu-se de lado, exclamou Isabella, como se dela tivessem saído asas.

– Borboleta, disse o homem com segurança, e a borboleta só tem um significado, não há dúvida.

– E qual é?, perguntou Isabella.

– As pessoas que têm incompatibilidades existenciais deixam de tê-las, as pessoas separadas se reunirão e suas vidas serão graciosas como o voo de uma borboleta, Estrabão, página vinte e seis do livro principal.

– Que livro é?, perguntou Isabella.

– O livro principal de Estrabão, disse o homem, este é o título, infelizmente nunca foi traduzido para as línguas modernas, estuda-se no último ano da universidade porque só pode ser lido em grego antigo.

– E por que nunca foi traduzido?

– Porque as línguas modernas são muito apressadas, respondeu o homem, e na pressa de comunicar-se tornam-se sintéticas e, assim, perdem a análise, por exemplo, o grego antigo na declinação dos verbos tem o dual, nós só temos o plural, e quando dizemos nós, neste caso você e eu, pode significar também várias pessoas, mas os gregos antigos, que eram muito precisos, se aquela coisa que estamos fazendo ou dizendo se dá somente entre você e eu, que somos dois, usavam o dual. Por exemplo, a nefelomancia daquela nuvem só nós dois estamos fazendo, somente nós sabemos disso e para tanto tinham o dual.

– Maravilhoso, disse Isabella, e emitiu um gritinho pondo uma das mãos sobre a boca, olhe do outro lado, do outro lado!

– É um cirro, especificou o homem, um belíssimo cirro menino que, em breve, será engolido pelo céu, as pessoas comuns poderiam confundi-lo com um nimbo, mas um cirro é um cirro, sinto muito por eles, e a forma de um cirro não pode ter outro significado que não seja ele próprio, que outras nuvens não têm.

– E qual é ?, perguntou Isabella.

– Depende da forma, disse o homem, você deve interpretá-la, quero que me acompanhe, caso contrário, que tipo de nefelomantes seríamos nós.

– Me parece que está se partindo em dois, disse Isabella, veja, acaba de se partir ao meio, parecem duas ovelhinhas que trotam lado a lado.

– Dois cordeiros cirrinos, aqui tampouco há dúvidas.

– Não entendo nada.

– Fácil, disse o homem, o suave cordeiro por si só representa as evoluções da humanidade, Estrabão, página trinta e um do livro principal, observe bem, mas, quando se divide, são duas guerras que avançam paralelas, uma é justa e a outra injusta, é impossível distingui-las, coisa que, aliás, pouco nos interessa, o importante é entender que fim ambas terão, qual será o futuro delas.

Isabella olhou para ele com ar de quem aguarda uma resposta urgente.

– Um final miserável, posso garantir-lhe, querida Isabel.

– Tem certeza mesmo?, perguntou ela com voz ansiosa.

– É você quem deve me dizer, sussurrou o homem, eu agora fecho os olhos, é você quem deve interpretá-las, observe-as e espere, com paciência, mas tente captar o instante, porque depois não haverá mais tempo. O homem fechou os olhos, esticou as pernas, tapou o rosto com um chapéu e permaneceu imóvel, como se tivesse adormecido. Talvez tenha passado um minuto, pouco mais. Na praia, reinava um grande silêncio: os banhistas tinham ido ao restaurante.

– Estão se desfazendo numa espécie de farrapo, disse Isabella baixinho, como quando o rastro dos aviões se desfia, quase não dá mais para ver, veja você também.

O homem não se mexeu.

– Não é preciso, disse, Estrabão, página vinte e quatro do livro principal, ele não se enganava, a profecia do final de toda guerra ele a fez há dois mil anos, só que até então ninguém a tinha lido bem e hoje, finalmente, nós a deciframos nesta praia, nós dois.

– Sabe que você é um homem maravilhoso?, disse Isabella.

– Tenho plena consciência disso, respondeu o homem.

– Acho que está na hora de ir ao restaurante, continuou ela, talvez mamãe já esteja na mesa, preocupada, podemos continuar conversando à tarde?

– Não sei, a nefelomancia é uma arte que cansa muito, talvez de tarde eu tenha de dormir, caso contrário, hoje à noite não conseguirei nem jantar.

– É por isso que precisa tomar tanto remédio?, perguntou Isabella, por causa da nefelomancia?

O homem afastou o chapéu do rosto e a observou.

– O que você acha?, perguntou.

Isabella havia levantado, saiu do círculo de sombra, seu corpo brilhou à luz do sol.

– Amanhã eu te digo, respondeu.

[1] Trata-se do hino nacional da Itália, cuja letra foi escrita por Goffredo Mameli.

Antonio Tabucchi

Antonio Tabucchi é escritor italiano. O conto é parte do livro O Tempo Envelhece Depressa, que será lançado em agosto pela Cosac Naify.

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Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

Com tornozeleira, sem segurança

No Acre, preso que ganha liberdade provisória recebe também sentença de morte

Cinema em mutação –  É Tudo Verdade reinventado

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