questões urbanas

NY & SP

Em Nova York, os miseráveis recolhem embalagens plásticas e não aparecem em Times Square; em São Paulo, eles são uma ferida, um enorme volume que nos obriga a sofrer e gozar nosso privilégio

Edmundo Desnoes
IMAGEM: BETO NEJME

“Welcome to São Paulo”, anunciou a aeromoça – embora estivesse conosco no avião desde Nova York – depois de dez horas de vôo.

São duas cidades com transporte subterrâneo, mas em Nova York chama-se subway e em São Paulo, metrô. Nas entranhas das duas cidades descobrem-se espaços, objetos e sensações que afirmam e contradizem nossa imagem estereotipada das duas metrópoles mais poderosas do Novo Mundo.

Em São Paulo, as estações têm banheiros e obras de arte. O passageiro pode aliviar a bexiga e vê-se obrigado a contemplar pintura brasileira enquanto espera a chegada do trem. Em Nova York, tem de controlar o desejo de urinar, e é obrigado a contemplar as paredes escurecidas pelo mofo e corroídas pelo tempo. Nem sempre o mundo subdesenvolvido ignora a fraqueza da carne e expõe a corrupção da pedra, e nem sempre o desenvolvimento esconde o passar do tempo.

Com os olhos ao nível da rua, descobrimos na cidade do norte do planeta arranha-céus que revelam ambição e vontade de poder, e na cidade do sul descobrimos o caos criador, edifícios interrompidos como colunas truncadas, que aspiram e ao mesmo tempo adiam sua agressividade, detendo-se antes de tocar as nuvens. Em NY são dentes, caninos, em SP são tumbas amuralhadas esperando nosso desmoronamento.

Não concordam?

Não existe a realidade objetiva; acredito na diversidade das construções sensuais e ideológicas. Na cor dos sentimentos. Sinto, e de cara devo admitir, admiração e respeito por NY, e solidariedade, desorientação e amor de cidade grande em SP. Sou parte e juiz do conflito das duas civilizações.

Parido em 1930 pela cidade de Havana, senti, desde o momento que aterrissei em SP, que minha mãe era irmã da mãe do Brasil: a escravidão no passado, a transcendência através da música, a amargura do açúcar, o café e seu misterioso comércio com a alma e a salvação pelo sonho do tabaco que se consome destruindo-se na fumaça. Cuba, uma pequena ilha que se achou durante duas décadas uma potência mundial; Brasil, um país enorme que aspira e ao mesmo tempo resiste a ser uma potência mundial.

Com esses olhos e essas idéias, visitei o Brasil neste ano de 2008. Sei, foram apenas alguns dias, mas acredito no amor à primeira vista, acredito mais nas simpatias que na tirania do conhecimento. Where is the wisdom lost in information? Aos 77 anos de idade, a primeira impressão é a última.

 

Já sei que nunca estive na floresta amazônica, mas visitei Fitzcarraldo na companhia de Herzog, percorri o sertão com Glauber Rocha enquanto ele me narrava sua visão de Deus e o Diabo na Terra do Sol, me senti erotizado contemplando o melodioso corpo maleável da Garota de Ipanema, e o que sei das favelas é a mentira de Orfeu Negro e a verdade de Cidade de Deus. Essas imagens e narrações me acompanharam deambulando pela avenida Paulista.

Andando pela avenida, abraçou-me uma epifania. Um habitante da floresta amazônica, de cabeleira tão poderosa quanto a crina de um cavalo, vendeu-me umas aranhas que havia fabricado com arame nas extremidades e pau-brasil no miolo do corpo. Contou-me, em inglês, o profundo apego que sentia por suas origens.

Parado diante de uma banca de revistas e livros, descobri que, junto a Dinheiro e Folha de S.Paulo, viviam as obras de Nietzsche e Pessoa, Charlie Brown com Dostoievski, Playboy com a poesia de Rimbaud, Machado de Assis ao lado de Che Guevara. Em Nova York esses autores nem sempre estão presentes, nem nas livrarias. Aqui todos convivem ao alcance dos pedestres. Se são vendidos pelas ruas, penso, é porque talvez sejam lidos.

Isso fez sentir-me vivo, vivo porque minha vida necessita da pirâmide cultural que tem o jornal diário, as revistas de moda e as aventuras de Mafalda e Snoopy na base, e as obras de Machado de Assis, Dostoievski e Pessoa no ápice. Há mais variedade cultural nas ruas de SP que em muitas livrarias de NY.

Entrei no frondoso Parque Trianon a alguns passos da estação do metrô que leva seu nome. Perdi e ganhei tempo sob a sombra de corpulentas árvores; a luz filtrando-se com delicadeza entre a filigrana das folhas. Esbeltas palmas que me recordavam a ilha abandonada. Decidi que sentar em um banco de madeira avermelhada e fumar um charuto lentamente era preferível a perambular pelo Central Park de Nova York. O Parque Central não (me) surpreende, embora permita aos nova-iorquinos perambular por monótonas pradarias, fazer piquenique sobre a grama e tomar sol em traje de banho.

Pareceu-me mágico passar instantaneamente do tumulto da avenida, fugir da presença do museu – do Masp – que é uma proeza arquitetônica, mas onde senti que o edifício suspenso por quatro gigantescas colunas vermelhas poderia cair e aplastar-me. Bastou somente alguns passos para me sentar à sombra verde e acolhedora das árvores, sair do agitado tumulto da cidade e entrar no bosque. O parque é uma síntese de selva e civilização, onde se mistura o gentle chaos de um jardim inglês com a geometria francesa, uma espécie de paysage moralisé.

Pouco antes de deixar o pequeno oásis, com o charuto ainda entre os dedos descobri uma enorme aranha esperando, imóvel e linda na delicada geometria da tela, suas vítimas. Prefiro as aranhas do parque às pombas de Nova York. A aranha medita, a pomba é um roedor que voa.

Outro dia, contemplava as cariátides musculosas que sustentam o Teatro Municipal, enquanto as estátuas mitológicas, entre elas Eros e Psique, brincavam nos andares superiores – e de repente vi um homem curvado arrastando uma carroça carregada de enormes sacos de lixo. Lixo – papel, plástico e metal – que logo venderia para reciclar. Os carros passavam velozes, acentuando o lento anacronismo.

 

Em NY, os miseráveis só recolhem embalagens plásticas e não aparecem em Times Square nem se arrastam por Madison Avenue; em SP são uma ferida, um enorme volume que nos obriga a sofrer e gozar do nosso privilégio.

Enquanto tomava o café-da-manhã no hotel Golden Tulip – papaia, ovos mexidos e pão com manteiga que mergulho no café com leite –, vejo passar lá fora, pela rua, um carro carregado do valioso lixo. As duas cidades estão rodeadas de pobreza. O contraste é maior em SP que em NY. Em NY estão os homeless; em SP, os desamparados escarrapachados pelas calçadas e beirais. As carroças desengonçadas viajam pelo sangue da cidade.

Prefiro o evidente do Brasil àquilo que se escamoteia nos Estados Unidos.

É verdade que me sinto mais seguro caminhando pela simetria das ruas de NY que explorando a pé o labirinto de pedra de SP. Trazia na cabeça o medo de que me assaltassem com a alternativa de “a bolsa ou a vida”. Em Nova York, uma brasileira de Porto Alegre recomendou-me que caminhasse pelas ruas com duas carteiras, uma com uns poucos reais e outra com meu pequeno capital. Ninguém me pediu ou exigiu dinheiro. Até mesmo no guia turístico recomendavam que fizesse uma cópia de meu passaporte porque era possível que o roubassem; outros me recomendaram que cobrisse o Rolex com a manga larga de meu negro pulôver. Ninguém me assaltou.

O que, sim, me deslumbrou foi uma extraordinária exibição de fotografias de André Gardenberg na Pinacoteca, “Arquitetura do Medo”. Todas as fotos apresentavam os habitantes protegidos e ao mesmo tempo prisioneiros atrás de grades e sistemas de segurança. Inclusive os automóveis e os santos da Igreja, e até os cães e as pombas, estão encarcerados ou protegidos por grades de diferentes espessuras ou complexidades. A obra de Gardenberg ajudou-me a entender a cidade. A partir da metáfora artística me senti mais confortável porque as fotos domesticaram minha caótica experiência da paisagem urbana.

Passando das classes às gerações, em SP senti que era parte integral do tecido de gerações. Em NY sinto-me uma espécie de dinossauro, um fantasma do passado, às vezes transparente, invisível aos jovens ou simplesmente uma curiosidade: a lixeira da história para a curiosi-dade de meus alunos. O mito da juventude, dos corpos vibrantes, se mistura em SP com a cordialidade dos jovens, nos quais o respeito não cria distância, mas continuidade. Pelo menos no mundo das humanidades, da literatura, do cinema e da história. É possível que entre a juventude que estuda economia, os mercados e o caminho para o sucesso nos negócios, os jovens vivam no presente, dispostos a arriscar tudo para obter fortuna, indiferentes ante o já ultrapassado, diante dos obsoletos conhecimentos de um septuagenário. Depois do fracasso do projeto socialista em Cuba, reconheço a insipidez que a economia de mercado pode nos oferecer. Dom Dinheiro deve entrelaçar-se com as buscas da literatura e da arte, nas quais a tragédia é mais reveladora da condição humana que o inexistente happy ending. A saudade, a melancolia da bossa nova é meu território e não o have fun e a necessidade de consumir consumindo-se.

Nova York e São Paulo têm um corpo, um organismo que expressa, mas que transcende o universo que as rodeia. (O que anoto aqui é a mais pura intuição.) Nova York cresce no território da América do Norte, porém se arraiga e transcende o mundo anglo-saxão. São Paulo é um desejo caótico e criador que se alimenta de Brasil e rejeita, ao mesmo tempo que expressa e transcende, o quebra-cabeças da América do Sul. São dois monstros semelhantes, criaturas egocêntricas, em cada lado do Equador. NY é a capital do hemisfério norte do continente; SP, a capital do hemisfério sul. A uma pertence o futuro e a outra o passado: não sei qual é o ontem e qual o amanhã.

Detesto a prepotência e o desvario dos velhos, embora às vezes caia nisso por gravidade (ver acima), mas espero a continuidade e a busca dos jovens.

É ridículo generalizar e propor sonhos e metáforas descomunais. Pertenço, contudo, a uma geração que pensou grande e fracassou. Não me importa, continuo obstinado a expressar e querer mudar a vida. Levo no sangue os versos de José Martí: “Yo vengo de todas partes y hacia todas partes voy: arte soy entre las artes y en el monte, monte soy.”

Durante todos os meus dias em São Paulo nunca foi necessário recorrer a uma tradução, entendia as perguntas e comentários em português e vocês entendiam minhas falas e respostas em espanhol. Esse diálogo estrelado de afinidades e diferenças tem suas vantagens; como na vida em si, nunca sabemos se nos entendem, se compreendemos o outro. Mas essa distorção das palavras impede que nos enganemos. As palavras se parecem, mas ao mesmo tempo lutam e se abraçam em suas diferenças. A imagem que tenho é a de estar em íntimo contato através do cristal escarchado de um boxe de banheiro. Vejo um corpo nu do outro lado, não tenho certeza se é um corpo jovem ou em ruínas, se o outro esfrega a cabeça, coça o peito ou ensaboa o sexo. Mas sei que do outro lado um corpo me fala e se banha despido em minhas palavras, e me lança suas palavras de água fresca.

Escrevo de NY com SP destruindo-se e reconstruindo-se na memória.

Edmundo Desnoes

Edmundo Desnoes, escritor e ensaísta cubano, é autor do romance Memórias do Subdesenvolvimento (Fundação Memorial da América Latina).

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