ficção

O 34

Lembranças de um colega repetente

Alejandro Zambra
A presença do 34 demonstrava que era possível fracassar, que era inclusive tolerável, porque ele exibia seu estigma com naturalidade
A presença do 34 demonstrava que era possível fracassar, que era inclusive tolerável, porque ele exibia seu estigma com naturalidade ILUSTRAÇÃO: JULIE VAN WEZEMAEL_JULIEVANWEZEMAEL.BLOGSPOT.COM

Os professores nos tratavam pelo número da chamada, de modo que só conhecíamos os nomes dos colegas mais próximos. Digo isso como desculpa: sequer sei o nome de meu personagem. Mas me lembro perfeitamente do 34. Naquele tempo eu era o 45. Graças à inicial de meu sobrenome, desfrutava de uma identidade mais sólida que os demais. Ainda hoje sinto familiaridade com esse número. Era bom ser o último, o 45. Era muito melhor que ser, por exemplo, o 15 ou o 27.

A primeira coisa de que me lembro sobre o 34 é que ele às vezes comia cenouras na hora do recreio. Sua mãe as descascava e as acomodava com capricho num pequeno tupperware, que ele abria destapando com cuidado os cantos superiores. Calculava a dose exata de força, como se praticasse uma arte dificílima. Porém, mais importante que seu gosto por cenouras era sua condição de repetente, o único da turma.

Para nós, repetir o ano era um feito vergonhoso. Em nossas curtas vidas, nunca havíamos chegado perto desse tipo de fracasso. Tínhamos 11 ou 12 anos, acabávamos de entrar no Instituto Nacional, o colégio mais prestigioso do Chile, e nossos históricos escolares eram, portanto, impecáveis. Mas lá estava o 34: sua presença demonstrava que era possível fracassar, que era inclusive tolerável, porque ele exibia seu estigma com naturalidade, como se estivesse, no fundo, contente de repassar as mesmas matérias. Seu rosto me é familiar, lhe dizia às vezes algum professor, debochando, e o 34 respondia, gentil: sim, senhor, sou repetente, o único da turma. Mas tenho certeza de que este ano vai ser melhor para mim.

Aqueles primeiros meses no Instituto Nacional foram infernais. Os professores se encarregavam de nos dizer repetidas vezes o quão difícil era o colégio; tentavam fazer com que nos arrependêssemos, que voltássemos ao liceu da esquina, como diziam, de forma depreciativa, com um tom de escárnio que em vez de nos fazer rir nos amedrontava.



Não sei se é necessário esclarecer que esses professores eram uns verdadeiros filhos da puta. Eles sim tinham nomes e sobrenomes: o professor de matemática, dom Bernardo Aguayo, por exemplo, um completo filho da puta. Ou o professor de artes manuais, senhor Eduardo Venegas. Um escroto filho da mãe. Nem o tempo nem a distância conseguiram atenuar meu rancor. Eles eram cruéis e medíocres. Gente frustrada e tola. Vendidos, pinochetistas. Uns babacas de merda. Mas eu estava falando do 34, e não desses imbecis que tínhamos como professores.

 

O comportamento do 34 contradizia completamente a conduta natural dos repetentes. Supõe-se que sejam toscos, que demorem a se integrar ao contexto da nova turma, e o façam de má vontade, mas o 34 se mostrava sempre disposto a interagir conosco em igualdade de condições. Não padecia desse apego ao passado que faz dos repetentes sujeitos infelizes ou melancólicos, sempre atrás dos colegas do ano anterior, ou numa guerra incessante contra os supostos culpados por sua situação.

Isso era o mais curioso a respeito do 34: ele não era rancoroso. Às vezes o víamos falando com professores que não conhecíamos. Eram conversas animadas, com movimentos de mãos e tapinhas nas costas. Ele gostava de manter relações cordiais com aqueles que o haviam reprovado.

Tremíamos a cada vez que o 34 dava amostras, nas aulas, de sua inegável inteligência. Mas ele não alardeava; pelo contrário, intervinha apenas para propor novos pontos de vista ou assinalar sua opinião sobre temas complexos. Dizia coisas que não estavam nos livros e nós o admirávamos por isso, mas admirá-lo era uma forma de cavar a própria cova: se alguém tão perspicaz havia fracassado, o que dizer de nós. Então especulávamos pelas costas dele sobre os verdadeiros motivos de sua repetência: conflitos familiares obscuros, doenças longas e penosas. Mas sabíamos que o problema do 34 era estritamente acadêmico – sabíamos que seu fracasso seria, amanhã, o nosso.

Certa vez me abordou de maneira repentina. Parecia ao mesmo tempo apreensivo e feliz. Demorou a falar, como se tivesse pensado muito no que iria me dizer. Você não precisa se preocupar, soltou por fim: venho te observando e tenho certeza de que vai passar de ano. Foi reconfortante ouvir isso. Fiquei muito contente. Contente de um jeito quase irracional. O 34 era, como se diz, a voz da experiência, e o fato de ele pensar isso de mim era um alívio.

Logo soube que a cena se repetira com outros colegas, e então correu a notícia de que o 34 estava tirando sarro de todos nós. Mas depois pensamos que era esse seu jeito de nos infundir confiança. E precisávamos dessa confiança. Os professores nos atormentavam diariamente e os boletins de todos eram desastrosos. Quase não havia exceções. Caminhávamos direto para o matadouro.

A questão era saber se o 34 transmitia essa mensagem a todo mundo ou apenas a supostos eleitos. Os que ainda não haviam sido notificados entraram em pânico. O 38 – ou o 37, não me lembro direito de seu número – era um dos mais preocupados. Não aguentava a incerteza. Seu desespero foi tanto que um dia, desafiando a lógica das notificações, foi perguntar direto para o 34 se passaria de ano. Ele pareceu incomodado com a pergunta. Deixa eu te analisar, propôs. Ainda não consegui observar todos vocês, são muitos. Me perdoa, mas até agora eu não tinha prestado muita atenção em você.

Que ninguém pense que o 34 se achava. Não mesmo. Havia em seu jeito de falar um permanente ar de honestidade. Não era fácil duvidar do que ele dizia. Seu semblante franco também ajudava: preocupava-se em olhar as pessoas nos olhos e espaçava as frases com quase imperceptíveis doses de suspense. Em suas palavras pulsava um tempo lento e maduro. “Ainda não consegui observar todos vocês, são muitos”, acabava de dizer ao 38, e ninguém duvidou de que falava sério. O 34 falava esquisito e falava sério. Embora talvez na época achássemos que para falar sério era preciso falar esquisito.

No dia seguinte o 38 pediu seu veredicto, mas o 34 lhe respondeu com evasivas, como se quisesse – pensamos – ocultar uma verdade dolorosa. Me dá mais um tempo, pediu, ainda não tenho certeza. Todos já achávamos que o 38 estava perdido, mas ao cabo de uma semana, depois de completar o período de observação, o profeta se aproximou dele e disse, para surpresa geral: Sim, você vai passar de ano. Com certeza.

Ficamos contentes, claro, e também celebramos no dia seguinte, quando ele salvou os seis que faltavam. Mas restava algo importante a ser resolvido: agora todos os alunos haviam sido abençoados pelo 34. Não era normal que a turma toda fosse aprovada. Fomos investigar: parece que nunca, nos quase duzentos anos de história do colégio, ocorrera de os 45 alunos do 7º fundamental passarem de ano.

Durante os meses seguintes, os decisivos, o 34 notou que desconfiávamos de seus desígnios, mas não o demonstrava: continuava fiel a suas cenouras e intervinha regularmente nas aulas com suas opiniões corajosas e interessantes. Talvez sua vida social tivesse perdido um pouco de intensidade. Sabia que o observávamos, que estava na berlinda, mas nos cumprimentava com a ternura de sempre.

 

Chegaram as provas de fim de ano e confirmou-se que o 34 acertara seus vaticínios. Quatro colegas haviam abandonado o barco antes do fim (inclusive o 38) e, dos 41 restantes, quarenta passaram de ano. O único repetente foi, justamente, e de novo, o 34.

No último dia de aula fomos falar com ele, consolá-lo. Estava triste, é claro, mas não parecia transtornado. Eu já esperava, disse. Para mim é muito difícil estudar, talvez me saia melhor em outro colégio. Dizem que às vezes precisamos dar um passo atrás. Acho que chegou o momento de dar um passo atrás.

 

Todos sentimos a perda do 34. Esse desfecho abrupto, para nós, era uma injustiça. Mas voltamos a vê-lo no ano seguinte, fazendo fila junto aos do 7º ano, no primeiro dia de aula. O colégio não permitia que um aluno repetisse duas vezes a mesma série, mas o 34 havia conseguido, não se sabe como, uma exceção. Não faltou quem dissesse que isso era injusto, que o 34 tinha as costas quentes. Mas a maioria pensou que era bom que ele ficasse. Em todo caso, nos surpreendia que quisesse viver a experiência mais uma vez.

Fui falar com ele naquele mesmo dia. Tratei de ser amistoso e ele também foi cordial. Estava mais magro e sua diferença de idade em relação a seus novos colegas era gritante. Não sou mais o 34, me disse enfim, com aquele tom solene que eu já conhecia. Agradeço por se importar comigo, mas o 34 não existe mais, falou: agora sou o 29 e tenho que me acostumar a minha nova realidade. Prefiro me integrar com a minha turma e fazer novos amigos. Não é saudável viver no passado.

 

Suponho que tinha razão. De vez em quando o víamos ao longe, interagindo com seus novos colegas ou conversando com os professores que o haviam reprovado no ano anterior. Acho que dessa vez conseguiu enfim passar de ano, mas não sei se continuou no colégio por muito tempo. Pouco a pouco o perdemos de vista.

Alejandro Zambra

Escritor, poeta e ensaísta chileno. Publicou o romance Múltipla Escolha, pela Tusquets

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