minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
piauí jogos

    A diretora Christiane Jatahy: ela estreia em Genebra uma montagem de Nabucco, de Verdi. “Será algo gigantesco e um trabalho político, pois fala de guerra, ocupação e povos escravizados” CRÉDITO: LEO AVERSA_2022

vultos do teatro

O abismo em que caímos

A diretora carioca Christiane Jatahy encena na Europa a Trilogia do Horror, sobre o governo Bolsonaro e a mentalidade fascista

Fernando Eichenberg | Edição 194, Novembro 2022

A+ A- A

Em 2007, a diretora de teatro Christiane Jatahy foi uma das convidadas do Festival de Viena, o prestigiado evento de artes que acontece todo ano na capital austríaca. A encenadora carioca e sua trupe apresentaram a peça A Falta que Nos Move, que tinha por tema as complicadas relações familiares. O espetáculo começava de maneira inusitada: com a informação de que um dos atores não tinha chegado para a apresentação. A ideia era que a notícia fosse dada ao público do modo mais realista possível, levando a crer que o elenco estava realmente desfalcado.

Para dar veracidade à situação, quem comunicou a notícia em alemão foi um dos organizadores do festival, Matthias Pees. “Entrei no palco aparentando nervosismo”, ele recorda. “Disse que havia me esforçado tanto para trazer o espetáculo a Viena e que agora eles me aprontavam aquilo: entrar em cena com a equipe incompleta.” Pees também anunciou que funcionários do festival estavam à procura do ator e pediu paciência ao público. Assim que o encontrassem, eles trariam o sumido ao teatro. A peça, então, prosseguiu com os atores restantes – que usavam seus nomes reais – travando conversas aparentemente espontâneas entre si e com o público sobre a ausência do colega e outros temas.

Depois de dez minutos de debates, um espectador se levantou na plateia e gritou irritadíssimo: “Isso é um absurdo, uma vergonha! Só mesmo um ator brasileiro para vir a um festival desses e não aparecer! Vou embora.” O homem era o adido cultural da embaixada brasileira na Áustria.

Jatahy estava sentada algumas fileiras acima quando ouviu os gritos em alemão na plateia. Ela foi atrás do diplomata para explicar tudo, mas não o encontrou. Felizmente, tinha o número do celular dele. Ligou e disse: “Pelo amor de Deus, isso faz parte da peça. Não existe outro ator, são apenas aqueles no palco.” O adido respondeu: “Bem, sendo assim, vou dar outra chance.” Ele voltou ao seu lugar no teatro e assistiu à peça até o fim.

Surpresas desse tipo fazem parte do teatro de Jatahy – e não são gratuitas. Estão relacionadas a um ousado projeto de dramaturgia, desenvolvido por ela ao longo de quase três décadas e marcado pela constante experimentação. Para discutir algumas das questões mais urgentes da atualidade, seus espetáculos desafiam as formas dramáticas tradicionais e os hábitos do público, rompendo a fronteira entre ficção e realidade e recorrendo ao cinema a fim de superar as limitações do teatro. Esse misto de inquietação artística e política conquistou a crítica e as instituições teatrais europeias. Tanto assim que, desde 2016, Jatahy passa mais tempo na Europa do que no Brasil e, há três anos, se estabeleceu em Paris, onde é artista associada dos teatros Odéon e Centquatre-Paris (como é também do Schauspielhaus, de Zurique, do Piccolo Teatro, de Milão, e do Arts Emerson, de Boston, nos Estados Unidos). Parte do financiamento para suas criações vem do Ministério da Cultura francês, e os recursos são geridos por sua companhia de teatro, a Vértice.

Neste ano, Jatahy se tornou o primeiro nome da dramaturgia brasileira a receber, pelo conjunto de sua obra, o cobiçado Leão de Ouro do Teatro, na Bienal de Veneza. Na apresentação do prêmio, ela foi definida como “uma das figuras mais originais da onda teatral que atravessou o Atlântico e regenerou a cena europeia nas últimas décadas”. Para Gianni Forte, codiretor artístico da Bienal, a arte de Jatahy reside em uma forma singular de combinar introspecção e reflexão política, por meio de uma visão experimental do teatro. “Ela envolve nossa consciência, perturba nossas representações, nos obriga a ver de onde estamos olhando, tanto quanto o que estamos vendo”, disse ele à piauí.

Na cerimônia de entrega do prêmio em Veneza, a diretora fez um discurso em consonância com sua arte política. “Esse prêmio confirma e dá fôlego às minhas escolhas. Escolhas que, algumas vezes, não foram entendidas […], porque sabemos que ainda é mais difícil quando somos mulheres, e latino-americanas, nascidas no Brasil, onde é preciso muita perseverança para continuar. É sempre sobre não desistir: nesse triste momento do Brasil, onde os artistas são criminalizados por serem artistas, essa frase parece ecoar ainda mais profundamente em mim”, afirmou.

Matthias Pees, que assumiu em setembro a direção do Berliner Festspiele – instituição que organiza eventos artísticos na capital alemã –, conta que foi fisgado pelo teatro de Jatahy ao assistir A Falta que Nos Move em uma encenação no Parque Lage, no Rio de Janeiro, no início dos anos 2000. “A qualidade do trabalho da Chris vem do fato de ela criar duas dimensões da ficção ao mesmo tempo: a estética, como obra artística, e a que surge de diferentes narrações, com diferentes perspectivas”, diz. “Essa ficção leva você a reconhecer ali a sua própria vida, a criar sua própria percepção, e a cena se torna então uma realidade da qual o espectador faz parte. Não é uma encenação: é a criação de uma realidade.” Pees também ressalta a maestria com que ela utiliza o cinema como parte de sua linguagem nos palcos. Ele cita os britânicos Simon McBurney, Katie Mitchell e o canadense Robert Lepage como exemplos de diretores de teatro que fazem o mesmo, mas ressalta que nenhum deles tem a profundidade alcançada pela artista brasileira. “Toda a pesquisa teatral dela, que se tornou também uma pesquisa cinematográfica, tem como tema a realidade, numa abordagem não apenas estética, mas também social e política.”

 

Atualmente, Jatahy percorre os palcos da Europa com uma trilogia em que reflete sobre o governo de Jair Bolsonaro. Não à toa, ela deu ao trabalho o nome de Trilogia do Horror. “Para mim, e penso que para muitos brasileiros, se tornou fundamental tentar entender como caímos neste abismo”, diz a diretora de 54 anos, em um café próximo do Rio Sena, em Paris. “A trilogia surge de um sentimento de horror em relação ao que está acontecendo no Brasil. Mas também de um espanto, que em certo sentido é filosófico, pois não é paralisante, obriga a refletir. A minha ideia foi tentar articular nas peças vários pontos de vista possíveis sobre o que levou à eleição de Bolsonaro e o que ocorre em seu governo, mas também refletir sobre o que o antecedeu e como nós, brasileiros, temos conduzido nossa história.”

As peças formam a quarta trilogia realizada por Jatahy. “Pensar em algo na forma de um processo me ajuda. Me acalma não querer dar conta de tudo em uma peça só”, explica a diretora sobre seu gosto pelos trípticos teatrais. O primeiro espetáculo da Trilogia do Horror chama-se Entre Chien et Loup (Entre cachorro e lobo) e foi produzido pela Comédie de Genève, na Suíça, com elenco francês, suíço e brasileiro. Estreou em 2021, no Festival de Avignon, na França, e é uma livre adaptação cênica do filme Dogville (2003), do dinamarquês Lars Von Trier. No filme, a personagem Grace (Nicole Kidman), perseguida por gângsteres, chega à cidade de Dogville, onde é recebida com desconfiança pelos moradores. A convivência acaba resultando em uma série de abusos cometidos contra a forasteira, nos quais os anfitriões revelam todo seu sadismo e crueldade.

Na peça Entre Cachorro e Lobo, Grace torna-se Graça (interpretada pela atriz carioca Julia Bernat) e é foragida de um país dominado por um governo fascista envolvido com milícias. A protagonista vai parar não em Dogville, mas em um teatro. O objetivo da diretora, entretanto, é o mesmo do filme: refletir sobre a intolerância e as raízes do ódio em uma comunidade. “Há em Dogville o chamado ‘cidadão de bem’, que realmente acredita que está defendendo o que é certo, mesmo que isso custe a destruição do outro. Há também a defesa de privilégios como se fossem direitos e a ideia de que são corretas algumas situações explicitamente fascistas. Mas hoje essa não é uma questão só brasileira: é mundial”, diz Jatahy. “O fascismo surge a partir deste discurso: ‘Nós temos a verdade, e todos os demais são uma ameaça à nossa verdade e a nós mesmos, portanto merecem ser eliminados.’”

Jatahy joga mais uma vez com ficção e realidade, fazendo uso de cenas pré-gravadas e outras filmadas ao vivo pelos atores durante o espetáculo, projetadas em uma tela no palco, embaralhando assim o passado e o presente. No final, Graça se dirige diretamente ao público e, em francês, pergunta: “Como o fascismo pode crescer de uma maneira tão rápida e invisível? Como é que não vi? Como não vimos? […] Por que a gente continuou acreditando que o fascismo não teria força? Será que parecia tudo tão absurdo, uma ficção de tanto mau gosto que não fomos capazes de avaliar o risco e, com isso, permitimos que essas ideias fossem encontrando eco na insatisfação coletiva?”

Jatahy conta que escreveu esse texto final “como um vômito”. “Na eleição de 2018, no Brasil, enviei mensagens de WhatsApp para as pessoas e recebi respostas como: ‘Se você está votando no PT é porque está ganhando alguma coisa com isso, está mamando nas tetas do governo.’ Eram mensagens inclusive de pessoas da minha família. E olha que eu não sou petista nem trabalho tanto no Brasil. Aquilo quebrou uma coisa muito íntima e profunda em mim.” Ao mesmo tempo, ela viu surgir no país algo muito perigoso. “Depois de acreditarem na primeira, na segunda, na terceira fake news, as pessoas tomam isso como uma guerra contra o outro. Foi a partir daí que pensei na ideia do horror.” A perspectiva política da trilogia é ressaltada também pela atriz Julia Bernat. “A extrema direita não é uma questão só do Brasil, mas de vários países, inclusive a França, a Itália e os Estados Unidos. A Chris tem sempre essa preocupação de dialogar com as questões do presente, e é muito importante falar disso em qualquer lugar que seja possível”, diz Bernat.

Before the Sky Falls (Antes que o céu caia) é o nome da segunda peça da Trilogia do Horror. Produzida pelo Schauspielhaus Zürich, a encenação recorre a Macbeth para tratar do patriarcado, do machismo e da misoginia, com suas implicações na ordem econômica dominante. O reinado do personagem de Shakespeare é apresentado como “um espelho dos atuais regimes autoritários no mundo”, entre os quais Jatahy inclui o Brasil. O enredo conta sobre cinco políticos e empresários – interpretados por atores alemães e suíços – que celebram faustuosamente a conclusão de um novo contrato e o embolso de uma bolada de dinheiro. “Eles tomam um banho de champanhe, enquanto o mundo rui à volta deles, o que resulta em uma orgia sanguinária de violência e poder”, descreve a diretora.

Nessa segunda peça, há uma cena claramente baseada no episódio conhecido como “farra dos guardanapos”. Em 2009, o ex-governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, organizou uma celebração em Paris por haver recebido a Legião de Honra, comenda do governo francês. A festa ocorreu em um salão no Hotel de la Païva, na Avenida Champs-Élysées. No auge da farra, secretários estaduais e empresários puseram guardanapos na cabeça e fizeram um trenzinho da alegria. Alguns anos depois, Cabral foi preso por corrupção e condenado a mais de duzentos anos de prisão.

A farra parisiense serviu de inspiração para Antes que o Céu Caia. “O espaço físico do hotel foi pensado como uma referência, e existe a semelhança de um grupo de homens comemorando em um ambiente corrupto”, explica Jatahy. “Na peça, os atores também fazem trenzinho com a cabeça coberta por um guardanapo, que parece não apenas como uma bandana de pirata, mas uma espécie de coroa de Macbeth.”

Para a diretora, o próprio texto de Shakespeare se cola a essas referências reais. “Em alguns momentos, a fala de Bolsonaro parece a de Macbeth. E até o ‘passar a boiada’ está lá”, diz. É outra citação da peça: a infame reunião de Bolsonaro com seus ministros em 22 de abril de 2020, na qual sobraram ataques ao Supremo Tribunal Federal, e o titular da pasta do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu “passar a boiada” e mudar as regras ambientais, enquanto a mídia estava ocupada com a pandemia. Na falta de uma expressão semelhante em alemão, Jatahy recorreu a um texto que transmite a mesma ideia da proposta escabrosa do ex-ministro, recém-eleito deputado federal pelo PL de São Paulo.

Intérprete de Macbeth/Bolsonaro, o ator alemão Daniel Lommatzsch conta que ao receber o projeto de Jatahy compreendeu de pronto a singularidade da diretora brasileira. “É uma estrutura complexa, pois ela se interessa por diferentes níveis. E havia preparado tudo aquilo com antecedência… Isso nunca havia acontecido comigo em relação a outros diretores na Europa.” Ele notou outra particularidade de Jatahy durante os ensaios. “Havia uma cena com trinta, quarenta minutos de improvisação, eu fazendo Macbeth, ou Bolsonaro, e o grupo celebrando seus negócios e se embebedando muito. Em dado momento, Christiane disse: ‘Vamos fazer um ensaio real: beber champanhe e repetir a cena.’” A bebida foi comprada e os atores terminaram “completamente bêbados”.

Na versão de Jatahy, as bruxas de Macbeth são encarnadas por crianças e mulheres, que aparecem em imagens projetadas, proferindo frases extraídas do livro A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, do líder indígena Davi Kopenawa e do antropólogo Bruce Albert. A mitologia em torno da Amazônia bem como a exploração e a destruição que atingem a região são parte importante do espetáculo. No final, a floresta inunda o palco por meio de imagens e sons. “Não adianta falar do governo Bolsonaro sem olhar para o nosso passado colonial. No Brasil, é uma história que se repete. É a tirania do poder em seu mais absoluto descaramento e violência”, diz a diretora.

 

A herança colonial, a persistente desigualdade e o racismo no Brasil são mais diretamente tratados em Depois do Silêncio, a última peça da Trilogia do Horror, dessa vez produzida pela própria companhia de Jatahy com recursos internacionais. Para construir o roteiro, ela se baseou no romance Torto Arado, do escritor baiano Itamar Vieira Junior, e no documentário Cabra Marcado para Morrer, do diretor paulista Eduardo Coutinho. “Senti que não poderia falar sobre o que ocorre no Brasil sem tratar da questão da terra”, explica Jatahy.

O livro, que está nas listas de best-sellers desde o lançamento, conta sobre as personagens Bibiana e Belonísia, trabalhadoras rurais descendentes de escravizados, e sua luta pelo direito à terra no sertão baiano. O documentário de Coutinho teve suas filmagens interrompidas em 1964, por causa do golpe militar, e só foi retomado no início dos anos 1980, projetando o passado no presente, e vice-versa. Narra a história trágica do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado a mando de latifundiários, e a trajetória de sua viúva, Elizabeth Altino Teixeira, depois da morte do marido e durante a ditadura militar. “Eu tinha muita vontade de trabalhar com o filme do Coutinho. Eu transito entre a ficção e a realidade, entrelaçando na peça as duas histórias, de Torto Arado e de Cabra Marcado para Morrer”, diz Jatahy. Ela salienta que no processo de criação foi importante o diálogo que travou com suas duas atrizes negras e uma indígena*, com a assistente de direção, Caju Bezerra – “mulher negra e ativista”, nas palavras da diretora –, e com as escritoras Ana Maria Gonçalves, autora de Um Defeito de Cor, e Tatiana Salem Levy, que escreveu Vista Chinesa.

Para interpretar os personagens de Depois do Silêncio, Jatahy optou por um elenco 100% brasileiro e preferiu fazer os ensaios e as pré-filmagens no Brasil. As protagonistas são três mulheres, interpretadas por Juliana França, Gal Pereira e Lian Gaia, que atuam em português (o espetáculo é legendado na língua do país onde é apresentado). “É um trabalho sobre o racismo, mas Chris se muniu de uma equipe muito incrível de pessoas negras e brancas que pensam a questão do racismo estrutural. A trilogia toda é sobre o que podemos fazer juntos. É sobre amor, afeto e estratégias de sobrevivência”, diz Juliana França, que no Brasil atua no Grupo Código, na cidade de Japeri, na Baixada Fluminense. Antes de aceitar o trabalho, a atriz de 32 anos perguntou se haveria pessoas negras também na equipe técnica do espetáculo, algo que considerava fundamental para ela se inserir no projeto. Depois dos primeiros ensaios no Rio, França deixou o Brasil pela primeira vez, para o início da turnê internacional de Depois do Silêncio, que deve se estender por no mínimo cinco anos.

A baiana Gal Pereira, de 30 anos, parente de uma guia* na Chapada Diamantina durante uma festa do jarê, religião de matriz africana, quando chamou a atenção de Jatahy, que foi visitar a região durante suas pesquisas para o espetáculo. “Gal morou no Quilombo Remanso até os 12 anos, onde tinha uma tevê pequenina de bateria, e a vida inteira sonhou em ser atriz. Quando a convidei, ela me disse: ‘Nunca imaginei receber um convite para um trabalho que não fosse limpar a casa dos outros’”, conta a diretora. “E ela arrasa, é uma atriz incrível.”

A primeira das intérpretes escolhidas para Depois do Silêncio foi Lian Gaia, de 31 anos, nascida em Belford Roxo, na periferia do Rio de Janeiro, de origem indígena e negra. Jatahy a convidou para uma participação em Antes que o Céu Caia, a segunda peça da trilogia, depois de assistir à performance dela no vídeo Baile, sobre o apagamento da história indígena, exibido no RePensa Festival, projeto online criado para debater questões de raça e gênero e promover a inclusão e a diversidade. “Estávamos conversando sobre a história de sua família, e Lian me disse: ‘Pois é, tudo começa com a morte de meu bisavô, João Pedro Teixeira. Fiquei em choque. Ela era bisneta do protagonista de Cabra Marcado para Morrer. Levei um tempo pensando no que tudo isso significava”, conta Jatahy, cuja bisavó era negra. Completa o elenco o recifense Aduni Guedes, pesquisador de percussão, responsável pelos ritmos ao vivo no espetáculo.

O escritor Itamar Vieira Junior esteve na noite de estreia de Depois do Silêncio em junho passado, a convite do Festival de Viena, e até então nunca havia assistido a um trabalho de Jatahy. “Esteticamente é muito forte, mexe com as emoções, porque ali está representada não somente a história daquelas personagens: é a história da formação de nosso país. É uma arte política, sem perder sua dimensão humana”, avalia.

O grande interesse da diretora pela história contada em Torto Arado foi decisivo para que Vieira Junior autorizasse a livre adaptação teatral e abrisse seus arquivos pessoais, ajudando com contatos na Chapada Diamantina, região que serve de inspiração ao livro. “Ela estava, antes de tudo, interessada no que a história poderia contar sobre nós, sobre o Brasil”, diz o escritor. “Talvez essa história nos convide a pensar o país e a consertar desigualdades que são fruto de um passado tão violento.”

 

Christiane Jatahy mora em Paris num apartamento nas cercanias do Cemitério Père Lachaise, com seu companheiro, o belga Thomas Walgrave, colaborador artístico onipresente em seus espetáculos. Mas ela mantém um pé no Brasil. Quando visita o Rio de Janeiro, fica na casa que construiu em 2005 no bairro Humaitá, no Rio de Janeiro, com o cenógrafo Marcelo Lipiani, seu marido* na época e colaborador cênico até hoje. Lá também vivem seu cão, Joca, e seu gato, Gil. O ex-casal mantém um acordo: Lipiani e sua atual companheira deixam a casa, ou a dividem temporariamente com Jatahy, quando a diretora está no Brasil. “A casa é grande, tem dois andares, e na verdade os donos são o Joca e o Gil”, diz ela, rindo, sem ocultar a saudade da dupla de animais.

O olhar vivaz e aguçado sobressai no rosto fino de Jatahy, com marcantes sobrancelhas, parcialmente escondidas por uma franja. Seus pensamentos parecem em constante agitação, pela maneira irrequieta como se expressa. É também uma detalhista. Em um dos ensaios de Depois do Silêncio, no teatro Centquatre-Paris, às vésperas da estreia em Viena, a diretora trabalhava minuciosamente as cenas, atentando para cada palavra, entonação ou gesto, em diálogo permanente com as atrizes e a equipe técnica.

Com cinco peças atualmente em turnê internacional, sem contar os novos projetos em andamento, Jatahy passa boa parte do tempo em trens e aviões. Em cada nova parada, procura se hospedar em apartamentos, não em hotéis, para ter a sensação de um lar. “Estou sempre tentando encontrar uma casa quando estou fora, esse é o meu cotidiano. Lavo roupa, faço faxina, vou ao supermercado, cozinho, para não comer sempre na rua. Enfim, procuro fazer um ninho em cada lugar, pelo menos por alguns dias.” Pela manhã, ela organiza a “turbulência dos pensamentos da noite” e invariavelmente lê a imprensa brasileira e estrangeira. Os ensaios teatrais são em geral programados para a tarde. À noite, ela prefere escrever. Apesar de seu nomadismo, não abdica de sua “família” artística brasileira. Agregou uma equipe de criação e apoio que se tornou indispensável aos seus espetáculos ao longo dos anos, composta pelo cenógrafo Marcelo Lipiani, o diretor de fotografia Paulo Camacho, o músico Vitor Araújo e o coordenador de produção Henrique Mariano – além de Thomas Walgrave.

Jatahy nasceu em uma família de classe média, filha de uma jovem de apenas 16 anos. Sua mãe se casou em seguida, mas logo o pai saiu de cena. A menina morou em uma casa em Ipanema habitada apenas por mulheres – a bisavó, a avó, a mãe e a empregada com sua filha. Apesar disso, em sua memória aquele era um ambiente triste, marcado por perdas: o avô materno faleceu em um acidente e dois de seus tios morreram de hemofilia.

A pequena Christiane se refugiou na leitura. “Ler para mim era como uma droga. Fui muito compulsiva por leitura”, conta. Aos 7 anos, sua vida sofreu uma virada. A mãe se casou novamente, e a menina foi morar na casa do padrasto – a quem passou a chamar de pai. Foi uma mudança “da sombra para a luz, e do sonho para a realidade”. A nova família gostava de se reunir e organizava animados almoços de domingo. A família do padrasto também era atenta ao mundo criativo das crianças. Frequentar o teatro infantil nos fins de semana passou a ser um lazer constante para Jatahy. Ela assistiu várias vezes a Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, e a O Jardim das Borboletas, de André José Adler. “Copiávamos o texto, comprávamos o disquinho, montávamos em casa com minhas primas. As tias ajudavam, a avó pintava o cenário, e nos apresentávamos nas festas de aniversário. Era algo que antes eu fazia sozinha, mas que passou a ser feito em meio a um mundo de pessoas, que era meu lugar de afeto.” Ela acabou sendo matriculada em uma escolinha de teatro para crianças. Na adolescência, frequentou outro curso, no Colégio Andrews, dado pelo ator e diretor Miguel Falabella, de maneira extracurricular.

Aos 19 anos, resolveu morar sozinha e começou a dar aulas de teatro no Colégio Souza Leão: escrevia e dirigia a peça que os alunos entre 10 e 11 anos apresentavam no encerramento do ano letivo. Quando fez 22 anos, foi selecionada para dar um curso de teatro a funcionários da Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel, incorporada em 2015 à Claro). Empregados de todas as categorias da empresa frequentavam o curso. “Era um lugar muito democrático em termos de níveis sociais, e para quem gostava de teatro era incrível. Montei com eles Gimba, Presidente dos Valentes, de Gianfrancesco Guarnieri. Foi algo transformador para eles e também para mim.”

O interesse pela atualidade e a escrita a levou à faculdade de jornalismo, que Jatahy cursou na PUC-Rio, onde mais tarde faria uma pós-graduação em arte e filosofia. Mas ela não parou com o teatro. Fez cursos dos diretores Carlos Wilson, conhecido como Damião, e Bia Lessa na extinta Faculdade da Cidade*, e depois integrou pela primeira vez uma trupe teatral, o Mergulho no Trágico, dirigido por José da Costa. Nessa época, o ator William Gavião sugeriu que ela encenasse a peça Ñaque o de Piojos y Actores (Ñaque ou sobre piolhos e atores), do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra. Ñaque era o nome dado no século xvii a grupos de atores cômicos.

A estreia da montagem, com Jatahy no elenco, não foi no Rio de Janeiro, mas em Campina Grande, na Paraíba, por sugestão do diretor escolhido por ela, o espanhol Moncho Rodriguez, que pesquisava no Nordeste as raízes ibéricas da região. Ela gastou na montagem todo o dinheiro que estava juntando na poupança para estudar no exterior. “Eu, pensando em ir para Europa, acabei na Paraíba”, diz, rindo. Quando a montagem finalmente veio para o Rio foi possível trazer ao Brasil o próprio Sinisterra. Ele se encantou com a atuação de Jatahy e a convidou para atuar em Ay, Carmela!. Chamou também Aderbal Freire Filho para codirigir a montagem e ser um dos atores da peça, encenada em 1994 no Teatro Carlos Gomes, também no Rio.

“Sinisterra é muito importante na minha trajetória”, afirma a diretora. “Foi a primeira pessoa para quem mostrei as coisas que escrevia, e ele me incentivou a continuar.” Graças ao dramaturgo, o sonho de Jatahy de estudar fora do Brasil se concretizou. Em 1992, ela foi a Barcelona para participar do curso Nuevos Enfoques de la Creación Teatral, promovido pelo grupo de Sinisterra, o Teatro Fronteiriço. “A cidade estava explodindo, o teatro e a dramaturgia passavam por algo inovador”, recorda. Jatahy estudou a fundo o teatro de Sinisterra, com quem estabeleceu um intenso diálogo de trabalho. Juntos, eles fizeram adaptações teatrais, como Memorial do Convento, a partir do romance de José Saramago, e La Cruzada de los Ninõs de la Calle, que reunia vários nomes do teatro latino-americano. “Até hoje Sinisterra me acompanha.” O dramaturgo está com 82 anos.

No retorno ao Brasil, sem dinheiro, a diretora pensou em voltar a dar cursos de teatro. Marcelo Lipiani, seu companheiro na época, lhe sugeriu a Escola do Parque Lage, no Jardim Botânico, que aceitou de pronto. O projeto começou com vinte alunos, depois aumentou para duas turmas de sessenta e, por fim, chegou a três classes com mais de cem estudantes. “A coisa foi crescendo e o curso virou um fenômeno”, diz Jatahy. Com o Grupo tal (Teatro Aberto do Lage), criado na época, ela passou à direção e montou Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare (em 1995), e a Trilogia da Iniciação, a sua primeira, baseada em três clássicos infantis: Peter Pan (que estreou em 1996), Alice (1998) e Pinóquio (1999). Nos cinco anos de residência artística no Parque Lage, o seu público chegou a mais de 100 mil espectadores, e as peças foram indicadas para doze prêmios.

 

Em 2001, com o espetáculo Carícias, do catalão Sergi Belbel, a diretora fez as primeiras experiências com a linguagem audiovisual no palco. Seu desejo era que o espectador tivesse a perspectiva de uma câmera nessa peça, que ela define como “ultraviolenta” (apesar do título). “A plateia se sentava em arquibancadas móveis, que subiam e desciam, criando perspectivas de distância e proximidade, como se fosse realmente uma câmera”, descreve Jatahy. “Era incrível, mas dava um trabalho louco.”

A montagem, contudo, não foi bem recebida. A influente crítica Barbara Heliodora, do jornal O Globo, detestou. “A direção de Christiane Jatahy é óbvia, recorrendo à correria e à gritaria para dinamizar os tristes acontecimentos [da peça] […] Carícias, enfim, é uma das mais infelizes investidas teatrais da temporada”, escreveu Heliodora, em 15 de outubro de 2001. “Ela queria me prender, me incendiar em praça pública. Ela odiou com todas as suas forças maléficas”, diz Jatahy, às gargalhadas. Passadas duas décadas, a diretora define o espetáculo como “fora de seu tempo”, tanto em termos de linguagem como de temática. “Não era para aquele lugar e aquele momento. Talvez em São Paulo tivesse sido diferente. Era um projeto especial para mim, e que foi extremamente agredido.”

Seu trabalho posterior, Conjugado, de 2004, feita em parceria com a atriz Malu Galli*, iniciou a trilogia Uma Cadeira para a Solidão, Duas para o Diálogo e Três para a Sociedade, e marca o aprofundamento de seu método próprio de dramaturgia. A peça, um monólogo interpretado por Galli, discorria sobre a solidão nos grandes centros urbanos. Na pesquisa de campo, Jatahy esteve em reuniões de neuróticos e tímidos anônimos, e filmando vários testemunhos, que constituíram a dramaturgia do espetáculo. “A peça era tipo uma instalação, o espaço cênico era um cubo cercado de persianas e reproduzia uma casa, com quarto, banheiro, geladeira, tevê. Conforme o tempo ia passando, a personagem abria um pouco mais as persianas, até o público se encontrar dentro da casa, pois a plateia assistia de uma maneira muito próxima.”

A Falta que Nos Move, de 2005, segunda peça da trilogia, aquela em que o elenco e o público esperam um ator que sumiu (e não chega nunca), também não agradou Barbara Heliodora. “Ela disse que não era teatro, o que naquele momento foi um enorme elogio, pois realmente não era”, relativiza Jatahy. As palavras de Heliodora foram ainda mais fortes. Ela iniciou assim a crítica publicada em 7 de abril de 2005, no Globo: “Está em cartaz no mezanino do Sesc, em Copacabana, A Falta que Nos Move, cuja maior originalidade aparece no fato de ser este o primeiro, digamos, espetáculo movido pela total falta de ideias.”

A relação entre Jatahy e Heliodora, entretanto, não foi feita apenas de atritos. Segundo a diretora, ela elogiou Leitor Por Horas (outro texto de Sinisterra, encenado em 2005), Julia (baseado em Senhorita Júlia, de Strindberg, de 2011) e E Se Elas Fossem para Moscou? (adaptação de As Três Irmãs, de Tchékhov, em 2014). “Conjugado ela também havia adorado.” Em 20 de março de 2004, Heliodora escreveu sobre Conjugado: “O texto é um retrato, a um tempo objetivo, divertido e doloroso, da solidão de uma jovem bonita, empregada e só. […] A direção de Christiane Jatahy cria com precisão não só a impressão da necessidade da exata repetição das várias atividades, como também do estabelecimento da sequência em que elas são executadas.” Com um sorriso, a diretora comenta: “Barbara Heliodora não sabia se me amava ou se me odiava.”

Em 2008, a peça A Falta que Nos Move ganhou uma versão cinematográfica, dirigida por Jatahy. A ideia era subverter o conceito de cinema como registro do que já passou e provocar em quem assiste ao filme a sensação de estar se arriscando no tempo presente. Na noite de 23 de dezembro daquele ano, a diretora, a equipe técnica (munida com três câmeras) e os cinco atores filmaram durante treze horas na própria casa de Jatahy. Algumas cenas eram previamente ensaiadas, outras improvisadas. Elas eram registradas sem cortes e, para não interrompê-las, Jatahy dirigia os atores enviando a eles mensagens de texto por celular. O filme de 1 hora e 50 minutos estreou em 2009 no Festival do Rio. “Ficou doze semanas em cartaz, um sucesso para uma obra experimental”, avalia Jatahy.

Em sua formação, a diretora afirma ter sido marcada mais por filmes do que por peças. Para ela, o teatro é insuperável como experiência quando alcança sua dimensão mais profunda. “Mas nem sempre isso ocorre”, acrescenta. Já o cinema pode impactar mesmo quando não se trata de um grande filme. “Fui levada de muitas maneiras por muitos filmes, que foram determinantes para o que sou hoje como artista. Nas mostras de cinema, entrava às duas da tarde e saía à meia-noite.”

Jatahy enumera algumas de suas influências no cinema: Ingmar Bergman, John Cassavetes, David Lynch e Michael Haneke. “No cinema deles há uma mistura contundente e visceral entre as relações humanas e um universo onírico, estranho, que me ajudou a pensar meu exercício artístico.” No cinema brasileiro sua escolha recai sobre diretores que apostam no documentário ou no realismo. Eduardo Coutinho e Nelson Pereira dos Santos são suas principais referências. “Nunca fui muito de Glauber Rocha”, confessa. “Há artistas que vão para a expressão extrema, incorrendo em certo exagero para atingir uma profundidade radical sobre o ser humano e a sociedade. Não gosto do espelho que reflete de maneira torta, mas do que confronta a realidade. Minha questão é muito mais documental. Adoro documentário.” Para Jatahy, o cinema em junção com o teatro abre um “terceiro território”, no qual ela se aventura em diferentes camadas, narrativas e perspectivas para tratar o que ocorre em cena. “Isso possibilita novos pontos de vista. Mas o principal para mim é criar essa terceira zona, de fricção, e expandir as fronteiras do teatro.”

Em Corte Seco (2009), ela avançou ainda mais em suas pesquisas com a linguagem do cinema no palco. Câmeras estáticas, colocadas dentro e fora do teatro, registravam tudo que acontecia no momento de apresentação da peça, e Jatahy editava as imagens ao vivo, por meio de três monitores. Como um deus ex machina, ela controlava o andamento do espetáculo também ao vivo, indicando um ator, escolhido conforme uma numeração, para “cortar” a narrativa de outro e iniciar a sua própria fala. O roteiro costurava um mosaico de histórias, baseadas em testemunhos, notícias de jornais e processos judiciais, assumidamente inspirado no filme Short Cuts (1993), no qual o diretor Robert Altman adaptou narrativas do escritor Raymond Carver. “Era uma ilha de edição ao vivo. Eu alterava a ordem das cenas, o tempo de cada uma, como se fosse um caleidoscópio social”, explica a diretora.

O ator Eduardo Moscovis havia convidado Jatahy para dirigi-lo no monólogo O Livro, de Newton Moreno, no momento em que ela começava a preparar os ensaios de Corte Seco. Ele acabou incluído no elenco. Para falar sobre o espetáculo, os dois se encontraram em um restaurante do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. Enquanto conversavam, o ator percebeu um paparazzo por trás de uma pilastra, mirando a câmera fotográfica na sua direção. “Abri os braços e gritei: ‘Porra, cara!’ – e chamei o segurança”, recorda o ator. “A Chris levou um susto. Depois, ela me disse: ‘A peça é isso. Estamos aqui conversando, completamente imersos em nosso papo, e de repente somos interrompidos agressivamente.’ Então entendi o que ela queria com a peça”, diz Moscovis, rindo.

Os ensaios duraram seis meses, na casa de Jatahy. “E na carga horária que ela gosta, de seis a sete horas por dia”, conta o ator. “Foi um espetáculo muito potente, conseguimos viajar bastante. Era uma investigação da Chris na expansão da caixa teatral, com câmeras filmando os atores se arrumando no camarim, discutindo no lado de fora do teatro. Ela propunha rasgar aquela construção do palco.”

 

O reconhecimento internacional do trabalho de Cristiane Jatahy ocorreu com Julia, em 2011. Durante o Festival Panorama, com apresentações de dança e outras manifestações culturais no Rio de Janeiro, os programadores estrangeiros que estavam na cidade assistiram à peça e convites começaram “a chover”, diz a diretora. “Viajamos para todos os lados na Europa.”

Jatahy afirma que Julia foi o primeiro trabalho em que ela assumiu de vez o espaço dramatúrgico construído na junção de teatro com cinema, integrando projeção e câmera à cena, em filmagens ao vivo. “Em Corte Seco, havia câmeras de segurança, estáticas e dispostas de maneira invisível, que captavam o que acontecia naquele determinado quadro. Não era cinema. Em Julia, dei um passo adiante, assumindo a questão do cinema em seu formato. Foi a primeira vez que usei projeção em cena e a própria câmera filmando ao vivo.”

A senhorita Júlia de Strindberg, uma aristocrata do século XIX, é inserida na versão brasileira (interpretada por Julia Bernat) em um bairro rico do Rio de Janeiro e tem uma relação amorosa com o motorista negro de sua família. Com a peça, Jatahy inaugurou uma trilogia baseada em clássicos do teatro. A segunda montagem, E Se Elas Fossem para Moscou? estreou em 2014 no Rio, com Bernat, Stella Rabello e Isabel Teixeira (a atriz que fez Maria Bruaca em Pantanal).

Bernat estava com 21 anos quando participou de Julia e se tornou presença constante nas criações de Jatahy – até a Trilogia do Horror, seu quinto trabalho com a diretora. Julia permanece em turnê internacional há onze anos, o que tem obrigado a atriz a recusar convites para outros espetáculos. Mesmo assim, fez cinco filmes no Brasil, entre eles Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e Campo Grande, de Sandra Kogut. Neste ano, conseguiu arranjar tempo para dirigir a peça Saco de Batata, texto do francês Georges Perec, apresentada em agosto passado no teatro do Sesc Copacabana. “Perco toda hora trabalhos no Brasil, mas é um presente para mim poder dar continuidade a uma pesquisa com a Chris. É uma relação de confiança que só o tempo traz.”

A última peça do tríptico de clássicos, A Floresta que Anda, a partir de Macbeth, foi encenada em 2015. “Essa trilogia tem muito a ver com a memória”, diz a diretora, que recorre à imagem do estilingue para explicar como pensa a dramaturgia quando trabalha a partir de um texto original. “Estico a pedra no elástico em direção à realidade com a máxima de distância possível, para depois retornar ao texto e ressignificá-lo. Julia, por exemplo, é muito sobre o microcosmo social brasileiro, o mundo dos empregados domésticos e patrões, e sobre o macrocosmo também, com as tensões e o horror que atravessam a sociedade fadada ao fracasso, porque é uma casa-grande e senzala que nunca acaba.”

Em 2017, Jatahy se tornou o primeiro nome do teatro brasileiro a dirigir uma peça na Comédie-Française, a companhia mais antiga do mundo, fundada em 21 de outubro de 1680 e estabelecida num requintado prédio perto do Museu do Louvre. Éric Ruf, diretor da Comédie-Française, disse que saiu “extasiado” de uma apresentação de Julia, em Paris. Sua admiração pelo trabalho de Jatahy cresceu após assistir E Se Elas Fossem para Moscou?, em um festival na Normandia. O sucesso de crítica e público alcançado pela diretora brasileira assegurou a ele que valia a pena convidá-la para trabalhar na Sala Richelieu, a mais emblemática da Comédie-Française.

Para sua estreia no histórico recinto teatral, a diretora optou por um projeto de extrema ousadia: trazer para o palco e o tempo presente o filme A Regra do Jogo, feito em 1939 por Jean Renoir e sempre listado entre os dez maiores da história do cinema. “A Regra do Jogo sempre me impressionou, e foi também meu objeto de estudo por um semestre na cadeira de cinema da faculdade de jornalismo”, diz.

O filme começa em tom de comédia ligeira e se encaminha progressivamente para a tragédia, enquanto expõe as cisões sociais na França dos anos 1930, os preconceitos de classe e de raça, e a prostração da elite europeia às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Na peça, Jatahy foca em alguns desses temas, acrescentando sua visão sobre os desmandos do poder masculino, o drama da imigração e o impacto da superexposição na atualidade. Em sua versão, o aviador André Jurieux, celebrado no filme por uma travessia recorde do Atlântico, se torna um navegador solitário que salva imigrantes no Mediterrâneo. Sua namorada, a austríaca Christine vira na peça uma marroquina, interpretada por Suliane Brahim, única atriz de origem árabe da Comédie-Française. E o guarda de caça alemão Édouard Schumacher, empregado da rica propriedade onde se passa o filme, se torna um segurança africano na pele do ator francês Bakary Sangaré.

O espetáculo começa com um filme de 26 minutos, pré-gravado em ambientes internos e externos da Comédie-Française e exibido na imensa tela que ocupa todo o palco. Quando os atores entram em cena, eles interagem com o público num clima de cabaré, cantam canções francesas famosas, enquanto tudo é filmado por câmeras, inclusive com a ajuda de um drone. A crítica francesa definiu a criação como um “miniterremoto” na casa de Molière.

O projeto seguinte de Jatahy foi o díptico Nossa Odisseia, baseado em Homero e composto de Ítaca (2018) e O Agora que Demora (2019), criações em que utiliza filmes feitos em diferentes partes do mundo – Palestina, Líbano e África do Sul – para refletir sobre a guerra, as migrações, os refugiados e o exílio. “Christiane nos disse que seus espetáculos são caleidoscópicos, que era preciso que o público criasse sua própria montagem e filtrasse suas zonas de atenção”, diz o ator francês Matthieu Sampeur, que fez parte do elenco de Ítaca (e depois de Entre Cão e Lobo). “O espectador sentado ao lado não deve ver a mesma peça que você. Por isso, nas peças dela sempre ocorrem várias coisas ao mesmo tempo. Isso pode não agradar a todos. Mas as grandes propostas, em geral, não tocam todo mundo, porque são novas e perturbam.” Sampeur qualifica sua experiência no teatro de Jatahy como “completamente atípica”. “Para cada espetáculo, ela inventa uma dramaturgia nova. Há sempre algo em torno do cinema-teatro, mas nunca da mesma maneira. Cada criação é surpreendente em sua forma, porque é meticulosamente pensada. Fazer isso a cada vez é fascinante, nunca vi em outra parte.”

O crítico Christophe Triau, professor de estudos teatrais na Universidade Paris Nanterre e coautor de Qu’Est-Ce que le Théâtre? (O que é o teatro?), aponta dois elementos que levaram com que Jatahy se destacasse no cenário europeu: a maneira como ela faz a junção entre teatro e cinema, e a forma como trata a realidade em seus espetáculos. “Ela faz do cinema-teatro um motor dramatúrgico e não apenas uma técnica a mais. E não se contenta em fazer documentário. A maneira como convoca o mundo externo para dentro da cena é muito teatral, inteligente, convincente e vertiginosa.”

O objetivo de Jatahy é que cada espectador saia da peça com uma pergunta na cabeça. “Sempre foi assim: quando a humanidade se olha e se pergunta, isso leva à mudança da realidade”, diz. Ela assume que seu teatro é controverso, mas a discórdia é um conceito que faz parte da sua arte. “Meu trabalho quebra regras, divide pessoas. É difícil. Às vezes leio uma crítica ruim e digo: ‘Ooooh.’ Depois leio uma boa e digo: ‘Aaaah.’ E está tudo certo. Aqui na Europa, ao menos, nunca tive que provar quem sou a cada novo trabalho.”

A diretora lamenta que, no Brasil, os artistas sempre têm que recomeçar do zero para certificar seu valor, pois a trajetória anterior costuma ser ignorada. A situação é ainda mais complicada por causa do preconceito de gênero. Ela conta que se viu sempre muito solitária como diretora e sabia que estava sendo mais questionada do que os homens. “Isso é muito violento. Eu sentia essa pressão o tempo todo, como se estivesse em um lugar que não era meu”, diz. “Tinha de me explicar, me justificar. E me perguntavam: ‘Quais os contatos que você tem?’ Não são contatos, é o meu trabalho. Por que questionar quando se tem a possibilidade de circular pelo mundo e falar do Brasil? Isso não ameaça nem tira nada de ninguém. Ao contrário, em qualquer área artística, abre espaços e curiosidade, gera interesse pelo país e pelas pessoas.”

 

A próxima criação de Jatahy será uma ópera. Em julho do ano que vem, ela estreia no Grand Théâtre de Genebra uma montagem de Nabucco, de Giuseppe Verdi, com um coro de mais de 100 cantores e 75 figurantes. “Será algo gigantesco, com um cenário lindo, e um trabalho político, pois fala de uma situação de guerra, uma ocupação e povos escravizados”, revela.

Sua agenda para os próximos anos na Europa não termina aí. Ela foi convidada para novos projetos no Schauspielhaus Zürich, no Piccolo Teatro de Milão, no Centro Dramático Nacional de Madri, no festival Temporada Alta, em Girona (Espanha), no centro de artes Barbican, em Londres, e no teatro Odéon, em Paris. Recebeu ainda a proposta de criação de um espetáculo para o projeto História do Teatro, do suíço Milo Rau, diretor artístico da companhia de teatro belga ntgent. E tem dois planos mais pessoais: uma peça cujo ator será o dramaturgo português Tiago Rodrigues, atual diretor do festival de teatro de Avignon, na França, e uma nova criação no Brasil. “Sempre reajo ao que está acontecendo e, como estamos em um momento turbulento, preciso ainda descobrir o que terei vontade de falar quando fizer esse espetáculo no Brasil.”

Jatahy se enveredou pelo cinema propriamente dito e está escrevendo o roteiro de um filme sobre o exílio, ambientado na França e que terá produção franco-brasileira. Ela também sonha filmar a história da morte de seu avô paterno, Alain de Almeida Carneiro*, em um acidente de avião. O voo da Pan Am para Nova York caiu em plena selva amazônica, na madrugada de 29 de abril de 1952. Circularam vários rumores sobre o acidente, como o de que a tragédia teria sido causada pela explosão de uma carga de urânio, que o avião estaria carregado de barras de ouro e que um passageiro transportava uma fortuna em diamantes brutos. “Houve uma caça ao tesouro por causa disso. Os restos dos corpos foram encontrados, menos o do meu avô”, conta.

O sonho de aposentadoria da diretora é se refugiar em uma casa à beira-mar para escrever, tranquilamente, acompanhada do cão Joca e do gato Gil, aconchegados aos seus pés. Mas ainda falta muito para isso. Ela está com energia de sobra para novas ousadias teatrais. Thomas Walgrave define sua companheira não como workaholic, mas createaholic. “Ela está sempre criando, compulsivamente”, diz.

Jatahy continua a criar mesmo quando está dormindo. Às vezes desperta com a cabeça cheia de novas questões para suas peças. Não raro, recorre aos seus sonhos para elaborar os espetáculos. Ela garante que faria “altos filmes” se fosse capaz de registrar tudo que sonha. “Vou dormir pensando: que bom, agora vou sonhar! São sonhos ricos em termos de roteiro, bastante imagéticos e com muita dramaturgia”, conta. “Meus sonhos talvez sejam uma utopia do que tento fazer.”

 

* Trechos alterados em relação à edição impressa, para corrigir ou acrescentar informações.