futebol & finanças

O agente globalizado

Como Wagner Ribeiro ganhou muito dinheiro cuidando da vida e vendendo passes de jogadores brasileiros para o exterior

Daniela Pinheiro
Comprando jogadores desconhecidos na baixa e repassando-os na alta, Wagner Ribeiro fez carreira de homem de negócios, mas não fala de dinheiro. “Os números do futebol são fantasiosos”, diz.
Comprando jogadores desconhecidos na baixa e repassando-os na alta, Wagner Ribeiro fez carreira de homem de negócios, mas não fala de dinheiro. “Os números do futebol são fantasiosos”, diz. FOTO: TUCA VIEIRA_2007

Era uma tarde agitada no escritório de Wagner Ribeiro, o homem que enriqueceu vendendo jogadores brasileiros para times no exterior, entre eles Kaká e Robinho. As três salinhas contíguas, pintadas de azul e com sofás pequenos, estavam lotadas. Uma equipe de correspondentes da rede de televisão Bloomberg montava as câmeras. Dois secretários andavam de um lado para o outro. Um grupo de quatro jovens de camiseta, boné e calça jeans se espremia num canto. O holofote acendeu.

– Como um grande homem de negócios no futebol, o senhor investe em ações? – perguntou um jornalista.

– Você quer saber quais ações vão render tanto quanto isso que faço hoje? No que faço, meu investimento é zero. Sou eu falando, vendendo e pronto – disse Ribeiro.

Desde o argentino Juan Figer, que reinou por décadas no mercado futebolístico nacional, não surgira um agente com a visibilidade de Wagner Ribeiro. Só nos últimos seis meses, ele vendeu ou intermediou a transferência de dez jogadores para times estrangeiros. Ele costuma embolsar de 1% a 10% do valor do negócio. Só nesta temporada, especula-se, teria ganhado cerca de 3 milhões de dólares. “Não falo de dinheiro, os números no futebol são fantasiosos”, disse.

Ribeiro gerencia a carreira de 200 atletas, quinze deles pessoalmente. A maioria é de desconhecidos, garimpados em times do interior por olheiros, subagentes que batem ponto em campos de várzea, à cata de novos talentos. As ofertas chegam de todo o Brasil. De cada cinqüenta dicas, ele diz aproveitar dez. Dessas, apenas uma vinga. O comentarista esportivo Milton Neves, da Band, avalia assim os meios nos quais Ribeiro se move: “É como uma grande bolsa de valores. Compra-se na baixa e vende-se na alta. Só que uma pessoa como o Wagner, que vendeu o Kaká e cuida até hoje de tudo que diz respeito ao Robinho, não precisa mais nem levantar da cadeira. Ele nem tem mais que ir atrás dos times de fora. Os estrangeiros é que vêm atrás dele”.

A entrevista para a Bloomberg terminara. Havia quase meia hora, o jogador Lovinho assistia a tudo, espremido num canto com amigos. Ribeiro cochichou a respeito do rapaz: “O pessoal brinca que ele é meu filho de cor. E é mesmo. Eu o levo para passear, providencio tudo o que ele precisa”. O celular tocou. “Eu já falei. Eu estou levando o Caiuby para o Palmeiras. A senhora fique tranqüila. Olha, o seu filho vai ser o novo Ronaldo, dona Conceição”, disse o agente à mãe de outro atleta. E continuou, depois de desligar: “As mães e os pais dos jogadores me ligam e ficam falando que sou Deus. Eu não faço filantropia. Eu ganho dinheiro em cima de tudo isso”.

Daniel Santos Silva tem o apelido de Lovinho em homenagem ao atacante Vagner Love. Com 18 anos, ele é mirrado e tem um sorriso desconcertante, de tão alvo e largo. Sua mãe é empregada doméstica e o pai, pedreiro. Há dois anos, ganhava 400 reais por mês no time infantil do Palmeiras. Foi procurado em casa por um sujeito que se apresentou como funcionário de Ribeiro. A irmã desconfiou e ligou para o escritório do agente. “O Wagner até conhecia o tal cara, mas disse que ele estava era querendo ganhar dinheiro fácil com o Daniel”, contou a irmã, Vanusa, de 24 anos, também doméstica. “O Wagner nos explicou que ganhar dinheiro é um processo demorado, é um plano de carreira. Ele não nos pressionou em nenhum momento. Não ligou para nossa casa, nada. Só depois de meses decidimos fechar com ele.”

Aos 48 anos, Wagner Ribeiro é magro, alto e, como uma pintura de Modigliani, tem o rosto longo e os olhos próximos um do outro. Fala compulsivamente, engolindo consoantes e plurais. Não fuma, quase não bebe, não conta piadas e tem uma sombra de melancolia no olhar. Parece difícil impressioná-lo. Nem mesmo a festa de aniversário de David Beckham, para a qual foi convidado, pareceu-lhe interessante. “Foi uma das festas mais chatas a que fui, muito artificial”, disse, sem sinal de esnobismo.

Ele veste sempre ternos Armani, usa uma grande bolsa Louis Vuitton e óculos Gucci ou Dior. Dirige uma BMW X5 blindada ou um Porsche Cayenne S, emplacado em sua cidade natal, Pratápolis, Minas Gerais. É discreto sobre seu patrimônio. Investe em apartamentos, flats e terrenos. Quando quer relaxar, prefere Las Vegas. Recentemente, descobriu ser apaixonado por vinhos. Especificamente pelo Matarromera, que costuma trazer em caixas da Espanha. “Eu e o Robinho jantávamos com o Florentino Perez [presidente do Real Madrid de 2000 a 2006 e do Grupo ACS], e ele pediu esse vinho”, disse. “Eu achei que fosse custar uns 5 000 euros a garrafa, mas saiu por 45 euros. O Florentino me ensinou que vinho bom é o de preço bom.” Sem se abalar, ele contou a seqüência do jantar: “Esbarrei no copo e derrubei o vinho todo em cima da mulher do Florentino”.

Ao contrário do estereótipo de que o agente é o sujeito que acerta o contrato publicitário, despista as marias-chuteiras e arruma até a manicure do jogador, a atuação de Ribeiro avança também campo adentro. Os críticos o acusam de querer escalar os times em que estão seus jogadores. O caso mais rumoroso foi o da sua briga pública com o então técnico do Corinthians, Emerson Leão. Numa entrevista, Ribeiro disse que o jogador Lulinha, ainda do juvenil, só continuaria no time se fosse escalado como titular. Leão se recusou. “Briguei e resolveram da melhor maneira. Quem foi demitido? Eu ou ele?”, perguntou, retoricamente. Leão foi mandado embora do clube. “Nesse meio é assim. Primeiro, sempre esculhambam comigo. O Marcelo Teixeira [presidente do Santos] já quis até cassar minha carteirinha da FIFA. Eu vou lá, vendo o Robinho para o Real Madrid e entram 30 milhões no cofre do clube. Aí, me dão beijinho.”

Quem é do ramo garante que Wagner Ribeiro se destaca dos demais agentes por ter faro para impor, ou esperar a hora certa, de vender um atleta. Tem a segurança de arriscar, a frieza do blefe e domina a arte da especulação, provável herança de um passado no mercado financeiro. De seu currículo, constam negociações como a de dois jogadores do Ferroviária de Araraquara. Eles foram comprados numa sexta-feira, por 400 mil reais, e vendidos na segunda, para o São Paulo, pelo triplo do valor. Outro jornalista esportivo, Juca Kfouri, resume assim o talento de Ribeiro: “O Wagner é capaz de assumir que leva vantagem nesse negócio porque seus concorrentes são mais incompetentes. Ele parece jogar limpo. Se não fosse assim, seus atletas falariam mal dele. E nunca se viu nem mesmo o Kaká, com quem ele se desentendeu, falando algo contra”.

No século passado, os clubes eram donos dos passes dos jogadores. Mesmo que recebessem uma proposta para trocar de camisa, os atletas dependiam da boa vontade e do interesse dos dirigentes para prosseguir a negociação. Em 1998, a Lei Pelé decretou o fim do passe. Assim, mediante o pagamento de uma multa rescisória para o clube, o jogador ficou livre para negociar o seu futuro. Aí ganhou importância a figura do agente, também chamado de empresário ou procurador. Foi ele quem passou a vender o jogador, como uma mercadoria, aos times de países com moedas fortes.

Até a década de 80, os times europeus adotavam políticas protecionistas para valorizar seus craques. Era raro haver um brasileiro jogando fora. O pioneiro foi o centroavante Mazzola, que ganhou a Copa de 1958, na Suécia, naturalizou-se italiano e jogou contra o Brasil no mundial seguinte, no Chile. Houve depois a fase dos brasileiros que atuavam como embaixadores do futebol, na tentativa de popularizar o esporte em alguns países – caso de Pelé, nos Estados Unidos, e Rivelino, na Arábia. Com a abertura do mercado europeu, os times ficaram liberados para contratar quantos estrangeiros quisessem. A globalização futebolística se firmou e as portas se escancararam para os brasileiros, os mais disputados do mundo. Na seleção brasileira de 1982, apenas Paulo Roberto Falcão jogava no exterior. Na Copa de 2006, dos onze titulares, nenhum morava no Brasil. Em 2006, 851 jogadores brasileiros se transferiram para times estrangeiros.

Num final de noite, o ex-jogador Raí chegou ao seu escritório, uma casa de vila num bairro rico de São Paulo. De calça de flanela cinza, blazer de lã, camiseta preta e cinto Hugo Boss, ele tomou uma bebida cor-de-rosa com gelo. Na década de 90, Raí foi vendido para o Paris Saint-Germain por 3,5 milhões de dólares. Ele sempre negociou seus contratos pessoalmente. “Só quando estava no auge, depois de ter sido até capitão na Copa do Mundo, é que fui sondado para ir embora”, ele disse. “Se eu tivesse um agente, certamente teria recebido mais propostas de outros times.” Limpou a garganta e prosseguiu: “Como é que você vai dizer para um jogador, ou para um agente, recusar uma proposta salarial dez vezes maior de um time estrangeiro para ficar no Brasil ganhando menos? O torcedor brasileiro fica com raiva, mas é uma mentalidade ultrapassada. Futebol, mais do que nunca, é um negócio”.

Wagner Ribeiro conta com a simpatia da imprensa especializada. Mesmo que esteja em uma reunião, não deixa de atender aos jornalistas. É capaz de, num mesmo dia, passar três informações inéditas para repórteres diferentes – se bem que em boa parte se trate mais de especulações do que de fatos. Ele costuma iniciar suas conversas com a frase: “Vou te dar uma notícia boa”. Recentemente, um de seus jogadores, Nilton, do Corinthians, marcou um gol sensacional contra o Santos. Dias depois, ele avisava aos jornalistas amigos: “Um time italiano já me ligou: o Nilton é a bola da vez”. Quando lhe perguntavam sobre o time, ele era lacônico: “Não posso falar”. O valor do passe de Nilton aumentou.

Ribeiro apertou o play. Na tela do computador, apareceram imagens, mal gravadas, do interior do jatinho Falcon do biliardário ucraniano Rinat Akhmetov, dono do time Shaktar Donetsk. Segundo a imprensa da Ucrânia, Akhmetov é suspeito de comandar a máfia local. A câmera focaliza pratos com caviar, garrafas de champanhe, o banheiro imaculado, bancos de couro, aeromoças loiras e o rosto anestesiado da mãe do jogador Ilsinho, que havia sido medicada para superar o medo da primeira viagem de avião. Recentemente, Ilsinho foi vendido por 15 milhões de dólares. “Olha só o que os caras fizeram só para convencer o Ilsinho a ficar lá: até a pia do avião era de ouro”, disse Ribeiro, sem tirar os olhos do laptop. “Na Ucrânia as coisas são sérias. Na Arábia é mais complicado. Muitos donos de times são homossexuais. Eles querem comprar jogadores para freqüentarem suas festas. Por isso que o Romário não agüentou ficar três meses por lá.”

Quando Ribeiro tinha 14 anos, o pai foi demitido da prefeitura e a família saiu do interior de Minas para tentar a vida em São Paulo. Na capital, abriram uma lanchonete na Vila Maria, onde ele e um de seus três irmãos se revezavam atrás do balcão. Ribeiro sempre estudou em escolas públicas, nas quais obtinha notas abaixo da média. Desde a infância, era obcecado por futebol. “Se tivesse tido um agente como eu, teria sido um craque”, costuma dizer. Aos 16 anos, empregou-se como contínuo no banco Auxiliar. Em oito anos, chegou à mesa de operações e passou a lidar com aplicações na bolsa de valores. Simultaneamente, formou-se em Administração de Empresas pelas Faculdades Metropolitanas Unidas. No começo dos anos 80, foi trabalhar em uma corretora de valores, a Tamoyo, onde ganhou bom dinheiro. Comprou um apartamento de luxo e ajudou o pai a montar uma pequena fábrica, de aparelhos elétricos a resistência elétrica. Nas horas vagas, jogava futebol, como faz até hoje. Joga no ataque.

São-paulino fanático, em 1993 Ribeiro acompanhou seu time a uma viagem ao Japão para ver os jogos do mundial interclubes. Ali, aproximou-se de dirigentes do clube. Sua relação com o futebol nunca mais foi a mesma. “Conheci muita gente importante nessa viagem”, lembrou. “Aprendi o valor do contato pessoal. O meu trabalho é contato. Eu vendo credibilidade para os contatos.” A partir do Japão, sua agenda telefônica se encheu de números de gente ligada ao futebol. “Outra coisa que mudou também é que não sou mais louco pelo São Paulo”, afirmou.

Um cunhado de Ribeiro concorria à prefeitura de Jaú, no interior paulista. Um grupo de empresários foi chamado pelo candidato para ajudar o time local, o XV de Jaú, a sair do buraco. Entre eles, estava Ribeiro. Cada um entrou com 30 000 reais. O cunhado perdeu, o time não emplacou e os mecenas, como pagamento, levaram os passes de dois jogadores. Um deles era França. A proximidade com os dirigentes do São Paulo, adquirida na viagem ao Japão, fez com que Ribeiro conseguisse vender o jogador para o clube. O negócio foi fechado em 2000. Numa ação impetrada na Justiça, um dos empresários que entrou no negócio, Antonio Carlos Dalpino, sustentou que Ribeiro comprou a parte do grupo por 2,5 milhões de reais, e vendeu França, quatro dias depois, por 4,7 milhões. Uma valorização de 88%. O ex-sócio reclamava a diferença em dinheiro na Justiça. Um juiz indeferiu o pleito.

Boa parte da atividade de vida de um agente acontece pelo celular e no avião. Nos últimos sete meses, Ribeiro carimbou o passaporte dezessete vezes. “Eu viajo tanto que a Piazza del Duomo, em Milão, se transformou para mim na Praça da Sé”, é uma frase que costuma repetir. Como agente de Robinho, o Real Madrid lhe paga doze passagens, ao ano, em classe executiva, para a Europa. Nessas viagens, ele aproveita para vender seus jogadores desconhecidos. Com um DVD na mala com as melhores jogadas de um atleta, ele se reúne com dirigentes e representantes de clubes. Quase sempre, contrata um intérprete para acompanhá-lo. “Meu inglês para falar é nota 7, para ouvir é 5 e para ler é 9, mas o espanhol é igual ao meu português”, disse. No mês passado, no meio de uma viagem, fechou um negócio que lhe rendeu 200 000 dólares: um joguinho de videogame, cujo personagem central é Robinho.

Há 110 agentes registrados pela FIFA no Brasil. Estima-se que haja outros dois mil atuando na ilegalidade. Na tentativa de regulamentar o mercado, a FIFA inventou uma prova para selecionar os candidatos. São vinte questões sobre regras nacionais e internacionais. O aspirante ao cargo deve pagar uma taxa de inscrição de 1 000 reais e, se aprovado, 5 000 pela carteirinha. Também precisa fazer um depósito de 100 mil reais, como garantia de que não dará um calote num jogador que agenciar. “Você pode ter um pilantra vendendo um coitado do interior do Ceará sem ter a carteira, mas, nas grandes negociações, esse cara vai estar de fora. O aval da FIFA é uma grande garantia nas transações de peso”, disse o agente Léo Rabello, dono da carteirinha de número 001 da FIFA, em seu escritório, no Rio.

Lovinho continuava conversando com os amigos, no cantinho. Encostado perto de uma janela, balançava a chave do carro. Ao receber o primeiro salário, Lovinho comprou um Corsa, em prestações a perder de vista. Um tempo depois, o carro pifou. O conserto custava 460 reais, e ninguém da família tinha de onde tirar dinheiro. “Ligamos para o Wagner e ele disse que podíamos ir lá pegar o dinheiro com ele”, conta Vanusa. Ela também se recorda do caso de um amigo de Lovinho, que morava no Ceará, que teve uma doença grave no coração. “O Wagner arrumou uma consulta com um amigo dele, num hospital ótimo”, disse a irmã do jogador. O contrato com Lovinho dá ao empresário o direito de faturar 10% no caso de eventuais transferências para outros times. “Eu não sei explicar direito como é esse contrato, foram minha mãe e minha irmã que acertaram isso aí”, comentou o jogador, sorrindo.

No restaurante do hotel Unique, em São Paulo, onde é recebido com os rapapés destinados a um habitué, o risoto de carne seca esfriava no prato do agente. Ribeiro conversava com um sujeito da mesa ao lado, que bebia Châteauneuf-du-Pape com outros quatro engravatados. Usando o garfo na gesticulação, o interlocutor lhe cobrava explicações sobre a venda de Kaká, há quatro anos. Outras mesas em redor pararam para ouvir a conversa. “Toda vez é isso. Aonde vou tenho que ficar me explicando”, disse-me Ribeiro. “O Kaká tinha que ir embora. Na época, a torcida o chamava de Bambi, de mauricinho. Nem o Leonardo [ex-jogador brasileiro, um dos dirigentes do Milan] queria o Kaká. Agora, ficam me cobrando como se eu fosse o culpado. O São Paulo tinha duas opções: ou o Kaká ficava até o final do contrato, e o time não ganhava nada, ou o liberava antes, e embolsava os 8 milhões de dólares como fez.”

O sujeito da mesa ao lado continuou a interpelação: “Esse Ilsinho, que você vendeu por uma fortuna, é pior do que o Beletti”. Sem se alterar Ribeiro finalizou o assunto: “É, vamos ver como ele se sai na Ucrânia”. Contemplou o risoto e disse: “Essa coisa do Kaká foi muito difícil”. Contou que ele e J. Hawilla, da Traffic, a maior empresa de marketing esportivo nacional, responsável pela venda de direitos de transmissão de jogos e de patrocínios, pressionaram o São Paulo com um contrato com a Nestlé: “A empresa queria que o Robinho fosse garoto-propaganda do Diamante Negro e o Kaká, do Laka. A gente estava começando a negociar, mas não havia nada certo. Deixei vazar na imprensa que a gente tinha fechado negócio e, se o Kaká assinasse com a Nestlé, só poderia ir embora do Brasil se o São Paulo pagasse uma multa de 10 milhões de dólares. Óbvio que o clube se desesperou”. Fez silêncio, e continuou pouco depois: “Não sei se é bom eu ficar revelando essas coisas, mas meu compromisso é com o jogador, não com clube ou com dirigente. Então, o que eu puder fazer para melhorar a vida do cara, eu faço”, disse. Finalmente, começou a comer. “O pior é que o Kaká não acha que fui eu que fiz tudo. Ele acha que foi a bispa Sônia [Hernandes, da Igreja Renascer, que está presa nos Estados Unidos]”, disse. Quando a garçonete se afastou, ele perguntou: “Sabia que ele paga dízimo?”

Ribeiro está casado há 26 anos com Patrícia, com quem tem um casal de filhos adultos. Quando o marido começou a trabalhar com futebol, ela se envolveu nos negócios. Durante um almoço num restaurante caro de São Paulo, ela disse: “Eu era quase cicerone da mãe, da namorada, da irmã dos jogadores que iam morar fora”. Contou que, ao se transferir para o Real Madrid, Robinho levou quarenta malas. “É difícil o jogador entender que, dali para a frente, a vida dele vai mudar, que ele pode comprar tudo melhor, tudo novo.” Patrícia foi encarregada de decorar a nova casa do jogador na Espanha. “O Real Madrid colocou 600 mil euros à disposição só para isso. É uma loucura, não é? Eu entrava nas lojas e não acreditava. Mas o Robinho só fazia questão da tevê de plasma.” Ela revela que ajuda o plantel do marido com dicas de boas maneiras: “Muitos jogadores são acostumados a comer só com a colher. A gente tinha que dar uns toques, mostrar, com todo o cuidado possível para não melindrar, como usar o garfo e a faca”.

Há sete anos, quando Kaká era reserva do juvenil do São Paulo, Ribeiro foi procurado pelo pai do jogador, Bosco Leite. Ele já havia largado o emprego na corretora e se dedicava integralmente ao futebol. Seu maior trunfo ainda era França. “O pai veio primeiro, conversamos muito, mas eu disse que precisava conhecer o Kaká pessoalmente. Vai que eu acertava com o pai e o filho não ia com a minha cara?”, conta. Dois dias depois, a mãe do jogador o levou ao seu escritório. O agente já o havia visto treinar, mas não se entusiasmara. A conversa durou menos de uma hora. “Ele tem esse porte internacional. A minha mulher, quando o viu chegar, disse que ele não parecia jogador, parecia artista de cinema. Naquele momento, eu não tinha idéia do que ele poderia se tornar. Eu quis trabalhar com ele porque quero todo jogador que esteja em time grande. E ele já era do juvenil do São Paulo”, disse. Segundo o relato de um amigo, Bosco estava para fechar o agenciamento com o ex-goleiro Gilmar Rinaldi, que cuida de Adriano, do Milan. Mas teria se impressionado com a seriedade de Ribeiro. “O Bosco contou para a Simone, mulher dele, que tinha gostado do Wagner. Ela orou muito para que o melhor fosse decidido”, revelou o amigo. Dois dias depois, o contrato foi assinado.

“As cláusulas eram bem claras. O Wagner só ganharia quando o Kaká fosse vendido. Ele não ganharia em cima do salário e nem em cima dos contratos publicitários que ele acabou arranjando, como Adidas, Armani e Ambev. Nem disso, ele recebeu um tostão”, lembrou Patrícia. “Era uma relação muito boa. Éramos realmente amigos. Eles iam para nossa casa na praia, até o cachorro levavam para lá. E, de repente, aquilo”, contou, antes de decidir qual sobremesa escolheria.

“Aquilo” foi um telefonema de Bosco, logo depois da venda de Kaká para o Milan, informando o agente de que, a partir daquele momento, ele mesmo cuidaria da carreira do filho. Ao que consta, Ribeiro recebeu uma comissão de 1 milhão de euros do Milan. E nada de Kaká. Recentemente, o Real Madrid ensaiou uma oferta de 125 milhões de dólares pelo passe do jogador. Se ainda fosse seu agente, Ribeiro embolsaria por baixo 15 milhões de dólares. “Eles foram armando, se distanciando da gente. Ligávamos, eles não atendiam, esse tipo de coisa”, continuou Patrícia. “É difícil a gente aparecer falando que esse pessoal, todo religioso, evangélico, seja capaz de nos dar uma rasteira assim. Quem vai acreditar?” Nunca mais os Ribeiro falaram com a família de Kaká.

Na hora do almoço, Lovinho e os amigos estavam, como disseram, “de bobeira” e com fome. Foram convidados por um assessor de Ribeiro para almoçarem juntos perto dali. Ele treina quatro dias por semana, à tarde. Quando está de bobeira, gosta de escutar rap e de ver televisão. Parou de estudar na 8ª série, mas acredita poder voltar à escola em breve. Lovinho ganha 2 000 reais no time sub-20 do Palmeiras. “Não ganho em cima do salário dele e de nenhum outro jogador, isso seria escravidão”, explicou Ribeiro.

Reinaldo Pitta não se lembra da última vez em que trocou uma palavra com Ronaldo Fenômeno, cujo passe ele comprou por 7 000 dólares, do São Cristóvão, e vendeu, doze anos depois, por 20 milhões de dólares, ao Real Madrid. “Ele chegou a me convidar para o casamento com a Cicarelli”, contou. “Mandei dizer que nesse eu não ia, ia no próximo.” Em seu escritório na Barra da Tijuca, decorado com camisetas de times enquadradas em molduras, e chuteiras em redomas, Pitta tratava de um problema do jogador Alan Kardec, de 18 anos, do Vasco. “Olha como o clube age! O menino morou a vida toda na concentração do clube, ganha 2 000 reais, começa a fazer sucesso e a primeira coisa que o clube faz é pedir para ele vagar o alojamento? Isso é absurdo. E olha que a minha relação com o Eurico [Miranda, presidente do Vasco] é excelente”, afirmou. O jogador aguardava com o pai na sala ao lado.

A relação de Ronaldo com seus agentes terminou em 2003, quando Pitta e seu sócio, Alexandre Martins, foram presos, sob suspeita de participar do esquema de corrupção que envolvia fiscais da Receita Federal, auditores e empresários. Dois anos depois, a dupla voltou à cadeia, acusada de ter aberto empresas em paraísos fiscais para movimentar dinheiro de jogadores e treinadores de futebol, em operações que teriam movimentado 24 milhões de dólares. “Olha só, evasão, sonegação… Eu não sou santo. Agora, doleiro de propinoduto, puta que pariu, isso não!”, disse, bem alto.

No ano passado, Pitta e Martins resolveram processar Ronaldo. Na ação, eles reclamam um percentual sobre o patrimônio do craque. Ele explicou por quê: “Nós fechamos com o Real Madrid. Fechamos com a Nike, que é um contrato vitalício. E, veja bem, depois disso, que contrato publicitário bom o Ronaldo assinou? Eu não quero nada vitalício porque não sou cafetão, mas queremos o que temos direito. Meu advogado diz que o processo pode durar anos. Não tenho pressa”.

“Engraxar” é a gíria usada pelos agentes quando se referem a uma partilha das comissões com os dirigentes dos clubes. Em quase todas as transações, há um tripé oculto na divisão do dinheiro: agente, clube e dirigente. Por isso, os valores das comissões podem parecer fantasiosos. “Não é de se admirar que presidente de um time de futebol seja um cargo voluntário, ou seja, que não tem vencimentos, e nenhum deles queira largar o osso?”, indagou o agente Nilson Ribeiro, de Belo Horizonte, sem citar nenhum caso específico, e muito menos nomes. Dadas as vultosas somas envolvidas na venda de jogadores, invariavelmente noticiadas pela imprensa, a empresa de Ribeiro foi investigada pela Receita Federal. “Queriam me multar em 1 milhão de dólares. Depois eles viram que estavam errados. Resolvemos por menos. Eu faço tudo certinho, pago muito imposto”, disse o agente.

Em meados de agosto, Ribeiro passara parte da semana em seu apartamento, de frente para o mar, na Riviera de São Lourenço, tida como a Miami dos emergentes paulistanos. É uma cobertura dúplex, de cinco suítes, avaliada em 3,5 milhões de reais, cuja decoração parece ter sido largada pela metade. Não havia quadros nas paredes ou enfeites nas mesas. O fogão e a geladeira de inox ainda estavam tinindo. Uma briga conjugal o impedia de voltar para a casa em São Paulo. Há dois dias, ele vivia de pizza. Naqueles dias ele só pensava em resolver a pinimba doméstica e em cobrar a comissão, de cerca de 600 mil dólares, pela venda do jogador William, ex-Corinthians, transferido para a Ucrânia, por 19 milhões de dólares. “Ele é agenciado pelo Carlos Leite, mas fui em que fiz a ponte com os ucranianos”, contou. Três semanas depois, ele se reconciliaria com a mulher. O imbróglio com o dinheiro ainda não havia sido resolvido.

Como garimpeiros em Serra Pelada, os agentes de jogadores também estão atrás de uma pepita de ouro. Basta uma para lhes arrumar a vida. Atualmente, a maior aposta de Ribeiro chama-se Neymar, e tem 15 anos. Como jogador da categoria sub-15 do Santos, ele ganha 25 000 reais por mês. Quando tinha 13 anos, foi sondado pelo Manchester United, da Inglaterra, pelo Real Madrid e pelo Barcelona.

Em 2005, Neymar, o pai e Ribeiro voaram para a Espanha, a convite do Real Madrid. Durante vinte dias, sem contrato, o menino jogou no time juvenil. Marcou 26 gols. Ofereceram 3 milhões de dólares para tê-lo imediatamente. Pela pouca idade, não poderia assinar um contrato de trabalho. O clube chegou a arrumar um emprego de mecânico para o pai de Neymar, numa fábrica da Audi, patrocinadora da equipe, para justificar a mudança da família. À época, o Ministério Público denunciou Wagner Ribeiro por exploração de trabalho infantil. Em companhia dos pais do garoto, o agente foi à audiência. Dez minutos depois, foi mandado de volta para casa. “A moça lá, juíza, não sei, viu o absurdo que era aquilo. Tinham dito que eu estava raptando menores para trabalhar fora do Brasil. Já pensou uma coisa dessas?”, perguntou. No começo de setembro, o time espanhol ensaiava outra oferta por Neymar. Os valores ainda não haviam sido combinados. Mas Ribeiro estava radiante.

Numa tarde nublada e de trânsito caótico, ele dirigia sua BMW – o Porsche de 360 000 reais só é usado nas idas à praia. Um de seus celulares tocou. “Fala, Rrrrrrobinho”, disse ele, imitando o locutor Galvão Bueno. Da Espanha, o jogador consultava o agente sobre um apartamento em Santos. Sua noiva estava grávida e ele queria acertar algo sobre seu patrimônio. “Pode deixar, Robinho, pode deixar, a gente vê isso aí… Sim, sim… Eu falo com ele… E você está precisando de alguma coisa? Estão te tratando bem? Sua mãe está boa?”, perguntou.

O sinal estava fechado. Ele se lembrou das dificuldades que enfrentou quando Robinho foi vendido. “Eu fiz pressão, até através do Mauro Naves [repórter da TV Globo]. Liga para ele e pergunta. Eu liguei para o Mauro e falei que ia dar um furo para ele. Aí, saiu no Jornal Nacional que o dinheiro da venda do Robinho já estava na conta do Santos. Mesmo que eles continuassem a bater o pé dizendo que não tinham recebido, eu já tinha divulgado. E era verdade. E tinha ainda outra idéia para pressionar o clube. Se não topassem vender o Robinho, eu ia usar uma prerrogativa que deram ao Riquelme”, contou. O jogador argentino teve um irmão seqüestrado e pode romper o contrato com o Boca Juniors para ser vendido para a Europa. “Como a mãe do Robinho tinha sido seqüestrada, eu ia falar que ele não tinha mais como morar no Brasil. Como já tinha essa jurisprudência, não tinha como dar errado”, disse. Ele aumentou o volume do rádio. Tocava Bruno e Marrone.

Enquanto anotava o número de seu celular para o jornalista da Bloomberg, Lovinho falava sobre seus planos futuros. Seus amigos o aguardavam na porta. “O Wagner já está conversando lá no Palmeiras para eles me darem uma chance. Se eu fizer um campeonato bom, subo para titular e aí, um ano depois, posso ser vendido para a Espanha”, explicou Lovinho. A seu lado, com a mão sobre o ombro do garoto, Ribeiro emendou: “Fui ao Palmeiras e já mandei colocá-lo. Quer dizer: sugeri”.

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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