carta do Iraque

O Alcorão de Sangue

À procura do livro sagrado escrito com a hemoglobina de Saddam Hussein

Emmanuel Carrère e Lucas Menget
Nem todos os aiatolás do mundo impediriam Saddam Hussein de interpretar o Alcorão a seu bel-prazer. Bastava um gesto blasfemo ter sido consumado por ele para deixar de ser blasfemo
Nem todos os aiatolás do mundo impediriam Saddam Hussein de interpretar o Alcorão a seu bel-prazer. Bastava um gesto blasfemo ter sido consumado por ele para deixar de ser blasfemo ILUSTRAÇÃO: SIMON BAILLY_2018

Texto originalmente publicado na revista XXI
Tradução de André Telles

O protocolo é sempre o mesmo, pelo menos no caso das pessoas importantes. Em primeiro lugar, transpostos os checkpoints, espera-se. Espera-se muito tempo. Essa espera é entremeada por copinhos de chá superaçucarados trazidos por rapazes solícitos, mais raramente por moças. A princípio, não desconfiei. No segundo dia, levei um livro para matar o tempo; no terceiro, deixei o livro no hotel porque é uma pena matar o tempo no Iraque, é preferível deixá-lo viver e sentir sua densidade milenar – a todo instante vão nos lembrar de que estamos num país com 7 mil anos de história e que inventou praticamente tudo, a começar pela escrita.

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Emmanuel Carrère

Emamanuel Carrère é escritor, roteirista e diretor de cinema, é autor de O Reino, da Alfaguara

Lucas Menget

Editor da rádio France Info, foi correspondente no Oriente Médio e codirigiu o documentário Bagdad, Chronique d'une Ville Emmurée

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